domingo, 24 de março de 2019

O Relatório de Brodeck


"Quem conhece o mal que se esconde no coração dos homens?". Se você é um leitor de quadrinhos, você sabe a qual personagem esta pergunta está ligada. No entanto, diferente do que você está pensando em responder, a resposta verdadeira para esta pergunta seria, sem dúvida nenhuma, a seguinte: BRODECK conhece. O Relatório de Brodeck é uma HQ europeia que chegou ao Brasil no ano passado. A obra destila e desperta as mesmas sensações e emoções que grandes obras, tais como, MAUS de Art Spiegelman e A ARTE DE VOAR de Antonio Altarriba conseguiram. E, para quem já as leu, sabe que este tipo de comparação vale muito. Embora violenta, a história de O Relatório de Brodeck é aterradora não exatamente por causa disso, mas por descer nos silenciosos porões escuros da alma humana. E esta viagem se dá por meio dos diálogos e imagens do artista Emmanuel Larcenet. Dentre as diversas reflexões possíveis para a obra, podemos dizer com toda certeza que o drama das relações humanas, em toda a sua virulência e profundidade, pode ser vivenciado mesmo em microambientes, em microcosmos isolados e perdidos, como é o caso do vilarejo no qual a história se passa. E talvez, justamente por este isolamento, consigamos sentir as pessoas dentro da obra em toda sua plenitude, livres de tantas amarras tecnológicas e perfis fakes tão comuns em nosso tempo. Na obra encaramos o humano em toda sua beleza e vilania.


Fazendo apena uma breve contextualização (sem spoilers), a história se passa em um vilarejo em um país europeu não exatamente definido, no entanto muito próximo da Alemanha ao que tudo indica. O período seria logo após a 2ª Guerra Mundial. Brodeck é um dos moradores deste vilarejo e mora em uma cabana afastada da comunidade local. Na cabana vivem Brodeck, sua esposa (que possui aparentemente uma doença mental cuja origem será revelada mais à frente na obra), sua filhinha e uma velha que salvou Brodeck quando este ainda era um pequeno garotinho sobrevivente de uma vila destruída. Logo nas primeiras páginas o enredo principal se revela. Brodeck vai à vila comprar manteiga e ao entrar no único armazém do local se depara com vários homens do vilarejo com expressões estranhas e olhos cheios de desconfiança. Brodeck logo percebe o que acabou de acontecer no local. Os homens haviam acabado de cometer um assassinato, e a vítima era aquele que todos conheciam como o "Anderer", palavra do dialeto local que significa "desconhecido", algo como "forasteiro". O Anderer havia chegado à vila algum tempo antes e desenvolvido uma relação com o povo local que oscilava entre curiosidade e extrema desconfiança.


Brodeck não participara do assassinato, mas havia chegado ao local no momento errado e na hora errada e, talvez por ser um dos únicos moradores da vila que sabia escrever, receberia a partir daquele momento a incumbência de escrever um relatório a respeito do que acontecera desde a chegada do Anderer até aquele fatídico desfecho. Acuado e intimidado à todo momento pelos homens do vilarejo, Brodeck precisa escolher entre aquilo que realmente aconteceu, e aquilo que a população quer que seja escrito. Neste doloroso processo, Brodeck recorda em flash-backs os eventos que circundaram a chegada e a vida do Anderer na aldeia, ao mesmo tempo que se lembra de seu período em um Campo de Concentração Nazista. Desta forma a narrativa se passa em 3 frentes: 1) a atual, na qual Brodeck escreve seu relatório e continua com sua vida; 2) a anterior, em que eventos envolvendo o Anderer são descritos por meio das memórias de Brodeck; 3) mais anterior ainda, na qual se desenrolam eventos da época em que Brodeck era prisioneiro nas mãos dos Nazistas. Em momento algum o leitor se confunde entre estas 3 frentes, uma vez que o domínio narrativo é perfeito.


A questão central da obra é, sem dúvida nenhuma os instintos humanos e como lidamos com eles em situações extremas. E ao lê-la, vamos descendo a escadaria das masmorras da alma humana. Ao mesmo tempo em que fazemos esta aterradora viagem, somos confrontados com o que há de mais belo no mundo, os pequenos gestos de uma família que se ama, de um homem que mesmo tendo sofrido ao extremo, tenta manter sua bondade e humanidade intactas. Desta ambiguidade nasce uma obra que nos desvenda o intrincado painel que é a mente e a alma humana. Passados alguns dias do término da leitura, consigo refletir também acerca das atitudes das pessoas do vilarejo. Embora, em momento algum eu deseje validar quaisquer atitudes violentas e brutais que os homens do local tomaram, eu fico me perguntando o que EU faria se visse minha família e minha vida serem afrontadas com a violência dos Nazistas. Teria eu a coragem necessária para me erguer contra o duro e brutal punho do dominador? Conseguiria arriscar a vida da minha família e mesmo a minha vida contra o rolo compressor que foi a máquina de matar de Hitler? Responder perguntas assim sentado no sofá ou assistindo TV hoje é fácil. Por isso, ao nos colocarmos no lugar dos habitantes da vila, temos também uma outra forma de pensar a obra.


Esse medo e fragilidade foi vivenciado por todos naquela época. Por isso, peço especial atenção às palavras dos moradores e até do próprio prefeito do vilarejo quando se manifestam durante a ocupação nazista. Tais palavras, se contextualizadas, fazem muito sentido. Embora o ponto central seja a passagem do Anderer pela vila, todo o contexto da Guerra deve ser levado em consideração na obra, já que podemos sentir todo o trauma latente que foi despertado com a passagem do Anderer, e é este trauma latente que é a força motriz das atitudes dos personagens. Até mesmo as atitudes do Anderer, embora inofensivas, podem ter servido de "gatilho" para ressentimentos escondidos e traumas não tratados. Sendo assim, há um texto subjacente na obra. Ou seja, o fato de atitudes serem o tempo todo escondidas, sublimadas, e nunca trabalhadas pelo coletivo, transformam um povo em uma bomba-relógio. O caldo emocional e psíquico que isso gera em um povo é potencialmente perigoso à partir do momento que determinados "gatilhos" são acionados. Xenofobia, racismo, intolerância sobrevêm como uma erupção vulcânica e, qualquer semelhança com nosso tempo atual não é mera coincidência.


Por último não posso deixar de celebrar aqui a arte de Larcenet. A leitura de O Relatório de Brodeck tem que ser feita considerando todos os silêncios que Larcenet pressupõe em cada quadro. Ler esta obra com a mesma voracidade de um consumidor mais desatento, poderá reduzir drasticamente o significado da obra, uma vez que a própria natureza (animais, árvores, neve, arbustos, rios, paisagens...) faz parte da leitura. A ideia do autor parece-me que é fazer da natureza um expectador dos fatos. Tal como o leitor assim o é. Há muitos mistérios escondidos nas páginas e é possível que eu me aventure novamente na leitura de O Relatório de Brodeck na tentativa de decifra-los. Não poderia terminar sem chamar a atenção para os diálogos, mas destaco um que é sobremaneira impactante, a saber, a conversa que Brodeck tem com o Padre da aldeia. Prepare-se!


Bem amigos... Gostaria muito de conversar com alguém que já tenha lido a obra e trocar algumas palavras acerca de suas impressões, uma vez que ela é cheia de percepções que podem ter me escapado. É isso aí amigos! Forte abraço!

domingo, 10 de março de 2019

A Vida Secreta das Árvores - Descobrindo um Mundo Oculto


Ao caminhar por uma floresta, você já teve a sensação de estar em contato com algo que, embora incomunicável, está totalmente presente, pulsante e em silêncio ao seu redor? Sempre imaginei que se um ser fosse capaz de se desenvolver lentamente, totalmente em silêncio e por um longo espaço de tempo, era porque ele tinha descoberto algo que havia escapado aos seres humanos. Coisas que nos escaparam e das quais no desligamos e, para nosso prejuízo, nos empobreceu. Árvores sempre estiveram no centro deste mistério para mim. Sobretudo em função de viverem da forma descrita acima e por conseguirem existir dentro de uma perspectiva de tempo ampla e sem pressa. Quando descobri o livro Best-Seler do Engenheiro Florestal alemão Peter Wohlleben, fiquei extremamente ansioso pois percebi que finalmente entenderia porque sempre vi a vida vegetal sob esta perspectiva profunda. E realmente foi isso que encontrei ao ler o livro! A beleza da vida das árvores é realmente inimaginável. Cheia de segredos, mistérios e com uma vida que se desenvolve dentro de uma outra escala de tempo. E talvez justamente por isso, estes seres acabam por nos parecer (de forma errada) imutáveis ou mesmo estáticos. Isto está bem longe de ser verdade como você pode descobrir ao ler A Vida Secreta das Árvores, lançado no Brasil em 2017 pela Editora Sextante.


Embora Wohlleben seja um profissional com grande conhecimento acadêmico, sua narrativa é claramente direcionada para o público leigo, sem abrir mão, no entanto de conhecimentos ancorados em estudos e recentes descobertas científicas. Há vários pontos no livro que precisam ser destacados positivamente. Além de sua narrativa fluída, poética e cheia de cuidado, a surpresa maior se dá em função das informações que nos conduzem a um entendimento maior, mais profundo e cheio de respeito por estes seres que durante toda a existência do homem na Terra, sempre foram vistos como simples pano de fundo para paisagens, como fonte de calor, lucro e extrativismo. A percepção geral do homem é de que as árvores são seres vivos de segunda categoria e, portanto altamente passíveis de serem manipulados e explorados. Descoberta recentes tem, porém posto por terra toda esta noção rasa que o homem tem do reino vegetal.


Algo que eu já suspeitava era a possibilidade de comunicação e vida em comunidade das árvores. O que é realmente um fato. Matas são capazes de estabelecer um eficiente sistema de comunicação entre os espécimes. Conforme pesquisas recentes, isto se dá por meio do micélio, o corpo vegetativo da maioria das espécies de fungos que se entrelaçam com as raízes das árvores formando o que chamamos de micorriza, associação simbiótica entre o micélio de certos fungos e as raízes. Esta rede permite que haja troca de nutrientes entre espécimes saudáveis e doentes, de maneira que árvores mais fracas sejam ajudadas por árvores saudáveis. Além deste troca, há também troca de informações de maneira que ataques de determinados predadores (besouros, determinados fungos e outros animais) possam ser compartilhadas. Tudo isso faz com que entendamos que existe uma Wood Wide Web que, embora parecida com a nossa World Wide Web, já existia à milhões de anos. Por meio desta comunicação, espécies fazem associação de suas raízes com outras com as quais desejem se relacionar, ou não. Assim como seres humanos, pode ser que as árvores não queiram se relacionar com outras espécies ou espécimes. Isto aponta para a ideia de que as árvores tem um forte senso de suas existência, contrariando totalmente o que pensávamos sobre elas.


A vida em comunidade é também bem estabelecida entre elas. O autor nos revela formas de se comunicar que não apenas por meio da rede comentada acima. Por exemplo: quando atacadas por determinado inseto ou predador que morde suas folhas, a árvore exala determinadas substâncias que, carregadas pelo vento, passa a alertar toda a floresta, que começam a secretar fitocidas (agentes químicos em suas folhas) que espanta seus agressores. Isso vale até mesmo para grandes agressores mamíferos. Girafas por exemplo, ao perceberem o que as árvores fazem tendem a iniciar sua refeição comendo as folhas contra o vento. Assim, caso a árvore que está sendo atacada emita este sinal, ele só será sentido pelas árvores que estão a favor do vento, e não contra. Esta é uma estratégia da girafa para burlar este senso coletivo entre as árvores. Peter Wohlleben é muito claro ao ressaltar a importância de florestas naturais ou aquelas que possuem uma grande diversidade. Árvores plantadas a partir de reflorestamento, em que apenas uma espécie é plantada no local (florestas de eucaliptos por exemplo) tendem a ser solitárias. Apesar de existirem a poucos metros de outras, em geral não se comunicam ou colaboram. Tal comportamento tem sido alvo de estudos atualmente.


Em um dos capítulos nomeado como "Manual de Etiqueta das Árvores", Wohlleben coloca como devem ser as escolhas de uma árvore para que alcance um bom desenvolvimento. Vários fatores externos impedem que elas façam as escolhas corretas, sobretudo em áreas urbanas ou em florestas muito machucadas pela presença do homem. O que diminui as chances de um bom desenvolvimento. Embora pareça loucura, há espaço no livro até para se falar em fluxos migratórios das árvores! Sim! Elas migram... Em uma velocidade muito diferente daquela praticada por espécies animais. Mas há um fluxo de cada espécie, determinado por diversos fatores. Estes fluxos podem ser muito bem verificados quando os observamos por meio de uma janela de tempo adequada. Saber sobre essas coisas e humanizar as árvores é um caminho que deveríamos aprender. E por que? Porque no passado, quando atribuímos sentimentos em nossas relações com os animais, a história mostrou que isso foi acompanhado de outra coisa, ou seja, de DIREITOS para esses animais. Na medida em que conseguíssemos trilhar este mesmo caminho em relação às árvores talvez o homem pudesse estabelecer uma relação diferente com estes seres.

Peter Wohlleben

Para o homem sempre foi difícil entender ou aceitar espécies muito diferentes dele. Só porque as árvores e a flora em geral vivem dentro de uma outra perspectiva de passagem de tempo, usam outras ferramentas metabólicas, são estáticas e possuem mecanismos adaptativos mais lentos que os nossos, isso não nos dá o direito de desclassifica-las ou mesmo desrespeita-las. Peter Wohlleben reflete de forma muito lúcida ao final do livro ao aceitar o fato de que mesmo animais e até plantas sobrevivem a partir da exploração de outra espécie. Desta forma não estamos errados ao usarmos a madeira de uma árvore em nossas construções. A questão é que os animais e as árvores usam aquilo que precisam. E só!! Não exploram além do que precisam. E esta atitude pode ser entendida como uma ato de respeito ao próximo enquanto criatura e habitante do mesmo planeta em que vivemos.

Deveríamos nos ver muito mais como mordomos do que como usuários. "A Vida Secreta das Árvores" é cientificamente correto, poético e ao mesmo escrito com o cuidado que apenas alguém que aprendeu com seres milenares consegue desenvolver!

segunda-feira, 4 de março de 2019

Crise Nas Infinitas Terras - Remodelando Universos - Parte II


Na primeira parte desta matéria (Remodelando Universos - Parte I), apresentei os eventos que culminaram com a decisão da DC em reiniciar seu Universo Ficcional em 1985. Reverenciada por uma legião de fãs, a Saga Crise Nas Infinitas Terras ficou conhecida como a saga que influenciou todas as sagas envolvendo super-heróis que vieram depois. Sua validade e importância não tem precedentes para o Universo dos Quadrinhos. Embora sua qualidade seja uma unanimidade entre os fãs nas últimas décadas, haveria espaço para alguma voz contraditória em meio à avalanche de elogios? Bem... Vamos falar um pouco disso abaixo. Qual a premissa básica da Saga?


A história usada para reiniciar o Universo DC em 1985 saiu da mente do roteirista Marv Wolfman, e envolvia sua ideia ainda criança (conforme comentado na primeira parte desta matéria) sobre o Bibliotecário. A ideia central de Marv é que no princípio de todas as coisas havia apenas um Universo que, caso nada desse errado, se desenvolveria normalmente. No entanto, graças à intervenção de Krona (um habitante do planeta Oa), que alterou por meio de suas pesquisas o princípio de tudo, houve um distúrbio que conduziu ao aparecimento de diversos Universos paralelos. Todos eles com os mesmos planetas e desenvolvimento semelhante, exceto por pequenas mudanças que ao longo do tempo levou à variações importantes em cada um deles. Esse conceito explicaria a intrincada mitologia DC. Porém, nasceu ali também um Universo chamado de Universo de Anti-Matéria, cujo ser mais poderoso e governante foi chamado de Anti-Monitor. O Anti-Monitor possuía sua contraparte benigna em nosso Universo, o Monitor. Angariando progressivamente um poder incalculável, o Anti-Monitor conseguiu produzir uma gigantesca onda de anti-matéria que passou a tragar e aniquilar todas as coisas nos universos de matéria positiva.


Diante deste drama, o Monitor e sua ajudante, a Precursora, passaram a recrutar super-heróis de diversas Terras com intuito de formar uma coalisão capaz de deter a aniquilação dos Universos. Uma das primeiras estratégias do grupo é a instalação de Diapasões Cósmicos nos Universos ainda restantes com objetivo de conter a onda de anti-matéria e assim retardar seu avanço. Neste processo diversas Terras são extintas, sobrando apenas 5 delas, a Terra 1 (lar dos Heróis que tiveram sua ascensão na Era de Prata dos Quadrinhos), a Terra 2 (lar dos Heróis da Era de Ouro), Terra 4 (lar dos heróis da antiga Editora Charlton, dentre eles Besouro Azul, Capitão Átomo, Questão e Pacificador), Terra S (local de existência dos Heróis da Fawcet Comics, Capitão Marvel/Shazam e Família Marvel) e Terra X (local onde viviam os heróis adquiridos pela DC da Editora Quality Comics). Por volta do meio da Saga temos as maiores e mais conhecidas baixas da história da DC, a morte da Supergirl e do velocista Barry Allen, o Flash. Duas mortes que foram anunciadas como definitivas mas com o passar das décadas vimos que os dois personagens retornaram.


Sem dar spoiler (até porque a HQ tem mais de 30 anos), a Saga termina com apenas uma Terra restante. Não que as outras 3 foram necessariamente destruídas, mas sim amalgamadas em apenas 01. Desta forma eventos cronológicos foram fundidos, enquanto tantos outros foram literalmente esquecidos. O final da Saga me deixou com diversas dúvidas. Por exemplo: ao final diversos heróis continuavam se lembrando de suas origens pré-Crise. Diante disso, não entendo muito bem como a DC amarrou as novas origens de personagens que sabiam de suas origens antigas. Superman por exemplo ganhou uma nova origem sob a batuta de John Byrne, Mulher-Maravilha pelas mãos de George Pérez... Ou seja, tais heróis tiveram suas histórias recontadas, no entanto ao final da Saga eles sabiam de suas origens antigas. Mas dúvidas pessoais à parte vamos à pergunta-chave: Havia a necessidade deste reinício? Vamos lá... Antes de mais nada quero deixar claro que para mim o formato ideal de abarcar toda a cronologia de uma editora como a Marvel e a DC seria termos mesmo multiversos. Ou seja, multiversos nos quais cada época ou abordagem seria retratada. Por exemplo: vamos supor que eu seja apaixonado por personagens e quadrinhos da Era de Ouro dos Super-heróis, portanto nada mais interessante do que ter um universo só dedicado a esta temática. Por outro lado talvez eu goste também da abordagem adulta e violenta que se instaurou nos quadrinhos a partir dos anos 80. Então tenhamos um Universo onde esta temática é totalmente explorada. Para mim este seria o sonho de consumo. Sendo assim, ter um Multiverso é a melhor coisa para uma editora de grande porte como a DC. Validando as diversas realidades e fatos de cada versão de um herói ou vilão.


Então porque a DC não optou por isso? A resposta está em algo que Marv Wolfman aponta em suas reflexões nos Extras do encadernado Crise Nas Infinitas da Terras - Edição Definitiva (Panini 206 e 2018). Lá Marv nos conta que os roteiristas da DC foram escrevendo suas histórias ao longo das décadas sem se preocupar que tais histórias tivessem consistência com outras anteriormente publicadas, ou seja, escreviam o que achavam interessante para vender. Caso eles tivessem respeitado as fronteiras entre os Multiversos, nada disso teria sido necessário. Vou dar um exemplo, se eu sou um roteirista que escrevo dentro do Universo da Era de Ouro dos Quadrinhos, não posso simplesmente deixar que meu personagem interaja com outro que, sabidamente, vive no violento universo da Era Moderna dos anos 80. Este foi o problema! Havia muitas inconsistências. Isso teria motivado a DC a reiniciar seu Universo na época. Quando a DC anunciou recentemente que faria o chamado Rebirth, eu pensei que eles finalmente iriam assumir seus Multiversos de maneira séria. Mas pelo que já li a respeito não tem sido o caso.




Roy Thomas,  um dos Gigantes da Era de Bronze dos Quadrinhos (1970 - 1985), com passagens tanto na Marvel como na DC era um dos que eram contra o Reboot feito em Crise Nas Infinitas Terras. É possível checar esta sua oposição nos memorandos que eles escreveu endereçados à Marv Wolfman e Dick Giordano, também presentes nos Extras da Edição Definitiva da Panini. Roy admite sua oposição e, por saber que não seria atendido, simplesmente escreveu diversos memorandos pedindo que Marv não fizesse isso ou aquilo na tentativa de preservar o máximo possível da cronologia DC. Acho Crise nas Infinitas Terras uma Saga um pouco confusa, mas longe de mim diminuir sua importância dentro da 9ª Arte, ou mesmo sua influência no que aconteceu depois. Só acho que a solução emprega para sanear a complicada cronologia da DC poderia ter sido outra. E nesse caso concordo com Roy Thomas. Deveríamos ter separado os Universos definitivamente, mantendo um fronteira intransponível entre eles (ou pelo menos muito difícil de ser transposta), preservando assim personagens e enredos do passado. Esta seria uma solução que teria colocado fronteiras e saneado a cronologia da mesma forma.



É isso aí amigos... E você? O que pensa acerca da existência de múltiplos universos? Na vida real ou na ficção? Um grande abraço à todos!!

sábado, 2 de março de 2019

Crise Nas Infinitas Terras - Remodelando Universos - Parte I


Quando criança o Editor da DC Marv Wolffman ficava fantasiando uma história que pudesse incluir o máximo de heróis e vilões possível. Nela, existia um super vilão a quem Marv deu o nome de O Bibliotecário. Um ser que vivia em um satélite invisível coletando informações a respeito de nosso universo para usar quando e contra quem ele bem entendesse. Embora Marv tivesse crescido, ele jamais abandonou esse sonho. Em 1982, o já adulto Marv tornara-se roteirista e editor da DC, e ao se deparar com uma carta de um leitor sobre uma determinada incoerência na infindável e complexa cronologia DC (que na época possuía 50 anos de história), ele simplesmente travou, ou seja, não sabia a resposta. E isso passou a incomoda-lo muito. Durante uma viagem de trem  à uma Convenção de Quadrinhos ao lado de dois amigos, o também editor Len Wein e o desenhista Joe Staton, Marv explicou sua angústia... Nascia ali o embrião do que viria a ser CRISE NAS INFINITAS TERRAS, a super saga que redefiniu o Universo DC de Abril à Dezembro de 1985 no EUA. Mas por que tudo se tornara tão complexo para a DC a ponto de ser necessário um remodelamento colossal como foi CRISE NAS INFINITAS TERRAS? A resposta para isso está no passado distante.

Showcase #123 - Outubro de 1956 - Pistas de Múltiplos Universos

Como parte da iniciativa de resgatar os super heróis para uma nova Era, a DC procurava em 1956 repaginar diversos heróis dos anos 40 para que fossem atualizados para uma nova e ávida geração de adolescente e jovens do pós-guerra que vivia sob os auspícios de avanços científicos incríveis. Assim, Julius Schwartz (editor da DC na época) decidiu trazer de volta heróis que embora compartilhassem o mesmo nome de suas contrapartes dos anos 40, eram na verdade outras pessoas. Na história publicada em Showcase Nº 123 de outubro de 1956 o cientista forense Barry Allen estava lendo uma história em quadrinhos com um herói cujo poder era a super velocidade, o velocista Flash (Jay Garrick). Ao deixar o gibi sobre a mesa, Barry volta aos seus afazeres em seu laboratório e é atingido por um raio que destrói a estante com produtos químicos ao seu lado. Barry é banhado por uma mistura química eletrificada e então desenvolve poderes semelhantes àqueles do herói da revista que acabara de ler. Esta pequena passagem na história pode parecer sem importância, no entanto ela abriu um grandioso precedente ao informar aos leitores que os super heróis da Era de Ouro dos Quadrinhos (1938 à 1856) existiam em um universo ficcional.

Flash #123 - 1961 - Setembro de 1961 - A Grande Descoberta de um Multiverso

Mas o grande acontecimento que viria a delinear as próximas décadas dentro da DC e a consolidação de um Multiverso, ocorreu mesmo em Setembro de 1961 nas páginas de Flash Nº 123. Há nesta história uma das mais geniais sacadas dos quadrinhos. Com roteiro de Gardner Fox e participação direta do Editor Julius Schwartz, a história mostra o Flash Barry Allen se exibindo para um grupo de crianças ao vibrar seu corpo em uma determinada velocidade. Ao fazer isso, Barry sintoniza as moléculas de seu corpo com as vibrações de um Universo paralelo ao dele, acessando a cidade de Keystone onde vive o Flash da Era de Ouro Jay Garrick. Muito fantasioso para você? Pois não é, você verá mais abaixo que a Teoria das Cordas (altamente aceita como possível atualmente pela física moderna postula exatamente isso). O fato é que ao encontrar Jay, Barry Allen diz: "Você era famoso em meu mundo como um personagem de ficção em uma revista  chamada Flash Comics! Quando eu era mais jovem, você era meu herói favorito! Um roteirista chamado GARDNER FOX escrevia sobre suas aventuras, que ele dizia surgirem para ele nos sonhos! Isso explica como ele sonhou o FLASH!". Essa história é genial para mim!!

Os Flashes Barry Allen (esquerda) e Jay Garrick (direita)

Você já imaginou a implicação disto? De repente tudo era válido dentro da editora, já que ocorria em universos diferentes. Julius Schwartz e Gardner Fox encontraram uma elegante e científica forma de explicar elementos válidos que se existissem na mesma TERRA seriam irreconciliáveis. Além disso, esta proposta é altamente plausível. Você já não teve um sonho sobre si mesmo vivendo de uma outra forma? Eu por exemplo já tive sonhos nos quais minha vida foi muito diferente. Ao acordar me perguntava intrigado: "Nossa... De onde eu tirei tanta imaginação?". Bem... é possível que isso seja apenas resultado da "feijoada" que comi na noite anterior? Acho que sim. Mas o fato é que esses meus sonhos realmente me intrigam!! E onde a existência de múltiplos Universos levou a DC? Onde foi que as coisas deram errado? A Terra de Barry Allen passou a ser conhecida como Terra 1, enquanto a de Jay Garrick a Terra 2, onde os heróis da década de 40 haviam vivido. Aqui vão alguns problemas que derivaram disso:


O Superman também havia vivido aventuras nos anos 40. Isso implica que na Terra 1 todos deveriam conhecer sua identidade secreta, já que ele era um personagem de gibi publicado na Terra 1. Onde também existia um Superman! Como explicar que a identidade secreta de Jay Garrick era conhecida na Terra 1 e a do Superman não, já que os dois eram personagens de gibis? Outros problemas com o passar das décadas foram: o editor/roteirista "A" poderia criar uma Atlântida que nada tivesse a ver com a Atlântida do Aquaman; personagens passaram a mudar de "Terra" ao bel prazer de roteiristas, passando a fazer parte de aventuras com outros heróis em outras Terras... e por aí vai. Com o passar do tempo nasceu a Terra 3, um local onde  o único herói era Lex Luthor e os demais eram todos super vilões. Já a Terra "S" passou a abrigar os personagens da Editora Fawcet que a DC havia comprado, dentre eles o Capitão Marvel (hoje SHAZAM!) e sua família Marvel. A Terra "S" abrigou os heróis da Editora Quality Comics (também adquirida pela DC), uma Terra onde a 2ª Guerra nunca acabou. Por fim veio a TERRA PRIMORDIAL, ou seja, a Terra onde nós (eu e você) existimos.


Diante do exposto acima, e em função dos roteiristas não estarem muito preocupados que suas histórias apresentassem fatos inconsistentes com outras anteriormente publicadas, tudo foi ficando muito complicado e de difícil entendimento. A solução proposta e apresentada à diretoria de DC por Marv Wolffman e Len Wein em 1982, buscava a unificação de todos os Universos (Terras) em uma só. E para fazer isso seria criada uma grande saga que seria publicada ao longo de 1985, ano do aniversário de 50 anos da DC. Assim, e por causa de tudo isso, nasceu a Saga Crise Nas Infinitas Terras. Mas esta saga era realmente necessária? Ela realmente merece a alcunha que angariou ao longo das últimas décadas, como a mais importante Saga já publicada e parâmetro para diversas outras que vieram depois? Bom amigos... Isso responderei com minha opinião na próxima e última parte desta matéria. Não perca!!

Abcs à todos!

domingo, 27 de janeiro de 2019

Miniatura DC Série Especial Nº 15 - Monstro do Pântano

Miniatura DC Série Especial Nº 15 - Monstro do Pântano

Quando entendi quem e o que era o Monstro do Pântano, minha cabeça explodiu!

Nâo há outra forma de expressar o que aconteceu comigo quando entendi a grandeza e a profundidade deste que é um dos personagens mais interessantes, atual e sintonizado com as demandas de nosso tempo. Criado por Len Wein e Berni Wrightson em 1971, o Monstro do Pântano tinha histórias muito boas voltadas para o mundo do sobrenatural. Com o passar do tempo, no entanto a tendência foi o personagem iniciar uma queda na direção das baixas vendas. Em 1984, Alan Moore assumiu o título e tudo caminhou na direção de transformar o personagem em uma gigantesca força motriz dramática, incrível e profundamente relevante. Falar a respeito do Monstro do Pântano é muito mais que discorrer sobre um personagem ficcional, é trazer à mesa as ideias (das quais compartilho) do Biólogo Naturalista Britânico Rupert Sheldrake, que em seu incrível livro A Presença do Passado, expõe suas teorias a respeito dos Campos Morfogenéticos. Alan Moore busca ali sua inspiração e coloca o Monstro do Pântano no epicentro destas ideias. Vamos hoje conhece-las e entender quem e o que é este que talvez seja Monstro apenas no nome. 

Miniatura DC Série Especial Nº 15 - Monstro do Pântano

A miniatura que representa este gigante das charnecas dentro da Coleção de Miniaturas de Metal da Eaglemoss é talvez uma das mais belas da coleção. Além de suas proporções serem maiores que o das peças da Coleção Regular, sua modelagem, cor e detalhes são impressionantes. A peça traz uma grande variedade de raízes que se espalham pelo corpo, unindo-se em poderosos caules maiores na região dos pés, mimetizando raízes robustas. Além destas raízes pelo corpo, há uma rugosidade ao longo de toda a peça que, associada à cor verde "musgo", produz uma sensação muito próxima de um emaranhado de plantas, musgos, líquens e raízes. É esta sensação que nos faz associar a peça à alguém que encarna a força da flora de nosso mundo. Na região superior das costas é possível identificar pequenas folhas e tubérculos que fazem parte da própria criatura. Estes detalhes também nos permite pensar que este ser talvez seja algo semelhante à simbiose entre o homem e uma planta. Confesso que quando vi esta peça à venda na Eaglemoss Britânica há alguns anos, não resisti e a importei, já que na época não sabia se a coleção iria vir em sua totalidade para o Brasil.

Miniatura DC Série Especial Nº 15 - Monstro do Pântano

O Monstro do Pântano nasceu em 1971 com uma origem que pouco se diferenciava de outras trágicas origens dos monstros da literatura. O casal de Botânicos Alec e Linda Holland pesquisavam uma fórmula "biorestauradora" que poderia potencializar incrivelmente o crescimento e a produção de alimentos no mundo. Um organização criminosa (O Conclave), infelizmente cobiçava a fórmula. Em um ataque ao laboratório secreto dos Hollands (localizado próximo aos Pântanos da Louisiana nos Estados Unidos), o local explode, matando Linda e deixando Alec em chamas que, em desespero, corre para o Pântano e lá se joga. Todos deram Alec como morto, no entanto ao redor de seu corpo embebido pela fórmula biorestauradora, forma-se uma estranha composição que por fim ressurge como um verdadeiro Monstro. A criatura guardava ecos e memórias de quem havia sido Alec Holland, inclusive com o tempo percebe-se como sendo o mesmo Alec, só que agora vivendo em uma nova realidade monstruosa. A primeira série de histórias do personagem, tendo Len Wein à frente, dava conta da vingança de Holland junto ao Conclave e seu encontro com pessoas e forças sobrenaturais que queriam captura-lo e estuda-lo. Nesta fase destaca-se aquele que viria a ser um dos seus mais perigosos inimigos, o feiticeiro Anton Arcane.

Miniatura DC Série Especial Nº 15 - Monstro do Pântano

Em 1984 era mais ou menos assim que a mitologia do personagem se encontrava. Até que o jovem Alan Moore assumiu o título. Mas do que se trata a Teoria dos Campos Morfognéticos de Ruppert Sheldrake? Segundo Sheldrake a totalidade das experiências aprendidas pelas espécies não apenas passam a fazer parte de seu patrimônio genético, tais experiências se estruturariam também em campos ao redor de nós (seja ao redor da vida vegetal ou animal), constituindo um cinturão pulsante de experiências, lembranças e sensações. Algo muito parecido com o "Mundo das Ideias" de Platão. Memórias, assim como características físicas herdadas de nossos antepassados, também poderiam ser passadas de geração em geração. Conceito aliás, muito usado hoje dentro das terapias de "Constelação Familiar". A ideia da existência deste campo permitiu a Moore que inserisse o Monstro do Pântano como aquele que encarna a coletividade da FLORA ou VERDE do Planeta Terra. Ele nada mais é do que a encarnação viva da consciência verde de nosso Planeta. A tradição literária tende a chamar seres assim de "Elementais", ou seja, um ser que encarna um dos elementos primordiais da vida, nesse caso a flora planetária.

Miniatura DC Série Especial Nº 15 - Monstro do Pântano

As primeiras histórias com Alan Moore à frente do Monstro do Pântano em 1984, ganharam prêmios prestigiosos na Indústria dos Quadrinhos, e narravam a descoberta pelo Monstro do Pântano de que na verdade ele não era Alec Holland. Que na verdade ele possuía apenas ecos das memórias do corpo que lhe serviu inicialmente como constituinte. Que na verdade ele era um Avatar da FLORA de nosso Planeta. Nas primeiras histórias acompanhamos o luto vivido pelo personagem ao perceber que o que ele chamava de humanidade dentro de si era apenas um eco, um resquício. As histórias de Moore vão então num crescendo, levando o personagem a descobrir todas as suas potencialidades, como por exemplo a capacidade de viajar dentro do Campo Morfogenético do Verde. Um local que ele podia acessar, por exemplo, usando qualquer vida vegetal que estivesse próxima. Assim, quando dentro do Campo Morfogenético, é como se ele pudesse estar em todo Planeta ao mesmo tempo, compartilhando da consciência coletiva de todos os vegetais existentes em nossa biosfera.

Miniatura DC Série Especial Nº 15 - Monstro do Pântano

Imagine, portanto um ser capaz de expandir sua consciência neste nível, capaz de perceber as nuances do coletivo verde planetário, e capaz de controla-lo. Nas histórias que se seguiram, o personagem fez uso algumas vezes de seu poder sobre o verde para conter ameaças, como por exemplo do Homem Florônico. Um ser que conseguiu atingir um certo nível de acesso ao mesmo campo ao qual o Monstro tem seus poderes ligados. As ocasiões em que o VERDE foi acessado pudemos ver o poder coletivo da flora de nosso mundo. Por vezes, aliás torcemos até para que este verde ensine ao homem algumas lições sobre o câncer da ganância, da falta de respeito pelo meio ambiente, da falta de senso coletivo ao se achar a espécie alfa em nosso planeta. Em tempos de desrespeito ambiental, de desrespeito à vida humana e aos ecossistemas, o Monstro do Pântano é mais do que relevante, é imprescindível enquanto metáfora para nosso aprendizado.

Miniatura DC Série Especial Nº 15 - Monstro do Pântano

Para o leitora da DC, é comum perceber nas histórias do Monstro do Pântano personagens místicos que foram ganhando expressão e hoje são tão incríveis quanto ele, por exemplo, John Constantine, Desafiador, Etrigan, Vingador, Espectro... Com o passar do tempo, outros conceitos foram expandidos a partir das ideias iniciais de Alan Moore, como por exemplo a existência do Parlamento das Árvores. Um local escondido dentro da Selva Amazônica Brasileira no qual estão enraizados Monstros do Pântano de outras Eras da Terra. Elementais do verde que já existiram e que, após seus anos de serviço, se dirigiram até esta região brasileira remota para se enraizar. O conjunto destes seres, e as decisões ali tomadas dirigem as ações do Elemental atual. O Parlamento das Árvores seria algo como o coração da flora de nosso planeta.

Miniatura DC Série Especial Nº 15 - Monstro do Pântano

Não posso deixar de expressar minha admiração pelo desenvolvimento dramático e ficcional que Alan Moore alcançou com o Monstro do Pântano. Mais... Não posso deixar de expressar a sensação que me acompanha desde criança quando morava em fazenda e escutava o coração da mata pulsar como se estivesse viva ao meu redor. Uma entidade viva com a qual o ser humano perdeu um contato mais íntimo (em função de algum erro que cometemos como espécie no passado quem sabe). Cresci imaginando se não haveria um jeito de nos reconectarmos com este campo que a tudo permeia durante nossa vida (tal qual vimos acontecer no filme AVATAR de James Cameron). Quando conheci o Monstro do Pântano de Alan Moore e as ideias de Ruppert Sheldrake, percebi então que talvez (quem sabe um dia) consigamos este acesso novamente!!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Supremo - A Era de Bronze


Do que são feitos os quadrinhos de Super-heróis? Em minha opinião de ideias e de ideais. No entanto, com o passar do tempo, das décadas, das inúmeras abordagens, das inúmeras influências externas, observou-se padrões diferentes na narrativa envolvendo os Super-heróis. Com isso buscou-se dividir essas diferenças em Eras, ou seja, em períodos de tempo que apresentaram diferenças nas abordagens, caracterizações e motivações destes gigantes ficcionais. São poucos os autores que conseguiram traduzir de forma precisa para o público em geral os elementos de cada uma destas Eras, convencionalmente chamadas de Eras de Ouro, Prata, Bronze e Moderna. Alan Moore foi um destes autores. Supremo foi um personagem genérico criado por Rob Liefeld e Brian Murray em 1992 dentro da avalanche de personagens que nasceram dentro do ambiente mercantilista que marcou os anos 90 dentro da indústria dos quadrinhos, sobretudo a indústria de Super-heróis. A Revista Supreme teve 56 edições e Alan Moore assumiu no Nº 41, provando que não existem personagens ruins, mas sim escritores ruins. No tempo em que Moore passou escrevendo Supremo, ele simplesmente dividiu sua passagem em segmentos que puderam ser agrupados de maneira a representar cada Era dos Quadrinhos, nascendo assim as publicações Supremo a Era de Ouro, Prata, Bronze e Moderna (as duas primeiras alvos de matérias aqui no Blog), que aqui no Brasil foram publicadas pela Editora Devir.


O que me surpreendeu nas duas primeiras abordagens (Era de Ouro e Era de Prata) de Alan Moore foi sua capacidade de destilar a essência destas duas Era usando como epicentro a figura do Supremo. No caso da Era de Ouro a simplicidade das histórias são travestidas de objetivos secundários profundos, expostos por uma trama cheia de reviravoltas. No caso da Era de Prata, Moore traduz todo o Non-sense característico desta Era (fruto direto das restrições criativas impostas pelo Código de Ética dos Quadrinhos do governo americano) em aventuras profundas e originais entremeadas de recordações. Mas e a Era de Bronze? Recentemente concluí a leitura do 3º volume desta série abordando agora a Era de Bronze que teve seu início em 1973 (controvérsias à parte) com a história "A Noite em que Gwen Stacy Morreu" escrita por Gerry Conway e ilustrada por Gil Kane e John Romita. Embora a introdução de conteúdo mais profundo e atual já estivesse sendo introduzido nas HQs desde 1970, como por exemplo o arco de histórias produzidas por Denny O´Neil (roteiro) e Neil Adams (arte) envolvendo o Arqueiro Verde e o Lanterna Verde e a história de Stan Lee e Gil Kane de 1971 em que o Homem-Aranha precisa lidar com um amigo envolvido com o vício em drogas, foi mesmo com a morte de Gwen Stacy que a maturidade chegava aos quadrinhos de Super-heróis.


Em Supremo - A Era de Bronze, Moore faz a passagem da Era de maior inocência para uma Era em que os atos dos Super-heróis possuem consequências. O encadernado compila as edições de Supreme 53 à 56 e Supreme - The Return 1 de setembro de 1997 à maio de 1999. No volume encontramos histórias envolvendo dimensões paralelas, viagem no tempo, uma aventura em 3 partes envolvendo a amada de Supremo, Juddy Jordan (nossa Lois Lane) e sua morte, e uma sequencia eletrizante de uma batalha entre o Supremo e seus inimigos que fugiram da sua prisão permanente no Inferno de Espelhos (algo como a Dimensão Fantasma do Superman). O interessante é notar as profundas e filosóficas questões que Alan Moore coloca atrás do texto, ou seja, um subtexto em que temas como o sentido da vida, dimensões paralelas, amor, crítica social entre outros são inseridos. A sequencia aliás em que o Presidente Americano à época, Bill Clinton, participa da história, ao lado de sua esposa Hilary Clinton, é absolutamente genial. Moore expõe sua crítica sem deixar espaço para qualquer retaliação.


Obviamente o leitor de Supremo perceberá que no fundo ele é o nosso Superman, porém com a liberdade de participar de aventuras que a DC dificilmente deixaria. Por isso o fã deve entender que o personagem é uma grande homenagem ao Superman e à toda mitologia de quadrinhos de Super-heróis. Um outro ponto extremamente interessante, e que gostaria de ressaltar, é a existência de "ganchos" ao longo de toda história. Moore constrói uma colcha de retalhos que, tal qual um quebra-cabeças, as peças vão se encaixando. Sinais muito discretos acerca de determinados aspectos da histórias vão sendo espalhados e, mesmo o leitor mais experiente, se surpreende que determinado acontecimento esteja ligado ao que ele leu há várias edições atrás. Genial! Vi Alan Moore usar de expediente semelhante em outra série dele, Distrito Top 10, outra obra que você precisa conhecer e que foi lançada aqui no Brasil já há algum tempo pela Editora Devir.


Quando li os volume anteriores (Supremo - A Era de Ouro e Supremo - A Era de Prata) foi interessante notar as coisas nas quais Alan Moore acredita. Sim... para o leitor atento é possível depreender as crenças do escritor a partir do enredo. Vida após a morte, concepções acerca da humanidade, sentido da vida... Tudo isso está implícito nas aventuras do Supremo e é tudo muito profundo. Caso você leia de forma desatenta tudo passará a funcionar apenas como uma interessante aventura qualquer. Nada muito diferente do que já foi feito, mas no substrato das falas e roteiro há muitas mensagens que eu, particularmente, compartilho. A despeito de todo misticismo envolvendo Alan Moore, eu vejo a vida, o tempo, a mortalidade e a eternidade de uma forma bem parecida como a que ele vê. Por isso, minha sugestão é que caso você queira conhecer este material, é importante que você o leia a partir de Supremo - A Era de Ouro (1º volume), pois há questões neste 1º volume que se estendem ao longo dos demais como ondas em um lago após uma pedra ser ali atirada.


E antes que você pergunte se a arte interna é do Alex Ross eu já que respondo que não. Alex Ross fez diversas artes conceituais do personagem Supremo, como a que abre esta matéria e os esboços logo abaixo. No entanto, a arte interna é de diversos desenhistas (muito bons aliás) tais como, Chris Sprouse, J. Morrigan, Rick Veitch e Gil Kane. Para encerrar deixo abaixo uma arte representando A CIDADELA, a cidade voadora e morada do Supremo. Um local semelhante à Fortaleza da Solidão do Superman, porém que permanece suspensa nos céus. Ao longo de toda a participação de Moore junto ao personagem, A CIDADELA será muito importante e tão, ou mais, fascinante que a Fortaleza da Solidão do Homem de Aço da DC.


Bem amigos, espero que conheçam O SUPREMO de Alan Moore e percebam a grande homenagem ali presente aos Quadrinhos de Super-heróis. Grande abraço!

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Cinco Vermelhos - Tragédia, Poesia e Uma Aula de Arte


É possível que nos envolvamos em um jornada e acabemos por ser tragados pelo horizonte de eventos de nossa obsessão à ponto de atingirmos um ponto de "não retorno"? Sim... É possível. Para o bem ou para o mal temos uma capacidade de nos entregarmos apaixonadamente a determinado assunto, pessoa ou problema à ponto de sermos tragados por ele. Se o problema em questão envolver raiva e vingança é possível que nos transformemos até naquilo contra o qual lutamos. Esta aliás era a grande preocupação de Martin Luher King, ou seja, não se transformar em seu próprio algoz no processo de combatê-lo. Cinco Vermelhos é uma HQ autoral da artista brasileira Talessa Kuguimiya. Dona de um talento raro para converter desenhos em sentimentos profundos, Talessa nos entrega uma obra de violência, obsessão, perda, dor e acima de tudo busca de significados. Cinco Vermelhos esteve na plataforma de financiamento coletivo em 2018 e foi lançada recentemente.


À semelhança de outras obras da autora, Cinco Vermelhos transcende a barreira impressa e se complementa no meio digital. Ao longo da obra o leitor encontra QRs Codes (códigos de barras bidimensionais por meio dos quais pode-se acessar conteúdos extras complementares à obra). Para isso basta ter no celular um aplicativo leitor de QRs Codes que você será direcionado aos vídeos complementares. A HQ pode ser lida sem a necessidade de se visitar os vídeos, mas caso o leitor opte por isso, estará perdendo um conteúdo profundo em música e imagem. Talessa é formada em Animação 2D e 3D e aplica nos vídeos animados toda a poesia que transborda das páginas impressas. Uma das grandes "cerejas do bolo" são as músicas que acompanham os vídeos. Compostas pela violonista e compositora Karla Dallmann as faixas traduzem em sons todo lirismo da obra, criando momentos perenes e eternos em forma de pequenos curtas animados.


A parceria entre Talessa e Karla já vem de outras obras, por exemplo Minski, uma pequena menina criada acidentalmente por uma bruxa da floresta. Os títulos da Minski (2 até o momento) valem, aliás uma matéria exclusiva. Para 2019 teremos a parceria se repetindo na próxima HQ de Talessa, Sobre Trilhos. Mas e Cinco Vermelhos? Do que se trata? Para elaboração da obra a autora mergulhou fundo em suas origens, indo buscar na figura histórica do Samurai inspiração. A história se passa dentro da Era do Xogunato, sistema de governo predominante no Japão de 1192 a 1867 que se baseava na autoridade de um líder militar (Xógum). Muitos Samurais não aceitaram se submeter à liderança destes líderes, tornando-se proscritos e caçados. Este é o pano de fundo para a história da pequena Haya.


Vítima em sua infância de um ato extremo de violência ela trilhará uma jornada de obsessão em meio ao Japão dominado pelo Xogunato. Para mim, mais importante que o fim da jornada de Haya, foi o caminho que ela trilhou. Um caminho que nos faz pensar nas coisas com as quais nos deparamos e que, cegos pelas nossas próprias incoerências, acabamos por não perceber. Talessa também buscou inspiração no teatro Kabuki japonês. Como explicado nos próprios extras da obra, o Kabuki possui alguns temas recorrentes como formas de expressão, a saber: os temas históricos, cotidianos e sobrenaturais. Cinco Vermelhos se estrutura dentro destes 3 eixos narrativos, e Haya entrará em contato com estas 3 faces do maravilhoso Japão. Há uma aura mágica que transborda da história e, se soubessémos vibrar internamente na mesma frequência da obra poderíamos até tocar esta outra realidade.


Assim como nas peças Kabuki, que se estruturam em Cinco Atos (1º - Introdução dos Personagens e Trama; 2º, 3º e 4º - desenvolvimento; e 5º ou Ato Final - Conclusão) assim também ocorre com Cinco Vermelhos. Meu conhecimento acerca da narrativa gráfica japonesa (os Mangás) é mínima. Influenciado talvez pela invasão de animações japonesas nos anos 90, nunca tive muita vontade de conhecer esta expressão de arte. Espero agora reparar este erro a partir daqui com esta ótima introdução ao gênero.


Bem amigos, aqui vai outra obra que seguramente será um dos meus destaques para 2019. Um grande abraço à todos!


- Cinco Vermelhos -
Making of

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