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sábado, 10 de setembro de 2022

Pílula Literária #7: Heróis Pulp


Antes da aurora dos Super-heróis dos quadrinhos, alguns gigantes nasceram, se agigantaram e viram, de certa forma, seu ocaso. Eram os heróis dos Pulps. Criados dentro de um nicho literário visto por muitos como literatura barata e pouco relevante, os heróis dos pulps modelaram a imaginação dos grande criadores dos personagens dos quadrinhos. Nessa fonte beberam escritores e roteiristas de enorme peso para a 9ª Arte. Mas a maior contribuição dos heróis pulps, talvez tenha sido o estabelecimento de uma padrão heroico de sucesso que catalisou o imaginário coletivo, sobretudo nas décadas de 10, 20 e 30 do século XX. Pilares de uma justiça implacável, muitos desses heróis já tinham elementos complexos e dramáticos dignos dos grandes personagens que os sucederam. Apesar da maioria dos heróis pulps enxergarem claramente uma linha divisória entre bem e mal, muitos deles traziam consigo traumas e até mesmo camadas dramáticas incríveis. A Editora Skript tem se consolidado no mercado de quadrinhos dentro de um segmento de altíssimo valor para o colecionador e amante da 9ª arte, o de livros didáticos sobre o universo que permeia as artes gráficas. Dentre esses lançamentos, o livro Heróis Pulp traz uma profunda e interessantíssima análise sobre o contexto historiográfico e temporal dentro do qual os heróis desta Era floresceram. Dividido em capítulos a partir de cada personagem (muito bem escolhidos como seus representantes), o livro expande e dimensiona cada um deles, sem perder de vista o fascínio primordial e fantástico que cada um deles exerce. Ler o livro é se maravilhar novamente com criações que conseguiram expressar desejos primordiais dos seres humanos, como "justiça" e "equidade". Lançado a partir de Campanha na Plataforma Catarse, a obra traz análises acerca dos seguintes heróis: John Carter, Tarzan, Zorro, Buck Rogers, Hugo Danner, O Sombra, Doc Savage, O Aranha, Besouro Verde, Olga Mesmer e Morcego Negro. Ao final do livro, alguns personagens que foram criados na transição dos pulps para os quadrinhos (heróis da "Tiras") também são devidamente descritos e contextualizados, casos de Fantasma, Mandrake e Flash Gordon. Organizado por Daniel Fontana, cada capítulo é escrito por um time de estudiosos da área. Destaque para o excelente prefácio do Dr. Alexandre Meireles da Silva, Professor associado da Universidade Federal de Goiás. A magnífica capa é de Amaury Filho. Uma pena a obra não ter sido confeccionada em capa dura para preservar melhor a ilustração. Um excelente lançamento de 2022!

John Carter de Edgar Rice Burroughs - Criação 1911 (estimado)

Tarzan de Edgar Rice Burroughs - Criação 1912

Zorro de John McCulley - Criação 1919

Buck Rogers de Philip Francis Nowlan - Criação 1928

Hugo Danner de Philip Wylie - Criação 1930

O Sombra de Walter B. Gibson - Criação 1930

Doc Savage de John Nanovic, H.W. Ralston e Lester Dent - Criação 1933

O Aranha de Herry Steeger - Criação 1933

O Besouro Verde de George W. Trendle e Fran Striker - Criação 1936

Olga Mesmer de Watt Dell (pseudônimo?) - Criação 1937

Morcego Negro 1ª versão W.F. Jenkins (1933) / 2ª versão N.A. Daniels (1939)


Personagens de Transição

Flash Gordon de Alex Raymond - Criação 1934.

O Fantasma de Lee Falk e Ray Moore - Criação 1936

Mandrake de Lee Falk - Criação 1934.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Pílula Gráfica #Especial 1: Dose Tripla


O Pílula Gráfica de hoje é especial ao trazer a análise rápida de três obras que, embora diferentes, possuem características muito interessantes: O Castelo (Editora L&PM - 2022), Dan Brand e Outros Clássicos (Editora Pipoca e Nanquim - 2021) e A Morte Viva (Editora Mythos - 2022).

Adaptação do livro de 1922 não acabado de Franz Kafka, O Castelo é uma obra densa, labiríntica, claustrofóbica e onírica. Você já teve um sonho do qual gostaria de escapar mas quanto mais você tenta fazê-lo mais você se aprofunda nele? O Castelo seria algo assim. A história narra a chegada do Agrimensor K. à uma distante aldeia que rodeia o castelo do título. K. se vê aos poucos esmagado pela burocracia que pouco a pouco desnuda a inutilidade de sua presença no local. E quanto mais sua relevância é questionada, mais ele se vê desafiado e ir à fundo na solidão, miséria e surrealismo que impera na aldeia, sobretudo porque K. se vê desejado por mulheres que parecem querer satisfazer seus desejos mais profundos. A arte do tcheco Jaromír 99 aguça mais ainda a difícil atmosfera. A história não tem fim, já que Kafka a deixa inacabada, mas ao considerarmos as ideias e premissas aqui utilizadas, O Castelo se torna uma grande obra.


Conhecido pela sua carreira como artista gráfico incomparável, Frank Frazetta nasceu no mesmo berço artístico de muitos grandes nomes da 9ª Arte, como por exemplo Wally Wood, Jack Kirby, Esteban Maroto entre muitos outros. No entanto, seus primórdios como quadrinista são pouco conhecidos. Dan Brand e Outras Histórias não é apenas uma oportunidade de se conhecer Frazetta em seu início, é também uma grande chance de se entrar em contato com uma obra que lança luz à um momento interessante da história estadunidense, já que o protagonista (o homem branco Dan Brand) luta como índio na fileiras dos exércitos de George Washington. Com uma narrativa simples, mas sem abrir mão da violência característica da época, Dan Brand vale a pena. Outro destaque é a preservação de propagandas (a maioria delas panfletárias) sobre o modo norte-americano de se viver, exaltando o heroísmo de soldados, além de dicas de sobrevivência. Só essas propagandas já possuem grande valor artístico histórico e sociológico. O álbum traz todas as histórias de Dan Brand e algumas outras relacionadas à outros personagens desenhados por Frazetta.


Com o tradicional "ótimo" acabamento e formato das Gold Edition da Editora Mythos, A Morte Viva é uma primorosa adaptação para os quadrinhos do livro homônimo de 1958 do autor francês de ficção científica Stefan Wul. A história mostra a Terra no futuro e aborda o tema da "clonagem". Mas mais que isso, retoma questionamentos como os de Frankestein acerca do que é vida e dos limites da sua manipulação pelo ser humano. Além da história, outro ponto excepcional é a arte do português Alberto Varanda. Baseado em hachuras, Varanda estabelece o clima vitoriano perfeito para a condução da narrativa. Uma obra de arte de encher os olhos, com um processo criativo que chegou a ser doloroso para as mãos do artista, como relatado nos extras. Para quem não conhecia Stefan Wul (como eu) a história chama atenção para o escritor que é pouco conhecido por aqui. A adaptação é de Olivier Vatine. A edição traz um lindo pôster com a arte de Varanda.

domingo, 10 de julho de 2022

Pílula Literária #6: O Incrível Steve Ditko


A vida real pode ser muito mais cheia de cores, maravilhas, intrigas, inconsistências e contradições quando comparada às obras dela derivadas. O Incrível Steve Ditko (2019) é o segundo livro de uma sequência de obras do jornalista, roteirista, escritor, editor e tradutor Roberto Guedes, dedicadas a apresentar grandes nomes da 9ª Arte Mundial. O primeiro, Jack Kirby - O Criador de Deuses (2017) e o último Sr. Maravilha: A Biografia de Stan Lee (2021) seguem o mesmo ritmo leve, de fácil e agradável leitura, objetivo e ao mesmo tempo profundo. Em O Incrível Steve Ditko, Guedes nos descortina a vida do irritadiço, talentoso, inflexível e genial co-criador de um dos maiores personagens da história dos quadrinhos: O Homem-Aranha. Marcado por uma vida de incrível reclusão, Ditko tornou-se uma lenda entre os fãs por sua habilidade como desenhista e criador. Uma fama potencializada pelas histórias envolvendo sua pouco conhecida vida. O livro de Roberto Guedes esquadrinha de forma muito didática os primeiros anos de vida artística de Ditko, evoluindo para seu ápice criativo e depois para seus obscuros anos de um ostracismo auto imposto. A leitura nos proporciona questionamentos que vão além dos fatos mais marcantes, apresentando, por exemplo, o ponto de mutação na vida do artista a partir de seu envolvimento, ainda jovem, com o Objetivismo, filosofia capitaneada pela escritora, dramaturga, roteirista e filósofa norte-americana de origem judaico-russa Ayn Rand. Uma filosofia definida pelo ateísmo, individualismo e capitalismo. Uma forma de se interpretar a realidade ao redor a partir de uma dicotomia muito clara entre bem e mau, sem a admissão das diversas "zonas cinza" que existem entre esses dois extremos. Ao se alinhar cada vez mais à esta forma de pensamento, Ditko construiu ao redor de si uma estrutura cada vez mais rígida de valores, minando relações de trabalho e até amizades em nome de suas crenças. Um dos grandes questionamentos que emerge para mim das páginas do livro é "quem Ditko poderia ter sido, ou que caminhos teria trilhado se sua mente e genialidade artística não tivessem sido cooptadas pelo Objetivismo"? Recheado de imagens icônicas desenhadas por Ditko, e de capas antológicas, O Incrível Steve Ditko é, sem dúvida nenhuma, uma obra de referência para a fandom. Sobretudo por trazer um olhar tão peculiar que é o de um expert e fã brasileiro, como é o caso de Guedes. Embora Ditko seja conhecido em grande parte por sua coautoria na criação do Homem-Aranha (personagem aliás fonte de sucesso e de dissensão entre ele e Stan Lee), o artista foi criador ou participou da concepção de diversos personagens importantes como a galeria de imagens abaixo aponta. A coautoria é muitas vezes um tema fluido e de difícil delimitação: Quem cria? 1) Aquele que tem a ideia inicial ou 2) aquele que insere os elementos dramáticos e visuais que no final fazem a grande diferença na conexão com o público? Se você acha que seria o artista número 2, então Steve Ditko deveria ter autoria reconhecida entre diversas criações hoje cultuadas. De todo modo, a carreira do artista foi minada por suas rígidas convicções ao se esquecer de que vida é movimento, de que vida (tal como o "Vento") sopra aonde quer e, um espírito livre, deve saber interpretar a complexidade da realidade, que não pode ser definida ou regida por uma única interpretação filosófica. O Incrível Steve Ditko é obra obrigatória pela visão de um fã que consegue apresentar paixão e, ao mesmo tempo, analisar em perspectiva a carreira deste grande artista que foi Steve Ditko.

Criações de Steve Ditko

Criações de Steve Dtiko

Personagens criados ou que tiveram grande participação de Steve Ditko em sua concepção

Stan Lee (esquerda), Steve Ditko (direita) e a maior criação de ambos. Fonte de divergências irreconciliáveis

Incrível capa desenhada por Ditko para a Revista Haunted (anos 50)

Dois dos mais inflexíveis personagens criados por Ditko: Questão e Mr. A. Veículos diretos das crenças do autor.

domingo, 19 de junho de 2022

Pílula Literária #5: Norma Bengell

Norma Bengell começou a entrar em meu subconsciente há cerca de uns 10 ou 15 anos. Foi uma infiltração lenta e progressiva. Não consigo me lembrar quando essa fixação começou, mas sei quando ela se intensificou. Foi quando descobri sua participação no filme O Planeta dos Vampiros (Terrore nello Spazio - 1965) de Mario Bava. O interesse cresceu quando me fiz a seguinte pergunta: como uma atriz Brasileira conseguiu sair do circuito artístico nacional e 1) ganhou o mundo, 2) fez seu nome em produções italianas e francesas de qualidade das décadas de 60 e 70, 3) namorou Allain Delon, 4) conheceu Orson Welles, 5) ficou em pé de igualdade com artistas famosos do cinema mundial, 6) foi premiada em Cannes, 7) tomou uma postura firme contra a ditadura no Brasil, 8) foi exilada, 9) retornou, 10) foi pedra fundamental para a retomada do cinema Brasileiro na década de 90 e, 11) por fim... foi completamente esquecida? A resposta para este desconhecimento é complexa mas passa pelas opções de Norma que, apesar de sexy simbol, não deixou que lhe colocassem cabresto. Escolheu viver livre e, sendo mulher em uma sociedade repressora, foi punida várias vezes. Foi difícil achar literatura acerca de sua vida, mas ao garimpar achei nada menos que o livro "Norma Bengell" da nVersos Editora. A obra é na verdade a coletânea das páginas de seu diário pessoal, garimpadas e resgatadas pela produtora Christina Caneca. Norma Bengell é uma das biografias livros mais interessantes que já li. Nela, a atriz conversa consigo mesma da forma como viveu, sem pudor. Ao fazer isso ela desnuda  a si mesma como uma pessoa selvagem, intensa no amor, simples, honesta (a despeito do que disseram ao final da sua vida), fiel à liberdade, que não comemorou nunca seus pecados (entre eles muitos abortos), mas que também não deixou de assumi-los. O livro é um intenso TOUR pelo Brasil do século 20, saindo da época das vedetes, passando pelo cinema brasileiro da época da Vera Cruz e Atlântida (com Oscarito, Grande Otelo, Odete Lara), mergulhando fundo na cultura dos anos 60 em plena efervescência europeia, apresentando as prisões e perseguições políticas reais e como eram conduzidas. Norma vive o Brasil pós abertura política, as transformações sociais e a ingratidão do seu país natal com seus verdadeiros ídolos culturais. Não há como não se encantar com passagens incríveis como as experiências da atriz em Cannes, seu relacionamento terno e respeitoso com o presidente João Goulart (Jango) no exílio na França, seu encontro com o Presidente Ernesto Geisel e a incrível reação do militar ao estar diante de Norma, reação semelhante que se repetiria no encontro da atriz com Itamar Franco. Entendo agora porque os olhos de homens, hoje na casa dos 80 anos, ainda brilham ao ouvirem o nome Norma Bengell. Uma Brigitte Bardot brasileira que, nas palavras da atriz "foi chamada de puta, sapatão, sapatilha, comunista mas que nunca poderão chama-la de uma coisa: covarde". As poucas e últimas palavras de seu diário escritas ao longo de seus últimos anos destilam sua visão de mundo:

"O artista vive a oposição do mundo vivido e do mundo sonhado."

"O quanto de minha juventude já se perdeu? Pensando melhor, nada se perdeu. Muito da minha juventude está impressa no tempo, nos celuloides, como a beleza fixada para sempre no inconsciente de todas as pessoas..."

"Sou invencivelmente frágil..."

"Não preciso lembrar de tudo, pois prefiro imaginar as coisas..."






quinta-feira, 9 de junho de 2022

Pílula Literária #4: Contos Clássicos de Fantasma


 

Representante de um dos mistérios mais cruciais da existência, "a vida após a morte", o Fantasma reflete um dos medos mais profundos do ser humano: o medo do abandono, da existência incorpórea sem sentido, da incompletude eterna. Ganhando força ao longo dos séculos, mas sobretudo ao longo do século IXX, o Fantasma evoluiu (assim como os demais monstros do ideário literário) na representação do universo humano. Lançado pela editora e rede de livrarias Clepsidra, Contos Clássicos de Fantasma é uma antologia incrivelmente relevante. Organizada por Alexander Meireles da Silva (Doutor em Literatura Comparada pela UFRJ, Prof. Associado da Unidade Acadêmica de Letras e Linguística UFG Catalão e Youtuber (Canal Fantasticursos)) e Bruno Costa (Editor, Tradutor e Fundador da Editora Ex-Machina), a obra traz uma amostra de contos representativos de movimentos literários importantes de diversos períodos, concentrando-se especialmente nos períodos Vitoriano e Eduardino. Alexander Meireles da Silva traz uma "Introdução" excelente ao material, situando o Fantasma no âmbito do imaginário coletivo e sua evolução ao longo dos séculos. Um texto que por si só já vale muito. Antes de cada conto temos uma pequena introdução que contextualiza de forma objetiva o determinado autor e sua obra. Ao terminar de ler cada uma dessas "Introduções" o leitor fica com um gosto de "quero mais" em relação às informações ali trazidas. Além de autores conhecidos como Edgar Alan Poe, Bram Stoker, Charles Dickens e Henry James, o livro ganha dimensão ao trazer contos excelentes de autores menos comentados para além do círculo acadêmico. Além disso, outro ponto alto é o espaço que se dá à autores Brasileiros. Se você for leigo e não acadêmico da área da literatura como eu, se surpreenderá com os contos de Afonso Arinos (Assombramento), Moacir de Abreu (Os Três Círios do Triângulo da Morte), Gonzaga Duque (Confirmação) entre outros. Uma obra a ser conhecida pelos tesouros que traz. 

Baseado em meu gosto e experiências pessoais prévias, elenco abaixo alguns contos, muito embora esta seleção seja extremamente injusta.


Ligeia - Edgar Alan Poe

A Estrada Enluarada - Ambrose Bierce

O Fantasma da Boneca - F. Marion Crawford

Um Relato da Aparição da Sra. Veal - Daniel Defoe

Assombramento - Afonso Arinos

Confirmação - Gonzaga Duque

Os Três Círios do Triângulo da Morte - Moacir de Abreu

sábado, 30 de abril de 2022

Pílula Gráfica #19: As Aventuras de Sherlock Holmes - (2021)

Um lançamento de 2021 que passou despercebido por muitos foi As Aventuras de Sherlock Holmes da Editora Mythos. A HQ traz a adaptação dos primeiros contos de Sherlock Holmes retirados diretamente  da pena do criador Sir Arthur Conan Doyle. Lançada em 1987 por ocasião do centenário de criação do detetive mais famoso do mundo, a quadrinização dos contos ficou a cargo do experiente e lendário Giancarlo Berardi (criador de Ken Parker) e do desenhista Giorgio Trevisan. Com uma fidedignidade e respeito enormes à obra de Doyle, Berardi apresenta de forma absolutamente crível as aventuras de Holmes. Particularmente para mim, a mitologia do personagem nunca me chamou muita atenção, mas ao ler esta obra fiquei impressionado com uma questão interessante e dramaticamente excelente. A famosa infalibilidade de Holmes não está necessariamente presente na perspectiva de Doyle. Isso desmistifica muito o personagem e o aproxima da realidade. Apesar de ser retratado como um detetive incrivelmente inteligente e sagaz, ele não é infalível e, com isso, expande seu perfil dramático. Os desenhos de Trevisan são magníficos ao retratar a Londres do final do século 19, ao ponto de nos sentirmos totalmente imersos na atmosfera Vitoriana. Vestuário, mobília, utensílios, arquitetura... Tudo é magistralmente desenhado por Trevisan. Não a toa a introdução da edição ostenta a ousada frase "Como Doyle gostaria". O volume traz os seis contos adaptados por Berardi. Infelizmente o projeto perdeu força com a mudança do perfil dos leitores no final da década de 80 na Itália, fazendo com que Berardi não desse continuidade às adaptações, limitando-as a apenas este volume que chegou ao Brasil em 2021, e que merece ser muito mais conhecido.





sábado, 9 de abril de 2022

Pílula Gráfica #18: Morgan Lost - (2020...)


Duas coisas fazem de Morgan Lost (Editora 85) uma obra que precisa ser conferida. A primeira delas é a trama escrita por Claudio Chiaverotti, que é quase que 100% inspirada nos clássicos Noir das décadas de 30 e 40 do século XX. Um estilo em que na maioria das vezes personagens marginais, violentos e sem escrúpulos convivem com pessoas comuns. E nesse ambiente, mesmo os heróis são ambíguos e incapazes de verdadeiramente se redimirem ou escaparem da violência a que eles próprios são dependentes. Mas há uma segunda razão que, se você for amante do estilo ART DECO (tão presente nas décadas de 30 e 40), fará a obra se tornar imprescindível. Um estilo que sobreviveu em prédios, mobílias, objetos e painéis que podem ser vistos até hoje. Quem mora em São Paulo (capital) conhece muito bem, por exemplo, o Prédio do Banespa e sabe a que me refiro. Ou então se você é de Goiânia, conhece muito bem o estilo do Teatro Goiânia (100% Art Deco). O Mundo de Morgan Lost (o protagonista da obra) é uma mistura de estilo ART DECO com tecnologias muito a frente do tempo em que se passa a história, o ano de 1953. E isso tem uma explicação, Morgan vive em uma realidade paralela a nossa. Pequenas sutilezas são inseridas na narrativa que atestam isso, por exemplo o fato de Albert Einstein ser um escritor de ficção científica e não um cientista como em nossa realidade. Chiaverrotti pega, aliás, um recurso criado por Phillip K. Dick em seu distópico livro de 1962, O Homem do Castelo Alto. Da mesma forma que ocorre no livro de Dick, em Morgan Lost há um livro (escrito por Einstein) no qual ele fala a respeito de uma realidade (no caso a nossa) em que as coisas ocorreram de forma diferente. Diferentemente da nossa realidade, por exemplo, no mundo de Morgan, Hitler foi assassinado pela espiã Marlene Dietrich. Diversas outras ocorrências fazem do mundo de Morgan um local estranho, como um espelho invertido do nosso. O protagonista é um caçador de serial killers, e ganha a vida com isso. Mas logo no início da história ficamos sabendo que ele era um cara comum no passado. Dono de um daltonismo peculiar, Morgan vê o mundo em tons de cinza e vermelho, daí o fato da história ser desenhada nesses tons. Para o leitor mais atento, no entanto, parece que as coisas que Morgan enxerga como "vermelho" possuem, no fundo, certa simbologia que ainda não fica bem clara, mas que parece bem importante para a história. Por ser um quadrinho Bonellliano, a história carrega a tradicional qualidade a que estamos acostumados da editora. Se você gosta de um ótimo policial Noir, de distopia, realidades paralelas e acima de tudo, admira o estilo DECO, então não perca tempo. Conheça Morgan Lost!




Estátua à esquerda: Referência clara à Metrópolis de Fritz Lang.


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