sábado, 31 de dezembro de 2016

O Soldador Subaquático


Raras são as vezes em que estamos no lugar certo, na hora certa e em contato com a obra certa... É necessário a associação de muitas variáveis fora do nosso controle para que o cenário perfeito ocorra e nos permita então viver uma "epifania" (epifania aqui no sentido de: "Aparecimento ou manifestação divina"). Mas às vezes acontece... E quando acontece podemos tocar algo inefável, só entendido por nós no nosso íntimo mais profundo. Determinados acontecimentos em nossas vidas favorecem o aparecimento destes ponto únicos da existência... Por exemplo: Nascimentos, Mortes, Uniões Conjugais... São momentos que nos ajudam a alcançar e tocar o tecido da existência. Bem... E ao apagar das luzes de 2016 chegou às minhas mãos uma obra que para mim foi uma epifania. Uma obra que me permitiu acessar coisas muitos profundas dentro de mim e, justamente por ser uma leitura pessoal, pode ser que, caso você venha a ler tal obra, talvez não sinta as mesmas coisas porque tudo é sempre muito pessoal. Mas assim foi comigo com O SOLDADOR SUBAQUÁTICO de Jeff Lemire.

 

O Soldador do título é Jack Joseph, um homem à espera de seu 1º filho. Há coisas, no entanto no passado de Jack relacionado ao seu pai que não lhe permitem avançar, receber as coisas novas que a vida lhe oferece. Jack se sente preso à um passado mal resolvido e assim sua vida vai se consumindo à margem da existência. O único lugar que Jack se sente razoavelmente bem é no fundo escuro e silencioso do oceano, soldando e consertando as fundações de uma Plataforma de Petróleo próxima ao vilarejo em que vive na região litorânea da Baia de Tigg. A vida de Jack passaria assim, como a de tantas pessoas que se arrastam na existência em busca de algo novo, revelador sobre si. Pessoas que cada dia mais se embriagam de coisas materiais em busca do imaterial... Jack passaria assim pela vida, não fosse algo que acontece com ele um dia no profundo oceano... Algo revelador.


Sempre foi difícil para mim ler histórias em preto e branco, e quando vi que O Soldador Subaquático era uma história assim pensei em declinar desta viagem. Mas venci o preconceito e fui supreendido com uma explosão de tons, sons (sim... sons!) e subtextos nesta obra de Jeff Lemire. Você pode ler O Soldador Subaquático rapidamente, prestando muito pouca atenção nas imagens e tesouros escondidos em cada quadrinho, muitas vezes sem qualquer coisa escrita, no entanto se fizer isso não conseguirá submergir na história. Mas, caso opte em prestar atenção em cada quadro, cada expressão facial dos personagens e deixar as onomatopeias de cada quadro soarem em seu cérebro, você viverá uma experiência única. Conseguirá mergulhar fundo na psiquê das personagens e terminará a obra realmente se importando com elas, amando-as.


A obra é enxuta nas palavras mas traz uma torrente de significados, aprofundando a solidão de Jack e criando uma atmosfera que proporciona uma experiência de imersão no leitor. Uma imersão completa na vida e no drama pessoal de Jack. Sem soluções mirabolantes, mas contidas, Jeff Lemire entrega uma obra fantástica que eu passo a enquadrar entre as minhas preferidas. Isso me deixa mais curioso para conhecer o outro trabalho de Lemire, a Saga de Sweet tooth.


Epifanias são raras e totalmente pessoais... Não são traduzidas em palavras e, quando tentamos fazer isso seu significado nos escapa e ficamos totalmente frustrados com o efeito que nossa tentativa causa nas pessoas à nossa volta. As únicas pessoas credenciadas para traduzir epifanias para o Mundo são um tipo bem especial de gente... Os Poetas, que conseguem se comunicar em um linguagem diferente daquela que usamos cotidianamente, a linguagem do coração. Jeff Lemire transmuta algo assim em uma história que chegou às minhas mãos nos estertores de um ano que se esvai e um novo ano que se avizinha trazendo sensações e sentimentos novos.

 

O que será que está subentendido na história de nossa existência? O que está por baixo? Porque conseguimos tocar isto apenas ocasionalmente ao longo de nossa vida? O SOLDADOR SUBAQUÁTICO não responde a essas perguntas... Mas dá apenas tênues pistas. Um FELIZ 2017 à todos!!

6 comentários:

  1. Olá, também não gostava muito de HQs em Preto & Branco, mas aos poucos vou rompendo essa característica. Hoje já leio alguma coisa e confesso e é interessante também desde que NÃO seja algo tão comercialmente conhecido como Superman, Batman, Monica, Disney... Materiais com uma pegada mais séria, densa e, de certa forma, "alternativos" têm minha preferência por serem em preto e branco.

    Esse autor é conhecido também por outro segmento. Não me lembro bem o nome, acho que é Sweet Toth, algo assim... Sei que algumas edições foram às bancas ano passado e fez muito sucesso, caiu bem no gosto do pessoal que costuma ler monstro do Pântano, fábulas, Constantine...

    Um abraço, Marcelo, e Feliz Ano Novo a você e toda a sua família!

    Tudo de bom!

    Fabiano Caldeira.

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    1. Olá Fabiano!!

      Você tem toda razão em relação ao P&B. Caso o P&B ocorram em HQs de personagens já consolidados no Mundo das HQs coloridas realmente não dá pra ler. Comprei alguns encadernados há alguns anos que eram em P&B de material clássico do Surfista Prateado por exemplo e confesso que nunca li porque fico totalmente sem estímulo. A HQ que já é pensada originalmente em preto e branco é diferente daquela que é pensada em cores e depois simplesmente resolvem descolorir para deixar a revista mais barata.

      Você tem razão, chama-se Sweet Tooth mesmo. Vou tentar ler alguma coisa desta série.

      Um Feliz Ano de 2017 para você amigo Fabiano... E lá se vão alguns anos de amizade virtual hein!! Que o ano que chega seja cheio de alegrias, saúde e amizades para você e sua família.

      Um gde. Abc.

      Marcelo

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  2. Sabe Marcelo? A gente sempre se pergunta o que não compreendemos. A necessidade de respostas é algo que foge as regras da paciência e por esta razão antes de esperar o TEMPO, seguimos como arqueólogos em busca do tesouro perdido.
    A literatura entrou na minha vida cedinho mas como foi por muita força de vontade e no começo sem professor, muitas coisas acabei não aprendendo adequadamente, mas me esforçando muito para adquirir mesmo a conta gotas �� rsrs.
    Amo ler, amo aprender e estas obras que venho tendo o prazer de conhecer através de pessoas tão generosas feito você é de grande carinho na essência.
    Realmente essas "epifanias" são um elo com toda instrutora dos sentimentos e se fazem singular para cado um.
    E lendo a sua resenha sobre Jack eu realmente parei e fiquei refletindo sobre tudo que li. Que interessante , que vontade imensa de me aprofundar na história pelo simples fato que já a narrativa me encantou.
    Bom...
    A estas perguntas iremos com certeza ficar sem compreender muito. Mas creio que já estavam lá as respostas à muito tempo lá no princípio de tudo . E respondidas pelo único método que nos foi concedido: livre arbítrio.
    Vir aqui hoje foi um belo presente literário. Obrigada meu amigo querido por mais um presente ganho aqui.
    Escreva bastante e nos afague sempre com esse jeito lindo e incrível ���� de detalhar a arte e carinho aos nossos olhos.
    Obrigada e Feliz 2017 para você É família.

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    1. Oi Maria Fernanda...

      É verdade. Na maioria das vezes queremos encontrar as respostas antes de estarmos necessariamente prontos para elas e com isso muitas vezes atropelamos tudo.

      Realmente sua trajetória de vida é maravilhosa. Para mim daria um lindo filme. Precisaríamos apenas escolher uma boa atriz para interpretar você nas telas.

      Fico muito feliz de contribuir com seu caminho literário. Mas pode ter certeza que é uma via de mão dupla. E você já me ajudou bastante mesmo!

      Ficaria feliz se você lesse esta história pois acho que ela falaria muito com você, assim como falou comigo... Assim poderíamos até debater mais sobre ela. A leitura é bem tranquila... Sendo um banquete para os olhos e sentidos sensíveis observar as imagens de Jeff Lemire que acrescentam tanto ao desenrolar da trama.

      Um grande abraço pra você e novamente um Feliz 2017!!

      Marcelo

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  3. Olá, Marcelo! Eu comprei esse quadrinho sem maiores referências, apenas porque o autor é o Jeff Lemire. Quando li Sweet Tooth, pirei o cabeção! Não perca mais tempo, meu caro, e leia! Quanto a hqs em preto e branco, tenho preferido assim. Tem muito quadrinho legal que joga tudo a perder por causa da colorização (a facilidade digital acabou com o charme das cores "analógicas").
    Grande abraço e excelente 2017!

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    Respostas
    1. Olá Cristiano!!

      Tudo bem amigo?

      Para mim inicialmente o que me chamou atenção foram a Capa e o título. Já tinha ouvido falar de Sweet Tooth, mas não tinha lido. Agora ainda mais com você falando terei que ler com certeza!!! Valeu pela dica!

      Agradeço muito sua presença e comentário. Desculpe-me às vezes a demora em responder. Minha esposa está grávida e não é toda hora que consigo responder de pronto.

      Mas valeu mesmo!

      Abc.

      Marcelo

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