domingo, 1 de dezembro de 2019

Além do Planeta Silencioso - C.S.Lewis


Se você possui raízes minimamente cristãs, possivelmente já deve ter se perguntado (com certa decepção e até irritação) porque grandes escritores (com exceção de alguns poucos) nunca se utilizaram de formas narrativas tão ricas como a Fantasia e seus subgêneros como Alta Fantasia Baixa Fantasia, além do Realismo Fantástico, Ficção Científica, Fantasia Medieval, Espada e Magia, Ficção Histórica e gêneros até mais arrojados como Steampunk, Cyberpunk e Solarpunk como veículos para narrar aspectos tão ricos da tradição cristã. Excetuando Paraíso Perdido de 1667 de John Milton, e O Senhor dos Anéis de 1954 de J.R.R. Tolkien, quem nunca quis ver figuras, elementos e personagens bíblicos exponencialmente expandidos e retrabalhados dentro de Universos interessantes e catárticos como aqueles encontrados dentro destes gêneros literários? Eu já me fiz esta pergunta "n" vezes e até acredito que a resposta para isso é que, vincular o Universo Cristão (com seus incríveis personagens) a esse tipo de literatura é arrumar alguma rusga com algumas Instituições Centenárias. Assim, talvez muitos autores tenham decidido não "mexer com o que está quieto" e trabalhar suas ideias em outras cearas.

Nave concebida e construída pelo físico Weston

Clive Staples Lewis, mais conhecido como C.S. Lewis foi, no entanto exceção à regra. Professor vinculado tanto à Universidade de Oxford quanto de Cambridge, Lewis foi um dos escritores mais prolíficos e versáteis que já conheci. Conhecido por seus diversos livros de apologética cristã, Lewis ousou se aventurar por outras praias narrativas sem medo de ser confrontado por seus pares ao usar gêneros literários, sobretudo a fantasia, para desenvolver arquétipos cristãos. Lewis teve a coragem de se apropriar de "fadas", "duendes", "elfos", "magos", "feiticeiras", "sátiros", "minotauros" e até zoomorfizar figuras sacras, como é o caso do Leão Aslan em sua obra de ficção mais conhecida: As Crônicas de Nárnia. Mas há uma outra série de Fantasia menos conhecida do autor, a Trilogia Cósmica, do qual o livro Além do Planeta Silencioso (1º livro da trilogia) faz parte. A trilogia foi escrita a partir de uma aposta que Lewis fez com seu amigo J.R.R. Tolkien. Decidido no cara ou coroa os temas "viagem no tempo" e "viagem no espaço" foram sorteados e o segundo tema caiu para C.S. Lewis. O autor cumpriu sua parte da aposta escrevendo a Trilogia Cósmica. Tolkien cumpriu parcialmente seu lado da aposta, inserindo o tema viagem no tempo em um dos seus contos dentro do livro O Silmarillion.


A aposta foi paga por Lewis muito bem. A Trilogia Cósmica narra, pelo menos nos dois primeiros livros a experiência do Professor Universitário inglês Elwin Ransom. Ransom era filólogo, uma excelente e inteligente escolha por parte de Lewis, pois os dons do professor seriam muito úteis na sua aventura. Ransom é levado contra a vontade e de forma violenta para um lugar distante por meio de uma nave construída por um proeminente físico (Weston) e financiada por um outro professor mal caráter (Devine). A ciência envolvida na construção da nave não é alvo de explicações por parte de Lewis, e nem precisa, já que a narrativa é tal inventiva que a supressão de nossa descrença logo acontece. Ransom é levado para um distante planeta que logo entendemos se tratar de Marte, ou Malacandra, na língua dos nativos. A própria viagem de Ransom em direção à Malacandra é incrível aos olhos de qualquer pessoa que tenha o mínimo de espiritualidade latente. A forma como Lewis descreve a esfera celeste e os elementos que permeiam o espaço, nos enchem de uma concepção quase palpável do mundo espiritual que nos rodeia, deixando-o tão concreto quanto o mundo real.


Malacandra é habitada por 3 espécies distintas, os Sorns, os Hrossa e os Pfifltriggl, todas com dialetos distintos mas que falam em conjunto a língua dos Hrossa. Língua essa que Ransom vem a aprender e dominar. Embora parecido no questio aventura com a obra Uma Princesa de Marte (John Carter de Marte) de Edgar Rice Burroughs, a obra de Lewis possui, para o cristão, segredos escondidos. Cada personagem, situação e mitologia ali apresentada possui um significado maior. Além das espécies acima mencionada, há seres elevados que vivem em Malacandra. Chamados de Eldila tais seres servem a um Oyarsa, que também vive em Malacandra. Esse grande ser (Oyarsa) chega a encontrar e conversar com Ransom em uma determinada parte do livro. Para o leitor perspicaz, ficará claro quem são esses seres e quem seria aquele a quem todos servem, o grande Maleldil. Mas o interessante não é simplesmente o jogo de identificar quem é quem, mas sim perceber o véu que se descortina e que lança luz sobre a rebelião celeste Bíblica pré-Adâmica. Tudo isso somado vai  ressignificando o Planeta Terra no contexto cósmico.


Uma das estratégias narrativas de Lewis é usar o impacto cultural que Ransom sofre ao conhecer raças tão diferentes de nós e com visões tão distintas do cosmos, para nos fazer gradativamente perceber as coisas no universo a partir de uma nova ótica, muito diferente, aliás, da nossa. Ao fazermos isso vamos sendo confrontados com a maneira torta como o ser humano enxerga a si mesmo, os outros e a criação. Nossa nudez vai sendo exposta e vamos realmente enxergando tudo a partir de um novo prisma, o prisma dos Malacandrianos. Lewis vai dando pistas também da existência de um ideal cósmico muito maior e do qual nós, seres humanos, um dia fizemos parte, e para o qual estaríamos destinados um dia retornar. Nesta concepção cósmica, nós humanos teríamos um destino bem diferente daquele que atualmente vivenciamos. E todo esse desvio de rota ocorreu por causa de uma entidade, um outro Oyarsa. O nosso Oyarsa. Não vou ficar discorrendo mais para não estragar a leitura. A ideia do post é mesmo dar um contexto para a obra, e não estraga-la com spoilers.


Escrita nos anos que antecederam e subsequentes ao início da 2ª Guerra Mundial, A Trilogia Cósmica guarda segredos e tesouros valiosos escondidos, tal qual outras grandes obras chamadas (equivocadamente) de juvenis, dentre elas O Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, A Fantástica Fábrica de Chocolate de Roald Dahl, A História Sem Fim e O Teatro de Sombras de Ofélia de Michael Ende, O Circo do Dr. Lao de Charles G. Finney, O Oceano no Fim do Caminho de Neil Gaiman, Caninos Brancos de Jack London entre outras. Além do livro Além do Planeta Silencioso, compõem A Trilogia Cósmica, Perelandra e Aquela Fortaleza Medonha (às vezes traduzido como Uma Força Medonha). Há um 4º livro de C.S. Lewis chamado A Torre Negra que continua o Universo da Trilogia Cósmica. Nele, seis histórias se entrelaçam como um esboço de continuação deste mágico universo.


É isso aí amigos. Um grande abraço!

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