Translate

sábado, 28 de novembro de 2020

Nas Montanhas da Loucura - H.P. Lovecraft


Uma das minhas grandes e vertiginosas viagens de 2020 foi adentrar nos salões mentais de H.P. Lovecraft. Conhecido por uma legião de fãs, minhas informações acerca do escritor eram várias, porém apenas por terceiros. Aconteceu que acabou caindo um de seus contos (O TEMPLO) em minhas mãos ao ler a coletânea  Das Estrelas ao Oceano da Editora Martin Claret. A capacidade do escritor em produzir ecos de segredos milenares escondidos e insondáveis caiu como um bólido dentro de mim. O próximo e óbvio passo foi tirar da estante um outro livro do autor que há muito aguardava minha leitura, Nas Montanhas da Loucura. A edição da editora Hedra traz uma excelente e acdêmica Introdução de Guilherme da Silva Braga, Organizador e Tradutor do livro. Embora acadêmica, a Introdução é extremamente interessante e localiza bem o leitor dentro do Universo que permeia vida e obra de Lovecraft.


Escrito em 1931 mas rejeitado inicialmente, o livro foi mesmo publicado em 1936 na revista Astounding Stories. A obra mostra uma expedição ao continente Antártico, um dos lugares praticamente inexplorados à época. Narrado por um dos sobreviventes da expedição, a história cresce na perspectiva do estranho e inominável, uma vez que são encontradas ruínas colossais de uma metrópole no gelo. Mas uma metrópole estranha em sua arquitetura e idade, algo que antecede o aparecimento da espécie humana na Terra. Uma das grandes marcas de Lovecraft, e sobre a qual eu sempre havia lido, é a apresentação de seres cósmicos que, embora presentes em nosso imaginário mais rudimentar, realmente teriam sido reais. Essa experimentação de ideias do autor resgata o entendimento de que teríamos guardados em nosso DNA experiências e percepções de Eras passadas, daí nosso assombro diante desta realidade inominável.


Embora pareça um texto muito visto ao longo do século XX, estamos falando aqui da década de 30, ou seja, Lovecraft estava sendo pioneiro em uma narrativa que seria aproveitada ao extremo nas mídias vindouras. Mas a obra ainda teria algo a nos falar depois de quase um século de sua publicação? Minha resposta é sim. Isso porque mais interessante que os acontecimentos e desfecho da história (que são muito interessantes sem dúvida), é o frescor nas palavras de Lovecraft, que não escreveu apenas para contar um evento fantástico; o verdadeiro objetivo do autor transcende a história, ou seja, o que interessa é apresentar, nas entrelinhas, o mistério insondável que nos rodeia. E isso ele faz de forma poética, lírica e profunda ao conseguir colocar em palavras a sensação do ser humano diante do gigantesco, do imemorial, do desconhecido, do insondável e inqualificável. E foi exatamente esta capacidade de Lovecraft que me fisgou no conto O TEMPLO, que menciono no início do post.


Esta moldura narrativa que permeia a obra é que nos faz perceber o profundo e subliminar discurso do livro. O "fantástico" é uma ferramenta para apresentar sensações e questionamentos que o próprio autor tem, e que eu mesmo já tive acerca do que nos cerca. As questões primordiais são sobre como tudo pode ser muito maior que nós mesmos e o nosso ínfimo papel em tudo. Esta perspectiva nos abre portas para ressignificarmos os mitos e lendas à luz de uma memória humana primal, de reminiscências que sobraram dentro de nós. Uma palavra muito usada ao longo do livro é o termo "éon". Um éon é o que os geólogos chamam de a maior subdivisão de tempo na escala geológica. As Eras que conhecemos (ex.: Cenozóica, Mesozóica, Pré-cambriana...) compõem 1 éon. Isso quer dizer que a soma dos éons é aquilo que mais se aproxima da eternidade em termos de mentalidade humana. Os achados da expedição em Nas Montanhas da Loucura datam de éons ancestrais.


Há uma sutil sensação de perda e luto que permeia o livro... E para definir esta sensação as melhores palavras são da laureada escritora norte americana Joyce Carol Oates que escreve o seguinte na quarta-capa da edição da Editora Hedra:

"Existe uma grandeza melancólica e operística em Nas Montanhas da Loucura; uma curiosa poesia elegíaca de perda inefável, de desespero adolescente, e uma solidão existencial tão profunda que permanece na memória do leitor, como um sonho, por muito tempo depois que os rudimentos do enredo lovecraftiano se apagam" - Joyce Carol Oates.

Terminei de ler o livro já há algumas semanas, e os detalhes do enredo já começam a se esvair de minha mente, mas o que Joyce escreve acima é a mais pura verdade; ao lembrar de Nas Montanhas da Loucura sinto um sopro gelado de um vento antigo que tenta limpar as camadas mais profundas da minha mente em busca de segredos ancestrais escondidos...

sábado, 14 de novembro de 2020

Pílula Gráfica #2: Bowie - Stardust, Rayguns, Moonage Daydreams (2020)


Uma obra lançada em 2020 que, infelizmente, pareceu correr totalmente "por fora" do mainstream editorial foi Bowie - Stardust, Rayguns, Moonage Daydreams. Mesmo que não se tenha referências completas acerca de David Bowie e sua música, esta obra é essencial para qualquer fã ou estudioso do que aconteceu no fértil cenário fonográfico e cultural na 2ª metade dos anos 60 no Mundo. Escrita pelo fã Steve Horton, fiquei impressionado com a narrativa escrita e gráfica da obra, esta última pelo desenhista e também fã Michael Allred. Bowie não poderia ter recebido homenagem melhor ao ter sua vida contada de forma alinear e relativamente fragmentada. Todos os personagens encarnados em seus discos estão ali, Major Tom, o andrógeno Ziggy Stardust, Alladin Sane, Hallowen Jack, ... entre outras personas que erupiram do interior do inquieto músico. Steve Horton mostra o processo criativo de Bowie e a forma como ele enxergava sua música, ou seja, como um canal que transcendia a comunicação verbal ao transmitir de forma subliminar sentimentos e verdades incomunicáveis. Mesmo que o conhecimento do leitor sobre Bowie seja baixo, todo panteão da música sessentista está na obra em função dos diversos contatos que o músico teve com lendas como Lou Reed, Iggy Pop, Mick Jagger, Elton John, Alice Cooper... O tsunami Bowie inundou até mesmo outras praias culturais, como é mostrado, por exemplo, no curioso encontro do músico com a lenda do cinema Christopher Lee (o maior interprete de Drácula de todos os tempos, em minha opinião) e com o grupo inglês Monty Python. Ao ler Bowie - Stardust, Rayguns, Moonage Daydreams não há como não se deixar invadir pelo forte universo onírico, cósmico e lisérgico do artista. Um dos pontos altos de 2020!!






Bowie contempla (talvez em sua própria mente) as várias personas que viria a encarnar

sábado, 7 de novembro de 2020

O Mundo de Black Hammer de Jeff Lemire


Qualquer leitor de quadrinhos com um certo tempo de estrada sempre tem esperança de encontrar um novo roteirista que represente novamente os elementos que tanto nos encantam dentro da 9ª Arte. Especificamente dentro do segmento "super-heróis", muito já se tentou e, para mim, os maiores equívocos ocorreram quando o roteiro foi diminuído em detrimento da arte (anos 90), ou então quando quiseram usar de violência gratuita, mortes ou mesmo eventos cada vez mais cataclísmicos para angariar leitores. De vez em quando porém, determinados artistas entendem que o que fascina está no drama pessoal emoldurado por uma boa dose de aventura, mistério e porque não uma dose de violência desde que enquadrada em um contexto dramático. Jeff Lemire tem sido um roteirista que, sobretudo em seus trabalhos autorais, tem mostrado um talento incrível para criar e re-imaginar conceitos sob a perspectiva do mágico e fantástico. Black Hammer, série autoral de Lemire, foi publicada no Brasil pela editora Intrínseca em 4 volumes entre 2018 e 2020, e é uma série assim. Que respeita o passado super heroico das HQs, homenageia pessoas e personagens importantes e ainda assim entrega novos conceitos.


Seria muito difícil um fã de quadrinhos de super heróis se identificar de cara com a imagem acima, que parece muito mais relacionada com um quadrinhos de terror ou horror. Mas não se engane, Black Hammer é sim uma obra fascinante que tem tudo a ver com super-heróis. E quando falo super heróis me refiro ao conceito mais clássico do termo, ou seja, aquele ligado ao super herói da Era de Ouro e de Prata. Aquele herói sem as dúvidas que assolariam os super-seres nas Eras de Bronze e Moderna dos Quadrinhos. Quando comecei a ler Black Hammer fiquei de certa forma incomodado com uma coisa, a arte de Dean Ormston, um artista cujo traço está mais para o terror do que para as chamativas e coloridas imagens dos super-heróis. Mas eu não podia estar mais enganado. Logo passei a entender que a arte de Ormston é perfeita para a história, que apresenta o conceito do herói clássico de uma forma ligeiramente distorcida, e o traço de Ormston acompanha esse conceito dramático a partir de uma distorção estética. E isso dá a profundidade que Jeff Lemire quer aos dramas dos personagens. Dean Ormston é um desenhista que foi acometido por uma lesão cerebral durante seu trabalho ao longo da publicação de Black Hammer, e passou por um longo tempo de reabilitação até retomar uma funcionalidade motora que o permitiria continua-la. Por isso alguns trechos da história são desenhados por outros artistas. O leitor, porém, não vê a hora do traço de Ormston retornar ao longo da narrativa.


Abraham Slam, Menina de Ouro, Madame Libélula, Coronel Weird, Barbalien e a andróide Talky-Walky são os heróis de Black Hammer. O nome Black Hammer, aliás, pertence a um super herói que tem um importante papel na narrativa mas que está morto já desde o início da história. A sinopse básica gira em torno dos seis heróis acima que foram transportados, ao final de uma ferrenha batalha contra uma entidade maligna chamada Anti-Deus, à uma fazenda dentro de uma estranha realidade. Os heróis já estão naquele local há dez anos e não conseguem escapar dos limites daquele território. O herói Black Hammer foi o único que tentou escapar e morreu imediatamente ao atravessar o que parece ser uma barreira. Os personagens chegam a pensar que estão mortos, num purgatório, ou simplesmente foram condenados por algum motivo e sua pena seria permanecer naquele estranho lugar. Perto da fazenda há uma pacata cidade que nada mais é do que uma clássica representação das cidades interioranas dos EUA.


Cada personagem tem seu drama pessoal, como por exemplo o da Menina de Ouro, codinome da personagem Gail, que quando ganhou seus poderes ainda era uma menina. Ao pronunciar a palavra "Zafram", Gail ganha superpoderes. Em seu estado superpoderoso Gail é sempre uma menina, porém quando voltava ao normal seu corpo foi, com o passar dos anos, envelhecendo normalmente. O problema é que Gail já tem 55 anos, e foi aprisionada na fazenda em seu corpo superheróico de menina. Para manter as aparências ela tem que se passar por neta de Abraham Slam, sendo que na verdade já é uma senhora. Outros dramas também aparecem, como o do marciano Barbalien que é homosexual e tem uma vida marcada pela solidão de amores não correspondidos. Uma das personagens que mais gostei foi Madame Libélula, que está sempre reclusa em sua cabana dos horrores.


É impossível não identificarmos nesses personagens os clássicos herois ou vilões da Marvel e DC. Barbalien é o Caçador de Marte, Menina de Ouro é uma versão de Shazam, Abraham Slam é uma mistura de Capitão América com Demolidor, o Coronel Weird é, sem dúvida nenhuma, uma junção de Adam Strange com os exploradores espaciais dos pulps. O próprio Anti-Deus é como se fosse Darkseid. A questão é que Lemire faz questão que vejamos essa similaridade em seus personagens. Ele emula, aliás, até mesmo palavras e uniformes para que não tenhamos dúvida de que seus heróis são referências aos clássicos. E quanto mais fazemos esta identificação, mais a histórias ganha contornos interessantes e estranhos. Não posso deixar de falar também das diversas referências que saltam de cada página. O leitor poderá ver diversos outros personagens e obras do mundo "nerd" representados. Aqui vai alguns deles: personagens da Saga do Quarto Mundo de Jack Kirby; os Perpétuos de Neil Gaiman; os clássicos do horror das revistas Creepy e Eerie; a fantástica série de Rod Serling de 1959 The Twilight Zone (Além da Imaginação no Brasil)... entre outras referências que emolduram a história e conferem densidade à trama.

Poster by Conner Herbison

De uma maneira muito curiosa passamos a aceitar a estranheza dos 6 heróis de Black Hammer, que vão ganhando cada vez mais veracidade e vida própria ao longo da trama. Isso porque Lemire nos narra, em forma de flash-back, um pouco do passado de cada um. À semelhança de outras obras do autor, caso de O Soldador Sub-Aquático, Black Hammer possui uma melancolia sutil em cada cena. Essa sutil tristeza não é gratuita, e o leitor é capaz de perceber densidade nela. Isso é talvez um dos segredos da obra. Não pude deixar de lembrar de algumas obras de Alan Moore, como por exemplo Supremo - A Era de Ouro e Supremo - A Era de Prata. Duas obras que possuem a mesma homenagem às HQs clássicas e são recheadas de uma releitura adulta de conceitos infanto-juvenis. Apesar da aparente similaridade, no entanto, Lemire tem seu brilho próprio e nunca descamba para o negativismo terminal e inescapável. Talvez por isso, haja uma docilidade muito concreta na sua narrativa.

Black Hammer homenageira diversos aspectos clássicos da 9ª Arte.

Recentemente fiquei sabendo que Jeff Lemire aceitou fazer um crossover entre os universos de Black Hammer e da Editora DC. Sempre fui muito avesso à crossovers entre universos e editoras. Eles sempre me cheiraram como "caça-níqueis". Mas fiquei muito curioso acerca deste porque Lemire não precisava tê-lo aceito, sobretudo em função do lugar consolidado que ocupa atualmente no mundo dos quadrinhos. Por isso estou muito interessado. Black Hammer ganhou o prêmio Will Eisner de melhor série original em 2017. Merecido!!

domingo, 25 de outubro de 2020

O Homem Que Ri - Victor Hugo


Embora criticada (justamente ou injustamente não sei ao certo dizer) por algumas traduções, a Editora Martin Claret trouxe já há algum tempo ao Brasil uma nova edição do livro "O Homem Que Ri" de Victor Hugo (Os Miseráveis, O Corcunda de Notre Dame). Lançado em 1869, o livro foi adaptado para o cinema em 1928 no filme homônimo "O Homem Que Ri". No filme, tal como no livro, vemos o drama de um homem (Lorde Gwynplaine) que, por ordem do Rei, passa a ostentar a estranha deformidade de um imutável sorriso. O papel de Gwynplaine no filme de 1928 ficou eternizado pela atuação do ator alemão Conrad Veidt (Hans Walter Konrad Veidt). A atuação de Veidt é tão assustadoramente perfeita que inspirou Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson em 1940 a criarem outro personagem que se manteve relevante até hoje por representar o caos, a anarquia e a distopia: O Coringa (The Joker) da editora DC. As semelhanças físicas entre Veidt e os conceitos originais do Coringa são incríveis. Mas para além das curiosidades, "O Homem Que Ri" faz jus ao legado de Victor Hugo como escritor universal que sempre conseguiu expor as hipocrisias, contradições e potencial de redenção do ser humano. Parabéns à ediotra Martin Claret!!








domingo, 4 de outubro de 2020

Pílula Fílmica #11: Assalto ao 13º DP (1976)


A indústria do cinema sempre teve, assim como qualquer outro tipo de indústria, o chamado segmento "B". O mais interessante desse segmento é a liberdade que diretores e roteiristas desfrutam ao estarem parcialmente descolados do circuito comercial e livres das demandas de burocratas que estão mais interessados nas bilheterias milionárias do que nas questões subjacentes à obra. John Carpenter é um cineasta incrível por sua obra marginal e de resistência. Filmando com boas ideias na cabeça e um orçamento ínfimo, Carpenter mostrou várias vezes seu brilhantismo em filmes que, apesar de despretensiosos, são verdadeiros espelhos de seu tempo. Assim é com Assalto ao 13º DP. Um filme que narra (quase que em tempo real) o ataque de uma gangue à uma delegacia praticamente desativada. Carpenter expande sua visão ao demonstrar não ter nenhum pudor de ser reconhecido como diretor de filmes de baixo orçamento. E essa honestidade faz de suas obras uma experiência autêntica para o expectador. O filme possui uma refilmagem de 2005, porém é a versão original de 1976 que consegue representar de forma muito autêntica o violento ambiente que algumas cidades experimentaram no final dos anos 70 em função do fenômeno das gangues. As gangues eram verdadeiras estruturas de poder que arrebanhavam jovens sem horizonte social e econômico, e que se viam compelidos a agredir o status quo. Carpenter não tenta (e também não quer) criar nenhum diálogo ou julgamento moral/social subjacente ao filme. Apenas quer mostrar um acontecimento que poderia ter passado despercebido na periferia de uma cidade, mas que pelo seu caráter violento ganha proporções enormes dentro do microcosmo dos personagens. Assalto ao 13º DP é John Carpenter em sua mais perfeita expressão. Não pude deixar de lembrar de Warriors - Os Selvagens da Noite. Outro filme que desnuda a violência das ruas e que dialoga muito bem com Assalto ao 13º DP. Filmes assim passam para o panteão dos cults por destilarem perfeitamente o espírito de uma época.



domingo, 20 de setembro de 2020

Astro City - Vol. 04 - O Anjo Maculado


A estética "Noir" nasceu para designar um subgênero de filme policial que buscava narrar a decadência humana em um cenário urbano de desesperança. Mas evoluiu e se expandiu para diversas expressões artísticas. Buscando o contraponto entre luz e sombra, a visão Noir buscava discutir o espírito humano quebrado e sem esperança. Daí os personagens que sempre orbitaram o gênero: prostitutas, policiais corruptos, falsários, jogadores, golpistas e os mais variados tipos de facínoras. Mas justamente ao apresentar este mundo da sarjeta e sem esperança, muitas dessas obras ofereciam redenção a partir da honestidade que os personagens passavam a ter consigo mesmos. Ao admitirem a própria culpa e caráter, tais anti-heróis ou, anti-heroínas, passavam a flertar ou sonhar com a redentora simplicidade da vida comum. Muitas vezes a nódoa do passado não deixava esses homens e mulheres se libertarem de suas vidas de crime ou de suas tristes existências. Esta nódoa continuava perseguindo-os e puxando-os para baixo. Pois bem... É dentro deste mundo alquebrado, sujo e sem esperança que se constrói a vida da Carl Donewicz. Um super-vilão que experimentou no passado longínquo uma certa respeitabilidade no mundo do crime, mas que amargou 20 anos em uma prisão. Estamos falando do Homem Blindado de Aço, ou simplesmente Blindado, o personagem central do 4º encadernado de Astro City no Brasil.

Astro City Vol. 1 - #14
Astro City Vol. 1 - #14

Lançado em um único encadernado aqui no Brasil pela Editora Panini (Astro City Vol. 04), a epopeia de Blindado saiu lá fora em 1998 do número 14 ao 20 da revista Kurt Busiek´s Astro City, continuando a bem sucedida saga da cidade Astro City. Um universo criado e desenvolvido por Kurt Busiek e vencedor de diversos prêmios. A história de Carl Donewicz ou simplesmente Blindado se inicia quando sua sentença de 20 anos de prisão finalmente chega ao fim. Mas o homem que emerge da prisão retorna para a sociedade não em busca de vingança, mas sim de paz apenas. Não há raiva dentro de Carl, talvez apenas uma profunda fatiga emocional e uma grande vontade de ficar só consigo mesmo e com suas recordações. Não é à toa que o desenhista oficial da série, Brent Anderson, buscou retratar Blindado com as feições do ator americano Robert Mitchum, com seus "olhos inchados e sua atitude de cansado da vida", conforme as próprias palavras de Kurt Busiek nos extras do encadernado. Astro City é uma obra-prima em vários sentidos, e já comentei isso em outras matérias aqui no Blog sobre os volumes 01, 02 e 03 lançados pela Editora Panini no Brasil. O Anjo Maculado mantém a mesma premissa dos volumes anteriores, ou seja, de se escrever sobre super-heróis e super vilões como se realmente existissem em nosso mundo. 

Astro City Vol. 1 - #15

Minha expectativa em relação à Astro City sempre foi alta. Mas quando vi a temática desta série do Blindado, fui logo fisgado. Acredito muito que o que importa na vida são as coisas que a maioria de nós acaba não dando muita atenção. Sobretudo nos dias atuais de "culto à imagem e à forma". É por isso que a temática central da estética "Noir" sempre me fascinou, ou seja, o ser humano que descobre sua fragilidade, vícios, virtudes e começa o longo caminho da aceitação pessoal e redenção. É dentro desta perspectiva que Busiek desenvolve a história de Carl Donewicz, que logo percebe a impossibilidade de se reintegrar à sociedade dado seu histórico. Assim, ele começa a se ver impotente diante do assedio daqueles que continuam acreditando na vida de crimes. A única ocupação que lhe resta é então aceitar um trabalho como investigador das mortes de diversos vilões que já estavam aposentados.

Astro City Vol. 1 - #16

Por conta desta investigação vemos desfilar ao longo das páginas uma galeria de vilões que, tal como Carl, viram a vida escorrer por seus dedos. Sonhos que não se realizaram, golpes e roubos sempre fadados ao fracasso pela intervenção dos super-heróis. Esta perspectiva do vilão é de certa forma muito inovadora. Kurt Busiek tenta dissecar as motivações de tantos vilões que, mais do que uma vilania inata, eram motivados (talvez) por um desajuste junto ao status quo vigente. Uma dificuldade de se enquadrar no formato social aceito. Obviamente que há os vilões que possuem uma motivação essencialmente maligna, mas há aqueles que sonharam alto fora dos caminhos socialmente aceitos.

Astro City Vol. 1 - #17

A ambientação da história é muito concreta. Por alguma razão, todos párias e supervilões aposentados e em fim de carreira acabaram se concentrando no lugar que, historicamente, sempre fora o mais barra pesada de Astro City, o Bairro onde fica a Praça Kiefer. Um local que até já viveu seus dias de glória de banditismo, mas hoje é apenas um bairro onde muitos antigos vilões tentam afogar as mágoas e ainda manterem suas famílias. É para este lugar que Blindado retorna, já que foi ali que cresceu e ali que virou quem é. O Bairro orbita a praça, e a praça abriga um cemitério, lugar onde a maioria de amigos e parentes estão enterrados, inclusive a mãe de Blindado. É esta concretude na ambientação que ajuda o leitor a se identificar mais ainda com o drama de Blindado e de seus "amigos".

Astro City Vol. 1 - #18

Outro ponto que não posso deixar de comentar é a visão que Blindado tem dos super-heróis, principalmente do principal grupo de super-heróis de Astro City, a Guarda de Honra (uma espécie de Liga da Justiça do universo do universo ficcional de Astro City). Diferentemente do que se poderia esperar, a visão de Blindado acerca do super-heróis não é de rancor. Fica claro que ele já passou dessa fase há muito tempo. É uma visão que chega a ser de admiração por terem escolhido o caminho que talvez fosse o mais difícil, o de construir algo lentamente em benefício do próximo, e não optarem pelo ganho fácil em benefício próprio. Isso pode soar "piegas", mas a forma que Busiek construiu Blindado nos faz crer realmente na sua sinceridade em relação a esta visão.

Astro City Vol. 1 - #19

Nesta perspectiva de certa admiração de Blindado pelos super-heróis, o leitor chega a se ressentir pelo fato dos heróis continuarem enxergando Blindado como alguém incorrigível e sem possibilidade de redenção. A maioria deles está sempre com "os dois pés atrás" em relação a reabilitação do ex- presidiário. Isso mostra o quanto uma visão maniqueísta de mundo pode atrapalhar a aproximação de pessoas. Mas não espere um desfecho cheio de glória e reconhecimento pelos sacrifícios de Blindado, e aqui está novamente um acerto de Busiek, ou seja, no mundo real dificilmente você consegue apagar o passado. O que conseguimos apenas é seguir em frente. Ao optar pela visão mais realista, Busiek trás densidade para a história.

Astro City Vol. 1 - #20

O encadernado da Panini vem com interessantes extras nos quais Kurt Busiek comenta um pouco os personagens. São comentários muito interessantes. E para quem não sabe, Busiek enfrentou muitos problemas de saúde ao longo de toda a saga de Astro City. Sua insistência e perseverança para manutenção da história tem sido um grande exemplo. E não esqueçamos que ele está por trás de uma outra HQ imortalizada na 9ª arte, MARVELS. Espero que a Panini continue a publicação de Astro City. Os quadrinhos precisam de histórias como essa para nos lembrar porque gostamos tanto de HQs.

Robert Mitchum

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Vida fora da Terra


Hoje tive a oportunidade de ter uma rápida, mas excelente conversa com um amigo acerca do livro do físico Don Lincoln (FarmiLab - EUA) intitulado Universo Alien. No capítulo 6 do livro Don traz uma ótima explanação acerca dos elementos químicos básicos para surgimento de vida inteligente e porque, depois do carbono, o silício seria o elemento químico mais promissor como base para a vida (algo usado inclusive em um episódio da Série Star Trek versão clássica). Mas o mais interessante é quando é citado no capítulo 7 a antiga equação do radioastrônomo Frank Drake do Observatório Nacional de Radioastronomia de Green Bank Virgínia - EUA. Na equação de Drake são considerados (com seus respectivos pesos) os elementos necessários para surgimento da vida (taxa média de formação de estrelas (R), fração dessas estrelas que possuem planetas (fp), número médio de planetas que poderiam sustentar vida (ne), fração desses planetas habitáveis para desenvolvimento da vida (fl) entre outras variáveis dependentes). O fato é que a equação de Drake de 1960 mostra uma possibilidade ínfima de existência de vida fora da Terra. A conclusão que chegamos, no final das contas, é que Isaac Asimov é que fez a aposta mais certa em sua Saga da Fundação (publicada entre 1952 à 1986). A vida fora da Terra seria mesmo resultado da expansão da humanidade pelo Cosmos. Isso, claro, se conseguirmos suplantar a adolescência da espécie na qual nos encontramos.

Figura 6.12 do Livro Universo Alien de Don Lincoln.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...