domingo, 1 de dezembro de 2019

Além do Planeta Silencioso - C.S.Lewis


Se você possui raízes minimamente cristãs, possivelmente já deve ter se perguntado (com certa decepção e até irritação) porque grandes escritores (com exceção de alguns poucos) nunca se utilizaram de formas narrativas tão ricas como a Fantasia e seus subgêneros como Alta Fantasia Baixa Fantasia, além do Realismo Fantástico, Ficção Científica, Fantasia Medieval, Espada e Magia, Ficção Histórica e gêneros até mais arrojados como Steampunk, Cyberpunk e Solarpunk como veículos para narrar aspectos tão ricos da tradição cristã. Excetuando Paraíso Perdido de 1667 de John Milton, e O Senhor dos Anéis de 1954 de J.R.R. Tolkien, quem nunca quis ver figuras, elementos e personagens bíblicos exponencialmente expandidos e retrabalhados dentro de Universos interessantes e catárticos como aqueles encontrados dentro destes gêneros literários? Eu já me fiz esta pergunta "n" vezes e até acredito que a resposta para isso é que, vincular o Universo Cristão (com seus incríveis personagens) a esse tipo de literatura é arrumar alguma rusga com algumas Instituições Centenárias. Assim, talvez muitos autores tenham decidido não "mexer com o que está quieto" e trabalhar suas ideias em outras cearas.

Nave concebida e construída pelo físico Weston

Clive Staples Lewis, mais conhecido como C.S. Lewis foi, no entanto exceção à regra. Professor vinculado tanto à Universidade de Oxford quanto de Cambridge, Lewis foi um dos escritores mais prolíficos e versáteis que já conheci. Conhecido por seus diversos livros de apologética cristã, Lewis ousou se aventurar por outras praias narrativas sem medo de ser confrontado por seus pares ao usar gêneros literários, sobretudo a fantasia, para desenvolver arquétipos cristãos. Lewis teve a coragem de se apropriar de "fadas", "duendes", "elfos", "magos", "feiticeiras", "sátiros", "minotauros" e até zoomorfizar figuras sacras, como é o caso do Leão Aslan em sua obra de ficção mais conhecida: As Crônicas de Nárnia. Mas há uma outra série de Fantasia menos conhecida do autor, a Trilogia Cósmica, do qual o livro Além do Planeta Silencioso (1º livro da trilogia) faz parte. A trilogia foi escrita a partir de uma aposta que Lewis fez com seu amigo J.R.R. Tolkien. Decidido no cara ou coroa os temas "viagem no tempo" e "viagem no espaço" foram sorteados e o segundo tema caiu para C.S. Lewis. O autor cumpriu sua parte da aposta escrevendo a Trilogia Cósmica. Tolkien cumpriu parcialmente seu lado da aposta, inserindo o tema viagem no tempo em um dos seus contos dentro do livro O Silmarillion.


A aposta foi paga por Lewis muito bem. A Trilogia Cósmica narra, pelo menos nos dois primeiros livros a experiência do Professor Universitário inglês Elwin Ransom. Ransom era filólogo, uma excelente e inteligente escolha por parte de Lewis, pois os dons do professor seriam muito úteis na sua aventura. Ransom é levado contra a vontade e de forma violenta para um lugar distante por meio de uma nave construída por um proeminente físico (Weston) e financiada por um outro professor mal caráter (Devine). A ciência envolvida na construção da nave não é alvo de explicações por parte de Lewis, e nem precisa, já que a narrativa é tal inventiva que a supressão de nossa descrença logo acontece. Ransom é levado para um distante planeta que logo entendemos se tratar de Marte, ou Malacandra, na língua dos nativos. A própria viagem de Ransom em direção à Malacandra é incrível aos olhos de qualquer pessoa que tenha o mínimo de espiritualidade latente. A forma como Lewis descreve a esfera celeste e os elementos que permeiam o espaço, nos enchem de uma concepção quase palpável do mundo espiritual que nos rodeia, deixando-o tão concreto quanto o mundo real.


Malacandra é habitada por 3 espécies distintas, os Sorns, os Hrossa e os Pfifltriggl, todas com dialetos distintos mas que falam em conjunto a língua dos Hrossa. Língua essa que Ransom vem a aprender e dominar. Embora parecido no questio aventura com a obra Uma Princesa de Marte (John Carter de Marte) de Edgar Rice Burroughs, a obra de Lewis possui, para o cristão, segredos escondidos. Cada personagem, situação e mitologia ali apresentada possui um significado maior. Além das espécies acima mencionada, há seres elevados que vivem em Malacandra. Chamados de Eldila tais seres servem a um Oyarsa, que também vive em Malacandra. Esse grande ser (Oyarsa) chega a encontrar e conversar com Ransom em uma determinada parte do livro. Para o leitor perspicaz, ficará claro quem são esses seres e quem seria aquele a quem todos servem, o grande Maleldil. Mas o interessante não é simplesmente o jogo de identificar quem é quem, mas sim perceber o véu que se descortina e que lança luz sobre a rebelião celeste Bíblica pré-Adâmica. Tudo isso somado vai  ressignificando o Planeta Terra no contexto cósmico.


Uma das estratégias narrativas de Lewis é usar o impacto cultural que Ransom sofre ao conhecer raças tão diferentes de nós e com visões tão distintas do cosmos, para nos fazer gradativamente perceber as coisas no universo a partir de uma nova ótica, muito diferente, aliás, da nossa. Ao fazermos isso vamos sendo confrontados com a maneira torta como o ser humano enxerga a si mesmo, os outros e a criação. Nossa nudez vai sendo exposta e vamos realmente enxergando tudo a partir de um novo prisma, o prisma dos Malacandrianos. Lewis vai dando pistas também da existência de um ideal cósmico muito maior e do qual nós, seres humanos, um dia fizemos parte, e para o qual estaríamos destinados um dia retornar. Nesta concepção cósmica, nós humanos teríamos um destino bem diferente daquele que atualmente vivenciamos. E todo esse desvio de rota ocorreu por causa de uma entidade, um outro Oyarsa. O nosso Oyarsa. Não vou ficar discorrendo mais para não estragar a leitura. A ideia do post é mesmo dar um contexto para a obra, e não estraga-la com spoilers.


Escrita nos anos que antecederam e subsequentes ao início da 2ª Guerra Mundial, A Trilogia Cósmica guarda segredos e tesouros valiosos escondidos, tal qual outras grandes obras chamadas (equivocadamente) de juvenis, dentre elas O Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, A Fantástica Fábrica de Chocolate de Roald Dahl, A História Sem Fim e O Teatro de Sombras de Ofélia de Michael Ende, O Circo do Dr. Lao de Charles G. Finney, O Oceano no Fim do Caminho de Neil Gaiman, Caninos Brancos de Jack London entre outras. Além do livro Além do Planeta Silencioso, compõem A Trilogia Cósmica, Perelandra e Aquela Fortaleza Medonha (às vezes traduzido como Uma Força Medonha). Há um 4º livro de C.S. Lewis chamado A Torre Negra que continua o Universo da Trilogia Cósmica. Nele, seis histórias se entrelaçam como um esboço de continuação deste mágico universo.


É isso aí amigos. Um grande abraço!

sábado, 9 de novembro de 2019

Os Livros da Magia de Neil Gaiman


Com o recente início das publicações no Brasil do Universo de Sandman, decidi reler Os Livros da Magia de Neil Gaiman. Publicado originalmente em 1990 nos EUA, em 1991 no Brasil em forma de fascículos pela Editora Abril, e republicado pela Editora Panini em 2013 em edição de luxo, Os Livros da Magia é uma história em 4 capítulos que é o ponta pé inicial para todo um Universo arcano baseado em personagens da DC, alguns criados pelo próprio Gaiman dentro da série Sandman. Reler algo é um processo interessante, já que ninguém é mais o mesmo de pois de anos, e isso por si só já abre as portas para novos dimensionamentos e resignificações de obras anteriormente visitadas. Posso dizer que Os Livros da Magia cresceram em dimensão e importância após esta releitura.


Muito antes de existir Harry Potter, existia Timothy Hunter, personagem criado por Gaiman nesta primeira minissérie de 1990. Poderíamos até dizer que o Bruxo de Hogwarts parece ter sido uma cópia de Tim Hunter. Apesar da semelhança de idade, Harry Potter e Tim Hunter estão inseridos em Mundos muito diferentes, o de Timothy Hunter é muito mais perigoso e próximo de nossa realidade. A minissérie Os Livros da Magia serviu para apresentar Tim Hunter e seu lugar dentro do Universo Mágico Adulto da DC. Infelizmente, depois da publicação em 1991 pela Editora Abril, nada mais foi lançado do jovem Tim por aqui, o que está mudando com a reabordagem do personagem a partir do selo O Universo de Sandman, dentro do qual novas histórias de Tim Hunter serão trazidas para cá.

John Constantine, Dr. Oculto, Mr. Io e Vingador Fantasma

Em Os Livros da Magia são 4 os personagens incumbidos de apresentar ao menino o Mundo Arcano. Um Mundo que coexiste junto ao nosso mas que pode ou não ser revelado às pessoas, dependendo apenas do quanto elas se abrem para crer. Vingador Fantasma, John Constantine, Dr. Oculto e Mr. Io são os responsáveis em conduzir Tim à aspectos distintos do Universo da Magia, a saber: passado, presente, o mundo das fadas e o futuro. Mas o que o menino teria de especial? Tim Hunter é, na verdade, um garoto que traz dentro de si um potencial enorme para se tornar o próximo grande mago da Terra. Se ele se tornará esse mago tudo dependerá do que ele decidir frente ao que lhe for mostrado.

Passado, Presente, Mundo das Fadas e Futuro

Recheada de referências mitológicas Os Livros da Magia impressiona não apenas pelo texto de Gaiman (muito bem ajustado ao Universo DC na época e à própria Mitologia que havia criado), mas também em função da primorosa arte de 04 desenhistas: John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson (este último, infelizmente abandonaria, anos depois, a carreira de desenhista para seguir carreira na medicina oriental). A arte dos 04 permite ao leitor uma íntima sintonia com os mundos e momentos que a história pretende retratar. Literalmente o leitor se sente imerso em um ambiente estranho, sobrenatural e cheio de interfaces com nosso mundo. Neil Gaiman estava em seu auge nesta época e há diversas intersecções entre a história e a Saga do próprio Morpheus


Outro aspecto muito interessante da obra é a presença de diversos personagens da DC ligados ao mundo da magia. Dentre os mais conhecidos temos Desafiador, Espectro, Zatanna, Sr. Destino, Madame Xanadu, Jason Blood/Etrigan. Mas há também outros personagens da mitologia clássica e da DC, mais obscuros. O estudioso de quadrinhos com certeza deve ter identificado. Dentre eles O Mago Sargon, Zatara - O Mago, Dr. Terrence Thirteen (Dr. 13), Tala - A Rainha do Mal, Tannarak - O Feiticeiro, Félix Fausto, Jacinto e Leandro, Barão Winter, Thomas - O Leal, O Gigante Maugys, Snout e Sr. Glory, ambos do Mundo das Fadas, a Bruxa Baba Yaga... A respeito de Etrigan é muito interessante entender de onde vem a profunda relação entre Jason Blood (cujo nome verdadeiro era Iason) e o mago Merlin. Uma relação que acabou por acorrentar Jason ao Demônio Etrigan. A participação do próprio Sandman (na época ainda Lorde Morpheus) é rápida mas cheia de significado. Para os leitores de Sandman da velha guarda revisitar sua participação na história não tem preço.


Os Livros da Magia é uma ótima porta de entrada para o Universo Místico da DC, sobretudo agora com a iniciativa da editora em dar continuidade ao Universo de Sandman. Um grande abraço à todos.

domingo, 3 de novembro de 2019

Guerras Secretas - 2015


Jonathan Hickman vem pavimentando sua carreira de forma sólida e constante. Apesar de seu nome não ser tão badalado quanto de outros roteiristas atuais como Tom King e Jeff Lemire, suas histórias tendem a ser épicas e com amplos desdobramentos. Para quem leu na totalidade ou em parte (como é meu caso) seu roteiro para Os Vingadores a partir da Nova Marvel, pôde perceber a complexidade de sua narrativa que foi se desenrolando desde a Saga Infinito até chegar ao fim com o arco Guerras Secretas (lançado pela Editora Panini em um encadernado único). Em Guerras Secretas, Hickman finalmente dá um desfecho para o que ficou conhecido como As Incursões, a aniquilação mútua e contínua de Terras/Universos alternativos. Conceito semelhante, aliás foi usado pela DC na década de 80 com sua Crise Nas Infinitas Terras, que serviu de assunto para duas análises aqui no Blog: Crise Nas Infinitas Terras - Remodelando Universos Parte I e Parte II.


Por ter sido publicada no Brasil em encadernados seguindo a forma como a histórias foram lançadas em suas revistas de origem nos EUA, A Saga Infinito ficou difícil de acompanhar, o que me motivou a fazer um guia de leitura da Saga que você pode acessar aqui. Para entender as Guerras Secretas de Jonathan Hickman, uma leitura prévia de A Saga Infinito talvez seja recomendado. Mas mesmo que você não o faça, Guerra Secretas pode ser apreciado levando-se em conta os bons diálogos e a postura de cada personagem vivendo no Mundo Bélico, um mundo remanescente feito de retalhos das últimas Terras que estavam sofrendo o processo de aniquilação. O termo Guerras Secretas é antológico e muito simbólico dentro da Marvel, assim como o é o termo Crise para DC. Isso se dá em função da saga Guerras Secretas de 1984. Uma das primeiras grandes sagas publicadas nos quadrinhos envolvendo uma grande quantidade de heróis com verdadeiras repercussões para vários personagens. A Guerras Secretas original foi um grande evento na Marvel, planejado para amparar uma linha de brinquedos que sairia a partir de um acordo entre a Marvel e a Matel na época. Apesar deste objetivo comercial por trás, havia empenho do Editor-Chefe da Marve à época, Jim Shooter, e de roteiristas para realizarem uma história bem legal, e assim o foi.


O que Jonathan Hickman faz em sua saga, é homenagear a ideia original de 1984 ao criar o seu Mundo Bélico. Nele, o Dr. Destino tornou-se o deus absoluto do planeta ao ter sido um dos únicos mortais capazes de salvar o pouco que restava das Terras em aniquilação. Talvez justamente por este caráter ambíguo (salvador e ao mesmo tempo vilão) é que a participação de Victor Von Doom seja tão interessante, ora sendo visto como deus, ora como o mesmo vilão egocêntrico que conhecemos. Um dos pontos altos deste arco é também a representação que Hickman dá às várias facetas do Universo Marvel. Se o leitor observar, cada território do Mundo Bélico (mapa acima) representa personagens ou núcleos clássicos da Marvel, tais como o núcleo mutante, aracnídeo, inumano, asgardiano, místico... É bem interessante observar cada aspecto do Universo da Editora ali representado.


Tudo poderia ir muito bem para Destino não fosse duas balsas (naves) terem sobrevivido à Aniquilação final das Terras, trazendo em uma delas um conjunto de heróis (Sr. Fantástico, Capitã Marvel, Sr. das Estrelas, Homem-Aranha "Peter Parker" e a Thor Jane Foster) e de vilões (Thanos, seus Generais, Terrax, Cisne Negro, o Inumano Maximus, Reed Richards do Universo Ultimate e, de forma escondida, o Homem-Aranha "Miles Morales", também do Universo Ultimate). A narrativa de Hickman é relativamente complexa, derivada de idas, vindas e de passagens onde há muitas coisas sub-entendidas. Os diálogos deixam muitas coisas no ar, mas que se encaixam com a observação do desenho, da expressão do personagem e, sobretudo, do contexto. Para o leitor desavisado, ou rápido demais na leitura, algumas coisas podem soar sem explicação. Esse tipo de narrativa pressupõe que todo leitor acompanhou muita coisa e é perspicaz o suficiente para entender o que não é dito. Tal opção narrativa é uma faca de dois gumes, já que para aquele leitor familiarizado com os acontecimentos-chave da saga há total entendimento, mas para leitores que não conseguem acompanhar tudo, algumas coisas ficam mesmo no ar. Particularmente sou um leitor vindo diretamente dos anos 80, época em que muita cronologia não vinha para o Brasil. Assim, desde aquela época aprendi a pressupor minha ignorância e tentar aproveitar a HQ.


Outro ponto que achei bem interessante nesta Guerras Secretas foi a mudança que cada personagem teve nesse novo mundo controlado por Destino. O Dr. Estranho por exemplo estava com Destino no momento em que ele recria a Terra no formato Mundo Bélico, ou seja, partilhou e corroborou a ação de Victor Von Doom. Seu papel no arco é, portanto de conselheiro e braço direito na corte de Destino. Apesar disso, é possível claramente ver a personalidade de Stephen Strange relativamente intacta diante de tudo. Capitão Britânia, Apocalipse, Sr. Sinistro, Madelyne Pryor e o Hulk Maestro, são alguns dos personagens detentores de Baronatos (Países) no Planeta de Destino. Praticamente ninguém possui lembrança do que havia antes, exceto Stephen Strange e o Homem-Molecular (Owen Reece), este último com um importante papel nas Guerras Secretas de 1984 e nesta também. Quando fiquei sabendo da ideia de se criar um arco com a premissa de um Mundo Bélico, com remanescentes dos Universos Marvel, achei que a ideia não iria funcionar. Mas funciona principalmente pela personalidade que Hickman imprime a cada herói e vilão. Um mérito obviamente de um bom roteirista.


Não pude deixar de comparar as Guerras Secretas de Jonathan Hickman com outras obras distópicas da Marvel. Há semelhanças com arcos como Dinastia M (Brian Michael Bendis), A Era de Ultron (Brian Michael Bendis), Os Gêmeos do Apocalipse (Rick Remender) e até mesmo Terra X (Jim Krueger, Alex Ross). As 3 primeiras sagas mostram uma realidade distorcida dentro do Universo Marvel tradicional a partir de anomalias temporais ou místicas. Já Terra X é realmente um Universo Alternativo no qual heróis e vilões tiveram destinos distintos do Universo Canônico. Guerras Secretas traz elementos de todas elas, mas que em nada sugere (em minha opinião) cópia ou falta de inspiração por parte de Hickman. Os desenhos ficaram por conta do Croata Esad Ribic (desenhista dos aclamados Loki e Namor - As Prundezas). Ribic, como sempre, desenha agregando a atmosfera necessária à narrativa do roteirista. Gostaria, no entanto, de expressar um ponto que achei negativo. O desfecho do arco talvez tenha sido rápido demais. Se considerarmos que esta história vinha sendo construída há tanto tempo, eu esperava por um desfecho que se estendesse por mais páginas, como que a prolongar o ápice. A apoteose se dá em um conflito entre Reed Richards e Victor Von Doom, com direito à acusações e sentimentos mútuos acerca de um em relação ao outro. No papel de um leitor que quer ver o clímax durar, achei que o final poderia ter se estendido mais, o que não significa que não foi bom.


Para mim Guerras Secretas de Jonathan Hickman é uma boa história, com bons diálogos, que homenageia importantes Sagas Distópicas da Marvel e a saga homônima de 1984. 
Gde. Abc. amigos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Coleção A Espada Selvagem de Conan - O que Já Saiu? - Guia de Lançamentos - Atualizado - Dezembro/2019!!

Nº 0 - Apresentação da Coleção; Nº 01 - A Cidadela dos Condenados; Nº 02 - A Libertação de Thugra Khotan; Nº 03 - A Maldição da Lua Crescente; Nº 04 - O Conquistador; Nº 05 - A Fortaleza de Bal-Sagoth; Nº 06 - Os Profetas do Círculo Negro; Nº 07 - O Poço Macabro.

Criado por Robert E. Howard em 1932, Conan - O Bárbaro é na verdade um personagem que transcendeu suas histórias e ajudou a criar e consolidar um sub-gênero da Fantasia chamado Espada e Feitiçaria. Embora Robert E. Howard tenha falecido cedo, aos 30 anos por suicídio, seu personagem alcançaria outros patamares. O sucesso e relevância de Conan esta enraizado nas narrativas produzidas por Howard, recentemente publicadas no Brasil em 3 volumes pela Editora Pipoca e Nanquim. Dono de uma ética pessoal selvagem, Conan é por vezes ambíguo, anti-herói, herói, conquistador e na maioria das vezes violento. Talvez por congregar qualidades e características tão conflitantes é que ele tenha galgado a fama que conseguiu, afinal não somos todos nós ambíguos na maioria das vezes? Não entendemos o mundo ao nosso redor como uma selva cheia de perigos? Com reinos pessoais e sonhos a serem conquistados?


Conan nasceu na literatura Pulp, romances publicados em papel extremamente barato (papel de polpa, daí o nome Pulp) e comercializados em tabacarias e bancas de revistas sobretudo nas décadas de 20 e 30 nos EUA. Foi na literatura Pulp que gigantes da literatura do Século XX debutaram, dentre eles, Isaac Asimov, Philip K. Dick, H.P Lovecraft, Arthur C. Clarke entre outros. Mas foi pela Editora Marvel já nos quadrinhos que Conan ganharia uma fama mais robusta a partir dos anos 70. Um dos grandes mentores e força motriz por trás deste sucesso é o hoje merecidamente aclamado Roy Thomas. Além de ter sido um dos principais editores da Marvel nos anos 70, Thomas foi mais do que isso, ele foi braço de direito de Stan Lee e é acima de tudo um apaixonado pelos quadrinhos. Não é a toa que agora, com a morte de Stan Lee, nerds do Mundo todo voltem suas homenagens e honras à Roy Thomas, felizmente ainda vivo e em atividade.


Embora já tivéssemos algumas iniciativas de lançar o material de Conan pela Marvel no Brasil, sobretudo na anos 80 com a lendária Revista A Espada Selvagem de Conan pela Editora Abril, nunca tivemos uma coleção única dedicada a ele com a proposta de lançar as histórias em ordem cronológica. Há cerca de dois anos a Editora Salvat, estimulada pelo sucesso das Coleções de Graphic Novel Capa Preta e Vermelha, ensaiou o lançamento desta coleção. Porém não passou da fase de testes. Agora, a Editora Panini, em parceria com a própria Salvat decidiu lança-la definitivamente em solo brasileiro. Constituída de 75 volumes, a coleção trará as aventuras do Bárbaro em ordem cronológica. Os volumes são capa dura e possuem formato grande (maior inclusive que os encadernados das coleções capa preta e vermelha). Cada volume trás, além das HQs, alguns extras interessantes, dentre eles: 1) dossiês especiais acerca do universo da série e sua criação; 2) biografia de autores (dentre eles Roy Thomas, o próprio Robert E. Howard, Barry Windsor-Smith, John Buscema); 3) capas originais dos quadrinhos de Conan (muitas do lendário Frank Frazetta); e 4) galeria de ilustrações.


A Coleção traz a já tradicional lombada que, em conjunto, formará um painel. Particularmente achei que eles poderiam ter reproduzido na lombada um desenho mais emblemático do gênero Espada e Feitiçaria ao melhor estilo Frank Frazetta. No entanto, a lombada trará uma 1ª imagem do Conan na extremidade esquerda do painel e outra na extremidade direita. O centro será ocupado com o nome da coleção em letras gigantes. Esta coleção era aguardada por muitos, e agora aporta definitivamente em nosso país. Esperamos que ela vá até o fim, sem interrupções ou descontinuação. Como já é tradição aqui no Blog, procurarei fornecer mês a mês uma atualização dos volumes lançados no Brasil para facilitar o acompanhamento de todos.

Um grande abraço!

domingo, 27 de outubro de 2019

Pílulas Fílmicas #3: Nosferatu (1979)


Jorge Luis Borges já havia comentado acerca da inutilidade da imortalidade para a espécie humana em seu livro O Aleph por meio do conto O Imortal. Caso fossemos agraciados com esta "dádiva", possivelmente cairíamos em ciclos intermináveis de inexistências. Mas em Nosferatu de 1979, Werner Herzog fez mais que uma releitura do clássico de F.W. Murnau de 1922, Herzog expande e aprofunda a perspectiva da imortalidade para o homem. O diretor coloca o Conde Orlok no epicentro desta lírica e aterradora fábula acerca do viver. O ator  Klaus Kinski, talentoso e de temperamento extremamente difícil, dá vida ao lúgubre Conde e consegue entender em toda profundidade como seria um ser vivo com aqueles dons. Com atmosfera intimista, a obra tem aquela beleza onírica que, de tão fugaz, é difícil de se captar e manter, porém Herzog consegue. Mas outra coisa surpreendente no filme é a moldura musical realizada de forma excepcional pela banda alemã Popol Vuh. O pianista e líder Florian Fricke entendeu exatamente o que deveria fazer ao atribuir sons à sacralidade da vida eterna, morte e amor. Com uma orientação que mistura o clássico com o moderno, o Popol Vuh fez vários outros temas para filmes de Werner Herzog, no entanto a grande genialidade de Florian Fricke é sua capacidade de transmutar o sagrado em sons. 








segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Pílulas Fílmicas #2: A Dama Fantasma (1944)



A Dama Fantasma (The Phantom Lady - EUA 1944) é um filme Noir com elementos que transcendem a estética protocolar do gênero ao extrair mágica das imagens em branco e preto, criando uma atmosfera hipnótica, estranha e ao mesmo tempo bela e lírica. Fiquei muito surpreso ao encontrar a irmã da Carmem Miranda (Aurora Miranda) atuando no filme. A obra traz tons e sobretons em imagens que evocam a loucura do improvável assassino que ronda o filme todo. Não conhecia a atriz Ella Raines que está muito bem no papel da única pessoa que acredita na inocência do acusado. O visual do filme tem a atmosfera necessária para evocar o dilema entre o que é verdade e mentira, ilusão e realidade. O filme integra o disco 2 da Caixa Filme Noir Vol. 02 da Versátil Home Vídeo. Direção de Robert Siodmak.

Ella Raines e Franchot Tone



Franchot Tone



Aurora Miranda

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Pílulas Fílmicas #1: Coringa (2019)


Olá amigos... Como parte das comemorações dos 10 anos do Blog Marcelo - Antologias, mais uma novidade! Inicia-se aqui uma nova série de "posts": o PÍLULAS FÍLMICAS. Assim como uma pílula que se ingere, esta série trará análises de ação rápida e certeira, o que proporcionará forte interação com você leitor. Bem vindo, portanto ao PÍLULAS FÍLMICAS!!

Coringa - 2019 (EUA - Dir. Todd Phillips)

Um grande golpe na ambiguidade dos dias atuais e na hipocrisia de muitos.

Coringa é uma viagem às profundezas da mente humana que aos poucos adoece. E o que mais me SURPREENDEU após assistir ao filme é que de todas as resenhas e mais resenhas e mais resenhas que li... De todas as opiniões chamando o filme de "tóxico" e "irresponsável", não vi nenhuma frase (de nenhum dos supostos críticos profissionais ou informais de Facebook e Youtube) acerca da PERGUNTA principal do filme: "Por que deixamos as pessoas mais frágeis próximas à nós sem assistência? Por que as pessoas que tem deficiência (no caso a mental) são muitas vezes deixadas de lado ao invés de serem acolhidas?" Será que ninguém percebeu que as pessoas falharam inúmeras vezes com Arthur Fleck durante o filme? (O que não justifica sua atitude mas as explicam com certeza). Que mais importante do que ficar discutindo se o filme pode influenciar alguém a se tornar parecido com o "Coringa"... Mais importante que isso seria olharmos para nós mesmos e nos fazermos a seguinte pergunta: "Tenho falhado com alguém perto de mim?" Percebo que todo esse mi-mi-mi esconde na verdade a incapacidade de olharmos para nós mesmos. Assistir foi viajar novamente ao Universo de Scorsese em toda sua força!!
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