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domingo, 5 de dezembro de 2021

Pílula Gráfica #14: Bad Mother - (2021)


Uma HQ fechada, violenta, eletrizante, realista e honesta com o leitor. Às vezes o ordinário pode ser mais perigoso que o extraordinário... Isso porque é no dia-a-dia que se acumulam nossas insatisfações, frustrações, danos e agravos pessoais. E desse caldo interior surgem personagens como Walter White, o pacato professor de química que se vê diante da finitude nas mãos de um câncer e, com isso, traz à tona seu verdadeiro "eu" na série Breaking Bad, ou então o William Foster do filme Um dia de Fúria de 1993, interpretado pelo ator Michael Douglas. Um funcionário comum e burocrático de alguma repartição empresarial pública ou privada que se vê vilipendiado e menosprezado todos os dias pelo sistema (mídia) e pelas pessoas à sua volta. Até que um simples engarrafamento faz dele uma "bomba ambulante humana". Em Bad Mother a sensacional roteirista Christa Faust traz à tona o dia-a-dia comum de April Walters, uma mãe de meia idade que se vê às voltas com a difícil relação com a filha adolescente, ao mesmo tempo que observa seu corpo não caber em mais nenhuma peça de liquidação das lojas do subúrbio em função dos quilos a mais que a maternidade e a idade gera. Cenas e situações comuns? Sim... Mas um "comum" que nos faz deixar passar a índole e a tenacidade verdadeiras das pessoas que nos rodeiam. E quando se fala em proteger filhos e filhas... Bom... Aí o "sapato aperta" e o "caldo entorna"... Porque o instinto materno é visceral, violento e ancestral. Um instinto reptiliano e primal. É desse cenário que Christa Faust constrói uma história violenta e arrebatadora por mostrar o que se esconde por debaixo do verniz social. Christa vai além ao mostrar a "mulher" em seus instintos e poderes mais básicos e poderosos. A capacidade inata que toda mulher tem de ser "feminina", "atraente" e "violenta" não importando seu peso corporal, sua conformidade ou não com o modelo socialmente aceito de beleza... E são exatamente essas características que são poderosamente atraentes, fascinantes e amedrontadoras para qualquer homem. A protagonista de Bad Mothher (April) vê sua filha ser inadvertidamente arrastada para uma trama envolvendo drogas, corrupção de pessoas e violência. Tudo associado à uma organização gerida por ninguém menos que uma outra mulher. Endinheirada, com um corpo quase perfeito e "na crista da onda social", essa matriarca do crime parece ter sido alçada à essa posição por, no passado, ter sido a esposa de um poderoso chefão do crime. Ardilosa, violenta e totalmente sem escrúpulos, será com esta chefe do crime que a comum April terá que "bater de frente". Christa consegue manter esse enfrentamento dentro de patamares reais, sem trazer situações muito mirabolantes para resolver as perigosas situações da história. Uma história que apesar da violência é muito sensível ao abordar temas à que estamos tão ligados em nosso dia-a-dia: família, segurança, criação de filhos, envelhecimento, matrimônio... Bad Mother é Excelente e é "tiro-porrada-e-bomba" da melhor qualidade literária!!





domingo, 28 de novembro de 2021

Pílula Gráfica #13: Nathan Never - Futuro Duplo - (2021)


O primeiro personagem da Editora Bonelli que conheci foi Tex, o segundo foi Nathan Never. Como aficionado que sou por ficção científica, Nathan Never se tornou um dos meus preferidos, seguido logo atrás pelo Ranger Águia da Noite. Minha discreta preferência por Never não ocorre apenas por ele viver suas histórias a partir da ótica sci-fi, mas sobretudo por ter suas aventuras contadas em um ambiente que mistura distopia à uma ambientação Noir. Não há como não perceber, pelo modo de agir do personagem uma discreta, mas ao mesmo tempo profunda, melancolia. Um sentimento que, ao ser associado à constante busca inconsciente pela redenção de pecados passados, cria a atmosfera perfeita para a ambiguidade moral e complexidade das tramas. Nesse aguardado volume Nathan Never - Futuro Duplo, a Editora Graphite nos traz uma obra que define muito bem a natureza do herói. Com um acabamento em capa dura, verniz localizado, excelentes resenhas e papel de ótima gramatura, a edição faz jus à importância de Nathan dentro do Universo Bonelliano. O autor da trama, Antonio Serra, parece ir por caminhos óbvios nas primeiras páginas, mas logo mostra a maravilhosa complexidade de sua trama, que se desenvolve em futuros distintos. Com isso ele rapidamente se descola de enredos já utilizados no passado e vai além. Serra consegue homenagear séries e filmes do passado associando-os à um roteiro cheio de vitalidade, de maneira que o leitor consegue ver suas amadas obras de sci-fi representadas dentro de algo cheio de vigor. Em um dos extras da edição, o próprio autor se antecipa às eventuais críticas acerca das homenagens que faz ao dizer o quão difícil é escrever sobre um tema tão explorado até então (e olha que ele escreveu a obra na década de 90). E é justamente isso que chama a atenção, ou seja, sua obra conseguiu sobrevier ao teste do tempo de maneira vigorosa e ainda relevante. O tratamento dado pela Graphite ao material é de fã para fã, e os extras contextualizam muito bem a dimensão e o alcance da história. Não à toa a Graphite está se tornando a casa do personagem no Brasil. Originalmente publicada na Itália na série Nathan Never Gigante #1, aqui no Brasil esse lançamento foi financiado através da Plataforma Catarse. A impressão que eu tenho é que a base de fãs brasileira de Nathan Never não é tão gigante a ponto de permitir um financiamento ultra rápido, o que fez com a edição saísse dentro de um prazo mais alongado. Isso (infelizmente) nem todos entendem, ou seja, que é necessário uma estratégia de lucro a partir do dimensionamento do personagem no país, o que faz que cada obra tenha seu prazo para ser financiada, lançada e ainda seja sustentável. Vi com tristeza alguns comentário nas redes sociais acerca da demora para que a edição chegasse aos fãs. Embora eu entenda a vontade de se ter logo o exemplar chegando em casa, é preciso que consigamos amadurecer enquanto colecionadores e consideremos as diversas facetas que envolve a produção e o lançamento de uma HQ com um acabamento adequado. De qualquer forma desejo vida longa à Nathan Never no Brasil, e que permaneça nas mãos de quem curte o personagem tanto quanto eu.








quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Pílula Gráfica #12: O Astronauta - (2021)


A canção Nave Errante de autoria do músico Guilherme Arantes foi lançada em 1976 no disco homônimo "Guilherme Arantes". Nessa música a letra diz "Minha casa é uma nave; E eu trafego só; Sem contato com viv'alma; No silêncio frio das trevas...". Como que a ecoar esta canção Lourenço Mutarelli e o artista Fernando Saiki fizeram uma obra singular para dizer o mínimo, O Astronauta. Um dos lugares mais incríveis que se tem para viajar, desde que se tenha a imaginação como guia, é nosso lar. Nele conseguimos nos refugiar e facilmente transforma-lo em uma nave errante. No mundo atual, utilitarista, hedonista e recheado de conselhos superficiais e supérfluos acerca da necessidade de se expor continuamente, o modo de vida pessoal introspectivo possui pouco apelo. Mas eis que uma obra retorna às prateleiras para dizer o contrário. O Astronauta é uma viagem interna ao universo pessoal do autor, que abriu seu apartamento e serviu de "modelo" para as fotografias de hiper-realismo fantástico do fotógrafo Flávio Moraes. Feita de reminiscências e reflexões pessoais de Mutarelli, O Astronauta pode parecer uma HQ sobre "nada", mas isso é exatamente o que o autor quer que você pense, pois no final é sobre "tudo". Sobre memórias, inconsistências, evolução, frustação, introspecção... Ao enxergar sua própria casa como um universo à parte, Mutarelli me fez mergulhar dentro do meu próprio universo (como às vezes faço) atrás de significados cotidianos. O artista Fernando Saiki fez um trabalho hercúleo ao traduzir para a xilogravura as fotos de Moraes. E ao fazê-lo conseguiu criar a atmosfera onírica perfeita para o mergulho interior de Mutarelli. O efeito das xilogravuras no leitor o leva à uma vivência visceral com a história. Os indefectíveis objetos identificados no apartamento de Mutarelli (reproduzidos fielmente por Sakai) me causaram a estranha sensação de estar enxergando-os na sua essência primordial. A lixeira da cozinha, o cinzeiro, os móveis, a cafeteira, os botões do fogão... Tudo tão brasileiro, tudo tão familiar à nossa cultura, mas ao mesmo estranhos ao serem contemplados em outra perspectiva! O efeito é lisérgico e profundo. A experiência vivida pelo protagonista ao longo da história, no caso o próprio Mutarelli, é de neurose e ao mesmo tempo transcendência. Lançada em 2010, a obra ganha reedição pela editora Comix Zone que fez um caprichado projeto gráfico valorizando nos extras as fotos originais de Morares, além de trazer um card/postal com a capa. Insólito e ao mesmo tempo curioso, O Astronauta é uma obra para se revisitar esporadicamente para se reter outras nuances, outras imagens, outras sensações... da concretude da chama acesa em uma das bocas do fogão, ao isolamento de um sofá vazio que dá toda dimensão de um espaço sideral imenso e profundo. Na "chamada" da Editora, há uma associação da obra com os sentimentos causados pelo isolamento social imposto pela pandemia de COVID-19 nesses últimos dois anos. Talvez uma tentativa da editora de alinhar a HQ com o nosso tempo. Acho que essa associação é válida, visto que muitos foram forçados a vivenciarem experiência semelhante à do protagonista em suas vidas nesse estranho tempo em que vivemos. O Astronauta é ímpar e singular em sua estranheza, beleza e transcendência.




segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Pílula Gráfica #11: Ken Parker #1 - (2021)

2021 tem sido um ano de anúncios extraordinários para o leitor de quadrinhos brasileiro. Além da volta de Storm ao Brasil pela Editora Tundra, do recente anúncio do retorno de Corto Maltese de Hugo Pratt pela Editora Trem Fantasma e das diversas obras publicadas de mestres como Alberto Breccia (Ninguém, Viajante de Cinza, Um Tal Daneri, Perramus...) e Sérgio Toppi (O Colecionador, Fábulas do Velho Mundo, Tanka), tivemos também a volta de Ken Parker pela Editoria Mythos. Infelizmente para mim, conheci tardiamente a riqueza do Universo Bonelliano, mas mesmo apesar do meu desconhecimento, Ken Parker sempre esteve em meu radar em função das excelentes análises que sempre li sobre o personagem. Com tantos elogios uma obra sempre corre o risco de estar superestimada. Mas definitivamente não é o caso de Ken Parker. Criado em 1977 pelo roteirista e desenhista Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, respectivamente, a obra que narra a história de Keneth Parker atinge graus de realismo, dramaticidade e poder narrativo impressionantes. O leitor se deparará com uma realidade na qual Berardi não faz concessões ao expressar a dureza da violência e a complexidade das relações humanas norteadas por questões políticas, étnicas e territoriais no ainda fragmentado Estados Unidos do pós Guerra da Secessão (1861-1865). Conflito no qual o Norte (progressista) confronta os Estados Confederados do Sul (ainda resistentes ao progresso e, sobretudo, libertação dos escravos). Ken se difere dos diversos outros personagens dos Westerns ao ser confrontado com questões que o colocam constantemente em cheque, e dentro das quais ele tenta tomar a melhor decisão possível (muitas vezes equivocadas), mas sempre com a humildade de revê-las. O assassinato do seu irmão mais novo nas primeiras páginas da 1ª História da série passa a influenciar profundamente a decisão de Parker a ficar ao lado de pessoas mais fracas. Mas nada é tão simples, pois a ambiguidade das ações do homem branco é sempre um desafio para qualquer homem de bem. As cenas e os desfechos são poderosos e causam forte comoção no leitor. Não pude deixar de ficar sem saber para quem "torcer" nas duas primeiras histórias deste número 01 da Editora Mythos (que se propõe a publica-las em ordem cronológica). Isso porque as ações de índios e homens-brancos são difusas se analisarmos o complexo pano de fundo. Se adotarmos uma base moral simplista, será muito difícil entender na sua totalidade a profundidade de Ken Parker. A ambientação é excelente ao apresentar locais conhecidos dos amantes dos filmes de faroeste. Também não pude deixar de ver o personagem Ken Parker como uma mistura de Daniel Boone (1734-1820 - explorador estadunidense), Henry Thoreau (1817-1862 - naturalista, filósofo e autor da maravilhosa obra WALDEN) e John Muir (1838-1914 - explorador e escritor escocês-americano). Outro ponto que diferencia muito a obra é o fato de que Ken Parker experimentará a passagem do tempo ao longo das edições, mudando seu físico e posições acerca das coisas que o cercam. Berardi/Milazzo inovam ao decidir pela finitude ficcional do personagem. Isso aproxima o personagem do leitor, no entanto, acaba por impor um fim à trama no futuro. Mas assim é a vida real também. Se você quer conhecer uma série de extrema qualidade, adulta e totalmente fora do lugar comum, você precisa conhecer Ken Parker.




sábado, 2 de outubro de 2021

Pílula Gráfica #10: Coleção Clássica Marvel #1 - O Espetacular Homem-Aranha - Vol. 01 (2021)


Todos conhecemos o Homem-Aranha em seus diversos aspectos: seu humor, sua vida conturbada ao se equilibrar entre o super heroísmo e a vida comum, suas dores e perdas, e principalmente seus poderes. No entanto, uma análise mais detalhada sobre o personagem em sua concepção inicial, suas primeiras histórias e, principalmente, os elementos que tanto cativaram logo "de cara" uma legião de fãs, é um exercício que só poderia ser feito de forma adequada a partir de uma leitura cronológica. Embora alguns dos elementos que citei acima já estivessem presentes nessas primeiras aventuras, há coisas diferentes que causariam surpresa mesmos aos fãs mais ardorosos. Uma época em que o Amigão da Vizinhança ainda estava livre de diversos estereótipos que, com o passar do tempo, forçariam muitos roteiristas a aborda-lo dentro de um cânone. A possibilidade de observar o herói logo no início sempre foi uma experiência para poucos dado a necessidade que comentei acima de se ter as edições em ordem cronológica. Eu mesmo, apesar de ser fã do personagem, nunca tinha me deparado com o Peter Parker original, aquele que nem sabia que se tornaria um fenômeno dentro e fora da 9ª Arte. Na verdade nem seu roteirista (Stan Lee) e desenhista (Steve Ditko) sabiam muito disso. A Coleção Clássica Marvel, iniciada este ano, está permitindo a possibilidade de se embarcar em uma "Máquina do Tempo" e "zerar" nossa mente para os conceitos que foram gradativamente sendo inseridos nos "medalhões" da Casa da Ideias, sempre adicionando uma camada a mais a cada um. As histórias da coleção apresentarão os personagens sem praticamente nenhuma dessas camadas criativas. Ler o Homem-Aranha nesse espaço criativo inicial foi para mim uma experiência sensacional. Talvez muitos pensem que, em função das histórias datarem da década de 60, os enredos sejam mirabolantes e non-sense, mas o fato é que as histórias são muito envolventes e interessantes. Ao lê-las, parece que  uma "chave" em nossa mente se liga e somos transportados diretamente para o "Espírito do Tempo" dos longínquos anos 60. E uma vez dentro desta perspectiva a experiência é quase catártica. O Peter Parker que aparece é um jovem (ainda com elementos da adolescência muito evidentes) que é, na maior parte do tempo, triste, magoado e até rancoroso! Características que praticamente nunca estiveram em evidência no Aracnídeo. Nessas primeiras histórias vemos um Peter pensando em coisas que nunca imaginamos que passaram pela cabeça dele. Como por exemplo dar um "sopapo" no Flash Thompson ou mesmo cogitar deixar o colega à mercê do Dr. Destino. De certa forma, tudo isso gera em nós uma enorme identificação com o personagem. Pois é exatamente o que cogitaríamos também. Outra questão interessantíssima é o fato do herói não saber exatamente a dimensão dos seus poderes, e talvez, até Stan Lee não o soubesse. É possível ver também a evolução da arte de Ditko, e suas saídas gráficas cada vez mais interessantes para cada cena. Uma evolução que pode ser vista de forma clara na luta do Aranha contra o Dr. Destino (Amazing Spider-Man #5). Não posso deixar de dizer que tudo que comentei acerca da interessante experiência de ver o herói em ação pela primeira vez nos quadrinhos, vale também para as primeiras aparições de vilões emblemáticos como o Abutre (Amazing Spider-Man #2), Dr. Octopus (Amazing Spider-Man #3) e Homem-Areia (Amazing Spider-Man #4). Também curiosa e cheia de receios é a relação existente entre o Cabeça-de-Teia e o recém-criado e desconfiado Quarteto Fantástico! Se você não conhece essa Coleção, recomendo-a fortemente pois, além de se entreter, finalmente você entenderá porque os ícones Marvel fizeram tanto sucesso!

Edições que compõem esse volume 1 da Coleção.

 Amazing Fantasy - Vol. 1 - #15 - Agosto de 1962.


Amazing Spider-Man - Vol. 01 - #1 - Março de 1963.


 Amazing Spider-Man - Vol. 01 - #2 - Maio de 1963.


Amazing Spider-Man - Vol. 01 - #3 - Julho de 1963.


Amazing Spider-Man - Vol. 01 - #4 - Setembro de 1963.


Amazing Spider-Man - Vol. 01 - #5 - Outubro de 1963.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

"STORM" de Don Lawrence finalmente de volta ao Brasil


A década de 80 foi extremamente pródiga em explodir nossas cabeças. Uma dessas explosões me atingiu em 1989 quando a Editora Abril lançou no Brasil a HQ Holandesa STORM. Uma história de ficção científica que rapidamente adquire tons do gênero Espada e Feitiçaria. A arte estupenda do inglês Don Lawrence capturou não apenas a imaginação de uma geração, mas conseguiu produzir em mim uma estranheza que até hoje me persegue. Lançada no Brasil em seus primeiros 10 capítulos, a saga do astronauta STORM ficou no limbo dos lançamentos brasileiros por mais de 30 anos, sendo sonhada por muitos fãs! Nesse ano, porém, vimos uma jovem editora assumir e concretizar esse sonho, a Editora Tundra. Atualmente em financiamento coletivo pela Plataforma CATARSE, a editora planeja lançar a Saga na íntegra em 6 volumes. Escrita a partir de 1977, a saga atravessou décadas até se encerrar em 2003 com o falecimento de Lawrence. O primeiro volume está em seus últimos dias de financiamento, ou seja, uma oportunidade única de termos uma das melhores obras dos quadrinhos de todos os tempos e que não pode ser perdida. Com cenários estranhos, obscuros, bizarros, oníricos e extremamente realistas, a Saga se inicia com a investigação da MANCHA VERMELHA de Júpiter pelo astronauta Storm. Pego em uma espécie de anomalia espacial (possivelmente gerada pela própria mancha) Storm é jogado em um local que se assemelha à Terra em seu passado (ou seria seu futuro?). O fato é que a estranheza da história reside no ancestral medo que assola todos nós ao percebermos que somos menos que grãos de areia ante a vastidão do tempo. A Editora Tundra lançará os volumes em um tamanho que será capaz de valorizar como nunca a arte de Lawrence, saindo do formato 21 x 28 cm (usado pela Editora Abril no passado) para os excelentes 24 x 32 cm. O tratamento das ilustrações de Lawrence parece impecável ao valorizar os diversos detalhes dos desenhos do artista (comparações abaixo). Se você não conhecia STORM, precisa conhecer. Um lançamento que merece o apoio de todo fã de quadrinhos de qualidade. Não perca a campanha de financiamento do VOLUME 1 que se encerrará no próximo dia 30/09/21!!





sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Pílula Gráfica #9: A Música de Erich Zann (2021)


Se tentarmos vislumbrar certos lugares ou recantos com o "olhar de dentro", aquele que não é o simples ato de "enxergar", poderíamos sentir que certos locais escondem muito mais do que aparentam. H.P. Lovecraft parece ter escrito, em março de 1922, a pequena "obra-prima" A Música de Erich Zann a partir desta constatação. Por uma felicidade do destino, determinadas obras às vezes encontram uma artista perfeita para adapta-la. "Perfeita" porque consegue expandi-la sem contamina-la em nada, apenas amplificando suas características originais, oferecendo assim uma nova experiência ao leitor. Esse foi o caso da edição de A Música de Erich Zann lançada recentemente pela Editora Skript. A artista mineira Gio Guimarães adapta o conto de Lovecraft emoldurando-o com um estilo que nos remete muito ao Expressionismo Alemão. Estilo que parece contextualizar e aprofundar perfeitamente a obra. O resultado é uma experiência quase metafísica do leitor ao se deixar levar pelas palavras de Lovecraft em cada desenho. No conto, o idoso e solitário músico Erich Zann vive sozinho no último andar do último edifício da Rua D´Auseil. Ali, Zann toca sozinho até altas horas uma melodia estranha e ao mesmo inefável e obscura. O que ele não sabe é que a melodia vem sendo apreciada há algum tempo pelo vizinho e único habitante do quarto alugado no andar de baixo. A tentativa de amizade do morador de baixo com Zann desemboca em uma incrível e inquietante descoberta que coroa o conto. Como de costume, Lovecraft consegue coroar a narrativa com um clímax que faz jus à expectativa que cria. E para quem já teve a estranha sensação no mundo real de determinados lugares serem mais do que aparentam, o ápice de A Música de Erich Zann é quase que um "encontro com a verdade" que se esconde por trás de cada um dos estranhos recantos espalhados pelo mundo. A edição da Skript traz uma interessante introdução assinada por Douglas P. Freitas, editor da obra ao lado de Johnny C. Vargas. Na introdução Douglas comenta acerca da certa mística que existe ao redor da obra considerando o fato de Lovecraft nunca ter sinalizado qual é a cidade de língua francesa onde se passa a história (possivelmente Paris), nem o período (possivelmente final do século XIX). Outro mistério é onde ficaria a estranha Rua D´Auseil, nunca encontrada. Ao final da edição é possível se ler o conto na íntegra com tradução de Daniel Fontana. Por conta de todo o contexto gráfico e narrativo oferecido pela edição faz todo sentido tê-la, ainda que o conto esteja presente em muitas coletâneas de H.P. Lovecraft. Sem dúvida este é mais um lançamento que estará entre os melhores de 2021.






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