Translate

Mostrando postagens com marcador Filmes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Filmes. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de março de 2022

The Batman (2022)


Depois de uma longa espera, muitas críticas voltadas ao ator que protagonizaria o Homem-Morcego nas telas e tantos outros contratempos relacionados à pandemia pelo novo coronavírus, finalmente The Batman viu a luz do dia. Ir ao cinema assistir um filme do Batman é sempre um misto de ansiedade, excitação e cautela. Para mim, já vou dizer logo, a experiência superou positivamente em muito minhas expectativas iniciais. Em geral, uma obra conversa muito conosco quando ela consegue dialogar com o mundo ao nosso redor, com o "Espírito do Tempo" (Zeitgeist). Foi assim com Coringa de 2019 com Joaquin Phoenix, e agora novamente com essa nova versão do Cavaleiro das Trevas e Matt Reeves. Vejamos um pouco porque The Batman conseguiu ir fundo na difícil tarefa de espelhar nossos medos e inconsistências.



Minha primeira análise vai para a personalidade, ainda que em construção, do personagem principal (Batman/Bruce Wayne). Um homem que entende sua missão mais como uma trajetória de vingança do que como uma busca legítima por justiça e defesa do mais fraco. E nesse processo, o único ponto de mutação capaz de retira-lo da espiral de violência e auto-mutilação emocional foi se ver confrontado com alguém muito parecido com ele, no caso, O Charada, interpretado de forma muito crível e excelente pelo ator Paul Dano. É nessa confrontação que Bruce consegue se ver como que através de um espelho, passando a estabelecer um diálogo interior consigo mesmo, uma clara referência à HQ Batman - Ego. O ator Robert Pattinson entendeu muito bem o personagem, embora tenha se distanciado do Bruce Wayne tradicional (playboy). Mas há uma explicação para isso em minha opinião. Para o Bruce Wayne de Pattinson, enquanto ele não se encontrasse consigo mesmo (algo que ocorre ao longo filme), jamais ele conseguiria interpretar um papel como o de um playboy perante a sociedade.



É nessa perspectiva de viagem interior e enfrentamento de si mesmo que Bruce Wayne se vê orbitado  por pessoas que são reflexos de sua própria orfandade, caso de Selina Kyle (Zoë Kravitz, a Mulher-Gato) e o Charada. Toda essa consistência dramática individual em cada personagem faz com que a violência seja muito bem contextualizada como reflexo dos ambientes interiores de cada personagem. Enquanto as motivações do Charada se relacionam em 100% com sua história pessoal, sem nenhuma motivação financeira aparente, outros vilões aparecem representando a corrupção e ganância que permeiam a cidade de Gotham City, caso do Pinguim (interpretado de forma irreconhecível pelo ator Colin Farrell) e Carmine Falcone (John Turturro). Mas para além das interpretações e narrativas pessoais, há outros 2 grandes elementos que fizeram, em minha opinião, o filme ascender à um status cult. A ambientação de Gotham City e a trilha sonora.



Gotham aparece de forma extremamente bem representada ao manter um clima cinzento, chuvoso e sujo quase que em sua totalidade. Foi impossível não associa-la em alguns momentos à metrópole do filme Blade Runner (1982) de Ridley Scott. Sem deixar de ser tecnológica e condizente com nosso tempo, as características da Gotham de The Batman, permitiram que ela se aproximasse de forma muito crível com o clima Noir tão característico dos filmes detetivescos dos anos 30 e 40. Esse clima é acompanhado de forma muito intensa por uma associação muito peculiar, a música clássica representada por Ave Maria e a música "quase" fúnebre do NiorvanaSomething In The Way. A amarração destes conceitos musicais foi feita com maestria por Michael Giacchino, veterano de outras trabalhos famosos. Eu diria que o núcleo musical principal do filme, formado pelos acordes iniciais de Something In The Way batem fundo e amplificam a dor sentida por Bruce Wayne.



Por fim, algo que me trouxe uma genuína e profunda inquietação ao analisar o filme, foi a excelente exposição que ele faz do "caldo" social que vem sendo cozinhado por décadas. Um caldo de exclusão, exaustão social e pessoal. Quando temos esse "caldo" cozinhado por tempo suficiente é fácil algumas pessoas se identificarem com a barbárie, com a ruptura social plena e total. No filme essa ruptura é vista a partir das inúmeras pessoas que se identificam com a missão de dor e vingança implementada pelo Charada. Nessa missão as pessoa identificam a possibilidade de se revoltarem contra tudo e contra todos frente a dor a que sempre foram submetidas. Para mim esse é o aspecto mais "ASSUSTADOR" do filme, ou seja, revelar um possível caminho de barbárie e auto aniquilação caso não optemos pelo coletivo, caso não entendamos que meu espaço de existência deve considerar constantemente a existência do outro.



Um filme que constrói um Batman contemporâneo e sintonizado com nosso tempo.

sábado, 22 de maio de 2021

Guia de Cards: Revista Mundo dos Super-heróis - 3ª Série.



Olá amigos, retornamos com mais uma matéria com a continuidade dos Cards (Mini e Supercards) da Revista Mundo dos Super-heróis. Estes lançamentos se iniciaram a partir do Nº 100 da revista, e tem como objetivo trazer de forma sucinta pequenas resenhas baseadas em cards. No caso dos Supercards o foco são filmes, séries, nostalgia (filmes antigos da cultura nerd), Quadrinhos e Animações. Já os Minicards trazem a transformação de determinado herói ou vilão (Marvel ou DC) em sua indumentária ao longo das décadas. Com apontamentos rápidos e objetivos no verso, estes cards não são apenas imagens colecionáveis, são conteúdos que nos permitem uma visão da sinopse, bastidores e referências (no caso dos Supercards) e do contexto no qual aquela determinada versão do herói/vilão atuou. Possivelmente devido à pandemia e todo impacto trazido consigo, não tivemos uma interrupção do seu lançamento nos números 120 e 121, como podemos ver acima. Mas a partir do 122 as coisas voltaram ao normal. Acompanhe aqui a continuidade desta incrível iniciativa. Grande abraço!


















Minicards: Evolução visual do Superman - Parte 2 - 1990 à 2018.

107 - Quadrinhos: The Four Horsewoman Part 2 (Wonder Woman #756) (2020); 108 - Quadrinhos: Espectros do Passado (The Amazing Spider-Man #238) (1983); 109 - Quadrinhos: Robin 80th Anniversary 100-Page Super Spectacular (2020); 110 - Animações: Hulk vs. (2009).

Minicards: Evolução visual Mulher-Gato - 1940 à 2020.

111 - Séries: A Rainha do Congo (1948); 112 - Séries: Mulher-Maravilha (1977);  113 - Séries: Louis & Clark - As Novas Aventuras do Superman (1994);  114 - Séries: Flash (1990).

Minicards: Evolução visual Gavião Arqueiro - 1964 à 2005.

115 - Quadrinhos:  Questões (Spwan #1) (1992); 116 - Séries: Monstro do Pântano (1990); 117 - Filmes: Rocketeer (1991); 118 - Séries: Terror dos Espiões (1941).

Minicards: Evolução visual Feiticeira Escarlate - 1963 à 2016.

Minicards: Evolução Visual Mulher-Leopardo - 1943 à 2016.
119 - Filmes: Superman and The Mole Man (1951); 120 - Filmes: Superman IV - Em Busca pela Paz (1987).

domingo, 25 de outubro de 2020

O Homem Que Ri - Victor Hugo


Embora criticada (justamente ou injustamente não sei ao certo dizer) por algumas traduções, a Editora Martin Claret trouxe já há algum tempo ao Brasil uma nova edição do livro "O Homem Que Ri" de Victor Hugo (Os Miseráveis, O Corcunda de Notre Dame). Lançado em 1869, o livro foi adaptado para o cinema em 1928 no filme homônimo "O Homem Que Ri". No filme, tal como no livro, vemos o drama de um homem (Lorde Gwynplaine) que, por ordem do Rei, passa a ostentar a estranha deformidade de um imutável sorriso. O papel de Gwynplaine no filme de 1928 ficou eternizado pela atuação do ator alemão Conrad Veidt (Hans Walter Konrad Veidt). A atuação de Veidt é tão assustadoramente perfeita que inspirou Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson em 1940 a criarem outro personagem que se manteve relevante até hoje por representar o caos, a anarquia e a distopia: O Coringa (The Joker) da editora DC. As semelhanças físicas entre Veidt e os conceitos originais do Coringa são incríveis. Mas para além das curiosidades, "O Homem Que Ri" faz jus ao legado de Victor Hugo como escritor universal que sempre conseguiu expor as hipocrisias, contradições e potencial de redenção do ser humano. Parabéns à ediotra Martin Claret!!








sábado, 16 de maio de 2020

Guia de Cards: Revista Mundo dos Super-heróis - 2ª Série - Atualizado Maio 2020

Minicards: Evolução visual do Batman  - 1939 à 2018. Supercards: 89 - Quadrinhos: Batman contra o Monge Louco - Parte 1 (Detective Comics #31 - Setembro de 1939); 90 - Filme: Batman - O Retorno (1992).

A Revista Mundo dos Super-heróis é a publicação jornalística acerca do mundo dos gibis, super-heróis e afins mais longeva da história do Brasil. Em 2018 alcançou a marca de inimagináveis 100 edições. Um feito para qualquer nerd, em especial o aficionado por quadrinhos, comemorar. A partir da edição 101, o time editorial resolveu presentear os fãs com uma coleção de Supercards. Estes Supercards foram alvo de uma matéria aqui no Blog na qual comentei acerca da riqueza do material. Não apenas por trazer momentos emblemáticos da 9ª Arte nos quadrinhos, filmes e séries, mas por inserir no verso de cada supercard um texto que contextualiza aquele momento. Das edições 101 à 111 foram lançados 88 Supercards que podem ser apreciados na minha matéria anterior. Quando chegou à edição de Nº 112 percebi que a coleção havia se modificado um pouco. Agora, além de dois Supercards por edição o fã passou a receber 27 minicards com a evolução visual de determinado personagem ao longo de sua existência.

Minicards: Evolução visual da Mulher-Maravilha - 1941 à 2016. Supercards: 91 - Animações: Batman Ninja (2018); 92 - Animações: Batman: O Mistério da Mulher-Morcego (2003).

A mudança veio presentear o fã não apenas com o aspecto artístico evolutivo do super-herói/super-heroína, mas no verso de cada minicard o leitor tem um pequeno texto que contextualiza o uniforme e acessórios ali apresentados. Quando lidos na sequencia, cada série de minicards se torna quase que uma pequena enciclopédia com informações extremamente interessantes acerca da evolução do personagem. Além das óbvias curiosidades que se pode encontrar nos textos, o fã consegue muito bem situar a evolução artística do personagem em paralelo ao espírito do tempo vigente em sua época. Há, portanto, uma insinuação muito bem feita entre imagem, concepção artística e o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo da época (Zeitgeist). Assim, o que à princípio pode parecer apenas um elemento atrativo na hora da compra da revista, se torna na verdade um rica fonte de consulta e análise.

Minicards: Evolução visual do Coringa - 1940 à 2018. Supercards: 93 - Filme: Capitão América: O Filme (1991); 94 - Animações: Liga da Justiça - A Nova Fronteira (2008).

Os textos no verso de cada minicard são de Clayton Godinho, o mesmo que já assinava e continua assinando os textos no verso dos Supercards. São textos curtos, objetivos e bem escritos. As ilustrações dos personagens em cada fase é de Débora Caritá. Nesta matéria apresento à vocês esta segunda série desta que é uma grande iniciativa dos Editores da Revista. Como o lançamento desta série ainda está em curso, teremos atualizações sempre que um novo número da revista chegar às bancas. Assim, você poderá acompanhar o que está saindo.

Minicards: Evolução visual da Viúva Negra - 1964 à 2018. Supercards: 95 - Quadrinhos: E Agora, Tudo Começa (Nick Fury, Agents of Shield #4 - Setembro de 1968); 96 - Quadrinhos: Superman Liberto (Superman #233 - Janeiro de 1971).

Eu penso que iniciativas como esta não podem deixar de ser noticiadas e acompanhadas. Digo isto porque vivi uma época (anos 80 e 90) em que pouco, ou nada se tinha aqui no Brasil que pudesse auxiliar o fã a conhecer melhor seus personagens e artistas preferidos, e muito menos conseguir entender de forma mais precisa a evolução cronológica de heróis e vilões da 9ª Arte. É por isso que abro espaço aqui no Blog para noticiar a apresentar esse tipo de iniciativa, além de tentar auxiliar a todos aqueles que estão fazendo a coleção ou simplesmente não a conheciam.

Minicards: Evolução visual do Arqueiro Verde - 1941 à 2018. Supercards: 97 - Nostalgia (Série): O Arqueiro Verde (1940); 98 - Séries: Arrow 5ª Temporada (2016).

Não deixem de acompanhar esta grande e histórica coleção que, à semelhança da incrível Coleção de Cards do Festival Guia dos Quadrinhos (lançada nas edições do festival de mesmo nome aqui em São Paulo nos últimos anos) veio para satisfazer até mesmo o leitor mais exigente.

Minicards: Evolução visual da Arlequina (1993 à 2016), Canário Negro (1947 à 2016) e Caçadora (1977 à 2016). Supercards: 99 - Quadrinhos: Batman: O Cavaleiro das Trevas #4 (Batman: The Dark Knight Returns #4 - Junho de 1986); 100 - Quadrinhos: The Dark Knights Returns: The Golden Childs #1 - Dezembro de 2019.

Minicards: Evolução visual do Thor - 1962 à 2020. Supercards: 101 - Animações: Thor - O Filho de Asgard (2011); 102 - Quadrinhos: O Bom, O Mau e O Misterioso (The Silver Surfer #4 - Fevereiro de 1969).

Minicards: Evolução visual do Superman - 1933 à 1990. Supercards: 103 - Quadrinhos: Superman (Action Comics #1 - Junho de 1938; 104 - Nostalgia (Série): Superman (1948); 105 - Animações: Superman Contra a Elite (2012); 106 - Quadrinhos: Apocalypse!! (Superman #75 - Janeiro de 1993).

sábado, 21 de setembro de 2019

LIVRO: Interestelar - Editora Gryphus


A profundidade com que cada obra toca individualmente uma pessoa é uma experiência extremamente única e intransferível. Embora existam consensos estatísticos a respeito da bilheteria de um filme ou índices de venda de um livro, cada obra sempre encontrará terrenos diferentes para crescer dentro de cada mente. Quando assisti ao filme 2001 - Uma Odisseia no Espaço a obra já levava a alcunha de "clássico", portanto não foi difícil encontrar opiniões semelhantes à minha de que o filme era uma obra prima. Desde que vi ao filme de Stanley Kubrick sobre o monólito de Arthur C. Clarke, no entanto, nenhuma outra obra havia me tocado da mesma forma, ou seja, me feito imergir no ambiente eterno dos espaços vazios do Universo, até eu assistir Interestelar. O filme é complexo e talvez até inverossímil com suas dilatações temporais, mas é assim porque o Universo é complexo e cheio de armadilhas temporais. E quando saí da sala de cinema fiquei maravilhado com o respeito com que o Diretor Christopher Nolan tratou os segredos do Universo e como teve a coragem de nos situar na posição real que ocupamos nisso tudo, ou seja, como pequenos seres diante de forças colossais. Tudo isso me fez comprar e ler o livro Interestelar do Selo Geek da Editora Gryphus. Na verdade um romance que adapta ipsis litteris o filme e, não por isso, menos interessante.


Ler um livro como esse, que adapta ao pé da letra o filme pode parecer, à princípio, uma experiência redundante, mas não é e não foi para mim. Pelo contrário, pude expandir em minha mente as nuances científicas do filme, compreender como o roteiro é interessante e entender as motivações e dramas de cada personagem. O responsável pela adaptação, o escritor Greg Keyes, acrescentou muito pouco à narrativa já expressa no filme. Mas o que acrescentou dimensionou o universo pessoal dos principais personagens, o astronauta Cooper e sua filha Murphy, o Dr. e Dra. Brand, os doutores Doyle, Romily e os maravilhosos, críveis e interessantes androides militares Case e Tars. A história torna-se ainda mais crível através da lente do livro, ao nos fazer enxergar como o futuro da Terra imaginado pelos irmãos Nolan é totalmente plausível para os próximos séculos. Desertificações, tempestades de poeira, escassez de alimentos... uma visão de um Planeta que não nos quer mais aqui, que se cansou de nos abrigar, que se cansou de nossa irresponsabilidade. Em um mundo como o nosso, só isso já um alerta a ser revisitado várias e várias vezes.


O livro nos ajuda a entender situações cruciais para a história, e que no filme (em função da narrativa rápida) fica difícil de se acompanhar: 1º o papel do "Buraco de Minhoca" plantando próximo à Saturno; 2º o efeito temporal absurdo que o Buraco Negro Gargântua causou na história quando Cooper, Brand e Doyle descem no Planeta da Dra. Miller que orbitava o Buraco (uma parte da história em que 45 minutos na superfície do planeta correspondeu à 23 anos no tempo da Terra); 3º a abjeta traição do Dr. Mann (papel de Matt Damon no filme) que tenta matar Cooper no segundo planeta explorado; 4º a experiência quase mística de Cooper e Tars no Hipercubo dentro do Buraco Negro, momento em que Cooper percebe-se como o "fantasma" que tentava se comunicar com a filha Murphy ainda criança.


Mas em que medida uma história como essa relaciona-se com o nosso universo pessoal terrestre real? Na verdade são as respostas para esta pergunta que me fizeram gostar tanto do filme. Em 1º lugar o filme nos permite visualizar um aspecto da existência muitas vezes sublimado dentro de nosso dia a dia. Ao vivermos nossa vida dentro de uma rotina tão acirrada, em que problemas e afazeres terrenos nos inundam, fica difícil de enxergar a natureza das coisas ao nosso redor sob uma perspectiva infinita e eterna. Quando conseguimos escapar da força da rotina conseguimos ter vislumbres de uma realidade muito maior e infinitamente assustadora e bela. O filme pode servir de veículo para atingirmos esta "velocidade de escape" das coisas ao nosso redor para, por algum tempo, as transcendermos. Em 2º lugar o "tempo" é algo que não conseguimos entender. O filme lança luz sobre a possibilidade do tempo ser mesmo uma dimensão e, como tal, passível de ser observada. Desde criança me pergunto para onde vão todos os momentos felizes e infelizes que vivemos e que são, com certeza, nossos constituintes. O filme nos faz vislumbrar a possibilidade de existência de uma dimensão onde tudo isso é guardado. O hipercubo no qual Cooper é jogado dentro do Buraco Negro é um receptáculo para as memórias e vivências de sua filha. Um local sagrado onde algo e alguém está preservado no infinito. Em 3º lugar sempre me perguntei se algo poderia viajar através do tempo, e o filme traz duas especulações muito críveis de que a gravidade (algo que ainda não entendemos direito o que é até hoje) e o "amor" não seriam na verdade uma propriedade física e um sentimento, respecivamente. Mas sim uma linguagem.  Uma linguagem que, tal qual um código Morse, nos permitiria conversar através das dimensões.


Em 4º lugar, a obra nos permite enxergar o grandioso e ameaçador impacto do universo em nós. Em uma das passagens finais do livro (cenas finais do filme) Cooper encontra com a filha (Murphy) que havia deixado para trás há apenas alguns meses. Mas agora ela está com 83 anos. Este antinatural e esmagador encontro teve um profundo efeito sobre mim. Pude perceber que não estamos preparados (ou não fomos feitos) para lidar com a grandeza do Universo em sua estrutura de espaço-tempo. Nossas frágeis mentes e corações não foram dotados de instrumentos capazes de nos proteger destas imensas variações que, para o Universo, são fenômenos comuns e corriqueiros. Em 5º lugar, penso que as licenças poéticas do filme funcionam muito bem. Estantes de livros sempre me fascinaram desde criança. Um dos meus sonhos aliás era, quando adulto, ter um quarto repleto de livros do chão ao teto. E por que sempre fui fascinado por isso? Sempre que olhava para uma estante cheia de livros ficava imaginando que cada livro era uma caixinha mágica, ou um portal para Universos ou dimensões desconhecidas. Quando a estante de livros é usada na quarto de Murphy como veículo de comunicação entre as dimensões, isso fez muito sentido para mim, ou seja, as coisas que vemos esconderiam mesmo um sentido maior do que pensamos, mesmo coisas inanimadas e aparentemente inertes como uma estante. Poderiam, quem sabe, ser realmente portais de comunicação? Hoje, adulto, tenho minha estante em um dos cômodos da casa, e podem ter certeza que quando olho para ela quase que posso sentir algo além.


Todas essas sensações e percepções que me sobrevieram, talvez não tivessem me alcançado se não fosse outro detalhe da obra (aqui, falando especificamente do filme), a saber: A Trilha Sonora de Hans Zimmer. Adquiri o CD porque são poucas as vezes em que um compositor consegue amalgamar de forma tão perfeita o sentimento na tela com o som. Ennio Morricone foi Mestre nisso, e Hans Zimmer conseguiu transmutar o assombro e a solidão do Cosmo em contraponto com o universo contido e frágil do coração humano nesta trilha. Recomendo fortemente que o filme, ou o livro sejam apreciados tendo como pano de fundo a trilha de Zimmer.


Há muito ainda sobre o que discorrer a respeito da história. Sensações e nuances que me inundaram enquanto lia e assistia as adaptações da obra. Não há como não admitir, no entanto, que tudo isso que escrevi tem a ver com toda uma experiência pessoal. E isso mostra que cada um de nós, no final, sejamos também pequenos portais para Universos interiores grandiosos e majestosos.

Um grande abraço à todos!

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Vingadores Guerra Infinita - O Grandioso Fatalismo e a Complexidade da Maldade


Passados praticamente 10 anos de existência do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM), o público em geral aprendeu a entender e a classificar o gênero "Filme de Super-heróis" dentro de uma fórmula que necessariamente possui alguns ingredientes: ação, drama, comédia, aventura, questionamentos profundos destilados de forma sutil e muita diversão. Ser "nerd" em um mundo que passou a aceitar e até (em certa medida) admirar os Super-heróis não tem preço. Isso porque esta admiração viabilizou investimentos que nos permitiram ver na telas aquilo já víamos e vivíamos no quadrinhos. Todo este fenômeno de massa gerou expectativas altas a respeito do filme que viria encerrar uma grande epopeia iniciada em Homem de Ferro 1 de 2008: Vingadores - Guerra Infinita.


De forma soberba e incrivelmente bem construída, Vingadores - Guerra Infinita cumpre o papel a ele atribuído por uma legião de fãs em grande expectativa. Dirigido pelos já conhecidos Irmãos Russo, o filme conseguiu equilibrar subtramas e inúmeros heróis que antes brilharam de forma mais restrita. Gostaria de já explicitar o que mais me agradou no filme, e foram duas coisas: A Primeira delas foi a atmosfera de "finitude" que os diretores imprimiram no filme, ou seja, o expectador é lentamente levado a perceber que o fim de muitas coisas se aproxima. Mas não apenas perceber, mas se entristecer e realmente sentir "pesar" por isso acontecer. Conseguimos vivenciar ao lado dos personagens o crepúsculo das coisas como são. Com isso somos levados a sentir toda tristeza, melancolia e fatalidade que acompanham momentos assim. Foram poucas as obras com as quais entrei em contato que me fizeram chegar a este sentimento, uma delas foi a História "O Que Aconteceu ao Homem de Aço" de Alan Moore, na qual realmente percebemos a partir de um certo ponto que tudo se encerrará. Vilões, personagens, pessoas que antes tiveram lugar dentro de uma certa mitologia e em nossos corações serão apenas uma lembrança levada pelo tempo.


Este sentimento nos invade em poucos momentos em nossa vida. Em geral quando entramos em contato com algo realmente irrevogável, com algo para o qual não há mais remédio. Eu por exemplo senti isso quando perdi meu pai para um câncer e, nos poucos 03 meses que o separaram da vida, o "tempo" passou a correr de uma forma diferente para mim. Foram 03 meses em que tudo parecia acontecer num ritmo diferente, mais lento, tal qual uma cena do filme "Matrix" quando uma bala viajava na direção de Neo. É difícil condensar sensações assim, e mais difícil ainda é encher um filme com elas. O fatalismo crível descortinado pelos diretores conseguiu levar a platéia a transcender as batalhas e as lutas. Vivemos uma época que qualquer coisa que é lançada quer receber a alcunha de "Épico". Isto tem banalizado um pouco esta palavra, por isso eu a tenho atribuído apenas para situações que realmente tem conseguido me mobilizar de forma mais profunda, e Vingadores - Guerra Infinita conseguiu isso.


A Segunda coisa que mais gostei no filme foi aquela sobre a qual eu possuía mais expectativa: Thanos. Difundido nos Quadrinhos como um ser mais louco do que inteligente, mais genocida do que complexo, Thanos amealhou nos quadrinhos a reputação de ser poderoso, assassino e (em minha opinião) sem grandes facetas dramáticas (o que não diminui sua importância ou mesmo meu apreço por ele). Caso o tivessem retratado exatamente assim boa parte da história apresentada em Vingadores - Guerra Infinita se esvaziaria. Isso porque estaríamos novamente diante do "bem" contra o "mal". Ao invés disso Thanos evoluiu para algo muito mais complexo, dramático, poderoso e não menos letal. Isso foi alcançado ao trazê-lo com uma motivação mais complexa e até entendível: a necessidade de se manter um equilíbrio Universal entre vida e morte. Além disso, o que fez de Thanos um vilão tão apaixonante foi a interpretação do ator Josh Brolin que, apesar de estar submerso em camadas e camadas de computação gráfica, está totalmente presente em Thanos. Mérito do ator e dos técnicos que conseguiram avançar a técnica computacional para um nível que permite que o ator não se perca e se esvazie em meio à tantos efeitos.


Assim como Deus executou sua obra e descansou no 7º Dia, assim é com Thanos que almeja executar sua obra e finalmente ter um descanso (o que acontece no fim do filme). A personalidade do personagem não é vazia, há camadas escondidas dentro dele que fazem com que transcenda (como já disse acima) os quadrinhos. Não é apenas loucura e sede de sangue que o motiva, há (por incrível que pareça )(pasmem) lugar para o amor. Mas não o amor vago e metafórico que o Thanos dos quadrinhos nutre pela "MORTE", mas um amor mais nobre, a saber: "o amor paternal"!! E a existência desse amor nas habilidosas mãos de Josh Brolin e dos Irmãos Russo tornou-se crível, e não algo piegas e que descaracterizaria o personagem, desencadeando a JIHAD NERD ao redor do mundo contra a Marvel. O filme gera algo que há muito tempo não presenciava em uma platéia de cinema, a excitação e, ao final, uma "dor" que só quem submergiu dentro da história pode sentir. A final do filme, o rapaz na poltrona do meu lado simplesmente soltava palavras desconcertadas sem parar, algo muito comum em pessoas que se vêem diante de situações que os tocam bastante mas com as quais não sabem nem lidar direito. Algo semelhante à um "choque pós-traumático".


É certo que o grande criador de Thanos nos quadrinhos, e principal roteirista das aventuras espaciais da Marvel nos Quadrinhos, Jim Starlin, foi homenageado ao longo do filme. A Saga Desafio Infinito de Starlin está bem presente com a busca pelas jóias do poder. Mas há também espaço para homenagens ao Rei Jack Kirby na apresentação dos grandiosos cenários Kirbianos espaciais. Sagas mais recentes dos quadrinhos também estão representadas no filme, e talvez a principal delas seja INFINITO de Jonathan Hickman. A presença dos asseclas de Thanos e integrantes de sua Ordem Negra, a saber, Fauce de Ébano, Corvus Glaive, Próxima Meia-Noite e Estrela Negra são indicativos da força da nova mitologia que rodeia o vilão Thanos. O que eu percebo muito claramente é a necessidde dos jovens Nerds atuais lerem mais quadrinhos e conhecerem as grandes histórias da editora. Caso fizessem isso, poderiam aproveitar muito mais a riqueza de um filme como Vingadores - Guerra Infinita.


Todos os personagens estão muito bem, mas gostaria de fazer uma menção honrosa à Thor, que neste filme passa por um calvário e definitivamente tem sua fibra Divina testada ao limite. Assistir à sua saga pessoal ao longo do filme é um resgate do poder, fibra, carisma e força do personagem.

E você?!  O que achou de Guerra Infinita!? Quais suas impressões? Como o filme ressoou dentro de você!? Um forte abraço!

sábado, 7 de outubro de 2017

Blade Runner - 2049


Lembranças guardadas com carinho são protegidas de forma aguerrida por todos nós... Seja ela de qualquer tipo. Blade Runner (EUA - 1982) foi um filme que passou despercebido à época de seu lançamento, ganhando status de cult (merecidamente) ao longo dos anos. Quem atingiu a idade da razão nos anos 80 fatalmente deve ter se chocado com este filme, que preencheu o imaginário de uma legião de pessoas que se viram encantadas com a forma com que questões tão profundas foram abordadas na obra. O que nos faz humanos? Para onde vão nossas memórias depois que tudo se acaba para nós? Como lidar com a finitude que nos cerca? Quando eu soube que esta obra iria ganhar uma sequência meu coração se encheu com duas grandes questões fortes e absolutamente antagônicas: 1º - Fiquei extremamente feliz em saber que veria este universo de Philip K. Dick novamente nas telas; 2º - Fiquei extremamente preocupado de que o novo filme poderia mexer com uma lembrança tão carinhosa e profunda para mim, alterando-a negativamente. Ontem finalmente me deparei com a resposta para estas duas questões.


Minhas impressões não poderiam ter sido melhores. O filme de 1982 trazia como grande diferencial um tom NOIR, bem como uma tristeza, melancolia e encantamento subjacentes à trama e que, nem por isso, era menos violenta. Meu grande medo era que o diretor de sua continuação (Blade Runner 2049), Denis Villenueve, deixasse de lado justamente aquilo que havia tornado cult o 1º filme. Meu medo era de que Villenueve cedesse às pressões de uma parcela da indústria cinematográfica que procura atender a sede de violência das grandes massas, e com isso diminuísse os elementos que davam sustentação ao 1º filme. Caso tivesse feito isto teríamos como produto final um filme descartável, que até teria uma bilheteria grandiosa, mas que logo seria esquecido. Isto aconteceu, por exemplo, recentemente com as refilmagens de clássicos com Ben Hur e O Vingador do Futuro.


Da forma como ficou, Blade Runner 2049 pode até receber algumas críticas (como já pude ver no YouTube) daqueles que não conseguem sobreviver a uma sessão de cinema sem ver violência gratuita e sem sentido, mas permanecerá como uma sequência digna. O caráter perene desta continuação está no foco que se dá, acertadamente, ao significado da existência humana a partir das memórias e lembranças que nos fazem quem somos. Talvez o que temos de mais corriqueiro dentro de nós, a saber, "nossas lembranças", "experiências" e "memórias", sejam no final o mais importante de nossa existência. E só é possível perceber isso quando as perdemos, ou então quando sabemos que tais memórias são apenas implantes. Que existem como maquiagem apenas para nos fazer pensar que somos especiais. Esta angústia é o combustível da revolta e tristeza de todo REPLICANTE (Androides fabricados pelos humanos). Seres que compartilham de tudo que somos, menos a percepção de serem verdadeiros, já que são produtos da Engenharia Biosintética.


O filme se passa em 2049, 30 anos após os acontecimentos vistos em Blade Runner de 1982. Acontecimentos importantes aconteceram ao longo destes 30 no Universo da obra. Estes acontecimentos são contados em 03 Curtas Metragens disponíveis no YouTube e que o fã pode ter acesso. O 1º chamado Black Out 2022, o 2º 2036: Nexus Dawn e o 3º  2048: Nowhere to Run. Os acontecimentos destes 03 curtas moldaram o Mundo na forma que o vemos em 2049. Os mesmos elementos do filme anterior estão presentes: a chuva ácida contínua, as ruas apinhadas de pessoas em contraponto à eventuais espaços grandes e vazios, edifícios decadentes e gigantescos, a ostensiva propaganda em todos os lugares (sobretudo de origem japonesa) e a estética cyberpunk que permeia a tudo, até mesmo as roupas dos indivíduos com suas capas transparentes, botas impermeáveis, guarda-chuvas, casacões e veículos blindados pesados e reforçados.


A fabricação da antiga geração de Androides Nexus 6, com seus números de série codificados nas células, foi extinta. As revoltas e problemas causados por esta geração foi o deflagrador de sua extinção. Os poucos modelos remanescentes desta cepa são agora caçados pelos dóceis, obedientes, mas não menos perigosos Nexus 8. A história se desenvolve ao redor do policial "K", personagem de Ryan Gosling. O oficial "K" fará uma descoberta logo no início do filme que precipitará toda a dinâmica da história. A narrativa faz por vezes o espectador tirar conclusões que depois se provam erradas, e isto é outro ponto positivo, por não tornar óbvia a evolução da trama.

Cena de Blade Runner - 1982

A trilha sonora de Hans ZimmerBenjamin Wallfisch segue as linhas melódicas de Vangelis do 1º longa. Já ouvi críticas dizendo que Zimmer e Wallfisch não conseguiram superar Vangelis no quesito trilha sonora. No entanto, este não é um ponto negativo, mas positivo. Os músicos parecem respeitar a obra de Vangelis ao ponto de segui-la, mas (propositalmente) não supera-la. Não há motivo para isto. Minha admiração por Zimmer (autor da belíssima trilha de Interestelar) aumentou depois de Blade Runner 2049. Harrison Ford revive o personagem Rick Deckard do 1º filme, agora com o peso dos 30 anos que se passaram. A densidade alcançada com a presença de Ford/Deackard é palpável, pois percebe-se claramente os segredos que ele guarda a respeito da história. Fiquei contente com o fato de não tentarem tornar o personagem de Ryan Gosling ("K") em um novo Deackard. Teria sido um erro caso tivessem tentado. Nos trailers pareceu-me que isso ia acontecer.


As paisagens fora das cidades são novidades em relação ao filme de 1982. A desolação e melancolia de espaços outrora cheios de vida são impactantes. Não se pode deixar de ressaltar a presença da areia. Algo que parece engolir a tudo. Isto fatalmente nos leva diretamente a outra obra seminal de Ficção Científica: Duna de Frank Herbert. Caso você vá assistir a Blade Runner 2049 eu sugiro que vá de mente aberta. Vá com a mente sensível a mensagens subliminares e subtextos. Ciente de que muito do que é dito no filme está no silêncio, e não nas falas.


Por fim... Vá com a percepção de que milagres existem...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...