terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Maus - A História de Um Sobrevivente


Escrever sobre eventos históricos sob uma perspectiva acadêmica, ou então meramente informativa foi o que aconteceu ao longo do tempo em relação à diversos acontecimentos históricos. Isto se deu também em relação ao Holocausto Judeu pelas mãos dos Alemães na 2ª Guerra Mundial, a tal ponto de muitos terem banalizado o ocorrido e alocado este genocídio ao lado de tantas outras notícias contemporâneas. No entanto, escrever sobre um evento sob a ótica de quem o viveu, de quem o presenciou, de quem foi consumido por ele, moral e emocionalmente, transforma a obra em atemporal, eterna. É fácil ler que milhões foram mortos em câmaras de gás, difícil é saber que alguém que conhecemos e gostamos foi morto em um lugar assim. Ao lermos Maus de Art Spiegelman é isso que acontece. Nos afeiçoamos às pessoas dentro do livro a tal ponto que elas se tornam indivíduos com os quais nos importamos. Mas além do descrito acima, o que transforma esta obra em algo tão especial? Tão eterna? Tão fascinante em sua dimensão aterradoramente visceral?


Maus foi iniciado no início da década de 1980 e só concluído em 1992. Logo fica muito claro para o leitor o qual custoso, angustiante e necessário foi para o autor sua escrita, tal qual um ritual de exorcismo é imprescindível para o possuído. Art Spiegelman desce aos porões de sua alma e de lá puxa esta obra e, tal qual uma jornada espiritual, consegue trazer à luz algo que o machuca muito, mas ao mesmo tempo parece o absolver de muitas coisas. A obra conta a história de Vladek Spiegelman, judeu Polonês e pai de Art. A narrativa acontece a partir de entrevistas que Art fez com seu pai já velho no final dos anos 70. Mas a obra possui muitas camadas, pois alterna entre o presente (as entrevistas junto ao pai) e o período da 2ª Guerra Mundial, em que tudo vai se desenrolando sob o olhar do inventivo e jovem Vladek. O autor não tem medo de expor sua relação conturbada com o pai que emoldura de um jeito incrível a narrativa de Vladek, dando densidade, humanidade e acima de tudo sentimento ao relato.


Embora criticado por alguns, Art Spiegelman escolhe de forma brilhante um jeito de retratar os diversos personagens desta amarga história. Ao dar características zoomórficas às diversas nações envolvidas, o autor consegue um efeito extremamente genial, pois absolve e culpabiliza os diversos povos que se envolveram no conflito (Judeus são retratados como ratos, Poloneses como porcos, Norte-americanos como cães, Alemães como gatos, Suecos como renas, Franceses como Sapos, Ciganos são libélulas, Russos Ursos, Britânicos Peixes...). Este recurso faz com que a leitura se expanda e amplie as relações entre todos, uma vez que o conflito levou à acentuação das diferenças entre nacionalidades, ao ponto que na época você não era mais uma pessoa, mas uma "nação", estereotipada, julgada e condenada por cada um.


Embora o relato de Vladek seja pungente, forte e visceral, ouso dizer que o que transforma realmente a obra em algo tão precioso tenha sido duas coisas, 1) a capacidade de Art Spiegelman transcender o mero relato de mortes e crueldades para algo além, trazendo luz à maneira como o indivíduo e o coletivo lidaram e ainda lidam com tamanho crime, e 2) a personalidade incrível de Vladek e sua relação com o filho Art. Por mais estranho que meu comentário a seguir possa parecer, garanto que você se pegará rindo da simplicidade, da humanidade, dos problemas e personalidade do velho Vladek, além de sua relação com Art e Françoise (esposa do autor). As "aparentemente" simples e pequenas tiras de desenho da obra escondem tesouros gráficos e aconselho (fortemente) à todos a prestarem muita atenção nas ações de fundo que sempre estão acontecendo em cada quadrinho. Perder isto em uma leitura rápida, é simplesmente perder grande parte da sensibilidade que o autor quis expressar.


Confesso que para mim, Maus figura entre as maiores obras literárias que eu já li, pela sua franqueza, genialidade narrativa, relevância histórica, honestidade e coragem. Maus foi ganhador do Prêmio Pulitzer em 1992, um dos prêmios mais almejados por jornalistas do mundo, outorgado para pessoas que realizam trabalhos de excelência nas áreas de jornalismo, literatura e composição musical. O fato da obra ter ganho este prêmio transcende seu valor e é acima de tudo simbólico, uma vez que foi a 1ª vez que o prêmio foi dado para uma obra em quadrinhos, catapultando os Quadrinhos para um novo nível, consolidando esta mídia como forma de expressão verdadeira de qualquer desenvolvimento artístico.


Bem amigos, finalizo com uma imagem em que Art Spiegelman se auto-retrata. A imagem fala muito por si, mas você só concebe sua verdadeira dimensão ao ler a obra. Em um mundo tão estranho como o nosso atualmente, Maus é um farol a nos lembrar sobre quem somos... Para o bem e para o mau.

Um grande abraço à todos!!

18 comentários:

  1. A verdade é que você veste a escrita em sua alma e colhe dela relíquias e semeia. Quando comecei a ler esse belo livro que comprei sem saber que era tão bom assim. Fiquei boba pelas imagens e o roteiro. Confesso que li e voltei várias vezes, fixei em cada quadrinho procurando entrar nos personagens e colher algo para sorver.
    Mas precisei parar porque gosto de degustar cada palavra, frases, assuntos Embora leia rápido eu me segurei para não ir muito além rsrs
    “Holocausto” pesado isso né? Foi algo mesmo cruel extermínio animalesco. Eles se achavam "deuses" e o ego cresceu absurdamente que não eram mais só os Judeus que sofriam com essa crueldade acoplou todos que lhes apeteciam molestar física e mental. Perseguição politica, sistema de ideias, preconceitos religião, escolha sexual, enfim uma verdadeira expressão de excelência em relação ao que os determinavam. Um verdadeiro flagelo o que os nazistas fizeram na Europa.
    Quem somos já é o caminho para decisões. Tanto para semear flores, como para atirar espinhos. O bem e o mal é escolha, ou seja caminho que cada um precisa trilhar conforme sua vontade.
    Marcelo, nunca pare de escrever o que sente, você transcreve o que sorve com pureza e sabedoria. Amo mesmo te ler embora eu não consiga mesmo chegar na base que você constrói lindamente sobre o tema que admoesta. Muito lindo ler.

    Quando estiver lido esse livro, te falo.
    Obrigada por mais uma bela resenha.

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    1. Puxa Maria Fernanda...

      Obrigado pelas palavras e presença sempre constante aqui no Blog. Obrigado mesmo!

      "Maus" é bem assim mesmo como você escreve. Há muitas coisas informadas em subtextos e nas imagens periféricas. Você realmente pode ler muito rápido e terminar a obra muito rapidamente mesmo. Mas a ideia do autor também não é essa. Acredito que para absorver obras deste tipo temos que deixar as coisas decantarem dentro da gente.

      Concordo com vc sobre essa questão das escolhas que fazemos. Pensar de forma diferente desta é quase que retirar a culpa dos nazistas. Pois acabariam por alegar (como muitos depois alegaram em seus julgamentos) que estavam apenas seguindo ordens. Foram tempo muito difíceis na Europa em que teríamos que pagar com a vida para ficarmos do lado certo.

      Muito obrigado pelas palavras. Fico contente, sobretudo pois sinto a oportunidade de fazer amizades e desenvolver laços através do Blog.

      Valeu mesmo...

      Nunca deixa de aparecer.

      Abcs!!

      Marcelo

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  2. Quero muito ler esse livro,e sempre leio ótimas resenhas sobre ele,e agora mais uma.
    Um abraço.

    http://diasdeleitores.blogspot.com.br/

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    1. Olá amigo (a)!!

      Fico honrado com sua visita e farei uma visita também ao seu espaço. Agradeço muito.

      Apareça sempre!!

      Gde. Abc.!

      Marcelo

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  3. Olá Marcelo, tudo bem?

    Gosto muito de quadrinhos e sempre tive curiosidade em relação a Maus. Depois de ler o seu texto vou incluí-lo na lista de futuras aquisições.
    Seu texto conseguiu atiçar a minha curiosidade.
    E aí, vai encarar os Marvel Fact Files da Eaglemoss? Por enquanto vou ficar só nos Especiais Marvel.

    Abs., Carlos - São Paulo.

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    1. Puxa Carlos!!

      Fico feliz em saber que o influenciei para ler esta obra. Gostaria muito de saber o que achou quando terminar. Escreva aqui sua percepção! Ficaria feliz em conversar sobre a obra.

      Puxa... Sobre o Fact Files eu confesso que não vou encarar. Se um dia vier o Xadrez Marvel ou DC vou encarar. Quero guardar para quando chegar.

      Valeu amigo!!

      Marcelo

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  4. Rapaz...acabei de ler Maus pela primeira vez e fiquei muito surpreso. Apesar de todos os elogios e críticas positivas não estava preparado para o que encontrei. E olha só, abro seu blog e dou de cara com a resenha. Parabéns pelo texto, o Vladek é mesmo um cara inesquecível !

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    1. Puxa...

      Que coincidência Gustavo!!!

      Pensava como vc. Quando vemos muitos elogios sobre uma obra a gente desconfia com certeza. Tanto que quando fui ler fui com bastante "pé atrás". Mas as expectativas são superadas com essa obra.

      Valeu Gustavo!!

      Marcelo.

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  5. Ainda não li esta obra, mas sempre me recomendaram..
    E após ler a sua postagem, só me deu ainda mais vontade. Quando for a uma livraria vou tentar achar e comprar!

    Abraço!

    att

    André!

    http://hachuranime.blogspot.com.br/

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    1. Olá Deh!

      Tudo bem?

      Que bom que curtiu a resenha. Leia sim amigo e depois me conte o que achou. Há algumas obras que não precisamos ter restrições quanto a elogia-la. MAUS é uma dela. Mas espero mesmo que vc goste.

      Vou visitar seu espaço!! Parabéns!!

      Gde. Abc.

      Marcelo

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  6. blz marcelo?

    maus é tudo isso que vc falou e mais um pouco, pra quem gosta de quadrinho (independente do gênero) é "obrigatório".
    o envolvimento com as personagens da HQ é inevitável e julgamento não é uma palavra que cabe aqui.
    o ser humano em muitas vezes é desprezível e acho que ainda não vimos o que temos de pior, nem acho que exista excesso de gente ruim, mas existe gente demais que da mais "importância" pra ruindade do que pra bondade.
    as vezes parece que o mau exemplo é mais importante que o bom.

    abraço

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    1. Oi Gustavo!! Blz!?

      Tudo bem por aqui!

      Você tem toda razão... "Tudo isso e mais um pouco"...

      Análise perfeita também ao dizer que a maldade gera mais "ibope" e rendimentos midiáticos... Encobrindo o potencial para o bem que temos. Acertou de novo quando diz que parece que o "ser esperto" o "ganhar em cima do outro" o "estar por cima de tudo e de todos" é o grande objetivo dos pais no ensino de seu filho.

      Muito bom Gustavo... Valeu mesmo pela participação e comentário!!

      Um grande abraço!!

      Marcelo

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  7. Oi, Marcelo. Tudo bem?
    Estou há tempos esperando uma boa promoção para pegar esse clássico, mas ta difícil!
    Te adicionei ao meu blogroll.
    Abraço.
    http://microinvestidornerd.blogspot.com/

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    1. Olá amigo!!

      Obrigado pela visita...

      Espero que compre logo e depois nos fale o que achou! Visitei seu Blog... Já o inseri na lista de meus Blogs Amigos aqui.

      Um gde. abc.

      Marcelo

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  8. Parabéns pela resenha Marcelo!
    Fiquei com vontade de conhecer e ler esse livro!
    Agora acho que seu tempo vai ficar mais curto para ler livros...
    O que você acha? Abraço!

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    1. Oi Mãe!!

      Pois é... Acho que sim... rs rs... Mas valerá a pena. Estarei outro livrinho. Só que desta vez bem fofinho e feliz.

      Um bj...

      Marcelo

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  9. EDITORA CIA DAS LETRAS COM +20% DE DESCONTO NA AMAZON http://amzn.to/2j50KBD
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    Mais detalhes em https://www.youtube.com/watch?v=3UndDNFcMtI&t=144s

    Não peguei MAUS, mas peguei PERSEPOLIS!

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    1. Legal amigo!!

      Vi o vídeo do Youtube!! Vou checar!!

      Valeu!!!

      Marcelo

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