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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Destaques 2021 - Quadrinhos


2021 foi um ano de muitos lançamentos importantes. A partir do trabalho e engajamento de determinadas editoras, tivemos aportando no Brasil autores, desenhistas e obras de qualidade, descortinando uma realidade que antes era conhecida apenas por pessoas com maior conhecimento da 9ª Arte. Quadrinhos europeus e sul-americanos chegaram com força, nos mostrando o quanto as artes gráficas podem ser poderosas em sua transmissão artística. Aqui vai uma lista do que passou pelas minha mãos esse ano. A maioria das obras foram lançadas em 2021, outras, no entanto, apesar de terem sido lançadas em anos anteriores, passaram pelas minhas mãos apenas esse ano, e merecem menção por sua qualidade e força narrativa!!

























Traço de Giz foi minha primeira incursão pelo universo artístico do Espanhol Miguelanxo Prado. A obra será fácil-fácil candidata à melhor lançamento de 2021. Dono de uma arte espetacular, Prado constrói uma história que à princípio parece uma narrativa acerca de sentimentos não correspondidos, mas aos poucos a obra ganha ares de realismo fantástico e tudo é ressignificado. Mas volto a reforçar, a arte de Prado transforma os elementos da natureza, o "mar", o "vento", as "ondas", as "rochas" em personagens, e o leitor é literalmente absorvido para dentro da cena. Obrigatório!


Sérgio Toppi foi outro gigante das artes gráficas que entrou para minha vida em 2021, e essa entrada não poderia ter sido mais monumental do que pela sua obra O Colecionador (Editora Figura - 2021). Um artista com um domínio narrativo fenomenal e com um traço que traz genuína solidez ou fluidez àquilo que desenha. E ao fazer isso Toppi cria um efeito quase catártico no leitor. A impressão que tive foi de estar visualizando objetos e cenas em suas concepções primárias e essenciais. Como se tudo isso não bastasse a edição traz a obra completa de Toppi sobre um de seus únicos personagens autorais, o enigmático, ambíguo e sagaz Colecionador do título. Uma viagem étnico-cultural ao redor do planeta que precisa ser vivida pelas mãos do gigante Toppi.



Quadrinistas sul-americanos finalmente tem chegado ao Brasil com o tratamento que merecem. Viajante de Cinza é um excelente exemplo para provar isso. Desenhado pelo Uruguaio Aberto Breccia (1919-1993) e roteirizado pelo Argentino Carlos Trillo (1943-2011), a obra é de uma delicadeza e crueza que impressionam. Os artistas passeiam por situações históricas a partir de uma cela escura na qual o presidiário Cornelius Dark tenta escapar da loucura do ambiente em que vive. Outro lançamento de 2021 que facilmente está em meu top 5.





Quando fiquei sabendo que a Editora Mythos ia retomar o personagem Bonelliano Ken Parker no Brasil a partir da sua cronologia inicial, não pude conter meu entusiasmo. Embora eu nunca tivesse lido suas histórias, sua fama de "excelente" sempre o precedeu. Eu sabia que iria gostar. E não deu outra. Ken Parker é tudo que eu achava que era e mais. A obra é, talvez, uma das retratações mais honestas do Oeste Selvagem, na qual o personagem não está imune às adversidades do ambiente. Ken Parker desmistifica muito o "mito" por traz do personagem clássico de Faroeste, mas ao fazer isso ele não empobrece o gênero, pelo contrário, ele o eleva à outros níveis dramáticos! Para mim com certeza o ponto alto de 2021!



A Música de Erich Zann é uma daquelas publicações que chega às suas mãos e, de repente, você percebe estar diante de algo muito bom. A obra é uma adaptação de um conto de H.P. Lovecraft. Como se não bastasse a qualidade do conto original, a arte da mineira Gio Guimarães o emoldura de forma que arte e história entram em um sinergismo que acabam por potencializar o texto original. Aqui está uma história que frequentemente retorna à minha mente, sobretudo por tratar de "portais" escondidos no ordinário.



Nathan Never - Futuro Duplo, ou também conhecido como A Saga dos Tecnodroides, é uma obra da década de 90 com roteiro de Antonio Serra e arte de Roberto De Angelis. Nathan Never traz uma mistura de Blade Runner com o gênero Noir que particularmente eu acho incrível. Esta abordagem dentro do gênero sci-fi é a que eu mais gosto. A edição publicada pela Editora Graphite esse ano é enorme e recheada de artigos que contextualizam muito bem a obra. Mas mais do que tudo isso ressalto a qualidade do material. Serra consegue homenagear diversos momentos emblemáticos da ficção científica sem parecer em momento algum que os copia. Eles estão ali como que para nos lembrar dentro de que tradição Nathan Never procede. A história é extremamente envolvente e se fecha perfeitamente, acrescentando elementos importantes à mitologia de Never. Outro ponto algo de 2021.



A Coleção Clássica Marvel foi uma cartada certeira da Editora Panini ao trazer o material clássico da Marvel em ordem cronológica e diversificada. Cada volume corresponde à um famoso herói ou grupo. Minha menção à essa edição em específico O Espetacular Homem-Aranha - Poder e Responsabilidade ocorre porque ela dá a tônica desta coleção, ou seja, a oportunidade única de observarmos personagens em suas concepções originais. Ao fazer isso o leitor entende rapidamente porque tais heróis e vilões se tornaram os ícones que são. As histórias são extremamente interessantes de se acompanhar, mas não é só isso. O material se converte em uma "Máquina do Tempo", transportando o leitor para um período anterior às diversas camadas mitológicas que foram acrescentadas aos personagens ao longo das décadas. Uma experiência única para o fá de quadrinhos.
 

O Astronauta foi um relançamento de 2010 que voltou às livrarias pelas mãos da editora Comix Zone em 2021. É também o primeiro trabalho de Lourenço Mutarelli com o qual entro em contato. A obra é desconexa e disruptiva ao mergulhar no universo do astronauta do título, no caso o próprio Mutarelli que posou para as fotos que serviram de base para as xilogravuras de Fernando Saiki. O realismo dos desenhos de Saiki fazem um contraste brutal com o "fantástico" da narrativa, transformando a obra em uma viagem pelo universo hermético de alguém que, diante da realidade, transforma sua casa (no caso o apartamento do próprio Mutarelli) em um ambiente onírico. O resultado é uma jornada estranha em meio à heteróclitos objetos do nosso dia a dia. Uma viagem que vale a pena ser feita.



Joe Golem - Detetive do Oculto foi uma grata surpresa em 2021. A HQ entrou no meu radar pela capa, que traz uma atmosfera Noir (um gênero que gosto muito) ao retratar um típico detetive das décadas de 1930 e 1940. A outra coisa que me saltou aos olhos foi a arte. Sem muitas recomendações acerca do lançamento na época, resolvi dar uma chance. Nunca havia lido nada do Universo do conhecido Mike Mignola. Mesmo o seu Hellboy (embora muito falado) nunca me passou pelas mãos. Mas Joe Golem merece ser mencionado aqui pela abordagem que faz do mito do GOLEM. A história caminha em duas unidades temporais (uma na década de 50 e outra séculos atrás no leste europeu). Uma unidade vai descortinando elementos da outra. A temática passa pelo horror/terror de forma excelente, e o leitor percebe que o que está lendo é apenas a "ponta" de algo muito maior. Gostei muito mesmo! Espero que e Editora Mythos continue publicando o título no Brasil.



Quando vi o nome desta HQ algo parecia muito errado. É difícil associarmos a figura materna à armas, tiros e porradaria... Só que, quando verificamos que o motivo por trás de tal comportamento é talvez um dos sentimentos mais ancestrais da nossa espécie (a proteção de uma "cria" ou "filhote") daí o "caldo literalmente entorna" mesmo. A roteirista Christa Faust emoldura muito bem a história de Bad Mother ao escolher como protagonista uma mãe de meia idade que começa a sofrer com a constatação de seu envelhecimento. Roupas que não servem mais, expectativas aparentemente não satisfeitas... Mas tudo isso só aproxima a personagem de nosso mundo real. A história é muito boa e não economiza em inteligência e desfechos honestos e violentos! Vale a pena!!





As duas obras acima fazem parte da Coleção Tex de Graphic Novel da Editora Mythos, a primeira (Snakeman) lançada em 2021 e a segunda (O Herói e a Lenda) em 2016. As duas merecem ser conhecidas por motivos muito semelhantes. O primeiro deles a arte. Se em Snakeman, Enrique Breccia dá um show de realismo com seus desenhos de tons multi-coloridos, O Herói e a Lenda não fica atrás com a arte robusta e encorpada de Paolo Eleuteri Serpieri (roteiro e arte). Ambas apresentam perfis diferentes de Tex. Em Snakeman vemos um Ranger já relativamente melancólico, que precisa enfrentar a jornada de vingança de um antigo inimigo do povo Navajo. Já em O Herói e a Lenda vemos um jovem e talvez "alternativo" Tex. Mais violento, selvagem, mas não menos justo e honesto. As duas obras são excelentes!!


Embora lançado em 2017, A Vida Secreta de Londres foi o primeiro quadrinho que li em 2021. Uma obra toda construída a partir da enigmática psico-geografia. A estranha ciência que estuda eventos que ocorreram em determinados locais em função de suas características físicas, topográficas, climáticas dentre outras. Um conceito, aliás muito bem trabalhado por Alan Moore em seu Do Inferno. A Vida Secreta de Londres é formado por pequenas histórias de diversos autores, dentre eles o próprio Alan Moore, Neil Gaiman dentre outros. A obra produziu em mim a estranha sensação de entrar dentro da "alma" ou "aura" do lugar, no caso, Londres. Além disso, a partir desta experiência comecei ter essa mesma percepção com o lugar em que moro ou lugares que conheço. Uma obra a ser mais conhecida.

Sangue no Colorado faz parte da Coleção Tex Gold da Editora Salvat. Uma coleção de 60 números que trouxe a publicação italiana ao Brasil. Sangue no Colorado é ao mesmo tempo épico e contido. "Contido" por contar de narrar um episódio específico na vida de alguns mineiros, e "épico" por, aos poucos, descortinar um drama familiar que dá profundidade dramática. Ótima história do Ranger!


O Homem Máquina entrou para meu radar quando eu li Terra X. Obra apocalíptica do Universo Marvel. Desde então minha curiosidade se aguçou a respeito do robótico personagem. Para satisfaze-la o encadernado Homem Máquina de Tom DeFalco ajudou bastante. Uma história fundamental para se conhecer a mitologia básica do herói, mas mais do que isso, uma história "justa" e "honesta". E com "justa" e "honesta" eu quero dizer que não busca ser mais do que é, ou seja, busca ser um entretenimento muito bem alinhado e sem pretensões de se tornar a nova mega saga ou mega evento, e este é o trunfo da história datada da década de 90. A HQ simplesmente se propõe a contar uma boa história e é isso que faz. Quem leu a nova e recente Saga do Homem de Ferro 2020 verá que, infelizmente, o Homem Máquina ali retratado nada tem a ver com o antigo (apresentado no encadernado acima). Este sim é para mim o verdadeiro e profundo Homem Máquina



E como menção final, mas não menos importante, chega às mãos dos leitores agora em dezembro/21 um dos maiores lançamentos do ano. Financiada pela plataforma Catarse por iniciativa da Editora Tundra, a aclamada série Storm de Don Lawrence volta ao Brasil. Uma série que viu a luz do dia no Brasil apenas no final da década de 80, e apenas os 10 primeiros capítulos pela Editora Abril. Agora a obra retorna com a previsão de sair completa. Aqui está um lançamento que todos devem conhecer e apoiar. Uma das minhas HQs Favoritas de todos os tempos!!! Aliás, acabei de receber o meu exemplar, diga-se de passagem. Conheça a campanha do Volume 2 no Catarse que a partir de 02/01/22 estará em vigor e, caso não tenha adquirido o Volume 1, ainda é possível fazê-lo pela Loja Virtual da Editora Tundra.

Um excelente 2022 à todos!

2 comentários:

  1. Muitas HQs, hein? Aos poucos, a oportunidade de conhecer algo diferente surge. Parabéns pelas experiências literárias. Que tenha um bom ano de 2022. Muita paz e tranquilidade, meu caro.

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  2. boa lista
    depois dá uma olhada nessa:
    https://www.listchallenges.com/500-essential-graphic-novels

    abs

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