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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Pílula Literária #17: Rodolfo Zalla - O Sentido de Tudo


Fascinante, acadêmico, afetivo, histórico, familiar... Rodolfo Zalla - O Sentido de Tudo, do jornalista Gonçalo Júnior, é uma obra que alinha perfeitamente todos esses adjetivos por mais que pareçam, à princípio, distantes entre si. Um livro que foi publicado graças a insistência e lealdade que o autor dedicou ao desenhista Rodolfo Zalla e à sua obra. Um lançamento gestado desde 2008 quando Gonçalo entrevistou o mestre Zalla. A história das Histórias em Quadrinhos sempre foi e será fascinante, mas se torna ainda mais incrível quando conhecemos as personalidades que estiveram por trás delas. Rodolfo Zalla, desenhista argentino que imigrou para o Brasil no início dos anos 60, é uma destas personalidades a ser conhecida e pesquisada à fundo em função não apenas da qualidade de seu traço, mas porque foi testemunha ocular e partícipe da construção de um imenso capítulo dos quadrinhos nacionais. O livro de Gonçalo, entretanto, não se atem às questões técnicas, históricas e políticas que serviram de pano de fundo à vida de Zalla, na verdade a construção da obra estrutura-se também dentro de aspectos simples e afetivos da vida do desenhista. Aspectos estes que, assim como em nossas nossas vidas, redimensionam e ressignificam tudo, já que apontam para nosso caráter. Rico em ilustrações e capas, o livro traz inclusive HQs inéditas ilustradas por Zalla, o que traz brilho adicional ao texto de Gonçalo, expandindo a experiência da leitura. Mas por que a obra é tão relevante? Para além de palavras elogiosas de alguém como eu, que tem apreço especial pela vida dos homens e mulheres que construíram a 9ª Arte, há na leitura do livro a percepção clara de como se davam as publicações no conturbado Brasil dos anos 60, 70, 80 e 90. Se de um lado tínhamos grandes editoras no Rio de Janeiro, em São Paulo os quadrinhos funcionavam no âmbito das pequenas editoras, o que nem por isso tornava a cena menos interessante e incrível nas paragens paulistas. Na leitura descortina-se encontros e desencontros que moldaram a forma de se fazer e produzir quadrinhos em nosso país no século XX, espelhos de uma conjuntura política e social. Zalla foi muito associado à produção de quadrinhos de terror no Brasil com as famosas revistas Calafrio e Mestres do Terror, porém sua contribuição em outras áreas é colossal, como no caso de artes produzidas no contexto didático que auxiliaram o aprendizado de algumas gerações de crianças, algo inovador ao fundir a experiência escolar aos quadrinhos em livros didáticos. Grande também foi sua incursão por outros gêneros dos quadrinhos como no caso do faroeste e temas de guerra. A relação do artista com grandes nomes da indústria também é bem descrita, artistas como Eugênio Colonose, Nico Rosso, Luís Merí, Mozart Couto, Sebastião Seabra, José Delbo, Primaggio Mantovi... roteiristas como R.F. Luchetti, Maria Aparecida Godoy, Reinaldo de Oliveira, Gedeone Malagola... editores como Miguel Penteado... entre muitos outros transitam ao longo das páginas traçando um grande painel de pessoas que construíram os quadrinhos nacionais durante várias décadas. Assim, Rodolfo Zalla - O Sentido de Tudo se constitui em material imprescindível por revelar de forma simples, afetuosa e didática um legado maravilhoso tendo como pano de fundo a memória dos quadrinhos em terras brasileiras.
 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Pílula Gráfica #35: Bruxas, Minhas Irmãs - (2023) - Uma Antologia de Chantal Montellier


Depois de Social Fiction (Ed. Comix Zone), a francesa Chantal Montellier tem outra obra publicada no Brasil, agora pela Editora Veneta. Trata-se de Bruxas, Minhas Irmãs. Uma obra densa, na qual a autora traz exemplos de mulheres que ao longo da história foram acusadas, julgadas e, na maioria das vezes, condenadas como bruxas. Montellier conta essas histórias de uma maneira muito, mas muito diferente do usual. Ela exige do leitor certo preenchimento de pequenas lacunas narrativas, o que, por sua vez, confere linhas ocultas dentro da história. Assim, o sugestionamento se insinua e deixa a obra mais profunda, aludindo a temas como sexismo, misoginia, obscurantismo, racismo, intolerância, entre muitos outros. O desenho é da própria autora e traz outra camada de profundidade, já que é melancólico, desolador e estranhamente alinhado a atmosfera trágica. Determinadas expressões faciais específicas são guardadas para certos personagens-chave nas diversas narrativas. São rostos que confrontam o leitor, que por sua vez se sente indagado pelas personagens, gerando sensação de sermos coparticipes nesse grande teatro de horror. Mas há mais coisas no âmago da obra. A autora traz uma interpretação subjacente ao fenômeno da "caça às bruxas", e com o qual eu concordo. Há dentro da psiquê masculina um deslumbramento natural pelo sexo feminino, e isso não é apenas subjetivo, é biológico também (obviamente), porém tal deslumbramento natural, fragiliza de alguma forma a hermética e belicosa natureza dos homens. Dentro de um contexto histórico, tal deslumbramento/admiração/feitiço pela beleza e natureza femininas, é muito difícil de ser admitido, sobretudo dentro de sociedades calcadas por símbolos e estereótipos de poder masculino. Admiti-lo seria uma exposição tristemente interpretada como "fraqueza". A solução sempre foi a imposição de modelos de vida para o sexo feminino dentro dos quais a mulher deve ser mantida "controlada" e "policiada". Qualquer movimento na direção oposta seria permitir que tal beleza ou "feitiço" crescesse a tal ponto de subjugar o status quo predominante. Figuras que eventualmente destoassem deste padrão seriam estereotipadas com a marca do oculto, do subversivo e do "viver maligno". Esta tônica parece permear a antologia de Bruxas, Minhas Irmãs. Dos relatos presentes na obra Fogo na Floresta e De um Diabo a Outro me marcaram bastante, sendo o primeiro deles sobre Camille Claudel. E por falar em símbolos, Chantellier faz grande uso deles. Cada página traz diversas imagens simbólicas cuja intepretação me escapou. Para um leitor mais perspicaz é possível que a obra cresça ainda mais ao dimensiona-la no contexto destes símbolos. A Edição da Veneta tem capa dura, papel de alta gramatura e um detalhe muito bem vindo, as letras são da famosa, e querida para muitos leitores de quadrinhos, Lilian Mitsunaga.

Página da história: Eva Desloups

Página da história: Eva Desloups

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Pílula Gráfica #34: Adam Wild - Vol. 01 (2021)


Depois de Face Oculta, Gianfranco Manfredi tornou-se um dos meus roteiristas favoritos. Uma de suas marcas é a profundidade histórica e temporal com que localiza seus personagens. Embora ficcionais, as interações destes personagens com o meio é totalmente real. Vemos um desfile de chefes, presidentes, exploradores, empreendedores que realmente existiram. A partir de profunda pesquisa, Manfredi constrói dramas e aventuras que nos capturam profundamente. Quando vi a Editora Saicã trazer a série Adam Wild através de financiamento coletivo pelo Catarse, não me chamou muito atenção, até ver de quem era o roteiro. Adam é um aventureiro/explorador ao melhor estilo dos clássicos Pulps. Uma mistura entre um Jim das Selvas libertário com um aventureiro e apaixonado Errol Flynn. Ambas personas convivendo em um só personagem que odeia escravagistas até a última fibra do seu corpo. Escocês, Adam é membro da Royal Geographical Society e já teve várias explorações financiadas pela renomada associação. Indomável e amante da natureza, conseguiu fazer amizade com líderes tribais, inimizades com os grandes caçadores, vendedores e compradores de escravos. Passeando pela complexa teia de intrigas, violência, crueldade, política e comércio, Adam vive no fio da navalha. A Editora Saicã trouxe ao Brasil a série completa em 7 volumes, sendo o 6º e 7º financiados recentemente também pelo Catarse. Entretanto, todos podem ser adquiridos na Loja Virtual da Editora. Terminei o vol. 01 recentemente e o destaque vai para a personagem real que norteia toda história inicial, o explorador David Livingston, primeiro europeu a percorrer toda a extensão da África Negra. Um homem que não conseguiu acreditar na brutalidade, crueldade e racismo a que a humanidade pode chegar. Aliás, muito da narrativa de Manfredi tangencia outra personalidade real, a do polonês Joseph Conrad, que em 1899 nos presentearia com a pérola da literatura universal No Coração das Trevas. Livro que narra a experiência de Conrad no comércio de marfim na segunda metade do século XIX nas profundezas da selva Africana. A história de Adam Wild conjuga um manifesto contra a ferida aberta no continente africano e histórias típicas de aventura. Ambas se tocando e se reforçando mutuamente, mantendo assim a atenção do leitor. A edição da Saicã possui capa cartão e um preço bem acessível, além de manter os textos originais de Manfredi antes de cada capítulo. As informações que Manfredi traz re-significam totalmente a leitura, pois contextualizam a época e fornecem concretude às personagens. Uma excelente HQ com "H" maiúsculo. Ao melhor estilo de um dos maiores roteiristas italianos.

Adam Wild

Errol Flynn

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Pílula Gráfica #33: O Vale do Terror (2019)


Lançada de 2016 à 2020, A Coleção Tex GOLD da Editora Salvat não para de surpreender. Muito provavelmente porque para mim foi meu ponto de entrada no Universo Texiano. Em o Vale do Terror (La Valle del Terrrore), edição Nº 26 da coleção, Cláudio Nizzi coloca Tex Willer e seu amigo Kit Carson no rastro de uma seita de fanáticos que cometem assassinatos cruéis e violentos. Porém, esta narrativa cairia no lugar comum não fosse vários elementos da história. Além da costumeira sagacidade de Tex, a arte do saudoso Roberto Raviola (desenhista italiano mais conhecido como Magnus) salta aos olhos, sobretudo na concepção das paisagens, das cenas amplas, da arquitetura das construções e da ambientação interna. Não conhecia muito seu trabalho, mas a concepção artística de Magnus brilha a cada página. Considerando que este é um dos últimos trabalhos do artista, a história também serve como uma despedida. Mas há mais em O Vale do Terror. Um peculiar aventura em que TexKit se envolvem em uma investigação dentro de um núcleo familiar. Um microcosmo dentro do qual o ranger e seu amigo, acostumados com embates diretos com seus inimigos, têm agora que administrar uma investigação em um contexto de afetos, perdas, desilusões e brigas familiares. Um terreno minado e de difícil manobra. Cláudio Nizzi é mesmo um grande roteirista, pois constrói a narrativa fornecendo ao leitor um ambiente crível e passional. A concepção de uma das principais vilãs da história é incrível. A sensual, ardilosa, fiel e violenta chinesa May-Ling. Governanta da casa de Victor Sutter, antigo magnata do Vale do Rio Yuba e que agora amarga uma ruína financeira, May-Ling entende a dor e a raiva de seu patrão que foi levado à derrocada financeira por famílias que contribuíram para sua situação. Como governanta, ela compra a vingança de Sutter e se alia à misteriosa e cruel seita. Uma verdadeira teia de intrigas e dramas dentro da qual Willer e Carson se veem enredados. E tudo, como já mencionado, emoldurado pela excelente arte de Magnus. Concebida inicialmente em preto e branco, O Vale do Terror saiu colorizado para esta coleção. Algo que em minha opinião deu muito certo, muito embora para alguns isto possa deslegitimar a originalidade artística de Magnus. Embora este seja apenas mais um volume dentro da Coleção Tex Gold, eu poderia dizer que é um dos pontos altos de minhas leituras de 2023.




domingo, 12 de novembro de 2023

Pílula Gráfica #Especial 2: Dose Tripla


A pílula gráfica especial de hoje será voltada para três obras bem diversas entre si. Monolith publicada no Brasil em fevereiro de 2020 pela Panini, Sonhonauta e Vida nas Sombras, ambas publicadas pela Editora Conrad no ano de 2022. Meu comentários, entretanto, seguirão a minha ordem de leitura.


Sonhonauta é um quadrinho autoral do artista Shun Izumi. A obra traz Mendel, um cara comum que começa a sofrer da difícil situação de misturar seus sonhos com a realidade à sua volta. Em seu delírio, Mendel se lembra de um grande amor de um possível passado que foi assassinada brutalmente. Alternando realidade e fantasia, o protagonista tenta separar o que é ou não real e vai juntando as peças ao seu redor para tentar compor um cenário minimamente razoável. A arte é do próprio Izumi, que produz um traço diferente à cada capítulo, buscando com isso trazer estranhamento e dissociação ao leitor. Esta estratégia custou grande trabalho à Izumi, como ele mesmo descreve ao final da obra. A arte cumpre este papel, embora particularmente eu pouco aprecie a estilização extrema que por vezes ocorre ao longo da narrativa. O desfecho final traz a trama para realidade, ancorando-a à eventos do mundo real, embora eu buscasse algo mais transcendente. De qualquer forma Sonhonauta atende à uma ampla gama de leitores, tendo sido uma obra que chamou atenção à época de seu lançamento em 2020, época em que a pandemia pelo novo coronavírus estava em ascensão, algo que exerce influência de certa forma na narrativa do autor.


"Se a morte chegar mais cedo, jogue sujo!". Com esta frase Vida nas Sombras busca um retrato da finitude da vida tendo como epicentro a idosa e viúva Kumiko de 76 anos. Colocada no asilo pelas filhas que querem maior proteção, segurança e cuidados para a mãe, Kumiko não se adapta à vida do local. Esta pequena sinopse já ocorre na primeira e segunda páginas da história. A protagonista foge e invade um apartamento (essa parte não é bem explicada) e passa a morar ali sem avisar para ninguém, o que causa pânico nas filhas. A autora, Hiromi Goto, traz muito da sua experiência pessoal nesta obra que se concentra na luta de Kumiko contra sombras que começam a acua-la no dia a dia, uma metáfora para a aproximação da morte. A protagonista empreende então uma luta doméstica contra esta aproximação e, nesse interim, encontra novas pessoas do bairro e ao mesmo tempo acaba por recorrer à um antigo amor do passado. Torna-se muito claro na obra que o grande trunfo de Kumiko é permanecer fiel ao seu modo de ver e viver o mundo, mantendo sua rebeldia ativa até o fim. A construção narrativa busca levar o leitor à uma leitura suave e sem grande percalços. Vida nas Sombras, tal qual Sonhonauta, é uma menção honrosa dentro de minhas leituras de 2023, mas não as colocaria como melhores de 2023. Porém alerta: esta interpretação é minha e se associa ao meu histórico e expectativas como leitor.


Com desenhos esplendidos de Lorenzo LRNZ Ceccotti e Mauro Uzzeo, Monolith saiu originalmente pelo selo Sergio Bonelli Edittore na Itália. Originalmente concebida simultaneamente como HQ e roteiro para cinema, Monolith é um quadrinho que narra as decisões da inconsequente e jovem mãe Sandra, que em busca de espaço dentro do casamento com o marido Carl, se lança em uma viagem junto com seu filhinho David, dentro da última maravilha da tecnologia automobilística, o carro Monolith. Uma fortaleza inexpugnável sobre 4 rodas. Sandra, entretanto matem seu comportamento inconsequente, o que leva o carro a trancar-se com o pequeno David em seu interior sob o sol causticante em uma estrada deserta. O que se segue então é a desesperada tentativa da mãe em abrir o carro, tendo que enfrentar sua culpa, os perigos do deserto ao seu redor e a tecnologia do Monolith. O leitor é levado à extremos de ansiedade frente à luta de Sandra. O destaque vai para a arte e para os momentos nos quais Sandra alucina e delira frente aos eventos que lhe sucedem. O roteiro é do também italiano Roberto Recchione que concebe uma história já pronta e desenvolvida de uma vez só, como ele mesmo narra no prefácio. Uma história que lhe chegou como um bólido e logo se desenvolveu simultaneamente como HQ e filme, este último lançado em 2017 como uma produção italiana, dirigida por Ivan Silvestrini e estrelada por Katrina Bowden como Sandra. Com finais diferentes (não assisti ao filme, apenas li a HQ) o filme e o quadrinho parecem ser complementares. Monolith merece ser conhecido e apreciado na perspectiva do thriller que é.

sábado, 4 de novembro de 2023

Pílula Gráfica #32: O Complô - A História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião (2005)


Em tempos de Guerra, a primeira vítima é mesmo a Verdade

Ao lado de uma história do Spirit em crossover com o herói O Escapista, a obra O Complô - A História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião foi escrita e desenhada por Will Eisner em 2004, sendo estas suas duas derradeiras histórias. Original e atualíssimo, o O Complô se distancia dos tradicionais trabalhos de Eisner ao trazer um material denso, profundo e cheio de idas e vindas cronológicas. Uma colcha de retalhos políticos, bélicos e sociais que tentam traçar a origem de uma das maiores farsas já elaboradas na história, Os Protocolos dos Sábios do Sião. Uma peça política que se baseou num documento escrito por volta de 1850 por um ativista político francês chamado Maurice Joly. Em O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu, Joly buscava atacar o então autodenominado Imperador da França, o Rei Luís Napoleão (sobrinho de Napoleão). Após Joly cometer suicídio em 1878, o livro circulou em diversos países e chamou atenção de dois políticos russos em 1894, Gorymikine e Rachkovsky. Gorymikine conhecia o livro de Joly, e viu nele a oportunidade de ouro para produzir um segundo livro que atacaria os judeus e os colocaria como conspiradores mundiais. O principal objetivo de Gorymikine era reduzir a influência do judeu Sergei Yulievich Witte sobre a visão de mundo do então Czar Nicolau II. Para esta tarefa de elaboração de um livro político secreto, crível, embora mentiroso, Gorymikine viajou à França para encontrar Mathieu Golovinski, jovem ambicioso  de ascendência russa que já produzira reportagens mentirosas em jornais voltados para russos na segunda metade do século 19 na França. Foi assim que o jovem e ambicioso escritor Golovinski escreveria em 1898 Os Protocolos dos Sábios do Sião baseando-se em O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu de Maurice Joly. O livro de Golovinski (Os Protocolos dos Sábios do Sião) era envolvente, crível e sobretudo atendia às demandas de quaisquer governantes em busca de uma conspiração que justificasse sua permanência como guardião do status quo. A partir deste ponto, Eisner inicia saltos cronológicos no século 20 apresentando as diversas situações políticas nas quais o documento foi usado, sobretudo na Alemanha pré-nazista, como instrumento de insuflação. Diversos países passariam a imprimir clandestinamente Os Protocolos dos Sábios do Sião ao longo das décadas, inclusive o Brasil, ainda que Cortes ao redor do mundo tenham julgado e atestado a farsa por traz do que é narrado pelo livro de Golovinski.  Publicada pela Companhia das Letras no Brasil em 2005, a obra O Complô - A História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião é uma obra que precisaria ser estudada e esmiuçada como manifesto de como a verdade pode ser manipulada em detrimento de grupos e facções. Teorias conspiratórias que podem levar povos inteiros à xenofobia e à intolerância. O Mestre Eisner, em seu crepúsculo de vida, deixou uma obra monumental, um atestado da importância de se construir pontes entre as pessoas, desativando as "bombas" narrativas mentirosas. Em tempos de Guerras precisaríamos ter cautela com discursos de ódio, com a disseminação de narrativas que ressaltam as diferenças e não as semelhanças entre os povos (que são muitas). O Complô - A História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião está à altura da vida do Mestre e atesta os valores pelos quais ele viveu.

domingo, 10 de setembro de 2023

Pílula Gráfica #31: Crime e Poesia - (2022)

















Redenção é um dos processos ou atos mais almejados pelo ser humano. Pelo menos por aqueles que guardam dentro de si uma centelha de indagação acerca do sentido de tudo. A história narrada em Crime e Poesia parece saída de um daqueles enredos inverossímeis que eventualmente encontramos. Ela trata de muitas coisas, mas para mim trata de redenção. Crimes, dentro de crimes que se somam e se somam e que, ainda que de forma impossível, encontram redenção em um processo difícil de auto aceitação, injustiça e abandono. A história do homem chamado Matt Rizzo que, através do filho, Charlie Rizzo, sobreviveu para ser contada e descoberta. Uma história com raízes no bárbaro crime cometido na primavera de 1924 pelos jovens aristocratas Nathan Freudenthal Leopold, Jr. e Richard Albert Loeb, mais conhecidos como Leopold & Loeb. Dupla que sequestrou e assassinou com requintes de crueldade um menino de 14 anos de idade (Bobby Franks) nos EUA. Um crime que ressoou por décadas no imaginário das pessoas e acabou por atingir de certa forma também Matt Rizzo. Crime e Poesia apresenta de forma muito clara e honesta o labirinto pelo qual andamos em nossa existência  e as escolhas que fazemos. Nesse labirinto podemos, entretanto, encontrar as migalhas deixadas por outras pessoas que já o trilharam e sabiam o quão difícil é aprender a ser feliz com o que se tem e com o simples. No caso de Matt Rizzo, Homero, Virgílio, Shakespeare, Milton, Whitman, Emerson... Matt aprendeu do jeito mais difícil a viver o simples e a se maravilhar com o comum.

"Destituído de todos os sinais vitais, ele ficou parado ao lado da Correnteza silenciosa, como um Navio encalhado, separado de todos os laços terrenos.

Enquanto estava suspenso, além da revogação do tumulto mortal da vida, uma mão esticada gesticulou para ele da outra margem e o impulsionou a avançar, pela Vontade Divina, e ele cruzou o Rio silencioso com os dois braços esticados para quem gesticulara; e um abraçou o outro com força;

a Morte emergiu levando o fardo dos espólios corporais; Scorto, despojado de sua carcaça mortal, emergiu belo e imaculado, com os mesmo traços, porém mais perfeito e mais jovem que qualquer obra de Arte ou Escultura poderia conceber.

Transfigurado, a nuvem de um homem sem pecados, a testa se deslocando para cima, Ele se elevou, alcançando os jubilosos prados do Paraíso eterno."

Dos Escritos de Matt Rizzo

domingo, 23 de julho de 2023

Pílula Gráfica #30: A Floresta - (2022)

Difícil é exprimir em palavras algo que não foi concebido para ser comunicado por meio do veículo escrito ou falado, mas apenas pelo imagético. Nesses casos, a tentativa possivelmente resultará na corrupção da mensagem, ou então na sua transformação em outra coisa, geralmente de menor valor. Assim, minha tentativa de trazer aqui um pouco do que foi minha experiência com a A Floresta de Thomas Ott será apenas uma humilde tentativa. Famoso por seus quadrinhos mudos lá fora, o suíço Thomas Ott possui dois títulos seus publicados no Brasil, ambos pela DarkSide Books, Panopticum e A Floresta. Seria muita pretensão de minha parte comunicar a profundidade que Ott alcança em A Floresta ao tratar do tema "morte". Para quem possui uma relação um pouco mais profunda com a natureza, especificamente com a mata ou floresta, reconhecer esse espaço como veículo ancestral de sabedoria silenciosa é algo relativamente fácil. Ott usa o elemento silencioso do "verde", sua hermética beleza e fascínio "quase" místico, para contar uma história que, sem uso de palavras, desce aos porões da dor existencial da perda de um ente muito próximo. O vazio, a dificuldade em se reconhecer na nova realidade a partir da "ausência", a sensação da correnteza da vida de repente se estagnar e o tempo se contrair... lugar este já visitado por aqueles que experimentaram uma perda. A história, narrada por meio das imagens produzidas pelo autor, com suas nuances, concretudes e subjetividades de traço, catalisa a revisitação a este lugar de perda e ausência. Uma história que usa a floresta como metáfora (ou talvez não) para a descida ao lugar da dor interior. Acompanhamos um pequeno garoto que se embrenha na mata para fugir da intolerável ausência produzida pela morte. Nesta pequena pérola, Thomas Ott alcança a difícil tarefa de produzir no outro, o acesso às camadas profundas do afeto que aquece, mas ao mesmo tempo dói. Reconheço em A Floresta, imagens profundas deste lugar de dor, solidão e, ao mesmo tempo, redenção...

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Pílula Gráfica #29: Júlia - Especial #1 - (2022)


Vencido pelo cansaço a partir da opinião da esmagadora maioria de pessoas pelas quais tenho profundo respeito, e movido pela curiosidade de conhecer um segundo personagem, além de Ken Parker, de autoria do italiano Giancarlo Berardi, finalmente me dobrei à ideia de ler algo da criminóloga Júlia Kendall. Uma personagem que à princípio, sempre esteve na total periferia de meu radar, exceto pelo seu rosto inspirado na atriz Audrey Hepburn. Após o sucesso de Berardi em Ken Parker (publicado originalmente na Itália entre 1977 e 1984) o autor buscou novos horizontes. Nessa busca, aprofundou-se no ambiente hermético e visceral da criminologia. Deste período emergiu Júlia Kendall. Júlia é formada em criminalística e possui como motivação máxima entender os desejos, motivações, impulsos e objetivos de homicidas. Em outras palavras, entender os caminhos obscuros que a mente humana pode tomar. De aparência enganadoramente frágil, a personagem é dotada de grande talento investigativo e trafega com desenvoltura por ambientes insalubres e psiquicamente instáveis. Com esta premissa Berardi fez de novo! Trouxe qualidade, inovação e dramaticidade ao formular com brilhantismo o universo de Júlia Kendall. Obra que efetivamente fascina, envolve e coloca em foco o perigoso mas atraente mundo da mente humana. Cheia de referências culturais, a série realmente precisaria ser mais conhecida. Minha (recente) porta de entrada foi o Nº 01 de Júlia Especial. A personagem é publicada no Brasil pela Editora Mythos atualmetne, e estrela 3 séries em nosso país (01 delas já concluída). A clássica Júlia - Aventuras de Uma Criminóloga (Formato Italiano), a primeira publicada na Itália a partir de 1998 que contou com 200 números. A continuação Júlia - Aventuras de Uma Criminóloga, e a já concluída Júlia - Especial (foto) que contou com 10 volumes. Todas estas séries passíveis de serem encontradas no site da Editora Mythos ou na loja física Mundo Mythos à Rua Augusta 1371 sobreloja 01 - São Paulo - SP. A série Júlia - Especial narra a juventude da personagem, ainda na faculdade, escolhendo seu caminho como investigadora criminal. Ao ler este Nº 01 pude vivenciar todo impacto da qualidade do material. A personagem possui múltiplas camadas e, merecidamente, uma legião fiel de fãs. Deveria ter mais projeção do que vemos e mais análises de seu material que, assim como Ken Parker, fura completamente a bolha mainstream das publicações mensais da 9ª Arte.


domingo, 2 de julho de 2023

Pílula Gráfica #28: Ken Parker #4 - (2021)





A Coleção Ken Parker da Editora Mythos é talvez uma das melhores coleções de quadrinhos sendo publicadas atualmente. A saga do personagem é um retrato vívido e real do Oeste Americano. Suas tensões raciais, política, injustiças... Se você está ouvindo falar pela primeira vez de Ken Parker, decididamente você deveria conhece-lo. A atual coleção da Mythos é a melhor opção depois de anos de publicações descontinuadas com as histórias do personagem. No momento em que escrevo estas palavras, a coleção já se encontra em seu volume 13. Nesta postagem gostaria de comentar o volume 4, no qual finalmente temos a conclusão da caçada que Ken Parker empreende contra o mercenário Donald Welsh, assassino do homem que poderia ter impedido uma guerra sangrenta entre brancos e índios, Ely Donehogawa, assassinado na história Homicídio em Whashington (vol. 02). O que seria apenas uma caçada por um homem desprezível, transforma-se em algo muito maior nas mãos de Giancarlo Berardi. O volume 4, assim como os demais volumes traz duas histórias completas. Na primeira delas (Sob o Sol do México) Ken caça sua nêmese até os territórios mexicanos e, durante a viagem conhece personagens que emolduram adequadamente a vida real. A prostitua adolescente agenciada e explorada pelo tio, um casal de saltimbancos (Carmem e Roman) que possuem ideais revolucionários. Histórias tragicômicas que tangenciam o caminho de Ken Parker. Embora se esforce muito, Donald Welsh escapa, forçando Ken Parker a continuar sua caçada em São Francisco. Ali começa a 2ª história (Golpe em São Francisco). Um relato no qual Berardi sequer mostra o protagonista (Ken Parker) nas primeiras 40 páginas da história. Na verdade o roteirista usa esse tempo para desenvolver a personalidade do facínora Welsh, e introduzir personagens de apoio extremamente interessantes, a golpista Donna Ashford e o dentista Jack Boots. O leitor por um pequeno momento se vê simpatizando com o vilão ao ser construídas novas camadas dramáticas a ele. Entretanto, Berardi é perfeito nesse aprofundamento, pois não alivia em nada os métodos cruéis de Welsh. Ken Parker será, sem dúvida, um destaque entre minhas leituras de 2023! 


sexta-feira, 9 de junho de 2023

Pílula Gráfica #27: Trilogia Gatilho (2021)


Com arte do brasileiro Pedro Mauro, Trilogia Gatilho é um Western que vai além da costumeira narrativa de vingança do gênero. Envolve a violência que a tudo traga ao seu redor, amarrando pessoas a destinos impossíveis de serem transcendidos. O roteiro de Carlos Estefan nos leva a uma viagem que não se resume a homenagens aos faroestes spaguettis de Leone e Corbucci. Essas homenagens estão ali, entretanto, a força e vigor da história dá vida própria à obra. Podemos facilmente encontrar ecos de Clint Eastwood e seu pistoleiro sem nome, do Django de Franco Nero, da harmônica do personagem de Charles Bronson e de uma onipresente mosca, ambos de Era uma Vez no Oeste, de planos cinematográficos que nos envolvem como se estivéssemos vendo um Bang Bang nas telas. A história segue a vida de um pistoleiro (também sem nome), desde antes de seu nascimento, até seu violento ocaso. Mauro e Estefan fazem uma narrativa que intercala passado, presente e vislumbres do futuro da vida do personagem central, sem deixar o leitor perdido entre esses momentos, mas sim potencializando a história com o uso deste recurso narrativo. Composta de 3 segmentos, Gatilho, Legado e Redenção, o desfecho final da Trilogia não alivia para o leitor. Na verdade pelo contrário, re-significa o termo "redenção" para algo além do final feliz que muitas vezes atribuímos ao termo. Tive a alegria de ouvir Pedro Mauro em um podcast recentemente e, em função disso, minha leitura da Trilogia foi enriquecida pelos apontamentos do desenhista. Artista na estrada desde os anos 70, Mauro retornou aos quadrinhos a partir da década passada depois de um longo período trabalhando no meio publicitário. Apesar disso, toda bagagem e amor pelo gênero western estão vivas e depuradas pelos seus anos de trabalho. Com uma carreira sólida, Pedro Mauro possui importante trabalhos pela editora italiana Bonelli. Um valoroso artista que trouxe, ao lado de, uma pérola do Faroeste para alegria de veteranos e uma excelente oportunidade para novos leitores conhecerem o gênero em toda sua grandeza narrativa!!


domingo, 14 de maio de 2023

Pílula Gráfica #26: Tex Graphic Novel #2 - Frontera! (2016)


A Coleção de Graphic Novel do Tex (Editora Mythos) possui a proposta de trazer abordagens diferenciadas do famoso ranger. À princípio havíamos pensado que a série tinha sido cancelada no número 11 no Brasil com a excelente história Snakeman de dezembro de 2021. Entretanto, vimos chegar às livrarias e comic shops do Brasil mais um volume, o de número 12, Águas Negras. Estou cada vez mais convencido que esta série é excelente em todos os sentidos. Digo isso pelos volumes que já li, a anteriormente mencionada Snakeman (Nº 11) e a de número 01, O Herói e a Lenda. Frontera! (Nº 02) tem todos os elementos de um excelente Western. Porém, vai além ao mostrar Tex em todos seus atributos, com destaque à sua engenhosidade ao lidar com situações aparentemente sem solução, sempre um passo à frente dos seus inimigos, sempre com um plano mais amplo e criativo. Elementos como esse fez do personagem quem ele é, ou seja, alguém que avançou do estereótipo comum dos heróis do Western. Nesta história temos um Tex que luta ao lado de uma mulher magnífica, irascível e indomável em uma luta por justiça e vingança pelo assassinato do pai. Questões periféricas, mas não menos importantes permeiam a história: a hipocrisia do homem branco, a violência das relações humanas, o orgulho indígena sempre tratado como lixo pelo homem branco... E em meio a tudo isso, alguém que busca justiça e igualdade, nesse caso Tex. Por se passar próximo à fronteira dos EUA com o México, é impossível não lembrar do Westerns Italianos sessentistas que tiveram este cenário como pano de fundo. A arte de Mario Alberti é de encher os olhos com seus planos intimistas e ao mesmo tempo grandiosos. O termo Graphic Novel vem sendo usado há muitos anos como sinônimo de um simples compilado de histórias sequenciais. Entretanto, a ideia não é essa. O que se espera desse tipo de publicação é uma visão diferenciada de um personagem ou grupo. O aspecto autoral é outro fator marcante nas Graphic Novels, trazendo uma visão distinta de um determinado autor acerca do universo do personagem (ns). Tex Graphic Novel atende a esses critérios, circunscreve o personagem e delimita muito bem o aspecto autoral. Se dependesse de mim a Editora Mythos deveria continuar avançando com esta série!!

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Pílula Gráfica #25: Vampiros da Meia-Noite - (2022) - Pérola perdida do Cinema de Horror resgatada!


Um ator capaz de se metamorfosear em qualquer monstro ou personagem, um filme perdido de 1927 que viria a se tornar o Santo Graal de estudiosos e cinéfilos engajados em restaurar momentos-chave da 7ª arte... O ator seria Lon Channey, e o filme seria Vampiros da Meia-noite (London After Midnight - 1927). Dirigido pelo cultuado por uns, esquecidos por outros, Tod Browning (Drácula (1931) e Freaks (1932)), London After Midnight foi um filme do cinema mudo que se perdeu em um incêndio que destruiu parte dos Estúdios da MGM em 1967, queimando a única cópia conhecida. Embora este tenha sido o destino do filme, muitos alimentam esperanças de descobrir outra cópia esquecida em algum galpão ou estúdio. Em cima do mito e aura que tangenciam a obra, dois artistas, Enrique Alcatena (ilustrador) e Gonzalo Oyanedel (jornalista), se debruçaram sobre o roteiro original do filme, que era baseado no conto "The Hypnotist" do próprio Browning, e conseguiram transferi-lo para uma adaptação em quadrinhos. Assim, por iniciativa das Editoras Skript e Quadriculando, chegou ao Brasil, via financiamento coletivo, a obra em quadrinhos Vampiros da Meia-Noite (nome dado ao filme no Brasil). A HQ traz a história que envolve o assassinato de Roger Balfour, homem rico que deixa uma jovem e bela filha órfã, a frágil Lucille. Após 5 anos do crime, ainda sem solução, retorna à investigação o detetive Edward Burke da Scotland Yard, que passa a vivenciar experiências horripilantes junto aos vizinhos da Mansão Balfour (que acolheram a jovem órfã Lucille). A figura central destas experiências macabras é um homem de expressão enlouquecida, olhos vidrados, dentes pontiagudos, que veste terno, capa e cartola. Sucesso enorme de bilheteria à época, o filme recebeu avaliações ambíguas e mornas da crítica especializada. Entretanto, passaria para imortalidade ao concentrar a hipnotizante performance de Chaney (O Homem das Mil Faces), um enredo cheio de mistérios e reviravoltas, e sua destruição em 1967. A edição da Skript/Quadriculando é um presente para amantes do cinema, sobretudo do cinema de terror/horror. A começar pelo expediente das primeiras páginas da edição, complementadas pelas últimas, que trazem uma matéria escrita por Roberto Barreiro intitulada Vampiros da Meia-Noite - A História por Trás do Filme Perdido. Nela, Barreiro situa de forma envolvente e clara, acontecimentos que fizeram da película a relíquia perdida que se tornou. Embora não tenhamos mais como assistir ao filme, a HQ cumpre seu papel ao trazer ao leitor a atmosfera de mistério, horror, investigação e ambientação soturna. Um presente que tive a chance de apoiar no Catarse e que você precisa conhecer!





domingo, 30 de abril de 2023

Pílula Gráfica #24: Gus . Nathalie - (2016) - Uma abordagem criativa e afetivamente subversiva do velho oeste!



Quando recomendaram-me Gus (e isso aconteceu várias vezes), esperava encontrar uma história que, embora com um desenho caricato, traria uma história ao estilo Tex Willer, ou quem sabe uma história  ao estilo Western Italiano. A verdade é que a obra não tinha nada a ver com nenhuma abordagem do velho oeste que eu já havia conhecido. Gus é, na verdade, o nome de um assaltante que, ao lado de outros dois companheiros, sobrevive de roubos a trens e bancos. Entretanto, não são as aventuras que ele vive ao lado dos amigos o ponto central da narrativa, mas sim a vida amorosa do pequeno bando. O autor, Christophe Blain, apresenta as carências masculinas pelo afeto feminino (na maioria das vezes reprimida) usando como pano de fundo uma ambientação das mais inesperadas, o hermético mundo masculino do oeste selvagem. Na obra de Blain, embora violentos, Gus e Cia. vivem às voltas com relações familiares, amores não correspondidos e, sobretudo com a busca de mulheres para conhecerem e se relacionarem. Para fãs (como eu) do tradicional Western, em que o anti-herói pistoleiro é quase sempre total ou parcialmente infalível, Gus traz uma leitura que me obrigou a refazer alguns pressupostos esperados e exigidos do gênero. E nesse processo, tive que abrir espaço para outras visões que possivelmente fizeram parte sim da época. Inicialmente confesso que torci o nariz, mas depois, a narrativa leve, descompromissada, engraçada e criativa de Blain me fez navegar cada vez mais à vontade. A obra possui início, meio e fim, e foi trazida ao Brasil pela editora Sesi-SP. Tive um pouco de trabalho para conseguir um dos volumes da série, que no Brasil contou com 4 volumes: Gus - Nathalie (2016); Gus - Belo Bandido (2017); Gus - Ernest (2017); Gus - Feliz Clem (2018). HQs que envolvem desenhos muito caricaturais raramente chamam minha atenção, o que confesso ser um defeito. Isso quase aconteceu com Gus, mas foram indicações que me chegavam continuadamente sobre a HQ, que aos poucos, foram minando meu certo distanciamento. Se você quer conhecer um aspecto interessante, diferente e inovador do velho oeste, Gus é uma excelente obra. Vale muito a pena!!



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Pílula Gráfica #23: O Procurador - (2022) - Mais um acerto de Gianfranco Manfredi!













Histórias de Westerns possuem narrativas muito bem estruturadas dentro de seu universo particular. O pistoleiro em busca de redenção, a prostituta que busca uma vida diferente, os típicos e provincianos personagens periféricos, o fora da lei, o proprietário de terras que deseja comprar tudo a sua volta à força... Alguns autores de HQs, entretanto, conseguem manejar esta narrativa trazendo o "realismo" (caso de Ken Parker de Giancarlo Berardi) o "insólito" (caso de Mágico Vento) e o "inusitado" (caso de O Procurador), esses dois últimos de Gianfranco Manfredi. Em O Procurador, Manfredi concretiza o "inusitado" na figura do Procurador que dá título à obra. Na verdade o inglês James Jennings, ou simplesmente JJ. Exímio atirador, JJ representa o escritório de advocacia Billows & Green e, embora cordato e educado, JJ não é um homem que se intimida com canos fumegantes, e é capaz de fazer de tudo para proteger a integridade de seus clientes. Nesse caso um boxeador miserável que herda uma herança. Assim, JJ precisa leva-lo até seu prêmio, iniciando uma trilha por uma complexa rede de interesses que passa por um pano de fundo real: a política, a revolução que se avizinha no México, o progresso na forma das locomotivas... Assim como em outras histórias de Manfredi, em O Procurador a narrativa se desenrola de maneira fluida e ao mesmo tempo crescente, com tudo muito crível e plausível. Não à toa que, para mim, o autor tem se tornado meu preferido. A edição da Pipoca e Nanquim traz a obra em um formato grande e ao mesmo tempo leve (possivelmente por conta do papel usado), o que torna o volume de fácil manuseio. O tamanho valoriza a arte do brasileiro Pedro Mauro (Trilogia Gatilho), artista da velha guarda que ganha o merecido reconhecimento nacional e internacional. JJ pode parecer um inglês "almofadinha", entretanto, por trás das camadas da fleuma inglesa se esconde um leão como vocês poderão ver. Mais um ótimo trabalho de Manfredi!

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Pílula Gráfica #22: Coney Island - (2022) - Uma experiência Imersiva!


Depois de Face Oculta, tudo que chega ao Brasil de Gianfranco Manfredi cai no meu radar. E não foi diferente quando vi que a obra Coney Island chegava pelas "mãos" da Editora 85, mais especificamente pelo seu selo Lorobuono Fumetti. Manfredi é um autor italiano que chegou à um nível de escrita que permite a imersão completa do leitor ao universo que quer retratar. Foi assim em todas as obras que li dele e é assim com Coney Island. Se você já tocou o universo místico, estranho, bizarro, alegre e cheio de cores de um Parque de Diversões, você precisa saber que tudo isso teve um núcleo primordial que chegou ao seu ápice e Coney Island, parque tradicional de Nova York localizado na Península de Coney Island distrito de Brooklyn. Destino turístico de multidões no início do Século XX, o parque simbolizava de certa forma uma forma de muitos esquecerem suas vidas sofridas, violentas, miseráveis e sem horizontes. Sobretudo depois do Crash da bolsa de Nova York em 1929. Esse é o palco que Manfredi usa para trazer uma poderosa história de gangster com participação, inclusive, de personagens reais, caso de Al Capone, por exemplo. Embora lançada em dezembro de 2022 no Brasil, a HQ entrará sem dúvida nenhuma para a galeria de melhores HQs lidas por mim em 2023. Sem minimizar a violência característica da época, o autor mantém o equilíbrio exato com drama, realidade, ficção, misticismo e (ia escrever "romance" mas o correto é outra coisa) a necessidade de amor das pessoas. A história tem como personagens centrais o Detetive durão Jack Sloane, a "iludida" garçonete Brenda (que almejava mais que sua pacata vida do interior), o motociclista de acrobacias e ex-combatente da 1ª Guerra mundial Speedy e o místico e mágico Mister Frolic (um ilusionista que possui poderes extra-sensoriais verdadeiros). Mas além deles, há um incrível elenco de apoio que por vezes roubam a cena (os amigos e companheiros do parque, outros policiais do departamento de Jack...), dando carga e peso dramáticos incríveis. A edição compila a saga completa com os 3 capítulo, sempre com um texto interessantíssimo de Manfredi no início de cada um. Taí uma HQ que você precisa conhecer!

sábado, 15 de outubro de 2022

Pílula Gráfica #21: O Rumor da Geada - (2022)


Escrever uma história sobre o cotidiano pode parecer algo com pouca graça para muitos. Já que enxergar o que se esconde abaixo da superfície das pessoas não é mesmo uma tarefa fácil. Mas embora esse exercício exija certa atenção e sensibilidade, ele é muito recompensador porque o que descobrimos diz respeito à nós também. Lançado em abril de 2022 pela editora Figura (editora com histórico de trazer grandes nomes dos quadrinhos mundiais para o Brasil), O Rumor da Geada trata de um assunto familiar à muitos: o medo. Não o medo sobrenatural, mas o medo mais simples, porém não menos completo, que se esconde dentro de nós: medo de assumir relações, medo de galgar novos degraus na experiência humana, medo de amar... A história acompanha Samuel Darko, jovem comum e casado com Alice. Sem querer, Alice acaba desencadeando medos adormecidos em Samuel a partir de uma questão conjugal. Os autores Jorge Zentner (roteiro) e Lorenzo Mattotti (arte) construíram uma história sem pressa, apenas se deixando levar pelos personagens. A simbiose dos autores desvendou uma história sensível e cheia de introspecção. E para fazer com que tudo funcionasse de forma vigorosa Mattotti explode as páginas em uma profusão de cores e formas que conseguem modelar a história mais até que o roteiro. Nada mais adequado para uma narrativa que se passa muito mais dentro do protagonista em seus silêncios. Como amante da estética Art Deco, não pude deixar de associar algumas imagens de Mattotti com esse estilo robusto e sensível. Para alguns leitores que esperam desfechos imprevisíveis e ação O Rumor da Geada não está indicado. Assim como o título da obra, a história se constrói em cima de rumores (murmúrios), e como tal necessitam de um ajuste interno de nossa antena emocional. Só assim conseguimos captar e fragilidade e a intensidade desse rumor.




domingo, 9 de outubro de 2022

Pílula Gráfica #20: 5 Por Infinito - (2018)


É possível traçar uma linha reta ou ondulada sobre uma folha de papel em branco e fazer essa linha tornar-se tão consistente como a dureza de uma rocha, ou a delicadeza de uma pele humana? Até então eu tinha apenas imaginado essa possibilidade ao conhecer o italiano Sergio Toppi. Mas a certeza da existência de tamanho talento só veio mesmo ao conhecer o traço de Esteban Maroto em 5 Por Infinito. Lançada em 2018 pela Editora Pipoca e Nanquim (PN), 5 Por Infinito saiu originalmente em 1967. Há várias razões para conhece-la e aqui vão 5 delas: 1) - O traço de Maroto que, como comentei, criam densidades oníricas a partir de uma folha de papel; 2) - Os cenários futuristas, psicodélicos e catárticos criados por Maroto; 3) - A representação da imagem feminina em todo seu poder (poucas vezes vi o feminino representado com tamanho impacto; 4) - O design de máquinas, naves, indumentárias que, apesar de retratarem um ambiente retrô característico da década de 60 e 70, possuem impacto gigantesco em leitores com mentes ainda imaginativas; 5) - O roteiro das diversas histórias que brincam com civilizações antigas, misticismo e o limite entre vida e morte, sonho e vigília. Tendo como linha mestra o personagem Infinito do título, a história gira em torno de 5 pessoas do planeta Terra escolhidas para explorarem os recantos distantes do Universo. Infinito é o único sobrevivente de uma raça extremamente desenvolvida que sucumbiu ante o peso da própria inteligência. Os 5 terráqueos (Altar, um professor de astrofísica e astronomia; Aline, uma doutora em psiquiatria, especializada em ciências ocultas e parapsicologia; Órion, um guarda-costas profissional; Hidra, uma estrela de cinema; Sírio, um dublê de filmes de ação e especialista em efeitos especiais) passam a viver aventuras exploratórias que tangenciam gêneros como espada e feitiçaria, space-opera, horror cósmico entre outros. Franquias como Star Trek, Star Wars, Aliens... podem ser facilmente reconhecidas neste trabalho seminal de Maroto. Uma obra que serviu de inspiração para muitos conceitos que vieram posteriormente, mas que também bebeu do psicodelismo e da necessidade de transcendência que os anos 60 e 70 vivenciaram. A edição do PN é única no mundo ao compilar todas as histórias envolvendo os 5 por Infinito. Uma incrível oportunidade de se deixar levar por caminhos fantásticos acompanhado pelas mãos do Mestre Espanhol.





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