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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Viagem Literária - 2025

O Astronauta

Um módulo espacial Tcheco levando apenas um tripulante em direção à Vênus para investigar uma estranha nuvem de poeira cósmica estacionada próximo ao planeta. No caminho o astronauta submerge em reflexões pessoais e, talvez por isso, chama a atenção de um segundo passageiro intruso (e extraterrestre) que aparece em sua nave (ou  não). Dores, arrependimentos, frustrações e mágoas são compartilhadas e, nesse processo, o autor (Jaroslav Kalfar) elabora um painel acerca de escolhas, sucessos e fracassos. Um convite à singularidade da vida, o livro possui momentos de tensão e alívios que nos mantém atentos à história. Não consegui chegar ao âmago ou ao lugar que o autor queria que eu chegasse. Talvez visitar o livro em outra ocasião permita-me descer à profundidade esperada.

Jimbo

Em 2025, dois autores tomaram de assalto minha estante, Arthur Machen e Algernon Blackwood. Ambos meus escritores favoritos atualmente, ambos com uma capacidade de ultrapassarem a simples narrativa ao apresentarem a relação entre o "sobrenatural" e o "ordinário da vida". Ambos extremamente capazes de interpretarem o "mundo" a partir de uma profunda interação do material com o imaterial. Em Jimbo, Blackwood apresenta uma obra que, para mentes pouco atentas, significaria apenas uma fábula envolvendo o pequeno menino JIMBO. Entretanto, o que acontece com ele esconde um painel de interações entre o nosso "aqui" e o "transcendente". Nesse painel a natureza emerge como força bruta representativa do oculto, capaz de influenciar nosso íntimo e nossos destinos.

Nosferatu - Sinfonia das Sombras

O livro Nosferatu - Sinfonia das Sombras de Kevin Jackson faz parte da coleção da British Film Institute (BFI), prestigiada instituição no mundo que convida renomados críticos, cineastas e escritores a se aprofundarem em determinado filme. O livro não é a novelização do filme, mas uma análise de seu contexto histórico, bastidores e, sobretudo, decisões artísticas de F.W. Murnau que resultaram no cultuado filme de 1922. O livro fascina ao fornecer um panorama rico ao redor do qual o filme nasceu, principalmente escrutinar os perfis de Murnau e do produtor Albin Grau, este último responsável também pelo design de produção e figurino. Tanto Murnau quanto Grau crescem ao aparecerem como grandes artistas capazes de transformarem seus construtos psíquicos em imagens. A partir da metade o livro perde força mas, no geral é uma importante fonte de informações que expande o clássico do expressionismo alemão.

Cada Um por Si e Deus Contra Todos

Depois de conhecer Nosferatu - O Vampiro da Noite (refilmagem de 1979 do clássico de Murnau), seguido de Aguirre - A Cólera dos Deuses, ambos do cineasta Werner Herzog, o fascínio pela visão de mundo de Herzog nasceu e cresceu. Sobretudo pelo depoimento de Herzog nos Extras do DVD de Nosferatu - O Vampiro da Noite. Daí a leitura de Cada Um por Si e Deus Contra Todos. Fascinado por homens e ideias que buscam subjugar a realidade, Herzog expande na obra sua visão e escancara diversos elementos pessoais que ajudaram a forjar este inconformismo. O título do livro pode sugerir cinismo, entretanto a obra está longe disso. O título tem mais a ver com a) sua empreitada na busca pelo que está "escondido" na existência humana e b) com seu inconformismo com a a artificialidade da vida que, infelizmente, a humanidade comprou. P.S.: Algumas passagens elucidam bem a conflituosa relação de amizade entre Herzog e seu pior/melhor amigo, Klaus Kinski.

O Círculo Verde

Com cuidado li O Círculo Verde (1893) de Arthut Machen (Mestre da Dark Fantasy). Sabia da aura de mistério sob a qual as obras do autor estão envolvidas. Já havia lido Os Três Impostores (1895), mas à época não tinha ideia exatamente da grandeza do autor em certos círculos literários mais obscuros. Em Os Três Impostores, por exemplo, o impacto é total pelo que não é mostrado. De forma semelhante, O Círculo Verde traz eventos simples e ordinários na vida do protagonista (o jovem e estudioso Lawrence Hillyer), mas sempre com ocorrências cotidianas esquisitas e discretas  que, com certa frequência, nos acontecem também. O assombro está no que Machen deixa implícito como explicação para estas pequenas e excêntricas ocorrências. O "escondido" de nós permeia nossa existência de uma forma que, uma simples olhada para ele, nos enche de um grande e poderoso sentimento de medo e atração.

Os Três Odiados

Conhecido por ocasião da adaptação para o cinema de seu conto Spurs de 1923 sob as mãos do diretor Tod Browning, que o lançou com o nome Freaks em 1932, o autor Tod Robbins (1888 - 1949) é o nome por trás de Os Três Odiados (1917). Obra também convertida em filme em 1930 sob o título The Unholy Three, em português Trindade Maldita. Filme que traz o Homem das Mil Faces Lon Chaney no papel de um dos 3 personagens principais do livro, o ventríloquo Echo (foto acima). A história narra a vida de três personagens de circo que são explorados por suas deficiências físicas ou, no caso de Echo, pela sua excentricidade. A solidão da monstruosidade de cada personagem eclode em violência e depois em fuga para, mais à frente, desembocar em mais violência e morte. A questão é que, através de seu livro, Robbins discute o sempre atuais temas: a) a violência latente sob a psique ferida daqueles que não se enquadram no conceito de beleza e/ou aceitabilidade na sociedade; b) o quanto ainda nossos preconceitos modelam a dor e a solidão do outro. O filme vai para um caminho um pouco diferente do livro, sendo este último, muito superior em minha opinião.

Arthur Machen - O Mestre da Dark Fantasy

Se as obras Os Três Impostores e O Círculo Verde serviram como introdução ao universo de Arthur Machen, a obra Arthur Machen - O Mestre da Dark Fantasy já oferece um painel mais amplo da sua obra em nove contos. A edição ainda apresenta uma linha do tempo da vida de Machen e fotos pessoais. Todos os contos giram ao redor de seu tema central, que consigo traduzir como "os pontos de contato entre nossa realidade com uma realidade maior que constantemente interage com o tecido de nosso cotidiano". E é nessa perspectiva que a leitura de Machen é sempre um mistério porque tais interações entre as realidades nos influenciam (quer deixemos mais ou menos) e estão sempre escondidas, discretas e, por isso mesmo, bizarras e fascinantes. Destaco o conto UM FRAGMENTO DE VIDA sobre a banalidade da vida cotidiana de um jovem casal de classe média vivendo na Londres vitoriana do final do século 19. Uma vez imersos na vida do casal, Machen nos leva a um tour à outras realidades transcendentes e, pela primeira vez (pelo menos em minhas leituras do autor), ele se atem a descrever sua percepção da metafísica do assombro, do sublime e do terrível que nos rodeia.

A Fábrica do Absoluto

Karel Čapek (1890 - 1938) foi um escritor Tcheco famoso pela peça teatral R.U.R. - Os Robôs Universais de Rossum (1920), onde aparece pela primeira vez a palavra "Robô". A Fábrica do Absoluto (1922) trata-se de uma brilhante sátira premonitória acerca do das transformações pelas quaisl passamos ao longo do século 20 e, nas quais, ainda estamos imersos. A ideia central da obra: a maioria das pessoas acreditam que Deus criou todas as coisas e imbuiu cada coisa ou matéria (pedras, minerais, árvores, rios, animais...) de uma pequena fração de sua essência divina. E se, através de reações químicas, fosse possível processar esta matéria até que não sobrasse mais nada, a não ser a essência divinatória que ali estava presa junto ao material, que então seria liberada para o ambiente? Um gênio engenheiro consegue esta façanha ao produzir o "Carburator", que ao decompor uma pequena quantidade de carvão libera esta essência divina no ar junto com uma quantidade enorme de energia limpa. Isso se converte em um grande invento, já que traz consigo a promessa de energia limpa, eficiente e barata para a humanidade. Entretanto, a essência divina liberada é extremamente embriagante e catártica para todos. Painel distópico de nossos dias, A Fábrica do Absoluto é atualíssimo e, sua leitura, talvez seja até necessária.

Histórias Assustadoras para Contar à Noite

Lançado em 2021 pela Editora Pipoca e Nanquim como uma grande promessa de antologias de terror, Histórias Assustadoras para Contar à Noite aguçou a curiosidade. Entretanto, o livro traz uma coletânea de contos mais voltada para iniciantes e curiosos no gênero terror. Destaco alguns contos: A Dama de Lado de Lynda E. Rucker; A Chaminé de Ramsey Campbell; O Sorriso da Vovó de Robert Shearman; e Vocês têm medo do escuro? de Charles L. Grant. Lidos com a devida atenção e, destituindo-se do hype que a obra recebeu em seu lançamento, esses contos são bem interessantes e, caso estivessem emoldurados dentro de outro contexto literário, ganhariam ainda mais força e expressão.

O Mestre do Silêncio

O Mestre do Silêncio de Irving Bacheller (1859 - 1950) discute, de forma subjacente, a ideia de possuirmos outros sentidos que, em função do desenvolvimento da linguagem, acabam por ficar subdesenvolvidos, o que nos priva, enquanto espécie, de experimentarmos o mundo de uma forma muito particular e mais profunda. A "palavra falada" acaba por reduzir drasticamente a forma de nos expressarmos e de percebermos o dia a dia, empobrecendo conceitos, sensações e sentimentos que, vistos de dentro, possuem muito mais significado do que aquele que pronunciamos. Assim, a linguagem falada funcionaria como um filtro redutor de quem nós somos, para o bem e para o mal. A história segue um jovem que acaba por descobrir a existência de um primo que foi criado em condições especiais que lhe permitiram crescer fazendo uso de outra forma de comunicação, mais profunda e menos dissimulada. Isso o qualificou com dons que excedem nossa capacidade humana comum. O Mestre do Silêncio é um interessante exercício de percepção acerca de nossa forma de interação consigo e com o outro.

A Mansão de Sorona

Como pai da literatura Pulp brasileira, R.F. Luchetti, falecido há apenas alguns anos, dispensa apresentações. Seu filho, Marco Aurélio Luchetti, atualmente tem a gestão do patrimônio literário do pai e, através de alguns lançamentos tem nos presenteado com pérolas do mestre Luchetti. A Mansão Sorona é uma coletânea de contos e abre com o conto homônimo. Embora conhecido, nunca é demais falar sobre o surpreendente domínio da narrativa e sua precisão literária. Encontramos fortes ecos de E.A. Poe e, não é exagero (pelo menos para mim), coloca-lo no mesmo panteão.

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terça-feira, 1 de julho de 2025

Viagem Literária - 2024


Quais lugares você visitou em 2024 através dos livros que leu? Já pensou em descrever essas experiências mentais como se fosse uma viagem? Livros oferecem esta dádiva ao nos presentear com viagens pelo tempo e espaço. Mais que itens que se acumulam na estante, livros transcendem a prerrogativa de "coisas" adquiridas, por isso, lidos ou não, do alto da estante eles nos observam pacientemente com seus portais a serem abertos e descobertos. Esta foi minha viagem em 2024.


Graças ao cenário editorial dos últimos anos no Brasil, o resgate histórico de quadrinhos maravilhosos e esquecidos, bem como a trajetória de importantes artistas, passaram a ter seus registros restaurados e preservados. Rodolfo Zalla - O Sentido de Tudo é um livro incrível do jornalista Gonçalo Júnior que resgata a história do Mestre do Desenho Rodolfo Zalla, desenhista argentino que fez carreira no Brasil. Gonçalo descreve a trilha artística de Zalla com acurácia histórica mas, sobretudo, com o carinho, respeito e honestidade que só um fã da 9ª Arte pode dar. A leitura passa pelos primeiros anos de Zalla e os motivos que o levaram a emigrar para o Brasil. Entretanto, a grande descoberta ao ler o livro é a constatação da incrível pessoa que o desenhista era e os diversos personagens com os quais ele trabalhou. Impossível separar o legado do artista da história das Histórias em Quadrinhos no Brasil. Um livro imperdível para qualquer pessoa que minimamente gosta de quadrinhos e tem sensibilidade suficiente para olhar para as mãos e mentes por trás desta arte que tanto amamos.


Coelho Neto (1864-1934) foi um escritor, político e professor brasileiro membro da Acadêmica Brasileira de Letras. Em função da excelente curadoria de Editoras como Clepsidra, Melusine Press e O Grifo Editora, Neto tem sido redescoberto por um público que, embora pequeno, mostra-se fiel. Dono de uma prosa encantadora e envolvente, Coelho Neto tem algumas obras que não viam a luz há mais de 100 anos. Verdadeiras pérolas da literatura fantástica brasileira. O livro Melusina e Outros Contos Fantásticos (Editora Melusine Press) reúne contos originais publicados pela Editora Garnier (na França e no Brasil) no início do século XX. Entrar em contato com estes contos não se trata apenas de resgate histórico, ou puramente um deleite  intelectual egocêntrico para satisfazer a vaidade literária de um caprichoso leitor, é entrar em um ambiente cheio de pérolas escondidas e ser transposto para uma realidade palpável, caprichosa, extravagante e fora do comum.


Antes de saber que A Trilogia dos Três Corpos iria se tornar série pela plataforma de streaming NetFlix, interessei-me pela obra do chinês Cixin Liu. Ao me meter com ela, eu sabia que se tratava de 3 livros, mesmo assim decidi entrar nessa. Liu é acessível em sua escrita e constrói um universo com personagens críveis e consegue colocar muito de suas dores e feridas políticas e familiares no seu texto. O autor faz isso ao inserir sua narrativa no contexto histórico da Revolução Popular Chinesa, que teve como propulsor o Partido Comunista chinês. Um mergulho nos traumas que este evento histórico deixou em seu povo. Mas tudo isso dentro de uma obra de ficção científica de primeira grandeza que possui como evento central a recepção e resposta de um sinal advindo de um mundo distante. Liu brinca com a perspectiva de como a humanidade reagiria frente a constatação de que receberemos, em algum momento no futuro, a visita dominadora de seres mais avançados do que nós. Mas mais que isso, o autor deixa transbordar para fora de suas páginas a frustração e decepção com a índole humana.


Longe de ser um relato convencional sobre a vida no Western selvagem, Meridiano de Sangue de Cormac McCarthy é uma obra de difícil digestão, não apenas pela violência nua e crua que traz, mas também por McCarthy escrever, propositalmente, de forma praticamente contínua, sem as pontuações que, em geral, delimitam diálogos e nos dão o efeito de continuidade. Isso faz da obra um "cavalo" a ser domado à força, o que exige do leitor perseverança. A despeito disso, o autor nos entrega um livro que pode ser facilmente descrito como monumental e universal dado a profundidade com que alcança a selvageria implantada no homem em todo seu efeito destrutivo. Além disso, nos apresenta um dos "vilões" mais complexos, perigosos e terríveis que já conheci, o Juiz Holden. Não pude deixar de encontrar paralelos em outro personagem tão brutal e complexo quanto ele, o personagem Kurtz, comerciante de marfim que se embrenha na floresta do Congo e lá se deixa seduzir pela profundidade do horror no romance O Coração das Trevas de 1902 de Joseph Conrad. Meridiano de Sangue trabalha com a mesma matéria prima que Conrad trabalhara em 1902, só que agora tendo como pano de fundo o West sem lei e o choque entre povos. Publicado em 1985, Meridiano de Sangue transcende seu propósito e poderia muito bem ser analisado por meio de diversos matizes. McCarthy é autor também de outro grande livro, Onde os Velhos não Tem Vez, adaptado para o cinema como Onde os Fracos não Tem Vez.


Se por um lado a literatura Pulp foi seminal em lançar diversos autores, hoje aclamados, por outro, alguns autores ficaram, injustamente menos conhecidos do grande público. Caso, por exemplo, de Tod Robbins. Robbins foi autor de diversas obras, dentre elas o conto Spurs (Monstros), publicado em 1923. Conto que depois ganhou as telas no famoso e, por que não "maldito", filme de 1932 FREAKS, dirigido por Tod Browning. "Maldito" porque o filme ficou banido na Inglaterra por 30 anos. A Editora Andarilho veio preencher uma grande lacuna existente no Brasil ao trazer uma assinatura por meio da qual o leitor recebe mensalmente um livro de bolso da Era Pulp (muitos inéditos no Brasil) de autores que brilharam e delinearam as bases do terror, horror, ficção científica e fantasia. É nesta coleção da Editora Andarilho que se insere o livro Pela Arte de Tod Robbins. A coleção vale a pena de ser assinada, não apenas pela qualidade do material, mas também pelo cuidado editorial. Autores como Algernon Blackwood, Arthur Machen, Gertrude E. Trevelyan, Gertrude Barrows Bennett, são apenas alguns dos exemplos. No caso de Pela Arte temos uma narrativa envolvente onde um artista cruza o caminho de outro. Este último, de nome Martin, levará nosso protagonista às raias da loucura ao escrever de forma vívida acerca de experiências macabras e terríveis. Robbins busca elucidar o poder da arte sobre a psiquê humana, bem como sua potencia ao desencadear sentimentos dos mais profundos e, às vezes, inumanos em nós. Recomendo muito!!

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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Destaques 2024 - Quadrinhos

Finais de ano são encerramentos de ciclos. Momentos para olharmos para trás, agradecermos e celebrarmos destaques e conquistas. Vamos viajar agora por entre minhas melhores leituras de HQs de 2024. O objetivo será exaltar as "leituras" e não os lançamentos, até porque para nos propormos a falar de lançamentos minha demanda de leitura seria enorme frente à tantas excelentes obras que chegaram ao Brasil em 2024. A ordem das obras aqui expostas obedecem minha ordem de leitura.

Júlia - Aventuras de uma Criminóloga - Nº 01

2024 foi, definitivamente, meu ano de descoberta desta série sobre a qual há muito tempo me chegavam elogios, mas que pela demanda de outras leituras eu postergava conhece-la. Estou falando de Júlia Kendall - Aventuras de uma Criminóloga. Por puro preconceito, eu associava a série à alguma memória de séries para público juvenil, daí meu desinteresse. Para me convencer a dar uma chance foi preciso receber muitas informações e elogios sobre a série, e perceber que seu autor era o mesmo do grande e excepcional Ken Parker. Só lamento ter esperado tanto para ler Júlia Kendall. No Brasil temos uma publicação relativamente farta da personagem e não foi difícil conseguir os números. Fiquei realmente surpreso com a qualidade do material, com as referências e com todo o universo coeso e crível de Júlia. Não dá para separar uma edição específica, por isso meu destaque vai para todas que li esse ano.

Júlia - Aventuras de uma Criminóloga - Nº 02

Se no número 1 de Júlia, somos apresentados ao universo da personagem de forma sutil, lá também conhecemos aquela que viria a ser sua nêmese, a assassina Myrna. Uma garota que embora venha de um relacionamento difícil com o pai, é uma pessoa sem quaisquer escrúpulos para matar. É no número 2 que vemos se desenvolver uma atração de Myrna pela mente astuta e sagaz de Júlia. O leitor percebe então o qual real, acadêmica e crível é a narrativa de Giancarlo Berardi acerca da mente criminosa dentro das quais a criminóloga mergulha.

Júlia - Aventuras de uma Criminóloga - Nº 03

É no número 3 que o primeiro arco de confronto entre Júlia e Myrna se conclui. Estratégia, violência e muito suspense demonstram ao leitor o tipo de obra que é Júlia. Berardi se esmerou na construção da personagem, frequentando cursos e lendo muito acerca de criminologia. Como resultado Júlia se constitui em um palco sobre o qual a aparente fragilidade da personagem (inspirada fisicamente na atriz Audrey Hupburn) se contrasta com a maldade, violência e visão doentia de mundo de muitos criminosos.

Júlia - Aventuras de uma Criminóloga - Nº 04

Os personagens que orbitam a vida da criminóloga, que também é professora na Universidade local na cidade de Garden City, são muito interessantes. E um provável interesse romântico se insinua entre o irascível e cuidadoso Tenente Webb (na capa acima em 2ª plano) na 4ª edição. Longe de ser expressão da masculinidade e beleza Hollywoodianas, Webb ganha o leitor pela personalidade forte e constantes confrontos com Júlia. Outro personagem, o Sargento Irving, é destaque também. Obeso, alto e com um profundo instinto protetor junto à Júlia, Irving é um excelente policial. Sempre pronto para agir frente às situações mais perigosas. Se você não conhece o universo de Júlia, ou sempre postergou a leitura, não perca mais tempo.


A Sergio Bonelli Editore foi a minha grande descoberta desta última década e, como consequência, vários títulos aqui são desta gigante italiana. Morgan Lost é um personagem que: a) pela sua proposta noir; b) seu universo no estilo Art Deco; c) e história de crimes consistentes, invadiu forte minha estante. Solitário, com sutis crises existenciais, atormentado pelos fantasmas dos assassinos que já matou, Morgan Lost vale muito a pena e sai no Brasil pela Editora 85


Jeff Lemire tem deixado sua marca na 9ª Arte já há algum tempo. O Soldador Subaquático, Black Hammer, Gideon Falls entre outros já apontaram para o estilo, sensibilidade e imaginação para o fantástico do autor. Nada a Perder estava na minha pilha há algum tempo e quando o peguei para ler eu não estava com tantas expectativas, considerando que um leitor de longa data sempre sabe que é difícil para um autor manter sua narrativa significativa ao longo de várias obras. Quando lemos Nada a Perder fica claro que Lemire não pretendia mesmo torna-lo um clássico (pelo menos foi minha percepção), uma vez que a obra se re-ssignifica e cresce justamente por trazer apenas a vida de um sujeito comum (nada mais). Mas que dentro de sua vida comum, seus sonhos desfeitos, erros cometidos e relacionamentos destruídos é que a história cresce. A arte meio "quebrada" de Lemire dá assimila muito bem personagens "quebrados" por dentro. Canadense, Lemire sabe trabalhar bem as paisagens geladas, melancólicas e aparentemente sem vida do norte do Canadá onde se passa a história.


Ao lembrar que de Marvel e DC também se vive a vida de um leitor, trago o ótimo Capitão América por Jim Steranko. O encadernado é um recorte de uma determinada fase do Sentinela da Liberdade, mais especificamente Captain America n° 110, 111, 112 e 113, todas de 1969. Uma fase em que seu descongelamento e reinserção à sociedade moderna da década de 60 ainda estava ocorrendo. Com isso, sua angústia pelo passado perdido, saudade de pessoas queridas (principalmente seu parceiro Buck Barnes) ainda o assolava de forma esmagadora. Um leitor desavisado que for ler o encadernado pode ficar com a impressão de que a história sai de um determinado lugar e vai para lugar nenhum. Isso não está totalmente errado porque trata-se apenas do recorte de uma fase, entretanto, este pequeno recorte cresce incrivelmente na arte de Steranko, artista rebelde, que soube inserir, na sua passagem pelos quadrinhos, colagens e inovações marcantes. O resultado é que este encadernado se torna uma pequena pérola representativa da arte do artista.


Desde 2019 (data de seu lançamento), ouço falar sobre Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias de Jefferson Costa. Muitos elogios e críticas positivas... Acontece que quando finalmente decidi ler a obra confesso que não foi fácil lê-la. A obra possui uma narrativa truncada (propositalmente (creio eu)), com o passado se misturando com o futuro sem grandes explicações. Um painel narrativo construído sem compromisso com a linearidade ou entendimento do leitor. Sabemos que há muito significado em cada quadrinho... mas ao mesmo tempo essa significância nos escapa... deixando tudo ao mesmo tempo fluido e profundo (se é que dá para colocar estas duas palavras quase antônimas na mesma frase). O fato é que quando terminei de ler tive uma sensação estranha, sabia que tinha gostado, mas ao mesmo tempo a obra deixa um desconforto. Talvez por representar bem o próprio ônus de se viver. Uma obra que decididamente eu precisaria reler.


A Coleção Epic da Marvel iniciou há não muito tempo nos mesmos moldes da sua proposta nos EUA. Momentos épicos de determinado personagem ou grupo. Neste volume, Liberdade, traz uma fase do Surfista Prateado que sempre quis ler: a fase da sua libertação da barreira de Galactus que o mantinha preso à Terra desde sua rebelião contra o Devorador de Mundos que ocorreu em Fantastic Four Nº 50 de 1966. As inúmeras tentativas de se libertar da barreira sempre foram angustiantes para todos que cresceram lendo o universo Marvel. A liberdade definitiva, entretanto, só ocorreu em Silver Surfer - vol. 01 - Nº 01 de 1987. Embora tenham se passado 21 anos entre 1966 e 1987, a verdade é que no tempo dos quadrinhos Norrin Rad ficou preso à Terra por 15 anos (segundo pesquisas que consegui fazer - se alguém tiver outra informação avise nos comentários). Neste encadernado a fase é predominantemente escrita por Steve Englehart e desenhada por Marshall Rogers. O arco principal do encadernado trabalha não apenas a liberdade do personagem da barreira de Galactus, mas traz também finalmente o desfecho do romance platônico entre Norrin e Shalla-Bal. Vemos importantes mudanças na personalidade do Surfista, que passa de sua tradicional melancolia e tristeza para sentimentos  mais vinculados à decepções e maturidade humana, dentre eles: raiva, ironia, cinismo... Como se finalmente Norrin saísse da adolescência emocional e migrasse agora para as várias matizes das emoções humanas. Nesse contexto, Mantis (a Madona Celestial naquela época) têm importante papel ao conduzir o ex-arauto de Galactus aos labirintos de sentimentos humanos. Como pano de fundo presenciamos ainda uma nova edição da Guerra Kree-Skrull e os planos cósmicos dos Anciões.


Cheyenne foi uma leitura incrível. Uma obra crível e que evitou diversos clichês do gênero Western sem, no entanto, deixar de trazer os elementos que o caracterizam. A Editora 85 vem fazendo um excelente trabalho editorial e de curadoria ao trazer diversos títulos excelentes do Universo Bonelliano, e Cheyenne pode ser adquirido sem medo de errar!


Chantal Montellier é uma autora muito pouco conhecida no Brasil, exceto por alguns lançamentos pela Editora Comix Zone (Social Comics e Odile e os Crocodilos). Bruxas, Minhas Irmãs saiu pela Editora Veneta em 2023 e me chamou atenção por evocar um universo muito caro à todo fã do terror clássico: Bruxas. Obviamente que Montellier tem em mente a concepção de uma obra que ultrapasse as diversas abordagens já dadas à esta entidade "bruxa". A autora na verdade busca criar uma obra que traz à luz os motivos que levam o sexo masculino a exercer, por tantos séculos, um domínio violento e cruel sobre o  feminino. Fascínio, medo e fragilização do ego masculino frente a delicadeza e encanto feminino, são os grandes disparadores das violentas ações de dominação dos homens sobre as mulheres. A rejeição e consequente incapacidade de lidar com ela é outra causa que acende a ira masculina. Assim, Montellier trafega entre passado e presente para trazer exemplos que mostram que este tipo de reação ainda está estruturada e muito presente no universo masculino. A leitura é angustiante e reveladora, e a arte é taciturna, triste e melancólica. Combinando perfeitamente com o texto da autora. Um lançamento de 2023 no Brasil que foi muito (ou nada) comentado dentro da gibisfera. Infelizmente!

Esses foram minhas leituras de destaque amigos. E as suas? O que você leu em 2024 no mundo quadrinístico e gostaria de destacar?

sábado, 20 de julho de 2024

O Problema dos Três Corpos - A Trilogia
















Anunciada como uma grande aposta da NetFlix, A Trilogia do Chinês Cixin Liu tem seu início com o livro O Problema dos Três Corpos (livro vencedor do Prêmio Hugo de Melhor Ficção Científica em 2015). Os 3 livros formam um enorme painel futuro da humanidade a partir da premissa de que não estamos sozinhos no Universo. Na verdade a grande base que fundamenta a saga é o conceito de Floresta Sombria. Uma linha de pensamento derivada do Paradoxo de Fermi (Enrico Fermi, físico italiano, 1901 - 1954), que trata da "aparente contradição entre as altas estimativas de probabilidade de existência de civilizações extraterrestres e a falta de evidências para, ou contato com, tais civilizações", ou seja, "Se o universo é tão gigantesco, porque nunca fomos contatados por uma outra raça inteligente?". A resposta a partir do conceito de Floresta Sombria (ou Negra) seria que esta falta de contato ocorre simplesmente porque o cosmo seria uma imensa floresta inóspita em que raças inteligentes fazem de tudo para se manterem escondidas em função da constatação de que a vida inteligente é, em essência, destruidora daquilo que é diferente. Assim, o melhor a fazer seria o anonimato seguro e preventivo. Desta forma, qualquer revelação de sua localização no espaço seria o mesmo que marcar um grande alvo em seu próprio planeta. Cixin Liu constrói uma saga que se inicia com um painel da natureza destrutiva do ser humano ao acompanhar os passos da protagonista inicial, a astrofísica Ye Wenjie, durante a Revolução Comunista Chinesa. As experiências pelas quais Wenjie passa durante a revolução de Mao Tse Tung moldariam para sempre sua forma de encarar a humanidade e suas decisões para o futuro. Como continuação direta do 1º livro, A Floresta Sombria insere o segundo grande personagem da saga e expande as consequências dos atos de Ye Wenjie no 1º livro. É em A Floresta Sombria que a natureza do cosmo passa a ser um problema de sobrevivência para os humanos, levando a consequências políticas, sociais e econômicas para a Terra. E é no último livro O Fim da Morte, que outros segredos do universo são revelados conduzindo os humanos às fronteiras do fim do cosmo como o conhecemos. O autor parece herdeiro de muitas abordagens usadas no gênero Hard Sci-fi. Abordagens consolidadas por expoentes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Robert A. Heinlein entre outros. Só isso já faz de Liu um autor diferenciado, ao manejar muito bem as ferramentas do gênero, além de buscar uma narrativa coesa, científica e exploratória. Fato este muito pouco entendido pela maioria dos YouTubers que assisti fazendo resenhas sobre o livro, uma vez que buscam na leitura da obra uma experiência simples e de linguagem cinematográfica. Cixin Liu decididamente não escreveu a saga já pensando em vendê-la para o streaming (como muitos autores atualmente infelizmente fazem), e isso dá peso ao livro, pois a história foi concebida 100% como uma obra literária (e é isso que os atuais YouTubers tem dificuldade de digerir). Não à toa foi laureada com prêmios importantes da literatura mundial (sendo este o nó que muitos críticos rasos tem dificuldade de lidar). Por fim, vale ressaltar a natureza filosófica por traz da saga, que parece expor muito sobre o que o autor (que também vivenciou o rescaldo das políticas de Mao Tse) acredita. Um misto de ambiguidade, inevitabilidade e certa desilusão. A obra como um todo rende muitas discussões sobre diversos temas importantes que tangenciam a história da espécie humana, vamos ver agora como a NetFlix lidará com todas elas.
Crédito da Foto: Amazon

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Pílula Literária #17: Rodolfo Zalla - O Sentido de Tudo


Fascinante, acadêmico, afetivo, histórico, familiar... Rodolfo Zalla - O Sentido de Tudo, do jornalista Gonçalo Júnior, é uma obra que alinha perfeitamente todos esses adjetivos por mais que pareçam, à princípio, distantes entre si. Um livro que foi publicado graças a insistência e lealdade que o autor dedicou ao desenhista Rodolfo Zalla e à sua obra. Um lançamento gestado desde 2008 quando Gonçalo entrevistou o mestre Zalla. A história das Histórias em Quadrinhos sempre foi e será fascinante, mas se torna ainda mais incrível quando conhecemos as personalidades que estiveram por trás delas. Rodolfo Zalla, desenhista argentino que imigrou para o Brasil no início dos anos 60, é uma destas personalidades a ser conhecida e pesquisada à fundo em função não apenas da qualidade de seu traço, mas porque foi testemunha ocular e partícipe da construção de um imenso capítulo dos quadrinhos nacionais. O livro de Gonçalo, entretanto, não se atem às questões técnicas, históricas e políticas que serviram de pano de fundo à vida de Zalla, na verdade a construção da obra estrutura-se também dentro de aspectos simples e afetivos da vida do desenhista. Aspectos estes que, assim como em nossas nossas vidas, redimensionam e ressignificam tudo, já que apontam para nosso caráter. Rico em ilustrações e capas, o livro traz inclusive HQs inéditas ilustradas por Zalla, o que traz brilho adicional ao texto de Gonçalo, expandindo a experiência da leitura. Mas por que a obra é tão relevante? Para além de palavras elogiosas de alguém como eu, que tem apreço especial pela vida dos homens e mulheres que construíram a 9ª Arte, há na leitura do livro a percepção clara de como se davam as publicações no conturbado Brasil dos anos 60, 70, 80 e 90. Se de um lado tínhamos grandes editoras no Rio de Janeiro, em São Paulo os quadrinhos funcionavam no âmbito das pequenas editoras, o que nem por isso tornava a cena menos interessante e incrível nas paragens paulistas. Na leitura descortina-se encontros e desencontros que moldaram a forma de se fazer e produzir quadrinhos em nosso país no século XX, espelhos de uma conjuntura política e social. Zalla foi muito associado à produção de quadrinhos de terror no Brasil com as famosas revistas Calafrio e Mestres do Terror, porém sua contribuição em outras áreas é colossal, como no caso de artes produzidas no contexto didático que auxiliaram o aprendizado de algumas gerações de crianças, algo inovador ao fundir a experiência escolar aos quadrinhos em livros didáticos. Grande também foi sua incursão por outros gêneros dos quadrinhos como no caso do faroeste e temas de guerra. A relação do artista com grandes nomes da indústria também é bem descrita, artistas como Eugênio Colonose, Nico Rosso, Luís Merí, Mozart Couto, Sebastião Seabra, José Delbo, Primaggio Mantovi... roteiristas como R.F. Luchetti, Maria Aparecida Godoy, Reinaldo de Oliveira, Gedeone Malagola... editores como Miguel Penteado... entre muitos outros transitam ao longo das páginas traçando um grande painel de pessoas que construíram os quadrinhos nacionais durante várias décadas. Assim, Rodolfo Zalla - O Sentido de Tudo se constitui em material imprescindível por revelar de forma simples, afetuosa e didática um legado maravilhoso tendo como pano de fundo a memória dos quadrinhos em terras brasileiras.
 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Pílula Gráfica #35: Bruxas, Minhas Irmãs - (2023) - Uma Antologia de Chantal Montellier


Depois de Social Fiction (Ed. Comix Zone), a francesa Chantal Montellier tem outra obra publicada no Brasil, agora pela Editora Veneta. Trata-se de Bruxas, Minhas Irmãs. Uma obra densa, na qual a autora traz exemplos de mulheres que ao longo da história foram acusadas, julgadas e, na maioria das vezes, condenadas como bruxas. Montellier conta essas histórias de uma maneira muito, mas muito diferente do usual. Ela exige do leitor certo preenchimento de pequenas lacunas narrativas, o que, por sua vez, confere linhas ocultas dentro da história. Assim, o sugestionamento se insinua e deixa a obra mais profunda, aludindo a temas como sexismo, misoginia, obscurantismo, racismo, intolerância, entre muitos outros. O desenho é da própria autora e traz outra camada de profundidade, já que é melancólico, desolador e estranhamente alinhado a atmosfera trágica. Determinadas expressões faciais específicas são guardadas para certos personagens-chave nas diversas narrativas. São rostos que confrontam o leitor, que por sua vez se sente indagado pelas personagens, gerando sensação de sermos coparticipes nesse grande teatro de horror. Mas há mais coisas no âmago da obra. A autora traz uma interpretação subjacente ao fenômeno da "caça às bruxas", e com o qual eu concordo. Há dentro da psiquê masculina um deslumbramento natural pelo sexo feminino, e isso não é apenas subjetivo, é biológico também (obviamente), porém tal deslumbramento natural, fragiliza de alguma forma a hermética e belicosa natureza dos homens. Dentro de um contexto histórico, tal deslumbramento/admiração/feitiço pela beleza e natureza femininas, é muito difícil de ser admitido, sobretudo dentro de sociedades calcadas por símbolos e estereótipos de poder masculino. Admiti-lo seria uma exposição tristemente interpretada como "fraqueza". A solução sempre foi a imposição de modelos de vida para o sexo feminino dentro dos quais a mulher deve ser mantida "controlada" e "policiada". Qualquer movimento na direção oposta seria permitir que tal beleza ou "feitiço" crescesse a tal ponto de subjugar o status quo predominante. Figuras que eventualmente destoassem deste padrão seriam estereotipadas com a marca do oculto, do subversivo e do "viver maligno". Esta tônica parece permear a antologia de Bruxas, Minhas Irmãs. Dos relatos presentes na obra Fogo na Floresta e De um Diabo a Outro me marcaram bastante, sendo o primeiro deles sobre Camille Claudel. E por falar em símbolos, Chantellier faz grande uso deles. Cada página traz diversas imagens simbólicas cuja intepretação me escapou. Para um leitor mais perspicaz é possível que a obra cresça ainda mais ao dimensiona-la no contexto destes símbolos. A Edição da Veneta tem capa dura, papel de alta gramatura e um detalhe muito bem vindo, as letras são da famosa, e querida para muitos leitores de quadrinhos, Lilian Mitsunaga.

Página da história: Eva Desloups

Página da história: Eva Desloups

domingo, 7 de janeiro de 2024

Viagem Literária - 2023


i) Uma narrativa de 1895 de tons fantásticos e profundos envolvendo 3 impostores; ii) reflexões e dicas para todo admirador da 9ª Arte; iii) o Brasil profundo em uma história que sangra em veias abertas ainda hoje; iv) um relato fascinante acerca do Brasil místico e cheio de histórias que refletem nossa própria gente; v) uma pérola da literatura mundial escrita em 1899 que sintetiza a barbárie do coração humano; vi) um passeio pelo mundo espiritual na visão de Ed & Lorraine Warren; vii) a incrível vida do brasileiríssimo José Mojica Marins, com todas as suas idiossincrasias, inconsistências, afetos e amores; vii) e por fim um relato forte e direto acerca dos acontecimento vividos em 1975 pela família Lutz no Nº 112 da Avenida Ocean Drive em Amityville, Long Island, EUA.


Publicado em 1895 e de autoria de Arthur Machen, Os Três Impostores é um livro fascinante em sua estrutura narrativa. Relatos acerca de um mistério que não apenas se completam, mas que revelam uma realidade mais profunda, fantástica e terrível por trás do cotidiano e do pueril. Um livro que para ser escrito precisou de uma habilidade que nunca vi antes em um autor. Habilidade de conexões e "costuras" narrativas com as quais nunca havia me deparado. Elogiada por mestres que ainda seriam reconhecidos ao longo do século 20 tais como, Jorge Luís Borges, H.P. Lovecraft e Robert E. Howard, a obra me marcou muito, e foi a primeira que li entre a virada de 2022 para 2023. Uma edição financiada no Catarse pela Editora Ex Machina, editora que como a Wish, Clepsidra, Melusine Ex Press, Cartola, O Grifo, Skript, entre outras, vem fazendo um incrível trabalho de apresentação de obras excepcionais e esquecidas. Um livro incrível!

Arte de André Valente presente em Balões de Pensamento livro de autoria de Érico Assis

O tradutor, escritor e jornalista Érico Assis é uma grande personalidade no mundo dos quadrinhos. Colecionando textos ao longo de anos em uma coluna para um meio de comunicação, ele compilou suas reflexões em dois livros: Balões de Pensamento 1 e 2. Nesse primeiro, dividido em sessões baseadas em características da narrativa gráfica, Érico desfila análises interessantes e pontos de vista pouco abordados nas avaliações usuais do meio. Como todo bom estudioso, com enorme bagagem dentro de uma determinada área, Érico tece críticas que me fizeram pensar e refletir, às vezes concordar, às vezes discordar. Os Quadrinhos se refere a um meio de comunicação que traz em seu bojo forte apelo emocional e afetivo, marcando profundamente os corações dos seus leitores. Isso explica nosso apego a determinados títulos e personagens que, eventualmente frágeis do ponto de vista artístico, são extremamente preciosos para nós. Daí algumas eventuais discordâncias. Um livro muito interessante e que vale a pena ler, sobretudo em função das reflexões serem como pílulas de fácil ingestão.


Para além de todos os prêmios ganhos dentro e fora do Brasil pela obra, Torto Arado é um livro muito maior que seus prêmios. Não se trata de uma obra laureada em função de um academicismo hermético, que serve muito mais para retroalimentar o hedonismo da academia e de alguns literatas. Longe disso, é uma obra que faz o contrário, nos aproxima verdadeiramente do Brasil profundo. O Brasil que está em nosso sangue, adormecido, esperando gatilhos para ser acionado. Um livro de sangue, que traz a maior força impulsionadora do homem, a força das relações humanas que impregnam nosso sangue e que, de alguma forma, se transmite para nossos descendentes. Durante minha leitura de Torto Arado entrei em um estado catártico, quase fora da realidade. As portas da minha ancestralidade foram abertas e me colocaram "fora do tempo". Algo que nos proporciona outra perspectiva do hoje. Leitura que deveria ser obrigatória à todo brasileiro, mesmo aquele totalmente contaminado pelo ilusório verniz da abjeta internacionalização superficial e mercadológica, que tratora toda cultura, individualidades e relacionamentos. Convido você a fazer uma viagem para dentro do seu próprio sangue.


Em 2010 assisti à peça de teatro Assombrações do Recife Velho em São Paulo. Fui transportado para dentro de um túnel de experiências e acionamento de memórias pessoais. O medo, o fascínio, a percepção do obscuro e a poesia se fizeram presentes. Naquele dia registrei na minha mente que um dia leria o livro no qual a peça havia sido baseada. Treze anos depois visito a obra e saio dela com a ideia concreta que a metafísica presente nas lendas, é também espelho de nossas dores, mágoas e tristezas. A obra de Gilberto Freyre é clássica e fundamental não apenas por descortinar muito de nossa herança cultural, mas também por apresentar a escuridão palpável das encruzilhadas, das meias-noite, dos sons e  das experiências inexplicáveis. Qualquer pessoa que, como eu, tenha crescido em um ambiente de fazenda, ou que tenha tido o mínimo de contato com os silêncios das noites e das casas antigas, sabe o quão palpáveis estas histórias podem se tornar. Inexplicável também são as similaridades de determinados relatos narrados no livro com os acontecimentos de outros 3 livros que já li e que não teriam como ter inspirado tais relatos nesta obra de Gilberto Freyre, uma vez que foram derivados de acontecimentos posteriores: i) 1977 - Relatos Sobrenaturais - O Caso Enfield, ii) Ed & Lorraine - Demonologistas e iii) Amityville; ou seja, Assombrações do Recife Velho guarda muito mais profundidade para além do campo dentro do qual é, em geral, apreciado e interpretado, o da sociologia.


Guardado há muito tempo em minha pilha de leitura O Coração das Trevas estava, provavelmente, aguardando eu estar pronto para sua grandeza. A obra foi publicada em 1899 e é de autoria do polonês Joseph Conrad que, aos 32 anos, em 1890, viveu uma experiência nas profundezas da selva do Congo como empregado de uma empresa extratora de Marfim. Ali, vislumbrou a profundeza negra do coração humano movido pelo lucro, ao testemunhar a dissolução completa da natureza humana e sua transformação em um amálgama de instintos cruéis junto seu semelhante. Esse vislumbre marcou profundamente Conrad, levando-o a escrever O Coração das Trevas como espelho de suas experiências brutais. Setenta e oito (78) anos depois, em 1979, outro visionário, Francis Ford Coppola, rodaria Apocalipse Now, sua adaptação particular da obra de Conrad. Coppola transportou, entretanto, a desumanização vista por Conrad nas selvas do Congo em 1890, para a Guerra do Vietnã. A trajetória desta pérola da literatura universal, que de livro publicado no final do século 19 à um dos maiores filmes de guerra já filmados, traz a importância da difícil, mas verdadeira e universal mensagem enviada por Conrad há 133 anos diretamente dos espaços profundos do Congo.


Em função das muitas especulações envolvendo o casal Warren, sobretudo com seu sucesso após a franquia Invocação do Mal (baseada nos casos investigados pelo casal) ganhar o mundo, resolvi debruçar-me sobre o primeiro livro acerca de Ed & Lorraine. Escrito pelo jornalista Gerald Brittle, conhecido por seus relatos jornalísticos acerca do sobrenatural, Ed & Lorraine Warren - Demonologistas, trata de explicar a estranha e pouco conhecida ocupação de demonologista. Lançado no início da década de 1980, o livro traz entrevistas feitas diretamente com o casal acerca de diversos casos vivenciados por eles. Mas mais que isso, a obra busca explicar i) o ofício da demonologia, ii)  a estrutura e classificação daquilo que é enfrentado por eles e iii) o sinais e sintomas da aproximação de certos fenômenos para os quais a ciência moderna não consegue explicar, mesmo passados 43 anos da sua publicação. Embora os relatos sejam vistos com ceticismo por muitos, fica difícil não se aproximar e ter empatia pelas famílias e pessoas vítimas de determinados fenômenos que, sem ter mais a quem recorrer, buscam desesperadamente o apoio de pessoas que, pelo menos não as verão como loucas. A obra é quase uma introdução aos outros 3 livros que o sucede, nos quais determinados casos são relatados de forma muito mais pormenorizada. Recomendo àqueles que se interessam sobre o tema.


Satanista (?), ocultista (?), mestre das artes místicas (?)... Felizmente para alguns, infelizmente para outros, nenhuma dessas coisas. José Mogica Marins era na verdade um artista que encontrou no cinema, mais especificamente no gênero terror, a forma de manifestar a profusão de ideias que tinha ebulindo em sua mente. Um apaixonado pela 7ª arte, pelas pessoas que o rodeavam e por qualquer forma que pudesse lançar mão para manifestar seus conceitos. Ler o livro Zé do Caixão - Maldito, dos jornalistas André Barcinski e Ivan Finotti foi uma experiência extremamente agradável em 2023. Mogica foi uma testemunha da estética brasileira ao longo das décadas, manifestou sua arte a despeito de risos, comentários maldosos e ironias, e o livro apresenta sua vida desde o nascimento. Era uma pessoa que não dava a menor bola para a opinião alheia e tinha a saudável qualidade de rir de si mesmo, o que mostrava uma personalidade livre das vaidades tão presentes em determinados núcleos artísticos. Mogica se interessava apenas em filmar. Um cineasta reconhecido lá fora e que dentro do Brasil foi rejeitado pela casta cinematográfica dominante. Exceções, entretanto, para diretores do calibre de Glauber Rocha e Luís Sérgio Person, que admiravam profundamente a visão artística e plástica de Mogica. O livro inspirou a série de TV homônima do Canal Space e é de uma fluidez maravilhosa, além de trazer imagens, fotos, cartazes e diversas curiosidades acerca da vida de Mogica. Uma obra que caso fosse adaptada em sua integralidade, renderia uma série com várias e excelentes temporadas.


Uma das histórias mais exploradas no mundo cinematográfico foi baseada no que ocorreu com família Lutz durante 28 dias entre 18 de dezembro de 1975 e 14 de janeiro de 1976 no Nº 112 da Avenida Ocean Drive em Amityville, Long Island, EUA. O livro Amityville do escritor e roteirista Jay Anson narra, a partir de entrevistas realizadas diretamente com os membros da família, o dia a dia das 4 semanas durante as quais os Lutz (George de 28 anos, sua esposa Kathleen de 30 anos, e os filhos Christopher de 7 anos, Daniel de 9 e Melissa de 5) moraram no endereço. Publicado apenas alguns anos após as experiências da família, o livro teve a chance de trazer à público passagens narradas diretamente por aqueles que as vivenciaram. Um livro necessário a todos que tem alguma curiosidade e vontade de conhecer manifestações que transcendem o ordinário, bem como a dinâmica e o processo de deterioração psíquica de pessoas que acabaram por se defrontar com o inexplicável. 

Bem amigos... Esta foi minha viagem literária ao longo de 2023. E a sua, qual foi? Deixe seu comentário! Abcs.
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