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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Pílula Gráfica #12: O Astronauta - (2021)


A canção Nave Errante de autoria do músico Guilherme Arantes foi lançada em 1976 no disco homônimo "Guilherme Arantes". Nessa música a letra diz "Minha casa é uma nave; E eu trafego só; Sem contato com viv'alma; No silêncio frio das trevas...". Como que a ecoar esta canção Lourenço Mutarelli e o artista Fernando Saiki fizeram uma obra singular para dizer o mínimo, O Astronauta. Um dos lugares mais incríveis que se tem para viajar, desde que se tenha a imaginação como guia, é nosso lar. Nele conseguimos nos refugiar e facilmente transforma-lo em uma nave errante. No mundo atual, utilitarista, hedonista e recheado de conselhos superficiais e supérfluos acerca da necessidade de se expor continuamente, o modo de vida pessoal introspectivo possui pouco apelo. Mas eis que uma obra retorna às prateleiras para dizer o contrário. O Astronauta é uma viagem interna ao universo pessoal do autor, que abriu seu apartamento e serviu de "modelo" para as fotografias de hiper-realismo fantástico do fotógrafo Flávio Moraes. Feita de reminiscências e reflexões pessoais de Mutarelli, O Astronauta pode parecer uma HQ sobre "nada", mas isso é exatamente o que o autor quer que você pense, pois no final é sobre "tudo". Sobre memórias, inconsistências, evolução, frustação, introspecção... Ao enxergar sua própria casa como um universo à parte, Mutarelli me fez mergulhar dentro do meu próprio universo (como às vezes faço) atrás de significados cotidianos. O artista Fernando Saiki fez um trabalho hercúleo ao traduzir para a xilogravura as fotos de Moraes. E ao fazê-lo conseguiu criar a atmosfera onírica perfeita para o mergulho interior de Mutarelli. O efeito das xilogravuras no leitor o leva à uma vivência visceral com a história. Os indefectíveis objetos identificados no apartamento de Mutarelli (reproduzidos fielmente por Sakai) me causaram a estranha sensação de estar enxergando-os na sua essência primordial. A lixeira da cozinha, o cinzeiro, os móveis, a cafeteira, os botões do fogão... Tudo tão brasileiro, tudo tão familiar à nossa cultura, mas ao mesmo estranhos ao serem contemplados em outra perspectiva! O efeito é lisérgico e profundo. A experiência vivida pelo protagonista ao longo da história, no caso o próprio Mutarelli, é de neurose e ao mesmo tempo transcendência. Lançada em 2010, a obra ganha reedição pela editora Comix Zone que fez um caprichado projeto gráfico valorizando nos extras as fotos originais de Morares, além de trazer um card/postal com a capa. Insólito e ao mesmo tempo curioso, O Astronauta é uma obra para se revisitar esporadicamente para se reter outras nuances, outras imagens, outras sensações... da concretude da chama acesa em uma das bocas do fogão, ao isolamento de um sofá vazio que dá toda dimensão de um espaço sideral imenso e profundo. Na "chamada" da Editora, há uma associação da obra com os sentimentos causados pelo isolamento social imposto pela pandemia de COVID-19 nesses últimos dois anos. Talvez uma tentativa da editora de alinhar a HQ com o nosso tempo. Acho que essa associação é válida, visto que muitos foram forçados a vivenciarem experiência semelhante à do protagonista em suas vidas nesse estranho tempo em que vivemos. O Astronauta é ímpar e singular em sua estranheza, beleza e transcendência.




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