Translate

domingo, 25 de outubro de 2020

O Homem Que Ri de Victor Hugo


Embora criticada (justamente ou injustamente não sei ao certo dizer) por algumas traduções, a Editora Martin Claret trouxe já há algum tempo ao Brasil uma nova edição do livro "O Homem Que Ri" de Victor Hugo (Os Miseráveis, O Corcunda de Notre Dame). Lançado em 1869, o livro foi adaptado para o cinema em 1928 no filme homônimo "O Homem Que Ri". No filme, tal como no livro, vemos o drama de um homem (Lorde Gwynplaine) que, por ordem do Rei, passa a ostentar a estranha deformidade de um imutável sorriso. O papel de Gwynplaine no filme de 1928 ficou eternizado pela atuação do ator alemão Conrad Veidt (Hans Walter Konrad Veidt). A atuação de Veidt é tão assustadoramente perfeita que inspirou Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson em 1940 a criarem outro personagem que se manteve relevante até hoje por representar o caos, a anarquia e a distopia: O Coringa (The Joker) da editora DC. As semelhanças físicas entre Veidt e os conceitos originais do Coringa são incríveis. Mas para além das curiosidades, "O Homem Que Ri" faz jus ao legado de Victor Hugo como escritor universal que sempre conseguiu expor as hipocrisias, contradições e potencial de redenção do ser humano. Parabéns à ediotra Martin Claret!!








domingo, 4 de outubro de 2020

Pílula Fílmica #11: Assalto ao 13º DP (1976)


A indústria do cinema sempre teve, assim como qualquer outro tipo de indústria, o chamado segmento "B". O mais interessante desse segmento é a liberdade que diretores e roteiristas desfrutam ao estarem parcialmente descolados do circuito comercial e livres das demandas de burocratas que estão mais interessados nas bilheterias milionárias do que nas questões subjacentes à obra. John Carpenter é um cineasta incrível por sua obra marginal e de resistência. Filmando com boas ideias na cabeça e um orçamento ínfimo, Carpenter mostrou várias vezes seu brilhantismo em filmes que, apesar de despretensiosos, são verdadeiros espelhos de seu tempo. Assim é com Assalto ao 13º DP. Um filme que narra (quase que em tempo real) o ataque de uma gangue à uma delegacia praticamente desativada. Carpenter expande sua visão ao demonstrar não ter nenhum pudor de ser reconhecido como diretor de filmes de baixo orçamento. E essa honestidade faz de suas obras uma experiência autêntica para o expectador. O filme possui uma refilmagem de 2005, porém é a versão original de 1976 que consegue representar de forma muito autêntica o violento ambiente que algumas cidades experimentaram no final dos anos 70 em função do fenômeno das gangues. As gangues eram verdadeiras estruturas de poder que arrebanhavam jovens sem horizonte social e econômico, e que se viam compelidos a agredir o status quo. Carpenter não tenta (e também não quer) criar nenhum diálogo ou julgamento moral/social subjacente ao filme. Apenas quer mostrar um acontecimento que poderia ter passado despercebido na periferia de uma cidade, mas que pelo seu caráter violento ganha proporções enormes dentro do microcosmo dos personagens. Assalto ao 13º DP é John Carpenter em sua mais perfeita expressão. Não pude deixar de lembrar de Warriors - Os Selvagens da Noite. Outro filme que desnuda a violência das ruas e que dialoga muito bem com Assalto ao 13º DP. Filmes assim passam para o panteão dos cults por destilarem perfeitamente o espírito de uma época.



domingo, 20 de setembro de 2020

Astro City - Vol. 04 - O Anjo Maculado


A estética "Noir" nasceu para designar um subgênero de filme policial que buscava narrar a decadência humana em um cenário urbano de desesperança. Mas evoluiu e se expandiu para diversas expressões artísticas. Buscando o contraponto entre luz e sombra, a visão Noir buscava discutir o espírito humano quebrado e sem esperança. Daí os personagens que sempre orbitaram o gênero: prostitutas, policiais corruptos, falsários, jogadores, golpistas e os mais variados tipos de facínoras. Mas justamente ao apresentar este mundo da sarjeta e sem esperança, muitas dessas obras ofereciam redenção a partir da honestidade que os personagens passavam a ter consigo mesmos. Ao admitirem a própria culpa e caráter, tais anti-heróis ou, anti-heroínas, passavam a flertar ou sonhar com a redentora simplicidade da vida comum. Muitas vezes a nódoa do passado não deixava esses homens e mulheres se libertarem de suas vidas de crime ou de suas tristes existências. Esta nódoa continuava perseguindo-os e puxando-os para baixo. Pois bem... É dentro deste mundo alquebrado, sujo e sem esperança que se constrói a vida da Carl Donewicz. Um super-vilão que experimentou no passado longínquo uma certa respeitabilidade no mundo do crime, mas que amargou 20 anos em uma prisão. Estamos falando do Homem Blindado de Aço, ou simplesmente Blindado, o personagem central do 4º encadernado de Astro City no Brasil.

Astro City Vol. 1 - #14
Astro City Vol. 1 - #14

Lançado em um único encadernado aqui no Brasil pela Editora Panini (Astro City Vol. 04), a epopeia de Blindado saiu lá fora em 1998 do número 14 ao 20 da revista Kurt Busiek´s Astro City, continuando a bem sucedida saga da cidade Astro City. Um universo criado e desenvolvido por Kurt Busiek e vencedor de diversos prêmios. A história de Carl Donewicz ou simplesmente Blindado se inicia quando sua sentença de 20 anos de prisão finalmente chega ao fim. Mas o homem que emerge da prisão retorna para a sociedade não em busca de vingança, mas sim de paz apenas. Não há raiva dentro de Carl, talvez apenas uma profunda fatiga emocional e uma grande vontade de ficar só consigo mesmo e com suas recordações. Não é à toa que o desenhista oficial da série, Brent Anderson, buscou retratar Blindado com as feições do ator americano Robert Mitchum, com seus "olhos inchados e sua atitude de cansado da vida", conforme as próprias palavras de Kurt Busiek nos extras do encadernado. Astro City é uma obra-prima em vários sentidos, e já comentei isso em outras matérias aqui no Blog sobre os volumes 01, 02 e 03 lançados pela Editora Panini no Brasil. O Anjo Maculado mantém a mesma premissa dos volumes anteriores, ou seja, de se escrever sobre super-heróis e super vilões como se realmente existissem em nosso mundo. 

Astro City Vol. 1 - #15

Minha expectativa em relação à Astro City sempre foi alta. Mas quando vi a temática desta série do Blindado, fui logo fisgado. Acredito muito que o que importa na vida são as coisas que a maioria de nós acaba não dando muita atenção. Sobretudo nos dias atuais de "culto à imagem e à forma". É por isso que a temática central da estética "Noir" sempre me fascinou, ou seja, o ser humano que descobre sua fragilidade, vícios, virtudes e começa o longo caminho da aceitação pessoal e redenção. É dentro desta perspectiva que Busiek desenvolve a história de Carl Donewicz, que logo percebe a impossibilidade de se reintegrar à sociedade dado seu histórico. Assim, ele começa a se ver impotente diante do assedio daqueles que continuam acreditando na vida de crimes. A única ocupação que lhe resta é então aceitar um trabalho como investigador das mortes de diversos vilões que já estavam aposentados.

Astro City Vol. 1 - #16

Por conta desta investigação vemos desfilar ao longo das páginas uma galeria de vilões que, tal como Carl, viram a vida escorrer por seus dedos. Sonhos que não se realizaram, golpes e roubos sempre fadados ao fracasso pela intervenção dos super-heróis. Esta perspectiva do vilão é de certa forma muito inovadora. Kurt Busiek tenta dissecar as motivações de tantos vilões que, mais do que uma vilania inata, eram motivados (talvez) por um desajuste junto ao status quo vigente. Uma dificuldade de se enquadrar no formato social aceito. Obviamente que há os vilões que possuem uma motivação essencialmente maligna, mas há aqueles que sonharam alto fora dos caminhos socialmente aceitos.

Astro City Vol. 1 - #17

A ambientação da história é muito concreta. Por alguma razão, todos párias e supervilões aposentados e em fim de carreira acabaram se concentrando no lugar que, historicamente, sempre fora o mais barra pesada de Astro City, o Bairro onde fica a Praça Kiefer. Um local que até já viveu seus dias de glória de banditismo, mas hoje é apenas um bairro onde muitos antigos vilões tentam afogar as mágoas e ainda manterem suas famílias. É para este lugar que Blindado retorna, já que foi ali que cresceu e ali que virou quem é. O Bairro orbita a praça, e a praça abriga um cemitério, lugar onde a maioria de amigos e parentes estão enterrados, inclusive a mãe de Blindado. É esta concretude na ambientação que ajuda o leitor a se identificar mais ainda com o drama de Blindado e de seus "amigos".

Astro City Vol. 1 - #18

Outro ponto que não posso deixar de comentar é a visão que Blindado tem dos super-heróis, principalmente do principal grupo de super-heróis de Astro City, a Guarda de Honra (uma espécie de Liga da Justiça do universo do universo ficcional de Astro City). Diferentemente do que se poderia esperar, a visão de Blindado acerca do super-heróis não é de rancor. Fica claro que ele já passou dessa fase há muito tempo. É uma visão que chega a ser de admiração por terem escolhido o caminho que talvez fosse o mais difícil, o de construir algo lentamente em benefício do próximo, e não optarem pelo ganho fácil em benefício próprio. Isso pode soar "piegas", mas a forma que Busiek construiu Blindado nos faz crer realmente na sua sinceridade em relação a esta visão.

Astro City Vol. 1 - #19

Nesta perspectiva de certa admiração de Blindado pelos super-heróis, o leitor chega a se ressentir pelo fato dos heróis continuarem enxergando Blindado como alguém incorrigível e sem possibilidade de redenção. A maioria deles está sempre com "os dois pés atrás" em relação a reabilitação do ex- presidiário. Isso mostra o quanto uma visão maniqueísta de mundo pode atrapalhar a aproximação de pessoas. Mas não espere um desfecho cheio de glória e reconhecimento pelos sacrifícios de Blindado, e aqui está novamente um acerto de Busiek, ou seja, no mundo real dificilmente você consegue apagar o passado. O que conseguimos apenas é seguir em frente. Ao optar pela visão mais realista, Busiek trás densidade para a história.

Astro City Vol. 1 - #20

O encadernado da Panini vem com interessantes extras nos quais Kurt Busiek comenta um pouco os personagens. São comentários muito interessantes. E para quem não sabe, Busiek enfrentou muitos problemas de saúde ao longo de toda a saga de Astro City. Sua insistência e perseverança para manutenção da história tem sido um grande exemplo. E não esqueçamos que ele está por trás de uma outra HQ imortalizada na 9ª arte, MARVELS. Espero que a Panini continue a publicação de Astro City. Os quadrinhos precisam de histórias como essa para nos lembrar porque gostamos tanto de HQs.

Robert Mitchum

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Vida fora da Terra


Hoje tive a oportunidade de ter uma rápida, mas excelente conversa com um amigo acerca do livro do físico Don Lincoln (FarmiLab - EUA) intitulado Universo Alien. No capítulo 6 do livro Don traz uma ótima explanação acerca dos elementos químicos básicos para surgimento de vida inteligente e porque, depois do carbono, o silício seria o elemento químico mais promissor como base para a vida (algo usado inclusive em um episódio da Série Star Trek versão clássica). Mas o mais interessante é quando é citado no capítulo 7 a antiga equação do radioastrônomo Frank Drake do Observatório Nacional de Radioastronomia de Green Bank Virgínia - EUA. Na equação de Drake são considerados (com seus respectivos pesos) os elementos necessários para surgimento da vida (taxa média de formação de estrelas (R), fração dessas estrelas que possuem planetas (fp), número médio de planetas que poderiam sustentar vida (ne), fração desses planetas habitáveis para desenvolvimento da vida (fl) entre outras variáveis dependentes). O fato é que a equação de Drake de 1960 mostra uma possibilidade ínfima de existência de vida fora da Terra. A conclusão que chegamos, no final das contas, é que Isaac Asimov é que fez a aposta mais certa em sua Saga da Fundação (publicada entre 1952 à 1986). A vida fora da Terra seria mesmo resultado da expansão da humanidade pelo Cosmos. Isso, claro, se conseguirmos suplantar a adolescência da espécie na qual nos encontramos.

Figura 6.12 do Livro Universo Alien de Don Lincoln.


sábado, 29 de agosto de 2020

Pílula Gráfica #1: Batman - Amaldiçoado (2019)


Em substituição ao inesquecível (mas também desgastado) selo Vertigo, a DC Comics inaugurou a linha Black Label. Os primeiros lançamentos, possivelmente para impulsionar a iniciativa, envolvem personagens clássicos da editora, como é o caso de Batman - Amaldiçoado. Com roteiro de Brian Azzarello (Coringa, O Cavaleiro das Trevas III - este último ao lado da lenda Frank Miller) e do incrível artista Lee Bermejo (Batman - Noel), a qualidade gráfica é indiscutível. Mas meu ponto aqui hoje é o interessante e obscuro roteiro de Azzarello. Fica claro para mim que há uma clara referência e ligação com a emblemática e seminal HQ A Piada Mortal de Alan Moore. A história envolve claramente o universo místico da DC, e é um verdadeiro prazer se deparar com clássicos personagens mágicos da editora em versões muito interessantes e alternativas. É o caso do Desafiador, apresentado com o corpo com todos os músculos à mostra. Nunca tinha pensado nisso, mas a roupa original vermelha do personagem é exatamente da cor do tecido muscular após dissecação. Uma incrível sacada de Azzarello/Bermejo. Outro personagem repaginado é o demônio Etrigan que, como rimador, tem tudo a ver com um "rapper". Constantine, Zatanna e o Monstro do Pântano também aparecem, porém em versões mais próximas de suas versões do universo tradicional. Considerando o público a que o selo Black Label se dirige, o Batman apresentado mostra não apenas um violência desmedida, mas também uma outra característica que chega a incomodar o leitor e fã mais antigo do Morcego, ou seja, uma descrença e quase total frustração com sua própria cruzada pessoal contra o crime, o que foi doloroso para mim como fã antigo. Mas uma última e mais importante questão que gostaria de refletir aqui é em relação ao desfecho da obra. Embora eu não vá dar spoiler, a questão final fica em aberto para o leitor. O desfecho, embora diferente, emula em certa medida o final de A Piada Mortal de Moore e, ao fazê-lo, abre questões que gostaria muito de debater com alguém que leu a HQ, são elas: 1) Há um ciclo ou vínculo, quase místico, envolvendo esses dois personagens (Batman e Coringa)?; 2) Acabamos por ficar presos pela eternidade às nossas obsessões? Somos definidos por estas obsessões?; O ódio cultivado dentro de nós poderia nos envenenar e nos tornar agressores?... Há várias outras questões subjacentes no texto de Azzarello que gostaria de refletir sobre elas com alguém. Acredito que o final ficará em aberto para sempre, assim como ficou o da HQ de Alan Moore, e é justamente a ambiguidade deste desfecho que nos desconcerta.









domingo, 16 de agosto de 2020

Pílula Fílmica #10: Dois Papas (2019)


Dois Papas (Dir. Fernando Meireles - 2019) é uma obra com muitas camadas. Há a camada política, ao apresentar a grande intersecção da Santa Sé com aspectos políticos internos (em sua relação com a cúria romana) e externos com outros países. As demandas sociais são claramente escancaradas a partir do sútil retrato da desigualdade mundial. A camada econômica permeia muito as cenas, ao apresentar a perspectiva dos rumos do dinheiro no mundo através dos trechos dos discursos do jovem e velho Bergoglio. Há, no entanto duas outras camadas que são as que tornaram o filme muito relevante para mim. Uma delas é a humana, que nos deixa claro que, se formos sinceros e humildes o suficiente para percebermos nossos erros, a redenção passa a nos acenar. Agora, a última e extremamente interessante camada, é a espiritual. Dentro desta perspectiva há duas cenas que para mim são as centrais na obra. A primeira delas é a cena em que a fumaça da vela apagada por Bento XVI desce, ao invés de subir, em uma referência clara ao conceito espiritual que nossas orações e ações podem subir e serem recebidas (ou não) como um "cheiro" suave por Deus. E a segunda cena é aquela em que a fumaça da vela (ao final do filme) sobe, e não mais desce, em outra clara referência espiritual de que nossos atos internos e externos tem o poder de serem recebidos por um ser Ser Supremo à semelhança dos antigos sacrifícios do Velho Testamento. A sutileza e poder destas duas cenas emolduram a ideia da convivência pessoal genuína com Deus e afasta o filme das intermináveis discussões teológicas e denominacionais que, no fundo, não levaram e não levarão a lugar algum. Não posso deixar de citar a agradável atmosfera dramática criada a partir de um inteligente humor na medida certa, que captura o espectador fazendo-o submergir nos personagens e se identificar com eles. Em tempos em que as "pontes" sociais, econômicas e humanas estão ameaçadas, vejo o filme como uma obra que nos lembra a importância de preservar as pontes existentes, e nos chama à construção de novas.

domingo, 2 de agosto de 2020

Das Estrelas ao Oceano


A editora Martin Claret é a casa de grandes livros já há muito tempo. Sua proposta de lançar clássicos literários em formato de bolso, em capa cartonada, de baixo custo e em pontos de grande circulação é louvável e necessária em tempos de tão baixo índice per capita de leitura. Mais recentemente, no entanto, a editora vem também investindo em um acabamento gráfico mais requintado, sem abrir mão de sua consagrada curadoria. Alguns exemplos desta nova proposta são O Homem Que Ri de Victor Hugo e Grande Contos de H.P. Lovecraft. Desta safra também faz parte Das Estrelas ao Oceano, uma coletânea de 5 incríveis contos de ficção científica de 4 grandes mestres: H.G. Wells, Júlio Verne, H.P. Lovecraft e J.H. Rosny Aîné. Para além do seu conteúdo obviamente de qualidade, o livro é um primor por outras razões, a começar pelo projeto gráfico de um estúdio chamado Manga Mecânica Studios. A linda capa tem toda uma simbologia para quem lê o livro, pois faz referência à cada um dos 5 contos. Além disso, o livro foi impresso em um formato que me lembrou muito as edições do saudoso Círculo do Livro. Empresa que fazia a alegria de leitores pelo Brasil inteiro nos anos 80 com sua revista bimestral a partir da qual podíamos fazer nossos pedidos de livros. Não apenas o formato externo lembra as edições do Círculo do Livro, mas o tamanho da fonte e o papel das páginas.

Maravilhoso projeto gráfico do Manga Mecânica Studios

Os dois primeiros contos que abrem o livro são de autoria do consagrado H.G. Wells. Fica muito patente a grande cautela (que beirava o pessimismo) que Wells tinha em relação ao futuro. Muito desse pessimismo, aliás, se mostrou verdadeiro como viria a provar o Século 20. Em A ESTRELA, Wells nos presenteia com uma história que (acredito eu) deva ter servido de base para Lars Von Trier filmar o seu MELANCOLIA de 2011. A frustração, negação, desolação e melancolia da humanidade diante de um desastre iminente transborda pelas páginas. O 2º conto do autor, ARMAGEDDON: O SONHO, mantém a perspectiva de cautela e certo pessimismo do autor em relação aos rumos da humanidade. Esta característica confere à H.G. Wells a qualidade de observar os homens sob um prisma muito peculiar, o da realidade sem ceder à sentimentalismos.

H.G. Wells

Editado pelo filho de Júlio Verne, o conto O ETERNO ADÃO não é apenas intrigante, mas oferece uma forma diferente de pensarmos o passado e a origem da humanidade. A construção narrativa de Verne é verossímil, sobretudo ao nos oferecer uma interpretação perfeitamente possível para nossas origens, além de expressar o orgulho e a soberba humana diante de seus próprios feitos, o que nos conduz ao esquecimento de que somos apenas mais uma espécie residente nesta casa chamada Terra. Influenciado pelas descobertas da época, e pela construção Darwinista da realidade, Verne nos apresenta um conto instigante e intrigante, com a ciência a emoldura-lo de forma brilhante.

Júlio Verne

A pérola da coletânea para mim é o conto O TEMPLO, de H.P. Lovecraft. Dono de uma fama póstuma incrível, Lovecraft é o tipo de escritor que, assim como seu contemporâneo e criador do ConanRobert E. Howard, acabou sendo mais conhecido por meio das obras que inspirou. Embora eu soubesse da importância de Lovecraft para o gênero terror e ficção, para minha vergonha eu nada havia lido dele ainda. Pois ao ler O TEMPLO eu percebi da onde vem toda fama e reconhecimento. Lovecraft realmente consegue nos levar a um envolvimento tal que acabamos por experimentar, em certa medida, as sensações de medo e assombro dos personagens. Somos levados a perceber o deslumbramento mítico a que o homem é suscetível quando confrontado com sua pequenez diante de mitos, lendas e, porque não, verdades. Se ler Lovecraft estava em meus planos, a partir de agora serei obrigado a fazê-lo imediatamente.

H.P. Lovecraft

O francês J.H. Rosny Aîné fecha a coletânea com o conto UM OUTRO MUNDO. O autor narra o nascimento de um homem extremamente estranho, a começar pela coloração violeta clara de sua pele. Muito magro e esquelético, o jovem é dono de uma visão capaz de enxergar espectros da luz e da radiação invisíveis ao olho humano comum. Alem disso, possui um raciocínio e agilidade física extremamente elevadas. Nascido em uma família simples em uma cidade da Holanda, o estranho menino logo descobre outros sentidos, dentre eles a capacidade de enxergar uma realidade paralela a nossa e que existe à poucos milímetros de nós. Uma realidade que co-existe à nossa mas que nos é invisível porque "vibra" em uma ressonância diferente da de nossos átomos. É incrível verificar que em 1895 (data da publicação deste conto) o autor imaginou algo que é bem possível que seja verdade, uma vez que a teoria das cordas sugere exatamente estes estados vibracionais diferentes da matéria. Para mim este conto de Aîné soa quase como uma profecia! Com um final muito interessante também!

J.H. Rosny Aîné

A Martin Claret acertou em cheio ao publicar Das Estrelas ao Oceano. Este será um livro ao qual voltarei no futuro para rele-lo em função da atemporalidade de seus contos, ideias e pressupostos. Uma das minhas melhores leituras de 2020 até o momento!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...