sábado, 23 de março de 2013

Supremo - A Era de Ouro


É possível que você comece a ler algo e apenas alguns instantes depois se dê conta de que está diante de uma obra-prima? Depois de recentes decepções com roteiros vazios, violência gratuita e falta de boas narrativas nas histórias em quadrinhos, mal pude conter minha satisfação ao me deparar com a Série "Supremo" de Alan Moore. Definitivamente Alan Moore provou para mim porque é considerado hoje uma das grandes mentes vivas da 9ª Arte.  "Supremo" é um personagem que foi criado por Rob Liefeld para ser uma cópia, um "xerox" do Superman, e apareceu pela primeira vez nas histórias da Editora Image Comics nos anos 90. A Image ficou conhecida por seus super-heróis extravagantes e musculosos, protagonizando histórias que para mim eram vazias e sem nenhum significado. "Supremo" não fugia à essa regra e teria simplesmente passado para o limbo dos quadrinhos. Em 1996, no entanto, Alan Moore assumiu o personagem com a condição de que desconsideraria toda sua mitologia pregressa e, com a carta branca de Liefeld, literalmente o transformou em um heróis que, em alguns aspectos, ficou melhor que o Superman. Em minha opinião Alan Moore conseguiu sintetizar a paixão que todo fã de quadrinhos de super-herói carrega dentro de sí.


No primeiro arco de histórias chamado por Moore de "A Era de Ouro" (lançado aqui no Brasi pela Editora Devir em 2007), Supremo é redefinido à luz dos conceitos que foram marcantes na Era de Ouro dos Quadrinhos (1936 a 1954). Mas ele não faz apenas isso, Moore surpreendeu-me profundamente ao dar ao Supremo e ao seu alter-ego (Ethan Crane) a consciência de sua existência enquanto personagem de ficção. Ao dimensionar a história dessa forma ele re-significa TODOS os clichês usados na Era de Ouro, deixando tudo à nossa volta com aquele ar nostálgico que sempre acompanhou os bons super-heróis.


Moore, à exemplo do que Stan Lee, Jack Kirby e outros fizeram em outras épocas, subverte o senso-comum da narrativa e nos presenteia com uma história que é narrada entre o presente (em que Ethan Crane tenta se ajustar à sua vida pós-redefinição como personagem) e a reconstrução de suas memórias contadas em forma de enxertos de algumas páginas, com uma arte genialmente nostálgica de Rick Veitch.


Todos os elementos da Era de Ouro dos Quadrinhos, narrados em flash-backs na história, estão presentes nesse primeiro arco: a Origem simples e limpa do Supremo; Seus primeiros anos de combate ainda sob o pseudônimo de "Kid-Supremo"; Seus primeiros confrontos com vilões típicos da Era de Ouro; Sua relação e participação junto à outros heróis no início de sua carreira "Os Super-Homens Aliados da América" e a "Liga do Infinito"; Sua relação com emblemáticos parceiros como o cão "Radar" e sua irmã "Suprema".


Para mim, no entanto, um dos momentos mais sublimes da história é quando Supremo se lembra, junto aos seus antigos aliados dos anos 40, de como se deu a perda da inocência em seus corações. Momento em que é desfraldado diante de todos eles os verdadeiros problemas da sociedade, que vão além de simples super-vilões e seres intergalácticos. Todos percebem um "veneno" pior e mais poderoso que tudo quanto eles já enfrentaram: o medo, o racismo, a maldade pura e simples do coração humano, a dependência química, a falta de amor, a individualidade imperando em detrimento do coletivo... Elementos mais poderosos e eficientes na destruição de uma sociedade que quaisquer outras ameaças já vistas. Coisas que não podem ser vencidas com simples força bruta, visão de Raios-X, super-velocidade ou qualquer outro super-poder.


Nesse sentido o ideal super-heróico é colocado em cheque e nos faz repensar o porque, apesar de tão ultrapassado e sem sentido, esse ideal tão presente nos quadrinhos e no "super-herói" nos fascina tanto! Pelo menos à mim!! É difícil sintetizar em palavras e imagens o que chamamos de "sentimento", "apreço"... Ou seja, sintetizar em palavras a atração que nos move em direção à algo. Alan Moore em "Supremo - A Era de Ouro" consegue colocar num único "frasco" a "quintessência" do amor pelos quadrinhos, fazendo-o de forma inteligente e cheia de referências.



O mito do "Super-Homem" é aqui reconstruido, porém sem cair nas armadilhas dos clichês, ou melhor, usando-os como trampolim para algo que existe além. Supremo prova, cabalmente, que "... Não existem personagens ruins, mas sim escritores ruins."

Sem dúvida nenhuma "Supremo - A Era de Ouro" entra para a lista de minhas HQs favoritas. Dentro em breve lerei "Supremo - A Era de Prata", espero então trazer minhas impressões aqui.

Abraço à todos!

14 comentários:

  1. Marcelo,

    que bom que você conheceu Supremo. Li os quatro volumes há uns quatro anos, acho. Foi uma leitura rápida, um atrás do outros (mas, claro, sem deixar passar nada em branco, desde a magnífica arte nostálgica de alguns capítulos, emulando gibis antigos, ao roteiro fantásticos).

    Detalhe: a arte nostálgica realmente reproduz os traços das eras de ouro, prata e broze. Na era moderna, claro, tudo foi mais discreto.

    Supremo é a história do Superman. Moore fez com Supremo o que queria ter feito com o Super. Além disso, Supremo é a história das histórias em quadrinhos do Superman e do gênero de super-heróis; é a maior obra de metalinguagem que já li (ou uma das).

    Li os seus comentários e notei como é difícil se expressar acerca de uma obra assim. É aquele tipo de obra que você apenas pode dizer: "Leia, cara, pois é muito (mas muito) bom".

    O capítulo que você citou (onde a Liga vê o porvir no "Futuroscópio") é emblemático: ali está o futuro das histórias em quadrinhos, com especial destaque à bancarrota temporária da criatividade nas HQ após a obra "Sedução do Inocente" de Fredric Wertham. Note que em um determinado quadrinho do capítulo, uma mulher lê um livro chamado A Sedução do Inócuo, escrita por um tal "Frederick". Então, os "fantasmas" do Futoroscópio dizem: "Os anos cinquenta rirão de vocês". E foi o que houve após o Comics Code Authority, que tornou HQs material de debiloide!

    Como sempre, Alan Moore não deixa pontas soltas. E todos os eventos vistos em A Era de Ouro são bem desenvolvidos nos arcos seguintes, e perfeitamente esclarecidos por meio de paradoxos temporais e outros elementos que o barbudão domina tão bem quantos ninguém.

    Para quem não conhece bem Moore, uma pena, mesmo. Sempre tô recomendando o trabalho do ermitão! Tudo o que ele escreveu é de bom a excelente, exceto por umas histórias para Imagem (pouca coisa), onde, realmente, não havia muito o que se fazer (ex: Spawn).

    Se não leu os demais volumes, não perca tempo!

    Ah, você falou em Jack Kirby! Pois o último arco é encerrado num diálogo entre este grande quadrinista e o Supremo, onde eles batem um papo sobre ideosfera e outras teorias sedutoras... hehe

    Abraço!

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    1. Oi Kleiton...

      Exatamente... Percebí da mesma forma que você. A Obra é uma "Ode" às histórias em quadrinhos. Durante a Era de Ouro sabemos que os Super-Heróis eram usados de forma à atender objetivos militares e panfletários durante a 2ª Guerra Mundial, porém (detalhe) os Super-Heróis não tinham cosnciência disso! Ao trazer essa consciência para o próprio personagem Moore muda tudo. Mas ao mesmo tempo ele não enche de sangue as páginas com isso, pelo contrário, a partir daí é um mergulho na humanidade do personagem.

      A passagem que você cita sobre o "Futoroscópio" é maravilhosa. Eu tinha percebido sim o livro que a mulher estava lendo e fiz associação direta com o livro de Fredric de ´56. É como se o desencanto chegasse ao universo encantado. Como então esse universo vai reagir? As ameaças externas se constituiriam em algo elevado demais mesmo para quem te super-poderes.

      Não lí ainda a Era de Prata, Bronze e Moderna mas estou com aquela agitação sabendo que será inesquecível. Moore conhece bem esses paradigmas e paradoxos temporais e isso é muito interessante.

      Agora outra coisa que me maravilhou foi o seguinte... Tentei escrever sobre isso na matéria... Toda paixão que temos pela 9ª Arte é na maioria indecifrável, ela traz um pouco de nostalgia, idealismo, sentimentos herméticos, esperança/desesperança... enfim, várias coisas muitas vezes incomunicáveis. Alan Moore traduz nessa obra esse sentimento e o sintetiza, sendo também um atestado de amor por essa arte.

      Valeu Kleiton!

      Gde. Abc.

      Marcelo.

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  2. Para não escrever uma lista aqui com obras que recomendo de Alan Moore, segue o link abaixo com fotos de suas obras em minha coleção. Das HQs de Hellboy para esquerda é tudo Moore. Recomendo, muito, TODOS os títulos!

    Link: http://4.bp.blogspot.com/-W6fSvAXwHN8/T8LcyYVMF9I/AAAAAAAAC_g/u_k5AHcJHBw/s1600/cole%25C3%25A7%25C3%25A3o+gibis+HQs+quadrinhos+%25283%2529.JPG

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    1. Kleiton...

      Obrigado pela foto. Fiquei muitos minutos admirando sua coleção. Acabei não comprando nada da Liga Extraordinária porque caí na besteira de assistir 1º ao filme (que não gostei muito). Isso fez com que eu ficasse com um certo preconceito e acabasse não comprando. Mas vc recomenda? Caso positivo vc poderia me passar quais volumes da Liga já sairam no Brasil e a ordem de leitura? Ao vê-los em sua coleção me animei de comprar.

      Outro que me interessou foi um livro de capa dura vermelho no qual na lombada há o nome do Alan Moore. Que livro é esse?

      Desculpe Kleiton... Mais uma pergunta... Há também um que se chama "A Balada de Halo Jones" me parece... Esse eu também não conhecia. Enfim... Me interessei por todos os que vc tem !!! rs rs

      Obrigado por compartilhar Kleiton! Valeu mesmo!

      Gde. Abc.

      Marcelo.

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    2. Marcelo,

      vamos lá...

      1. Recomendo toda a Liga, que desde lida na ordem. Já saíram no Brasil os volumes I, II e III. O terceiro é dividido em três livros (um para cada capítulo). Vi comentários contrário ao III, de algumas pessoas. Mas é bobagem. A trama, cheia de referências inteligentes, vai se desenvolvendo com maestria e, no final, como sempre, todas as pontas aparentemente soltas são bem amarradas.

      Já fiz um breve review dessa terceira parte, aqui: http://kleitongoncalves.blogspot.com.br/2012/12/hqs-mais-recentes-na-colecao-e-alguns.html

      2. O livro da capa dura foi feito por mim, reunindo diversos gibis em formato canoa do Moore.

      Mais detalhes sobre esse encadernado particular, aqui: http://kleitongoncalves.blogspot.com.br/2011/08/encadernacao-particular-de-gibis.html

      3. A Balada de Halo Jones é da fase 2000 AD de Moore. Esse encadernado que você viu foi lançado pela Pandora Books. É em P&B com uma arte muito bonita. Ainda é fácil encontrar na LigaHQ e em sebos.

      Grande abraço e boa sorte na procura nessas ótimas obras.

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    3. Obrigado pela resposta e paciência Kleiton...

      Vou procurar as da Liga. Recentemente adquiri as do Tom Strong (pelo menos as lançadas no Brasil) bem como o Vol. Um de Promethea. Tudo isso na expectativa gerada pelo Supremo.

      Agradeço também os links. Farei uma leitura com calma. Parabéns pela iniciativa do encadernamento. Olhando pela foto ficou ótimo.

      Gde. Abc. e mais uma vez obrigado.

      Marcelo.

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    4. Promethea nos deixou na mão! Não sei se vc já leu o volume que comprou. Mas é MUITO bom! HQ de alto nível artístico e literário. Pena que parou ali! E não aparece ninguém para continuar editando essas história do selo ABC...

      Tom Strong é uma bela homenagem à literatura pulp! Cara, como é bom ler as histórias que Alan Moore criou para seu selo ABC!

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    5. Então... Promethea me dá a mesma sensação que tive com Supremo. A de que é uma bela história. Agora um detalhe... Quando lí sobre a temática da historia lembrei-me muito de um Seriado de TV norte-americano dos anos 70 chamado (senão me engano) de "Poderosa Ísis" no qual uma jovem incorporava o poder da divindade Egípcia "Ísis". Eu me lembro de (quando pequeno) assistir alguns episódios. Com Alan Moore no entanto, a gente pode esperar que ele pega idéias muitas vezes já existentes e as refaz de maneira que fica melhor quer o original.

      A literatura "Pulp" é outra coisa que me interessa muito. Seu papel no nascimento dos quadrinhos como conhecemos hoje é incontestável. Mas não apenas por isso que eu gosto dela, há realmente uma aura enigmática e uma bela estética retrô que a acompanha. Tudo isso junto faz com que eu me interesse muito. Ao perceber que Tom Strong faz referencia direta à essas Era de Platina das HQs fiquei mais que interessado.

      Não sabia que o Moore tinha uma sêlo particular. Editoras como a Devir entre outras deviam investir em mais lançamentos dele.

      Abção.

      Marcelo.

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    6. "Com Alan Moore no entanto, a gente pode esperar que ele pega idéias muitas vezes já existentes e as refaz de maneira que fica melhor quer o original."

      Foi assim com Mostro do Pântano e Miracleman... Recomendo o documentário A Paisagem Mental de Alan Moore. Ali, ele fala um pouco sobre o conceito solvet et coagula, e isso tem tudo a ver com seu trabalho (hoje, mas no "coagula").

      Quanto ao selo, ele teve até uma editora (Mad Love, salvo engano). Mas não durou. Artistas não bons homens de negócios!

      Uma sugestão: procure Tomorrow Stories da Pandora Books em sebos. Aliás, acho que na Liga HQ e na Comix há edições novas para vender. Esse é o título mix do selo ABC! Cada história curta é uma obra de arte!

      Abç!

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    7. Valeu Kleiton...

      Assisti uma vez esse documentário do Alan Moore que voce cita, mas pretendo assistir novamente pois as ideias são inúmeras e interessantes. Uma das que me chamou muita atenção foi a que ele comenta sobre "O Campo Morfogenético" e inclusive cita um pesquisador (meio que proscrito) chamado Edward Drake senão me engano. Essa ideia do Campo Morfognético eu mesmo já tinha pensado e meditado sobre esse possível campo que une todas as coisas vivas e que está super presente, por exemplo, nas histórias do Monstro do Pântano.

      Vou procurar essa também "Tomorrow Stories", com certeza. Infelizmente, ou quem sabe felizmente (não é mesmo?) bons artistas não são bons homens de negócios. Acho que temos que ficar contentes com isso. Mais uma coisa... Já lí algumas coisas sobre o ótimo trabalho que Moore fez com Miracleman. Ainda pretendo entrar em contato com esse material.

      Abção!

      Marcelo.

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  3. Magnífica essa HQ mesmo....

    eu tenho a versão da Brainstore (q veio com uma caixa de papelão pra guardar os 3 encadernados):

    só q essa cobre apenas a "Era de Ouro" e "Prata".... me faltam as eras de "Bronze" e "Moderna" (q saíram pela Devir)!!!

    mas realmente, é a melhor história com o "Superman" já feita... mesmo estrelada por um "genérico" dele. A DC foi burra em ter rejeitado a proposta do Moore pro super: aí ele aproveitou as ideias q iria usar no super e as colocou nesse supremo (ficou uam bela obra-prima)!!!

    Abs!!

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    1. Pois é Leo...

      A DC errou em se desentender com o Moore. Mas acredito que mais cedo ou mais tarde os burocratas iriam se desentender com ele. No final caras como o Moore acabam sendo "Lobos Solitários" mesmo. Dessa forma se sentem livres e cheios de vida e ideias. Pode ver que o há do Moore atualmente está na mão de editoras menores e fora do circuito comercial mais abrangente.

      Senão me engano no próprio volume da Era de Ouro há uma frase dizendo: "A melhor história do Superman jamais escrita". E é isso mesmo. Todos os elementos estão alí, só que aqui eles brilham tão intenssamente como brilharam (imagino eu) quando Joe Shuster e Jerry Siegel apresentaram seu super-homem.

      Gde. Abc.!!

      Marcelo.

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  4. Muito bom seu post!
    Escreves com muita competência heim!
    Gosto muito de ter ler!
    Abraços! Uma semana abençoada pra você.

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    1. Obrigado!

      Valeu pea visita! Gde. Abc. pra vc e pra todos aí!!

      Marcelo.

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