O Astronauta
Um módulo espacial Tcheco levando apenas um tripulante em direção à Vênus para investigar uma estranha nuvem de poeira cósmica estacionada próximo ao planeta. No caminho o astronauta submerge em reflexões pessoais e, talvez por isso, chama a atenção de um segundo passageiro intruso (e extraterrestre) que aparece em sua nave (ou não). Dores, arrependimentos, frustrações e mágoas são compartilhadas e, nesse processo, o autor (Jaroslav Kalfar) elabora um painel acerca de escolhas, sucessos e fracassos. Um convite à singularidade da vida, o livro possui momentos de tensão e alívios que nos mantém atentos à história. Não consegui chegar ao âmago ou ao lugar que o autor queria que eu chegasse. Talvez visitar o livro em outra ocasião permita-me descer à profundidade esperada.
Jimbo
Em 2025, dois autores tomaram de assalto minha estante, Arthur Machen e Algernon Blackwood. Ambos meus escritores favoritos atualmente, ambos com uma capacidade de ultrapassarem a simples narrativa ao apresentarem a relação entre o "sobrenatural" e o "ordinário da vida". Ambos extremamente capazes de interpretarem o "mundo" a partir de uma profunda interação do material com o imaterial. Em Jimbo, Blackwood apresenta uma obra que, para mentes pouco atentas, significaria apenas uma fábula envolvendo o pequeno menino JIMBO. Entretanto, o que acontece com ele esconde um painel de interações entre o nosso "aqui" e o "transcendente". Nesse painel a natureza emerge como força bruta representativa do oculto, capaz de influenciar nosso íntimo e nossos destinos.
Nosferatu - Sinfonia das Sombras
O livro Nosferatu - Sinfonia das Sombras de Kevin Jackson faz parte da coleção da British Film Institute (BFI), prestigiada instituição no mundo que convida renomados críticos, cineastas e escritores a se aprofundarem em determinado filme. O livro não é a novelização do filme, mas uma análise de seu contexto histórico, bastidores e, sobretudo, decisões artísticas de F.W. Murnau que resultaram no cultuado filme de 1922. O livro fascina ao fornecer um panorama rico ao redor do qual o filme nasceu, principalmente escrutinar os perfis de Murnau e do produtor Albin Grau, este último responsável também pelo design de produção e figurino. Tanto Murnau quanto Grau crescem ao aparecerem como grandes artistas capazes de transformarem seus construtos psíquicos em imagens. A partir da metade o livro perde força mas, no geral é uma importante fonte de informações que expande o clássico do expressionismo alemão.
Cada Um por Si e Deus Contra Todos
Depois de conhecer
Nosferatu - O Vampiro da Noite (refilmagem de 1979 do clássico de Murnau), seguido de
Aguirre - A Cólera dos Deuses, ambos do cineasta Werner Herzog, o fascínio pela visão de mundo de Herzog nasceu e cresceu. Sobretudo pelo depoimento de Herzog nos Extras do DVD de
Nosferatu - O Vampiro da Noite. Daí a leitura de
Cada Um por Si e Deus Contra Todos. Fascinado por homens e ideias que buscam subjugar a realidade, Herzog expande na obra sua visão e escancara diversos elementos pessoais que ajudaram a forjar este inconformismo. O título do livro pode sugerir cinismo, entretanto a obra está longe disso. O título tem mais a ver com
a) sua empreitada na busca pelo que está "escondido" na existência humana e
b) com seu inconformismo com a a artificialidade da vida que, infelizmente, a humanidade comprou. P.S.: Algumas passagens elucidam bem a conflituosa relação de amizade entre Herzog e seu pior/melhor amigo, Klaus Kinski.
O Círculo Verde
Com cuidado li
O Círculo Verde (1893) de Arthut Machen (Mestre da
Dark Fantasy). Sabia da aura de mistério sob a qual as obras do autor estão envolvidas. Já havia lido
Os Três Impostores (1895), mas à época não tinha ideia exatamente da grandeza do autor em certos círculos literários mais obscuros. Em
Os Três Impostores, por exemplo, o impacto é total pelo que não é mostrado. De forma semelhante,
O Círculo Verde traz eventos simples e ordinários na vida do protagonista (o jovem e estudioso Lawrence Hillyer), mas sempre com ocorrências cotidianas esquisitas e discretas que, com certa frequência, nos acontecem também. O assombro está no que Machen deixa implícito como explicação para estas pequenas e excêntricas ocorrências. O "escondido" de nós permeia nossa existência de uma forma que, uma simples olhada para ele, nos enche de um grande e poderoso sentimento de medo e atração.
Os Três Odiados

Conhecido por ocasião da adaptação para o cinema de seu conto Spurs de 1923 sob as mãos do diretor Tod Browning, que o lançou com o nome Freaks em 1932, o autor Tod Robbins (1888 - 1949) é o nome por trás de Os Três Odiados (1917). Obra também convertida em filme em 1930 sob o título The Unholy Three, em português Trindade Maldita. Filme que traz o Homem das Mil Faces Lon Chaney no papel de um dos 3 personagens principais do livro, o ventríloquo Echo (foto acima). A história narra a vida de três personagens de circo que são explorados por suas deficiências físicas ou, no caso de Echo, pela sua excentricidade. A solidão da monstruosidade de cada personagem eclode em violência e depois em fuga para, mais à frente, desembocar em mais violência e morte. A questão é que, através de seu livro, Robbins discute o sempre atuais temas: a) a violência latente sob a psique ferida daqueles que não se enquadram no conceito de beleza e/ou aceitabilidade na sociedade; b) o quanto ainda nossos preconceitos modelam a dor e a solidão do outro. O filme vai para um caminho um pouco diferente do livro, sendo este último, muito superior em minha opinião.
Arthur Machen - O Mestre da Dark Fantasy

Se as obras
Os Três Impostores e
O Círculo Verde serviram como introdução ao universo de Arthur Machen, a obra
Arthur Machen - O Mestre da Dark Fantasy já oferece um painel mais amplo da sua obra em nove contos. A edição ainda apresenta uma linha do tempo da vida de Machen e fotos pessoais. Todos os contos giram ao redor de seu tema central, que consigo traduzir como "os pontos de contato entre nossa realidade com uma realidade maior que constantemente interage com o tecido de nosso cotidiano". E é nessa perspectiva que a leitura de Machen é sempre um mistério porque tais interações entre as realidades nos influenciam (quer deixemos mais ou menos) e estão sempre escondidas, discretas e, por isso mesmo, bizarras e fascinantes. Destaco o conto UM FRAGMENTO DE VIDA sobre a banalidade da vida cotidiana de um jovem casal de classe média vivendo na Londres vitoriana do final do século 19. Uma vez imersos na vida do casal, Machen nos leva a um
tour à outras realidades transcendentes e, pela primeira vez (pelo menos em minhas leituras do autor), ele se atem a descrever sua percepção da metafísica do assombro, do sublime e do terrível que nos rodeia.
A Fábrica do Absoluto

Karel Čapek (1890 - 1938) foi um escritor Tcheco famoso pela peça teatral R.U.R. - Os Robôs Universais de Rossum (1920), onde aparece pela primeira vez a palavra "Robô". A Fábrica do Absoluto (1922) trata-se de uma brilhante sátira premonitória acerca do das transformações pelas quaisl passamos ao longo do século 20 e, nas quais, ainda estamos imersos. A ideia central da obra: a maioria das pessoas acreditam que Deus criou todas as coisas e imbuiu cada coisa ou matéria (pedras, minerais, árvores, rios, animais...) de uma pequena fração de sua essência divina. E se, através de reações químicas, fosse possível processar esta matéria até que não sobrasse mais nada, a não ser a essência divinatória que ali estava presa junto ao material, que então seria liberada para o ambiente? Um gênio engenheiro consegue esta façanha ao produzir o "Carburator", que ao decompor uma pequena quantidade de carvão libera esta essência divina no ar junto com uma quantidade enorme de energia limpa. Isso se converte em um grande invento, já que traz consigo a promessa de energia limpa, eficiente e barata para a humanidade. Entretanto, a essência divina liberada é extremamente embriagante e catártica para todos. Painel distópico de nossos dias, A Fábrica do Absoluto é atualíssimo e, sua leitura, talvez seja até necessária.
Histórias Assustadoras para Contar à Noite
Lançado em 2021 pela Editora Pipoca e Nanquim como uma grande promessa de antologias de terror, Histórias Assustadoras para Contar à Noite aguçou a curiosidade. Entretanto, o livro traz uma coletânea de contos mais voltada para iniciantes e curiosos no gênero terror. Destaco alguns contos: A Dama de Lado de Lynda E. Rucker; A Chaminé de Ramsey Campbell; O Sorriso da Vovó de Robert Shearman; e Vocês têm medo do escuro? de Charles L. Grant. Lidos com a devida atenção e, destituindo-se do hype que a obra recebeu em seu lançamento, esses contos são bem interessantes e, caso estivessem emoldurados dentro de outro contexto literário, ganhariam ainda mais força e expressão.
O Mestre do Silêncio

O Mestre do Silêncio de Irving Bacheller (1859 - 1950) discute, de forma subjacente, a ideia de possuirmos outros sentidos que, em função do desenvolvimento da linguagem, acabam por ficar subdesenvolvidos, o que nos priva, enquanto espécie, de experimentarmos o mundo de uma forma muito particular e mais profunda. A "palavra falada" acaba por reduzir drasticamente a forma de nos expressarmos e de percebermos o dia a dia, empobrecendo conceitos, sensações e sentimentos que, vistos de dentro, possuem muito mais significado do que aquele que pronunciamos. Assim, a linguagem falada funcionaria como um filtro redutor de quem nós somos, para o bem e para o mal. A história segue um jovem que acaba por descobrir a existência de um primo que foi criado em condições especiais que lhe permitiram crescer fazendo uso de outra forma de comunicação, mais profunda e menos dissimulada. Isso o qualificou com dons que excedem nossa capacidade humana comum. O Mestre do Silêncio é um interessante exercício de percepção acerca de nossa forma de interação consigo e com o outro.
A Mansão de Sorona
Como pai da literatura Pulp brasileira, R.F. Luchetti, falecido há apenas alguns anos, dispensa apresentações. Seu filho, Marco Aurélio Luchetti, atualmente tem a gestão do patrimônio literário do pai e, através de alguns lançamentos tem nos presenteado com pérolas do mestre Luchetti. A Mansão Sorona é uma coletânea de contos e abre com o conto homônimo. Embora conhecido, nunca é demais falar sobre o surpreendente domínio da narrativa e sua precisão literária. Encontramos fortes ecos de E.A. Poe e, não é exagero (pelo menos para mim), coloca-lo no mesmo panteão.
Compartilhe sua viagem literária em 2025 nos comentários.
Marcelo,
ResponderExcluirseu texto é um atravessar de emoções. Que não passam só pelos livros, mas também por dentro de quem lê. Dá para sentir o cuidado, a escuta atenta e o respeito com que você se aproxima dessas obras e desses universos tão densos, sombrios e, ao mesmo tempo, profundos.
O que mais me toca é que você costura entre o material e o imaterial, entre o ordinário e o sobrenatural, entre o medo e o fascínio. Sua leitura não é consumo: é rara.
Obrigada por compartilhar essa jornada tão rica. Dá vontade de abrir livros, acender abajur e atravessar esses mundos com mais silêncio e mais alma.
🙏🏻
Minha Viagem Literária (2025)
Em 2025, minha estante não foi apenas móvel foi porto, abrigo e estrada. Li menos por quantidade e mais por necessidade de sentido. Alguns livros não me entretiveram: me atravessaram.
Viajei por histórias que não tinham pressa de agradar, mas urgência de dizer verdades silenciosas. Encontrei personagens que me ensinaram mais sobre mim do que sobre eles. Aprendi que a literatura, quando é verdadeira, não termina na última página ela continua repercutindo no jeito que a gente olha o mundo.
Me aproximei de narrativas que falam de dor, espiritualidade, humanidade, sociais, relações e reconstruções lentas. Descobri que gosto de livros que não oferecem respostas prontas, mas perguntas que permanecem rondando o pensamento enquanto trabalho ou observo o céu no fim da tarde.
Em alguns dias, li para descansar. Em outros, li para sobreviver emocionalmente. Houve textos que me deram colo. Outros que me sacudiram. E alguns que me ensinaram a ficar em silêncio porque certas verdades não precisam de barulho.
Em 2025, alguns livros não apenas me fizeram companhia eles caminharam comigo. O Pequeno Príncipe, que eu já conhecia, voltou diferente, mais maduro, mais dolorosamente verdadeiro. Descobri que reler também é se reler.
Em noites silenciosas, mergulhei em A Cabana e chorei em partes que antes não tinham doído. Talvez porque a fé também amadurece, e a dor aprende novos nomes. O Evangelho seguiu sendo meu mapa interno, aquele livro que não envelhece porque conversa diretamente com a alma.
Passei por Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago, e saí dele mais atenta ao mundo. Percebi que a maior cegueira não está nos olhos, mas na indiferença cotidiana que a gente normaliza. Já em O Alquimista, reencontrei o lembrete simples e difícil: ouvir o coração dá trabalho, mas salva.
Li também Torto Arado, e ali a literatura virou chão, suor, ancestralidade e ferida aberta do Brasil. Foi impossível sair ilesa. Assim como não saí ilesa de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus livro que não se lê sentado confortável, se lê com a consciência em pé.
Nos dias em que precisei de delicadeza, fui acolhida por poemas de Cora Coralina e por trechos de Rubem Alves, que escrevem como quem ora em forma de palavra. Eles me ensinaram que simplicidade também é profundidade.
E, entre um livro e outro, percebi algo bonito: não fui eu que escolhi todas as leituras. Algumas me encontraram no momento exato em que eu precisava delas.
Minha viagem literária não foi turística. Foi existencial. Caminhei por dentro de mim mesma, carregando livros como lanternas pequenas, iluminando pedaços escuros que eu nem sabia que estavam ali.
Minha estante em 2025 não ficou mais bonita ficou mais viva. Com marcas de lápis, páginas dobradas, lágrimas secas entre capítulos e pensamentos espalhados pela casa.
Porque ler, para mim, nunca foi passatempo.
Foi caminho.
Foi cura.
Foi conversa com Deus em silêncio.
Então é isso!
Abraço
Fernanda
Oi Fernanda...
ExcluirNão sabe a alegria ao ler seu comentário aqui na minha postagem em meu Blog.
Blog... Uma mídia já precocemente esquecida em favor da rapidez, da superficialidade do imediato, da embriaguez do ego das novas mídias.
Suas palavras também alcançam recantos distantes da alma ao trazer sólidos e poéticos construtos de consciência. Muito obrigado pelas cálidas, doces e profundas palavras.
Ao ler acerca da sua viagem literária ficamos também instigados e desafiados a experenciar a leitura com detalhe, com calma, com uma aquietação capaz de decantar e destilar o sentimento. Conforme envelhecemos percebemos a necessidade de se limar o desnecessário, o supérfluo, o excesso... e nos concentrarmos na essência. Nessa perspectiva a própria "palavra", escrita ou falada, é um empecilho ao que é importante caso não seja dita ou falada com honestidade. Daí nosso interesse pelas obras daqueles que, cansados do supérfluo e do "excessivo que nos confunde", buscaram expressar o que é essencial.
E por falar em essencial, ao visitar seu Blog percebi o quão poético é. O que me fez lembrar de algo do passado. O pensamento abstrato é o ápice do pensamento humano, nossa mente não alcança o que está depois do abstrato, e se há uma linguagem que consegue tocar o abstrato e o além é a poesia, daí seu Blog ter me trazido esta alusão.
Sobre tudo isso que estamos comentando, deixo um pequeno pedaço do livro "WALDEN - A Vida nos Bosques" (1854) de Henry Thoreau (1817 - 1862) que é citado pelo Prof. John Keating (Robin Williams) no filme "Sociedade dos Poetas Mortos" à sua turma:
"Fui para os bosques porque queria viver deliberadamente, encarar apenas os fatos essenciais da vida, e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, e não, quando viesse a morrer, descobrir que não vivi."
Forte abraço.
Marcelo.
Marcelo,
ResponderExcluirSua mensagem não apenas tocou ela despertou camadas de reflexão que raramente encontramos nas trocas apressadas de hoje. Há nela um chamado à consciência, ao retorno ao centro, ao gesto quase revolucionário de pensar com profundidade em tempos de superficialidade.
Quando você fala do blog como território esquecido, eu o vejo como um refúgio da palavra inteira, onde o texto ainda pode respirar, amadurecer, criar raízes. Ali, a escrita não corre ela caminha. E quem caminha observa, sente, compreende. Talvez por isso esse espaço ainda seja fértil para quem busca o essencial.
Sua observação sobre a linguagem também é luminosa: a palavra só tem valor quando nasce da honestidade interior. Caso contrário, ela se torna ruído. A poesia, nesse sentido, não é ornamento é instrumento de revelação. Ela toca o abstrato porque nasce do que habita o ser humano.
E quando você traz Thoreau, tudo se alinha: viver deliberadamente é escolher presença, é recusar o automático, é existir com intenção. É não permitir que a vida passe enquanto apenas sobrevivemos.
Obrigada por suas palavras, elas são como um encontro raro entre consciências que não se contentam com a superfície. Que continuemos cultivando esse tipo de diálogo silenciosamente transformador, profundamente autêntico.
Com respeito, gratidão e admiração,
Fernanda 🙏🏻