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sábado, 26 de abril de 2014

If On a Winter´s Night - Sting - 2009


Imagine que você está em uma floresta antiga em uma fria noite de inverno ao redor de uma fogueira. Ao compartilhar esse fogo com amigos, de repente começam a surgir antigas histórias e, com elas, antigas canções há muito tempo esquecidas, que trazem consigo milenares histórias sobre a humanidade e a promessa dela se tornar algo mais do que um simples aglomerado de pessoas. Bem... É provável que você não esteja em uma floresta assim, ou mesmo ao redor de uma fogueira com amigos, porém tais canções existem.


Em outubro de 2009 o talentoso Sting lançava If On a Winter´s Night, um disco em que, com grande delicadeza e talento, o antigo líder do The Police costura canções cristãs de Natal que conseguem criar uma atmosfera sublime e cheia de um profundo respeito. A voz de Sting é mais grave e profunda nas canções e o ouvinte entende que no fundo ele está contando segredos preciosos e antigos.


Canções como por exemplo Gabriel´s Message conta o encontro entre Maria e o anjo Gabriel, que vinha para anunciar-lhe a vinda do Messias através da humilde jovem. Através da canção é possível se perceber o quão sublime e cheio de mistério deve ter sido essa visita divina à Maria, ainda incapaz de acreditar que seria instrumento para trazer ao mundo o precioso e pequeno bebê.

 
O disco avança e traz canções que transportam o ouvinte para uma outra realidade de reverência e veneração. Acompanhado de músicos particularmente talentosos, é possível ser conduzido à lugares secretos dentro de si onde, não raro, é possível deparar-se com o sagrado. Sempre gostei do Sting,  porém quando entrei em contato com esse trabalho do músico inglês no Natal de 2009 surpreendi-me com tal atmosfera de sensibilidade envolvendo temas cristãos, temas aliás tão banalizados atualmente pela enxurrada de artistas vazios e sem a ideia real do sagrado.


Para ser ouvido não apenas em noites frias e sob uma atmosfera intimista, o disco na verdade fornece um ambiente propicio para se entrar no ambiente secreto da própria alma e meditar sobre verdades que percebo (hoje, mais do que nunca) que ainda não foram compreendidas por ninguém, nem mesmo por aqueles que se apregoam oráculos do reino.


Para mim um dos meus discos favoritos e que, a cada vez que o ouço, me mostra recônditos escondidos da minha alma que precisam ser iluminados.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Queimando por Dentro - Bauhaus (1983)

Capa do Disco - Burning from the Inside (Bauhaus - 1983)

Há algum tempo eu não escrevia aqui no Blog para a coluna "Discos Favoritos", sendo assim resolvi escrever sobre um disco que há muito penso em colocar aqui: "Burning from the Inside" do Bauhaus. Lançado em 1983, esse disco é em minha opinião a "quinta-essência" dessa banda. Formado em 1978 na Inglaterra, o Bauhaus é para mim uma das grandes bandas do movimento "Dark". Eu a conhecí no final dos anos 80 início dos 90. Aliás, vale ressaltar que a estética "Dark" foi bem presente na literatura, cinema e música dessas duas décadas. "Burning from the Inside" sintetiza os elementos de inspiração do Bauhaus, dentre eles, o minimalismo, o neo-romantismo e uma grande atração pela estética dos antigos filmes de terror. O 1º single de sucesso da banda foi "Bela Lugosi´s Dead" uma grande homenagem ao ator húngaro Bela Lugosi, intérprete do 1º Drácula do cinema no filme homônimo de 1931.

Capa do Single da Música - Bela Lugosi´s Dead

O single acima eu comprei no início da década de 90 e pode ser considerado hoje raridade nesse formato. Uma curiosidade é que o prórpio Bauhaus aparece no filme "Fome de Viver" (1983) tocando essa música. Nesse filme David Bowie e Catherine Deneuve fazem um desiludido e desesperançoso casal de vampiros. Voltando ao disco "Burning from the Inside" eu gostaria de destacar algumas músicas.

A 1ª faixa é "She´s in Parties". Essa canção já começa de cara com a cavernosa voz de Peter Murphy, vocalista e grande personalidade da banda. Essa música aliás, foi a 1ª que eu ouvi do Bauhaus, e já percebi que a banda era uma outra história.

Meu 2º destaque do disco vai para a 4ª faixa "King Volcano". Pense em um coral cantando um refrão repetidas vezes ao fundo, formando uma ambientação sonora ao mesmo tempo sacra e estranha, como se você estivesse em uma caverna.

A 5ª faixa é minha favorita "Who Killed Mr. Moonlight". Algo como "Quem matou o Senhor Luar". Ouvir essa música é ser transportado para uma imensa e vazia mansão vitoriana do século 19 cheia de segredos. Um som contínuo de piano ao fundo proporciona à música uma atmosfera onírica. Essa todo mundo deveria conhecer!

"Slice of Life", a 6ª faixa, (numa tradução livre "Fatia de Vida") é outra grande canção, e por incrível que pareça suave!

Minha penúltima dica do disco é "Kingdom´s Coming" (Vinda do Reino). Tentar entender as letras do Bauhaus é um exercício interessante. Essa é uma canção com sons apocalípticos em que Murphy canta uma história em que... "Ventos da loucura param ante a chegada de alguém... Um ser trazendo uma coroa de espinhos em suas mãos e carregando um grande e terrível segredo. Algo que transformará "Tudo" em "Nada" e o "Nada" em "Tudo". É uma curta e arrebatadora canção.

O disco fecha  com "Hope"... uma suave e primaveril canção. Tenho outros discos do Bauhaus e dá para perceber sempre uma canção mais suave e reflexiva em cada um. Nesse disco essa canção é "Hope" (Esperança!).

Contra-Capa do Disco - Burning from the Inside (Bauhaus - 1983)

Bom... Essa é uma grande dica: Burning from the Inside.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Violeta de Outono

Em 1987 uma pérola do rock psicodélico era lançado, o disco "Violeta de Outono" da banda de mesmo nome. Misturando temas estranhos, psicodélicos e extremamente belos o disco é simplesmente perfeito. O Violeta de Outono se expressa por meio de letras que tratam, em forma simbólica, de eternidade, finitude, lugares distantes, paisagens outonais e crepúsculos. Formado em 1984 por Fábio Golfetti, Claudio Souza e Angelo Pastorello (formação original) em São Paulo, o Violeta é aquela banda que se transformou em um mito. Liderada pelo guitarrista e vocalista Fábio Golfetti a banda é psicodelia pura e da melhor qualidade. Seu som traz uma mística singular que te envolve ao primeiro som.

O disco de estreia (capa acima) é expressão máxima desse som. A segunda faixa do disco, "Declínio de Maio", possui um dos solos de guitarra mais lisérgicos que já ouvi (uma verdadeira catarse!). No início da música a voz de Golfetti inicia a elegia: 

Declínio de Maio
"Este é o final da sua glória. 
Espero que fique, além da memória. 
Anjos procurando se esconder. 
Caídos no abismo, tentam se recolher. 
Vento sopra e você pergunta o que pode acontecer... 
Nuvens fogem, o céu em luta, você tenta se esconder..."



O disco é uma viagem que poderia ser trilha sonora para muitas histórias que conheço (trilha sonora ótima para os contos de realismo fantástico de Jorge Luis Borges). Em  "Faces", quinta faixa do disco Golfetti segue com sua estranha poesia, recheada de sons de guitarra:

Faces
"Velho olhar anda sobre a luz. 
Segue o vento, sopra além do mar.
Labirintos, linhas do futuro. Reflexo escuro. 
Paredes frias revelam pensamentos. 
Palavras nuas tentam luzir. 
Portais de ferro, faces sobre o muro. Reflexo escuro".


Já "Sombras Flutuantes" é uma faixa instrumental que evoca uma viagem à paraísos perdidos. O disco inteiro pode ser ouvido sem interrupção, compondo um conjunto que parece uma viagem à distantes lugares de nossa mente. Ouça e você não será mais o mesmo. Fábio Golfetti fez também outras viagens sonoras. Ele possui um trabalho paralelo ao Violeta chamado: Companhia de Ópera Invisível do Tibet. Pretendo fazer uma matéria aqui no blog sobre esse seu outro trabalho. Simplesmente fantástico também. Você pode conhecer mais sobre o Violeta de Outono/Companhia de Ópera Invisível do Tibet pelo site da banda clicando aqui.


Conheci o Violeta de Outono nos anos 90, apresentado à mim por uma amiga que me convidou para ir à um show dos caras. O show foi realizado em um pequeno espaço... A banda tocou sobre um pequeno tapete vermelho quadrado. A luz do ambiente incidia apenas sobre eles. Tudo era escuro. De repente o Fábio começou à tirar aqueles acordes espirais típicos do psicodelismo... e, de repente... os portais se abriram...

domingo, 15 de agosto de 2010

Beleza Inumana - Trans-Europe Express (Kraftwerk, 1978)

No final do anos 80, início dos 90 eu me encontrava no 1º terço de minha juventude. Os poetas chamam essa fase de aurora da vida. Independente disso ser verdade ou não, é uma fase difícil para qualquer garoto ou garota recém-saído da adolescência. A necessidade de afirmação pessoal e social nos assola, pois dependemos daquilo que os outros pensam de nós e do que pensamos de nós mesmos. Nessa época eu estava em Londrina (PR), terminava o cursinho e ingressava na faculdade. Bem... para lidar com todo esse "stress" fui estudar órgão eletrônico. Cheguei a avançar no método mas para ser sincero não fui mais do que um aluno mediano, às vezes até medíocre em minhas execuções. Bom, na escola de música havia a Lilian, uma garota doida, doida mesmo, mas uma ótima musicista. Certa vez tive que passar em sua casa, que ficava perto da Av. Duque de Caxias, para pegar um livro de música. Ela era doida, mas uma boa anfitriã pois me ofereceu um café da tarde. Até então eu não sabia... mas uma grande coisa estava para acontecer. Eu já estava me deliciando com um café com leite quando ela retorna da sala de sua casa acompanhada de um som que vinha do toca-discos de seu pai. Um som que jamais me esquecí. Era uma célula sonora que ficava se repetindo em um movimento em espiral e que me pareceu  vindo de uma outra dimensão (talvez do céu, pensei). Imediatamente eu disse: "PARE TUDO! O QUE É ISSO???". Assustada ela disse: "Calma!" ... e logo em seguida me mostrou a velha e carcomida capa de um disco de seu pai. Aquela música era "Europe Endless" primeira faixa do disco "Trans-Europe Espress" do Kraftwerk de 1978.

Iniciado em Düsseldorf, Alemanha em 1970 por Florian Schneider e Ralf Hütter o Kraftwerk foi, ao lado do Tangerine Dream, um dos representantes da música progressiva alemã (a Krautrock). Sua formação principal e mais duradoura contou com Florian Schneider, Ralf Hütter, Wolfgang Flür e Karl Bartos. À semelhança do Tangerine, o Kraftwerk é dono de uma beleza glacial, porém inumana. Seus discos, trazem de forma recorrente o tema: A humanização das máquinas em detrimento da desumanização da humanidade. O Kraftwerk sonhou um futuro que para nós já envelheceu em vários aspectos. Um futuro onde uma Europa dos anos 40 se fundia com um mundo robótico. Tal frieza em sua temática não destitui suas músicas de sentimento (embora seja mais difícil de reconhecê-lo). Por isso mesmo nos arremete ao filme "Metrópolis" de 1927, do cineasta, também alemão, Fritz Lang. No filme uma sociedade oprimida por castas superiores obrigavam o proletariado à cultuar uma andróide chamada Maria. Embora genial, ao meu ver nenhum outro grupo  posterior administrou o legado do Kraftwerk à altura. Com outros discos igualmente fantásticos eu gostaria, no entanto de comentar o "Trans-Europe Express".

Lançado no final dos anos 70, esse álbum é a síntese e o clímax de uma música que ainda não foi entendida por todos nós. Europe-Endless (a primeira faixa) mantem uma contínua e celestial célula sonora abafada por uma percussão eletrônica que às vezes dá lugar à fria e melodiosa voz de Shneider. É alegre, mas ao mesmo tempo sabemos que conta uma história já esquecida e abandonada. A faixa dois "The Hall of Mirrors" incia-se com o som sideral de sintetizadores antigos e ultrapassados, daí a nostalgia do som. Porém a faixa nos surpreende pela sua frieza e automatismo. Um teclado solitário inicia uma sequencia de notas glaciais acompanhada pela mesma voz aveludada quase humana de Schneider, mas apenas quase. Logo em seguida o ambiente reflexivo e automático se acentua com a faixa "Showroom Dummies", porém aqui um elemento comum às composições do Kraftwerk aparece, um coral de fundo. O que exacerba o tom profundo.

A faixa 4 é a tão esperada "Trans-Europe Express". Música que tem ao fundo uma percussão contínua que simula um trem que avança por estações imaginárias e esquecidas. Divididas em duas partes  (TEE e Metal on Metal) a faixa possui pouco mais de 12 minutos que levam o ouvinte à uma viagem sonora. Eventualmente um teclado simula um trem passando bem ao seu lado, entremeado à isso as vozes do grupo são ouvidas, são nomes de lugares, paradas e locações da Europa. Trans-Europe Express é enfim uma faixa peculiar, mesmo para o Kraftwerk. O clima de suspense e estranheza da faixa termina com o início da linda e flutuante "Franz Shubert", penultima faixa do disco.

Em "Franz Shubert" o som de um órgão antigo, que parece-nos vindo de uma audição milenar, invade nossos ouvidos, sempre seguido de um segundo e angelical órgão que toca notas que lembram bolhas de ar. "Franz Shubert" é sem dúvida uma experiência maravilhosa. 
O disco termina com uma pequena faixa de 55 segundos onde os integrantes do grupo nos fazem lembrar da eternidade dos lugares em nossa mente ao simplesmente dizerem "Endless" repetidamente... repetidamente... repetidamente...

sábado, 14 de agosto de 2010

Cyclone - Tangerine Dream

Em 1967 surgia em Berlim - Alemanha o Tangerine Dream. Um grupo disposto à fazer, ao lado do Kraftwerk, um som ainda não sonhado. Seu nome já expressava a proposta onírica e psicodélica. O Tangerine Dream foi para mim, em sua fase áurea dos anos 70 um dos grandes representantes (ao lado do Kraftwerk) da música progressiva alemã (denominada krautrock). Alguns de seus discos ainda são difíceis para mim por conter uma sonoridade que ainda não alcançamos, em função de nosso contaminado senso estético. O Tangerine Dream começa com Edgar Froese (membro que sempre permaneceu no grupo), e teve sua melhor formação (na minha opinião) com Edgar Froese,  Christopher Franke e Peter Baumann. Gostaria de comentar o disco acima: Cyclone de 1978. A primeira vez que o ouvi, nos anos 80 fui invadido por um misto de assombro, perplexidade e (não posso deixar de dizer) medo e atração. Nesse disco, assim como em outros, o Tangerine Dream apresenta uma sonoridade que nos arremete ao tempo e ao universo. Lidar com temáticas tão complexas exige um talento raro, necessário para suscitar em nós sentimentos que nos projetam na direção desses temas insondáveis. Sendo assim Edgar Froese compõe músicas de uma beleza fria (o universo) e às vezes estranha (o tempo). Ouvir Tangerine Dream e Kraftwerk mudou minha concepção de música, pois passei a enetendê-la não mais como tendo começo, meio e fim, mas sim como sendo eterna. Daí a presença de grandes faixas com 20 minutos de duração, dentro das quais provamos uma amálgama de sentimentos perenes.

Cyclone é o único disco do Tangerine que possui  faixas cantadas, de suas três, duas possuem a voz de Edgar Froese. A primeira, "Bent Cold Sidewalk", nos parece uma elegia sobre tempos longínquos e emoções esquecidas. Às vezes me parece a voz de alguém que busca repcuperar algo. No meio da faixa há um lindo solo de flauta que se mistura à estranha sonoridade de um sintetizador que aos poucos cede lugar aos susurros de Froese. Seu fim é um retorno ao início, novamente trazendo a feia, e por isso triste, voz de Edgar Froese.

A segunda faixa "Rising Runner Missed by Endless Sender" nos traz o som como que de alguém correndo, correndo sempre, com um eterno senso de urgência e temor. Isso sempre me fez pensar na humanidade, pois é assim que eu a vejo. A eterna corrida, a urgente corrida de todos. Assim como nas outras faixas aqui permanece o senso do eterno, do longínquo e do profundo.

A última e longa (20 minutos) faixa do disco é "Madrigal Meridian". O madrigal foi um gênero musical que surgiu entre os séculos XIII e XVI, fora dos portões da igreja católica, que à época ainda reinava com relativa soberania. A origem da palavra possui interpretações distintas mas a que eu gosto mais é matricale, canto popular materno. Ouvir Madrigal Meridian é uma experiência quase que de catarse. Uma viagem por lugares profundos da alma. Não há voz humana, mas vozes de instrumentos que nos cantam palavras em forma de sons, com siginifcados indecifráveis, ainda a serem descobertos. Sua introdução é de oito minuitos, um prefácio para uma tempestade de sons que se aproxima. Quando essa tempestade chega o sentimento de urgência, iniciado em "Rising Runner Missed by Endless Sender", se faz sentir, porém é fendido por um teclado que, não sei porque, me faz imaginar um cavaleiro medieval correndo em uma pradaria. A  música mantem o sentido planetário, grande, imenso. Por fim, após cerca de oito minutos de sons rápidos e insistentes, a tempestade passa e fica apenas reminicências de sons, como uma chuva que, agora não  mais açoitada pelo vento, apenas cai sobre a terra escura. Ao fim da faixa um cravo aparece com seu som medieval que também vem e vai embora, permanecendo apenas o canto isolado e solitário de um violoncelo... que também se perde rumo à uma esquecida floresta.

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