sábado, 13 de julho de 2019

Doutor Sono - A Continuação de "O Iluminado"


O livro Doutor Sono (prestes a ganhar sua versão cinematográfica) e continuação direta do livro O Iluminado, é um caça-níquel de Stephen King? A resposta é não. E porque não? Bem... por 4 motivos. 1) primeiro porque acredito (sinceramente) que Stephen King não precisaria manchar um dos seus mais conhecidos livros com uma sequência apenas para lhe render dinheiro já que o autor, com mais de 50 livros publicados e inúmeras adaptações para o cinema e TV, não precisaria de dinheiro ganho desta forma (comprometendo um trabalho tão emblemático com uma sequência a toque de caixa); 2) segundo porque a narrativa de King continua para mim vigorosa, visceral e talvez até melhor, pois está mais apurada e o autor consegue se expressar por meio de metáforas fortes e mais profundas ao longo do livro; 3) terceiro porque a história é realmente crível e faz jus aos personagens que habitam o imaginário de tantas pessoas nas 3 últimas décadas, dentre eles Jack e Wendy Torrance, Dick Halloran e o pequeno Danny Torrance (O Iluminado do título do livro de 1977); e 4) King comenta em uma nota ao final do livro que gestou a história ao longo de um bom tempo e só decidiu escreve-la após o ano de 2009 a partir de uma pergunta que o assolava: O que teria acontecido ao pequeno Iluminado Danny Torrance?


É muito importante que o leitor que decidir ler Doutor Sono entenda que o livro é continuação direta do livro de 1977, e não do filme O Iluminado de Stanley Kubrick de 1980. Isso deve ficar claro porque o final do filme tem diferenças importantes em relação ao livro, este último sim a história original de King. Isto não faz o filme de Kubrick ruim, na verdade é uma grande obra cinematográfica, na verdade é apenas a leitura que o cineasta fez da história. Isto quer dizer que se você assistiu ao filme e for ler Doutor Sono, estranhará algumas coisas, já que a continuação literária segue diretamente a história original de King. Quando fiquei sabendo do lançamento da continuação de O Iluminado achei incrível. Porém, meu estranhamento começou pelo título. Doutor Sono me pareceu o título mais improvável e estranho para a continuação de uma obra que eu achava perfeita até no título, já que O Iluminado trazia consigo um ar perturbador logo de cara. Mas tive que deixar o estranhamento de lado para mergulhar na leitura.


Doutor Sono resolve logo nas suas primeiras páginas o futuro imediato dos sobreviventes do Hotel OverlookDany, Wendy e Dick, contando os acontecimentos imediatos logo após o encerramento do 1º livro. Após esta retomada veremos Daniel Torrance cerca de 30 anos depois, vivendo em uma situação difícil, ou seja, como alcoólatra, "pavil curto" e flertando com drogas. Um destino que deixa o leitor triste e incomodado, mas entendemos que é a forma que Daniel encontrou para lidar com a iluminação que o faz ver coisas de um mundo que o assombra. Stephen King além de estabelecer logo de cara o destino de Danny, precisou elaborar um novo desafio que fosse a altura daquele enfrentado no livro de ´77. Esse desafio vem na forma de um grupo de pessoas sobre as quais não darei nenhuma informação para evitar spoilers. Só posso dizer que é assustador por se tratar de algo plausível vivendo em nosso mundo real.


Algo que deixa o leitor muito satisfeito ao longo do livro é a sensação de conhecer os personagens de longa data, isso se você leu (é claro) O Iluminado. Essa sensação de conhecer os personagens há muito tempo produz uma profunda identificação entre o leitor e a vida de Daniel Torrance, sobretudo quando ele retoma lembranças de seu passado no famigerado Overlook Hotel, palco dos assustadores acontecimentos de sua infância. Stephen King faz questão de manter o Overlook e seus acontecimentos em evidência em Doutor Sono, muito provavelmente porque sabia que o leitor mais veterano se identificaria com isso. Embora o Hotel tenha sido destruído no final de O Iluminado, o leitor fica se perguntando o que teria acontecido com o local onde um dia o hotel estivera. E por incrível que pareça King satisfaz a curiosidade do leitor, voltando a colocar o local, onde outrora o Overlook esteve, em evidência.


Há questões também acerca de Jack Torrance (pai de Danny interpretado no filme de Kubrick por Jack Nicholson) que sempre tivemos curiosidade de saber. Em certa medida, temos algumas respostas para algumas questões superficiais acerca da vida de Jack. Isso também situa o leitor novamente no clima do livro anterior. Stephen King reconhecidamente já disse que o resultado final do filme de Kubrick não o agradou tanto. De minha parte posso dizer que o filme de 1980, embora não siga à risca o livro, é uma obra prima. Apesar disso, eu fico com o final do livro. Se você compartilha de minha opinião eu recomendo uma minissérie da década de 90 que adapta para a TV a história. Assisti esta adaptação e gostei muito. Não apenas por ser mais fiel ao livro, mas porque reproduz muito bem a atmosfera pretendida por King, que inclusive faz uma rápida aparição (uma "ponta") na minissérie. Esta minissérie foi lançada em DVD não faz muito tempo no Brasil pela Vinyx Multimídia.


Doutor Sono estreará no cinemas mundiais em 07 de dezembro de 2019 e trará Ewan McGregor no papel da Daniel Torrance. Um ator experiente que acredito que dará conta de interpretar o personagem em sua complexidade dramática. Uma dúvida que eu tinha era se o filme seria continuação do livro ou do filme O Iluminado. Porém, ao checar o elenco já percebi que será a continuação do livro O Iluminado e não do flime de Kubrick, isso porque teremos o personagem Dick Halloran, alguém que no filme de Kubrick faleceu, e no livro não.


Recomendo a leitura de Doutor Sono não apenas porque o filme estreará, mas porque é um bom livro. Em geral prefiro ler o livro primeiro antes de ver o filme. Uma regra que procuro seguir para qualquer adaptação, porque acredito que ler o livro nos coloca em contato com a história original, e não com aquela que já sofreu influência da interpretação do diretor. Sempre que fiz isso (ler o livro primeiro) eu me beneficiei disso, pois me permitiu formar a minha interpretação da história sem nenhuma contaminação.

Se você já leu Doutor Sono e quer compartilhar sua impressão do livro, não deixe de comentar abaixo. Um grande abraço à todos!!

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Batman - O Messias


Batman já foi desconstruído muitas vezes. Talvez a mais famosa e emblemática vez foi em 1986 pelas habilidosas mãos de Frank Miller em seu Batman - O Cavaleiro das Trevas. Mas poderíamos citar também Asilo Arkham do polêmico Grant Morrison. Mas tanto Miller quanto Morrison fizeram esta desconstrução focando no "Mito" Batman, sem ferirem de forma profunda a psiquê do Morcego, quebrando suas barreiras psíquicas contra a dor e senso de realidade, levando-o para uma imobilizadora fragilidade. A coragem de fazer esta desconstrução mais visceral deve ser atribuída (em minha opinião) à Jim Starlin (sim, o criador do Thanos). Conhecido por suas psicodélicas e incríveis sagas cósmicas envolvendo o Capitão Marvel, Thanos, Warlock Gamora entre outros, Starlin ousou quebrar o Morcego no final da década de 80 em Batman - O Messias, desnudando sua infalibilidade tão conhecida, sua dureza e frieza, deixando-o de joelhos e colocando palavras nunca antes ouvidas na boca do Cruzado Encapuzado, tais como, "por favor", "socorro" e "pare". Mesmo sagas como A Queda do Morcego de Doug Moench e Jim Aparo quebraram Batman apenas em seu físico, não em sua mente. Mas que vilão Jim Starlin usou em O Messias para quebrar Batman neste nível? Que vilão teria conseguido este triunfo? O Coringa, em sua psicopatia lúdica? Bane, com sua anabolizada bestialidade? Ra´s al Ghul, em sua letal megalomania? Na verdade não... Este troféu foi para um homem "santo"... um religioso... o desconhecido Diácono Blackfire.


Lançada nos EUA em 1988, a minissérie O Messias levou Batman para locais nunca antes vistos (pelo menos por mim) até então. Quando li a história na época de seu lançamento no Brasil, entre maio e agosto de 1989 (eu tinha algo em torno de 17 anos), fiquei chocado com os níveis de brutalidade, crueldade e violência da história. Mas não apenas por isso, mas sobretudo pela fragilidade com que o autor expõe Batman. Não darei spoilers da história aqui, apenas linhas bem gerais do que se trata O Messias. A 1ª parte da minissérie já apresenta um Batman quebrado, algemado, machucado, drogado, com fome, sede e alucinando nas catacumbas de Gotham City. Neste estado Batman é levado a questionar os limites da realidade e se vê a mercê das palavras do Diácono que o converte à sua seita. Daí em diante o Diácono avança em seu plano de tomar Gotham a partir de seus fiéis, a maioria rejeitados, bêbados, mendigos e párias sociais. A opinião pública se divide quanto aos intentos de Blackfire já que sob o comando de seus fiéis, os crimes vão escasseando, tornando Gotham uma cidade enfim segura.


Batman é questionado inclusive sobre isso, já que seus métodos nunca conseguiram dar conta de quase 100% dos crimes, coisa que o Diácono consegue. Como somos leitores acostumados a encontrar um Batman na maioria das vezes infalível, que sempre possui "planos Bs" para tirar da "cartola", ficamos a todo momento durante esperando a "grande virada" do Morcego. Ou seja, o momento no qual Batman vira o jogo em toda sua glória investigativa e estratégica. Porém, em O Messias isso não ocorre. O Homem-Morcego tem que sair sozinho de seu estado. Embora receba algum apoio logístico do Robin da época (Jason Todd), o caminho por meio do qual Batman ressurge é o difícil e doloroso caminho da luta interior. Mesmo nas páginas finais da história, o Batman que aparece ainda é um homem alquebrado e cheio de dúvidas.


O Diácono Blackfire, embora tenha conseguido a façanha de dobrar Batman em seu psiclógico, é (em minha opinião) um vilão "clichê". Em nenhum momento da história ele explicita concretamente seu evangelho. Na verdade apenas evoca continuamente um discurso messiânico genérico. Talvez Starlin não quisesse causar polêmica nesse aspecto. Há partes da narrativa em que Blackfire lança mão de recursos retóricos como "martírio pessoal", "círculo pessoal de seguidores", como se quisesse emular os passos de Jesus. Estranhamente, no entanto, Starlin caracteriza Blackfire com feições indígenas norte-americanas. Nas poucas páginas em que a origem do diácono é contada, se observa que ele tem centenas de anos, e estava vivo mesmo antes do estabelecimento das primeiras colônias britânicas na região da Nova Inglaterra nos EUA. Em alguns momentos da leitura tive um lampejo de que Starlin talvez quisesse usar Blackfire como uma metáfora de "vingança" dos povos indígenas contra a usurpação que o homem branco fez. Porém, isso seria apenas especulação de minha parte.


O novo encadernado da Panini traz uma interessante introdução com texto do próprio Jim Starlin, no qual o roteirista situa a trama de O Messias dentro de uma temática bem real da história humana: a censura. Starlin destaca que em vários momentos no passado antigo e recente dos quadrinhos, sobretudo nos EUA, ocorreram tentativas sistemáticas de se censurar as histórias. O exemplo mais conhecido e destacado por Starlin, obviamente, foi o que ocorreu na década de 50 a partir da publicação do livro A Sedução do Inocente de Fredric Wertham em 1954. Setores conservadores da sociedade conseguiram aval do governo da época para implantarem um selo de censura nos quadrinhos, o Comics Code Authority. O resultado foi uma longa fase de HQs infantilizadas, o que fez com que talentosos quadrinistas tivessem que mudar de ramo. No final de década de 80 porém, com a maior profundidade dada aos Super-heróis a partir de histórias como as de Frank Miller, Alan Moore e Neil Gaiman, houve nova tentativa de setores da sociedade para restringir a liberdade de roteiristas. Starlin diz que Batman - O Messias foi seu grito contestatório contra esta nova onda de censura. Sua tentativa de se posicionar firmemente contra este tipo de movimento.


A arte de Batman - O Messias ficou por conta do saudoso Bernie Wrightson. Vetereno de revistas voltadas para o terror como Eerie e Creepy (publicadas no Brasil na revista Kripta), Wrightson faleceu recentemente em 2017. A importância do desenhista extrapola seu ofício, já que foi co-criador do personagem Monstro do Pântano. Particularmente achei que a forma como a HQ foi colorizada por  Bill Wray fez desmerecer a arte de Wrightson. O aspecto final da história em sua estrutura artística fez com que ficasse datada, muito embora o enredo seja altamente atual. Ao lê-la, o leitor mais experiente lembrará muito de histórias da década de 90, tais como Batman - Shaman, Batman - O Filho do Demônio e Batman - Mestres do Futuro, continuação de Batman 1889.

Capas da Minissérie lançada no Brasil em 1989

A versão de Batman - O Messias de 1989 da Ed. Abril é uma das pérolas da minha coleção. Apesar do tempo, consegui manter os 4 fascículos da minissérie original comigo (acima). Mesmo assim, comprei o novo encadernado da Panini. Achei que era uma história que merecia ter em minha coleção em um outro formato. Bem amigos, recomendo a HQ e ficaria contente de receber as opiniões de vocês sobre a história.

Arte de Bernie Wrightson em Batman - O Messias.

Um grande abraço à todos!

domingo, 23 de junho de 2019

Miniatura DC Nº 30 - Capitão Frio

Miniatura DC Nº 30 - Capitão Frio

O Capitão Frio é um vilão da galeria de interessantes vilões do velocista mais famoso da DC, o Flash. O vilão, assim como outros companheiros de vilania, ganhou certo status em função de sua encarnação para a "telinha" na série do Flash, disponível em serviços de streaming. Apesar de muitos o conhecerem há pouco tempo, Leonard (Len) Snart (identidade do vilão) é um dos inimigos mais antigos do velocista escarlate Barry Allen (a 2ª e mais famosa encarnação do Flash dos quadrinhos). Len Snart iniciou sua carreira de crimes ainda sob à Era de Barry Allen, e seu ódio seguiu as outras encarnações do Flash, causando dor e morte àqueles que vestiram o manto escarlate, a saber Wally West e Bart Allen, respectivamente. A miniatura do vilão dentro da Coleção de Miniaturas de Metal da DC da Eaglemoss tinha, à princípio, poucos atrativos, até que a coloquei sob o holofote de minha lente fotográfica para esta matéria e pude perceber algumas características interessantes. Nesta matéria vamos destrinchar um pouco a vida de Len Snart e da miniatura que o representa dentro da coleção.

Miniatura DC Nº 30 - Capitão Frio

A miniatura tem detalhes bem interessantes. Embora o porte do personagem (de estatura mediana) e a postura relativamente inclinada em flexão de tronco, retirem da miniatura a robustez esperada, os detalhes revelam uma peça bem trabalhada. A começar pelo detalhe felpudo que existe na mangas, botas e capuz. Olhando bem de perto observa-se um esmero do escultor em produzir o efeito desejado de pelos protetores do frio. A concepção do personagem, aliás, passou com certeza pela ideia de fornecer ao leitor uma lembrança de esquimós, e isso pode ser observado no fato do capuz possuir um detalhe cônico. A parca usada pelo vilão possui em sua parte superior, todo um segmento em tecido branco que assemelha-se ao couro, já que possui um laço logo abaixo do pescoço e dá volta no tórax e costas do personagem em um corte irregular, lembrando neve sobre os ombros. Algo típico das roupas de pessoas que habitam regiões inóspitas e frias. A opção dos criadores do Capitão Frio foi possivelmente associa-lo muito mais a pessoas rudes e desoladas do que à outros tipos ligados a ciência e que também possuem poderes associados às baixas temperaturas. Caso por exemplo do Sr. Frio, um cientista inimigo do Homem-Morcego que tem suas raízes no academicismo.

Miniatura DC Nº 30 - Capitão Frio

Percebe-se, portanto, a clara intenção de seus criadores em retirar-lhe o refinamento e cortesia de personagens que, embora sejam também vilões, possuem naturalmente uma intencionalidade educada e por vezes até cortês, caso por exemplo do Dr. Destino na Marvel e de Lex Luthor e do Sr. Frio na DC. A indumentária de Len Snart, portanto, já o apresenta como alguém mais cru e visceral. Por fim, as armas são destaques na peça, já que são elas que conferem a Snart sua fama, uma vez que o personagem não possui poder intrínseco algum. Mas que tipo de homem existe por trás do Capitão Frio? Qual sua origem? O personagem foi criado ainda nos momentos que antecederam a explosão que foi a Era de Prata dos Quadrinhos (1961 - 1970). Sua primeira aparição data de Junho de 1957 na revista Showcase Nº 08. Criado por Carmine Infantino e John Broome, o personagem chegaria ao Brasil apenas na revista Flash (Dimensão K) 1ª Série - N° 3, de dezembro de 1967 (fonte Site Guia dos Quadrinhos), ou seja, 10 anos depois de sua aparição nos EUA.

Miniatura DC Nº 30 - Capitão Frio

Leonard Snart cresceu ao lado da irmã em um trailer no subúrbio de Central City. O pai era policial (grande ironia), embora tivesse um sério problema com bebida e muitas vezes chegou a descontar suas frustrações batendo no pequeno Snart. A mãe era uma mulher que pouco dava atenção aos filhos e a única figura a se importar um pouco mais com o pequeno casal de filhos dos Snarts era o avô, que também por ironia era sorveteiro, dirigindo um caminhão de sorvetes pela cidade. As coisas começaram a se complicar quando o pai de Snart foi dispensado do serviço policial em função de seu vício em bebida. Este fato apenas acelerou a desintegração familiar e logo Leonard já estava participando de gangues de delinquentes e praticando roubos. Embora a família Snart fosse disfuncional, não podemos dizer que isso foi o responsável pelas decisões que o vilão tomou ao assumir o mundo do crime como profissão. Diferentemente de algumas desfigurações psicológicas que alguns vilões da Marvel e DC passaram, Snart tinha pleno domínio de suas faculdades volitivas e poderia ter se enveredado por outros caminhos, sobretudo em função do exemplo que seu avô havia deixado. Faço este comentário para que não façamos o julgamento precoce de que Snart é apenas uma vítima de sua família, e seus atos futuros estariam, portanto, justificados em seu passado.

Miniatura DC Nº 30 - Capitão Frio

A gangue de Snart rapidamente começou a usar tecnologia em seus roubos, como por exemplo um óculos especial que lhes permitiam ouvir a frequência da polícia e lhes conferiam uma melhor proteção e visão noturna. O Flash, no entanto frustrou um dos roubos da gangue e Snart foi parar na cadeia. Lá começou sua raiva pelo Flash e, além disso o vilão começou a trabalhar em um protótipo de uma arma congelante. Ao sair da penitenciária Snart teve acesso ilicitamente à um dispositivo (o Cíclotron) que, combinado à arma que desenvolvera, permitiu-lhe gerar um poderoso raio congelante. Estava então criado um novo super-criminoso, o Capitão Frio. O Capitão Frio e o Flash teriam diversos embates ao longo dos anos. Mesmo após a morte do Flash Barry Allen na Saga Crise nas Infinitas Terras, os combates entre o vilão e o novo Flash Wally West (sobrinho de Barry) persistiram. Culminando, inclusive com o assassinato de Bart Allen (neto de Barry), talvez o ato mais hediondo que o Capitão Frio tenha cometido até então. Snart viria a ter certo lugar de destaque no Universo DC em função de ser um dos membros fundadores e líder de um importante grupo de vilões, A Galeria de Vilões, um grupo que teve sua formação alterada às vezes, mas que ficou conhecido pela sua letalidade ao integrar membros como o Galhofeiro, o Capitão Bumerangue, Pião, Mago do Tempo, Mestre dos Espelhos e Patinadora Dourada, esta última irmã de Snart.

Miniatura DC Nº 30 - Capitão Frio

Um dos momentos mais dramáticos da vida do Capitão Frio foi, sem dúvida nenhuma, o assassinato de sua irmã, a vilã Patinadora Dourada. Após atuar ao lado do irmão durante um período como parceiros no crime, a Patinadora Dourada resolveu tomar outros rumos, e estes incluíam abrir seu próprio negócio criminoso. Para isso, ela muniu um outro parceiro com equipamentos congelantes, criando assim o parceiro Calafrio. Os dois primeiros Calafrios foram pegos pela polícia, mas o terceiro armou para cima da Patinadora assassinando-a para ficar com o lucros. Isso deu origem à uma saga de vingança, tendo o Capitão Frio como protagonista, que saiu à caça do assassino da irmã. Esta história foi muito elogiada e saiu em 2002 com roteiro do aclamado Geoff Johns. Na saga foram preenchidas as lacunas da infância de Len Snart, seu relacionamento familiar conturbado e a epopeia vivida por ele à caça de Calafrio. O ápice da história se dá com o Capitão Frio invadindo o quartel general do Doceiro (um dos chefões do Mundo das Drogas) à caça de seu guarda-costas, ninguém menos que Calafrio. Calafrio se mostra bem casca-grossa e quase derrota o Capitão Frio, mas tem um destino brutal ao ser empalado em uma cama com espículas de gelo.

Miniatura DC Nº 30 - Capitão Frio

A concretização da vingança do vilão não teve, no entanto, o poder reparador que Snart esperava sobre si mesmo. A vitória mostrara-se vazia e não preencheu o vazio em sua alma. O arco termina com ele questionando-se o que viria a seguir, ou seja, com o que ele preencheria sua vida. Uma pergunta válida e legítima à todos que tem apenas um objetivo como significado de sua existência. O Capitão Frio teria tudo para ser um vilão genérico, mas sua complexa história e motivações o catapultaram à um outro nível. Embora figure ainda em níveis mais baixos de prestígio na Editora da Lendas, vimos o público recebe-lo bem na Série do Flash, onde é interpretado pelo enigmático ator Wentworth Miller. Este prestígio de Miller pôde ser visto ao ser incorporado (com certo destaque) à outra série do Arrowverse, Legends of Tomorrow.

Miniatura DC Nº 30 - Capitão Frio

Bem amigos... Nunca tive muito contato ou mesmo apreço por este vilão. Mas nada melhor do que conhecermos um pouco da história pessoal de um personagem para nos afeiçoarmos a determinados aspectos de sua vida. A próxima história do Capitão  Frio que eu ler com certeza o verei de forma diferente. 

Deixo um grande abraço à todos!

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Coleção Príncipe Valente - Planeta DeAgostini - Guia de Lançamentos - Atualizado em Junho/2019!!

Nº 01 - 1937; Nº 02 - 1938; Nº 03 - 1939; Nº 04 - 1940; Nº 05 - 1941.

Chega ao Brasil uma coleção de um personagem icônico e extremamente importante no universo da narrativa gráfica. Rivalizando com grandes autores dos quadrinhos, Hal Foster, criador de Príncipe Valente, pode e deve receber merecidamente a alcunha de Mestre da 9ª Arte. Príncipe Valente teve suas tiras publicadas pela primeira vez em 1937 e, desde então, nunca parou, atravessando o século XX e adentrando o século XXI. Mas qual a magia deste personagem e destas histórias que permitiram com que esta obra se tornasse tão longeva? Por que diversos outros personagens, que foram criados nesta mesma Era de Ouro dos Quadrinhos (1938 à 1956), foram consumidos pelas areias do tempo e se tornaram anacrônicos? Particularmente eu mesmo não tinha essas respostas até bem pouco tempo. Talvez por um preconceito inato que eu tinha com personagens datados e "aparentemente" concebidos dentro de um contexto específico de tempo, nunca dei chance à Príncipe Valente. Pois eu não podia estar mais errado. Fiquei sabendo que a Planeta DeAgostini estava lançando esta coleção de Príncipe Valente que abrangerá todas suas histórias publicadas de 1937 à 2008 e pensei... Aí está uma chance de conhecê-lo.


Minha surpresa veio logo no Nº 01 da coleção com as histórias publicadas ao longo de 1937. Longe de serem simplistas, as histórias são extremamente interessantes. A perspectiva histórica e cultural que Foster imprimiu ao contexto em que Valente vive (a Era Medieval), é perfeita e oferece, dentre outras coisas, uma densidade dramática ao protagonista que lhe permitiram ser tão longevo. Em seus preparativos para criar o personagem, Hal Foster mergulhou nas lendas e histórias Arturianas, mas não só isso, pesquisou hábitos de vida, concepções do homem da Idade Média e soube entender acima de tudo o Zeitgeist (Espírito do tempo) da época. Isto permitiu-lhe criar uma narrativa cheia de aspectos interessantes a serem descobertos. Além da envolvente história, o traço acadêmico de Foster é um show à parte. Cada quadro expõe cenas sobre as quais podemos ficar vários minutos debruçados contemplando-as. O leitor mais exigente não se decepcionará com cenários nos quais tudo é destrinchado, desde as roupas da época, mobília, apetrechos, armas, e até aparelhos que não temos a menor ideia para que servem mas que estão expostos nas paredes, sobre as mesas, sofás e camas de castelos, cabanas e casas.


Valente é um jovem Príncipe de um reino da Bretanha do Século IV que vê (ainda bem pequeno) seus pais e súditos serem expulsos de suas terras por um outro rei usurpador. O pai de Valente foge com sua mãe, filho e fiéis súditos para outras terras onde também não são bem vindos, sendo necessário lutarem para que consigam o direito de habitar uma região pantanosa da Bretanha. Isto que acabei de contar é na verdade a primeira e segunda página do encadernado Nº 01 de 1937. Tudo se desenrola a partir daí. Hal Foster ambienta esta história na mesma época em que o Rei Arthur e sua corte de nobres guerreiros da Távola Redonda estavam constituídos e em plena atividade. O leitor acompanhará então os primeiros anos de Valente crescendo e buscando uma identidade própria na corte de Arthur. Sempre imaginei que toda essa história seria um pouco maçante e pouco atrativa. Ledo engano. A narrativa é envolvente e mistura realidade, ficção, aventura e romance com uma pitada muito suave de magia, ou pelo menos parece magia, uma vez que o homem medieval era indissociável de crenças antigas, e fica difícil saber se é magia ou apenas um encadeamento de acontecimentos que acabam por confluir em estranhos e diferentes desfechos.


Ainda há muito o que escrever sobre Príncipe Valente agora que o descobri. Este post, no entanto, visa trazer uma forma de acompanhar o andamento dos lançamentos da coleção à semelhança de outros posts já tradicionais aqui do Blog. A Planeta DeAgostini promete lançar praticamente tudo do personagem, contemplando o que saiu de 1937 até 2008 (aparentemente cada volume correspondendo à 01 ano de tiras). As tiras foram, com diz no site, restauradas com as cores das edições que saíram nos jornais norte-americanos. Leitores mais recentes, ou até mesmo os mais antigos, estranharão a opção narrativa de Foster ao colocar a narrativa não em "balões", mas no rodapé ou no alto de cada quadro. Ao final da primeira ou segunda página eu já estava tão envolvido pela história que já tinha a ideia de que esta era a escolha perfeita.

É isso aí amigos. Em breve novos posts sobre os encadernados e curiosidades acerca deste incrível universo de Príncipe Valente.

domingo, 9 de junho de 2019

Lone Sloane - Impressões pessoais


Lone Sloane é um dos recentes lançamentos da Editora Pipoca e Nanquim (PN). Um lançamento que vem sendo comemorado por fãs brasileiros da Revista Norte Americana Heavy Metal, fãs do escritor e desenhista Moebius e fãs de Ficção Científica Europeia. Todo e qualquer lançamento do PN entra diretamente para o meu radar. Tenho praticamente todos os lançamentos deles. E com Lone Sloane não foi diferente. Este lindo encadernado traz praticamente toda a saga do viajante cósmico Lone Sloane, excetuando sua participação em uma história chamada Salammbô. O PN traz um lançamento que compreende uma saga que foi escrita e desenhada pelo francês Philippe Druillet (criador de Sloane) ao longo de décadas (décadas de 60, 70, 80, 90, 2000 até início da década de 2010). Diante de tamanho acabamento gráfico (a capa é simplesmente incrível) e indicações, passei Lone Sloane à frente de muitas outras obras que estavam em minha pilha de leitura. Mas vamos à minha opinião acerca deste lançamento...


A obra traz realmente uma narrativa muito próxima do estilo presente em HQs de Moebius e em HQs ficcionais europeias. As primeiras histórias do encadernado (O Trono do Deus Negro, A Ilha dos Ventos Selvagens, Rose, A Ponte sobre as Estrelas e Terra) me chamaram muito a atenção pelo seu tom psicodélico e onírico. Isso pode ser conferido em artes como esta acima que faz parte do início da obra. Confesso que essas pequenas histórias iniciais criaram em mim a expectativa que a obra traria histórias desta ordem, ou seja, oníricas, de cunho existencial e líricas. Cheguei a esperar que a obra iria pelos caminhos de títulos como "2001 Uma Odisseia no Espaço" de Arthur C. Clarke, "Eram os Deuses Astronautas?" de Erick von Däniken com sua narrativa arqueológica e milenar, e até mesmo iria para a veia onírica de Esteban Maroto em seu Espadas e Bruxas (também lançado pelo PN no Brasil). No entanto, a partir da história Delirius (arco que se estenderá até o fim do encadernado, se desdobrando em outros segmentos) há uma mudança muito grande (em minha opinião) na temática e até no traço de Druillet. O aspecto onírico, filosófico, fantástico e milenar dá lugar à uma narrativa mais política, beligerante, social e por vezes desconexa, mudando também o traço do autor para um tipo bem menos psicodélico.


Talvez deste ponto em diante é que a história fique mais próxima da narrativa da Heavy Metal. O texto subjacente desta parte em diante é outro. Fica bem claro uma acidez, pessimismo e desdém nas palavras e atitudes de Sloane. Se antes ele era reflexivo, distante de sua humanidade e até bem parecido com o personagem cósmico da Marvel chamado Warlock, do arco Delirius em diante Sloane torna-se algo semelhante à um pirata renegado lutando contra um Império maligno personificado pelo Imperador Shann. Esta mudança na caracterização de Sloane deve refletir (acredito eu) a frustração, desdém e acidez do próprio autor Druillet, que após a morte de sua esposa na década de 70 possivelmente passa a se relacionar com o mundo de forma diferente. Particularmente preferia que o Sloane inicial tivesse sido aquele a ser desenvolvido por Druillet. Identifico-me muito mais com ele. Independente destas minhas impressões é necessário reconhecer a importância desta grande obra e de seu autor. Esta grandeza fica muito clara nas ilustrações de Druillet e em como ele quebrou paradigmas ao descortinar verdadeiras obras de arte gráficas representando cenários cósmicos totalmente fora dos padrões vigentes.


A forma de enquadramento de Druillet revela-se ousada e inovadora até mesmo para nossos dias. As páginas são concebidas por meio de um lay-out totalmente extravagante e revolucionário. A vertiginosa sequencia de leitura coloca o leitor em um movimento espiral tal qual a página pressupõe. Não à toa, Druillet tem seu nome colocado ao lado de grandes lendas dos quadrinhos. Conhecedores da 9ª Arte provavelmente citarão seu talento dentre os maiores dos quadrinhos. Artistas como Jack Kirby foram influência para Druillet e ao mesmo tempo sofreram influência dele. Nomes como George Lucas e seu Star Wars e Ridley Scott já revelaram abertamente que se inspiraram muito em Druillet. Por tudo isso, Lone Sloane é uma obra a ser conhecida e apreciada.


Eu precisaria de um pouco mais de tempo para entender melhor o impacto deixado por esta edição de Lone Sloane em mim. Se de um lado fiquei boquiaberto com as imagens, construções narrativas de Druillet e primeiras histórias de Lone Sloane, por outro fiquei confuso com o rumo que a história tomou de Delirius para frente, sobretudo em função das expectativas que criei a partir das inferências que fiz depois das primeiras histórias. De todo modo o material precisa sim ser conhecido e, gostaria de ouvir opiniões de outros fãs, inclusive para que eu pudesse enxergar coisas que possivelmente deixei passar e não me permitiram aproveitar como deveria a obra, sobretudo de Delirius em diante.


Bem amigos... é isso aí. Agradeceria muito se deixassem comentários abaixo sobre a obra. Um grande abraço!

segunda-feira, 27 de maio de 2019

N. - Uma Experiência Lovecraftiana


Depois de várias décadas Stephen King continua sendo um dos maiores nomes da literatura do século XX, por mais que a Academia tenha relutado em aceitar isso. Sua longeva e profícua carreira atestam uma das mentes mais inquietas da literatura. N. é uma adaptação de um conto de King presente no livro Ao Cair da Noite, publicado no Brasil pela Editora Suma das Letras. Nesta adaptação em quadrinhos o escritor Marc Guggenheim e o artista Alex Maleev assumem a difícil tarefa de colocarem seus nomes em um material que tem o selo de King. Verdadeiramente assustadora, a HQ foi lançada no Brasil pela DarkSide Books, uma editora que entendeu a paixão e exigência dos leitores do gênero suspense e terror e tem nos brindado com lançamentos cada vez mais excepcionais. Não apenas em função do conteúdo, mas também pelo acabamento gráfico e concepção artística das obras.


Impresso em um papel diferenciado, permitindo que a arte de Alex Maleev ganhasse conotações intimistas, a edição Brasileira é um primor em acabamento e experiência sensorial ao leitor. A começar pelo toque, cheiro e exuberância visual. Maleev conseguiu expressar os personagens com expressões corporais e faciais que literalmente transportam o leitor para o interior de cada um deles. O trabalho de adaptação de Guggenheim fez jus à ideia inicial de King, expandindo o que era apenas um conto, em uma história que se aprofunda no universo interno de cada um dos envolvidos.


Para mim, a especialidade de Stephen King sempre foi relatar universos pequenos e perdidos. Cidades pequenas (à princípio simples e sem atrativos), sítios, fazendas... Locais em que ninguém veria qualquer problema acontecendo. Porém, King sempre foi mestre em nos fazer mergulhar naquilo que está escondido debaixo dos "tapetes" sociais, relacionais e pessoais. Em N., temos algo parecido, um local perdido e que possivelmente nem consta no Google Maps. Este pequeno e isolado pedaço de terra é visitado sem nenhuma pretensão pelo economista e fotografo amador N. (do título). N. tem um hobby, tirar fotos de paisagens e estruturas da vida rural no entorno da pequena cidade na qual reside. E este é o começo da trama, N. fica interessado em uma pequena formação de pedras dispostas em círculos no local mas que, estranhamente, alterna entre 7 e 8 o número de pedras que compõe o círculo. Quando observado à olho nu são 7, quando observado pelas lentes de sua câmera são 8.


O assustador da história está no que não é revelado, ou seja, o objetivo milenar daquelas pedras e sobretudo o efeito perturbador e psíquico que passa a ter sobre N. Uma parte significativa da história gira em torno da lenta deterioração da psiquê de N., que em suas sessões de terapia tenta explicar ao seu psiquiatra as visões, manias, compulsões e distúrbios que vem apresentando. O leitor acaba por entender algumas coisas nas entrelinhas e é o preenchimento destas lacunas da história pela mente do leitor que  acaba por construir um painel assustador e profundo. Em suas obras, Stephen King  sempre sugeriu a imanência de certos lugares, ou seja, as emoções e sensações que certos locais guardam, e que nós, imersos em nossos universos tecnológicos e virtuais acabamos por não perceber. Mas dependendo do lugar, aquilo que está ali guardado começa a transbordar e vazar, chegando a invadir até mesmo as mentes mais urbanas e racionais.


Este "vazamento" começa ocorrer do local que N. encontra e atinge outras pessoas ao seu redor. Outras pessoas passam protagonizar a história e este é outro positivo da obra, ou seja, a centralidade da trama passa de uma pessoa para outra, o que dinamiza o drama e o expande. O termo "Lovecraftiano", muito em voga atualmente, pode ser muito bem aplicado em N. Sem dúvida nenhuma a origem da pedras e sua função são diretamente ligadas à um Universo inominável que existiria paralelo ao nosso. A influência de Lovecraft sobre King nesta história e sobre Guggenheim ao adapta-la é total. Se você é fã de Lovecraft deve ler esta obra. Não pude deixar de associar a história a existência de outros monumentos estranhos presentes no mundo como Stonehenge na Inglaterra.


A DarkSide Books está de parabéns por este lançamento, que estará entre minhas indicações de melhores HQs lidas em 2019.

Um grande abraço à todos!

sábado, 18 de maio de 2019

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Escrever a respeito do Super-Skrull é escrever sobre os primórdios da Era de Prata na Marvel... No início da década de 60, quando Stan Lee ao lado de diversos outros gigantes da 9ª Arte lançavam as bases do que viria a ser a Marvel no futuro, raças alienígenas ainda não haviam consolidado seu papel dentro do Universo ficcional da Casa das Ideias. Iniciativas de trazer ETs para a Terra já haviam sido feitas nos primeiros números de revistas como Journey into Mystery (alienígenas de Pedra), Incredible Hulk (Homens-Sapo) e Tales to Astonish (Extraterrestre Lodoso). Mesmo os Skrulls, que haviam sido apresentados no Nº 02 de Fantastic Four, ainda não haviam se firmado como raça realmente poderosa e dotada de importante articulação com o heróis da Terra. Podemos imaginar que o conceito de ETs ainda era muito influenciado pelo que fora apresentado na década 50, quando os carros-chefe das publicações eram revistas de monstros e alienígenas genéricos. O Super-Skrull começaria em Fantastic Four Nº 18 (sua primeira aparição) de Setembro de 1963 uma longa jornada em direção a um posto importante como representante de uma das maiores raças alienígenas do Universo Marvel.

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Antes de mais nada, no entanto, analisemos sua miniatura dentro da Coleção de Miniaturas Marvel da Eaglemoss. A miniatura ficou um pouco aquém da imagem poderosa que em geral o personagem passa. De maneira que algum desavisado admirador da coleção possa até achar que o Super-Skrull é um personagem desconhecido ou mesmo desimportante dentro da Marvel. As nuances da face ficaram pouco definidas, deixando a peça praticamente sem expressão. A pele craquelada da espécie Skrull deve ser difícil mesmo de ser capturada, no entanto mesmo outras personagens da coleção com a mesma característica tiveram um melhor tratamento. A parte muscular também está também pouco definida, não fazendo jus ao histórico de guerreiro deste selvagem Skrull. Como o próprio nome já diz, o "Super" vem do fato do Super-Skrull emular os poderes dos 04 personagens que compõem o Quarteto Fantático: a elasticidade do Sr. Fantástico, a invisibilidade da Mulher-Invisível, a força bruta do Coisa e a combustão do Tocha-Humana. Apesar disso, vemos representado apenas dois destes poderes, a força do Coisa por meio da pele rochosa da mão direita e a combustão do Tocha-Humana no braço esquerdo em chamas.

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Todos esses aspectos mais negativos da peça não tiram, no entanto, a importância do personagem, ou mesmo seu direito de estar representado nesta coleção. Vejamos então quem é o Super-Skrull. Kl´rt é o nome do Skrull que se ofereceu para participar de um experimento que lhe daria grande poder ao combinar os poderes do grupo de heróis que era, na época, uma pedra no sapato do Imperador Dorrek, líder máximo do Império Skrull. Mas antes de falarmos disso voltemos um pouco no tempo para o primeiro episódio envolvendo humanos e Skrulls. Foi este episódio que motivou o Imperador à tomar a decisão de criar o Super-Skrull. A Terra entrou para o radar imperialista da raça Skrull na década de 30, mas apenas nos anos 60 é que uma intervenção foi realmente pensada. Alguns espiões foram enviados à Terra e, graças à habilidade transmorfa dos Skrulls, esses espiões conseguiram se infiltrar facilmente em nossa sociedade. Uma frota de naves vieram e orbitaram nosso Planeta levando o Quarteto Fantástico a intervir. Ciente de nossa inferioridade numérica e tecnológica, o Sr. Fantástico (Ree Richards) consegue ludibriar o Imperador Dorrek fazendo-o crer em uma capacidade de defesa que não tínhamos. Dorrek decide então abandonar a invasão e os espiões que estavam na Terra foram deixados à própria sorte, sendo então encontrados e hipnotizados por Reed, passando então a se comportarem como vacas, inclusive na aparência (uma vez que eram transmorfos).

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Obviamente, o embuste de Reed foi descoberto por Dorrek que então financia um programa em seu planeta para transformar um soldado (Kl´rt) em um ser que, utilizando-se dos mesmos poderes do Quarteto Fantástico, varreria do Universo a nojenta e abjeta raça humana. Kl´rt, transformado agora em um super soldado chega aos EUA e planta uma bandeira Skrull em plena Times Square. O Quarteto, pego de surpresa pelo ataque e por encontrar um ser que mimetizava exatamente seus próprios poderes, é derrotado. De volta ao Edifício Baxter, Reed se aprofunda então no único poder que o Super-Skrull não emulava, seu intelecto. Reed descobre que os poderes do vilão eram acionados e mantidos em funcionamento a partir de um raio ultrassônico que era continuamente transmitido à Terra a partir do Planeta Skrull. Graças a um dispositivo elaborado por Reed, o Super-Skrull é então derrotado ao ver seus poderes anulados. Essa estratégia de Reed foi suplantada pelos engenheiros Skrulls e rapidamente o  famigerado Super-Skrull voltaria ao embate com o Quarteto.

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

As batalhas entre o Super-Skrull e o Quarteto Fantástico se seguiram, tendo sempre o Quarteto como vencedor. Este estado de coisas levou o Imperador Dorrek a simplesmente desprezar Kl´rt, vendo-o como um inútil. Com isso Kl´rt passa a experimentar o pior dos sentimentos para um Guerreiro, ou seja, passa a se ver como um Guerreiro inútil e sem honra. Isso alimentou seu ódio pela família fantástica, levando-o a arquitetar diversos planos mortais contra nossa espécie. As coisas teriam um rumo triste e melancólico para o Kl´rt caso disputas internas e acontecimentos externos não tivessem destroçado o Império Skrull. Isso permitiu que uma ambiciosa Skrull chamada S´Byll chegasse ao poder. Para piorar as coisas toda raça Skrull havia perdido uma de suas marcas mais emblemáticas, sua capacidade transmorfa. S´Byll consegue ludibriar o Super-Skrull criando uma improvável aliança entre ele e o Surfista Prateado, unidos para enfrentar uma suposta ameaça à raça Skrull, os reptilianos Badoons. É por meio deste episódio que S´Byll consegue unir o poder cósmico do Surfista com as raras propriedades das células de Kl´rt, restaurando o poder transmorfo de sua raça. Isso alça S´Byll ao posto de Imperatriz da raça Skrull.

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Acontecimentos levariam à morte de S´Byll, e quem conseguiria chegar ao poder agora seria Kl´rt. Ele agora seria o monarca que levaria novamente sua raça ao posto que ele, como guerreiro sempre achara que lhe era de direito. Estes sonhos foram interrompidos pela Onda de Aniquilação que irrompeu da Zona Negativa (um universo paralelo ao nosso que possui como Imperador a criatura insetóide conhecida como Aniquilador). Estes eventos foram relatados na Saga Aniquilação na Marvel. Apenas a união de diversos personagens cósmicos da Marvel, dentre eles Nova, Surfista Prateado, Ronan, o próprio Super-Skrull, dentre outros, é que conseguiria deter o Aniquilador, mas isso a partir do sacrifício supremo do Super-Skrull, sendo ele o improvável personagem que consegue deter a Onda de Aniquilação que varria o Universo. Este sacrifício o colocaria em um grande posto dentro do Universo Marvel, passando a ser respeitado e até reconhecido como herói por muitos. Em função da banalidade com que a Marvel vem lidando com a morte de seus personagens, o Super-Skrull voltou a viver, tendo nova participação na luta contra uma segunda Onda de Aniquilação que irrompeu a partir do Território Kree (outra raça alienígena famosa por serem inimigos mortais dos Skrulls). 

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Esta nova Onda de Aniquilação forjou uma estranha aliança entre Kl´rt e Ronan, um dos mais importantes personagens dentro da hierarquia Kree. Um estranho respeito nasceu entre os dois guerreiros, permitindo que as histórias envolvendo os dois personagens ganhassem maior dramaticidade e riqueza. A história do Super-Skrull mostra claramente como um personagem que era, pelo menos à princípio, mais um vilão do Quarteto Fantastico, passou a integrar de forma importante o Universo Cósmico da Marvel. E mais, a jornada do Super-Skrull forjou uma personalidade mais complexa e dramática no personagem e  isto o tem colocado ao lado (em minha opinião) de personagens complexos em suas motivações, como por exemplo Dr. Destino e Ciclope.

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Bem amigos... É isso. Quem sabe com o estabelecimento da raça Skrull no Universo Cinematográfico da Marvel no último filme da Capitã Marvel, somado à vinda dos direitos do Quarteto Fantástico da Fox para Disney, nós não vejamos um dia a encarnação de Kl´rt nas telas.

Gde. Abraço à todos!
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