domingo, 19 de fevereiro de 2017

Miniatura Marvel Nº 54 - Nova

Miniatura Marvel Nº 54 - Nova

Embora frequentemente atrelado ao conceito do Super-herói adolescente, para mim Nova está muito mais próximo de um outro conceito, o do Soldado Intergaláctico que se comporta como um verdadeiro Centurião Romano ao portar uma alta patente militar cheia de responsabilidades e poderes. Até mesmo sua vestimenta traz elementos que nos arremete ao conceito militar romano, com um grande capacete de metal, ombreiras e acessórios militares. A verdade é que Nova sempre oscilou entre o conceito inicial dos seus criadores, o de um jovem herói perdedor em sua vida pessoal, e um herói espacial com grandes responsabilidades. Esta certa ambiguidade gerou, por vezes, uma incongruência em suas histórias, no entanto (para mim pelo menos) ele sempre teve, e sempre terá, enorme potencial para estrelar as mais épicas histórias espaciais. Hoje veremos um pouco de sua vida e de sua representação dentro da Coleção de Miniaturas de Metal Marvel da Eaglemoss.

Miniatura Marvel Nº 54 - Nova

A Miniatura do personagem traz o herói em sua vestimenta mais recente, da época de sua participação na Saga Aniquilação da Marvel. Vemos um uniforme mais atualizado e um pouco diferente do antigo que, embora também constasse de capacete e estrelas no peito, era um pouco mais simples. Neste, observamos ombreiras que se fundem com duas marcas semelhantes à estrelas sobre seus peitorais, com uma última estrela sobre o centro de seu peito. Como muitos devem saber, a quantidade de estrelas sobre o tórax indica a patente militar do Soldado do Planeta Xandar, local de onde os poderes de Nova são derivados, sendo 03 estrelas o máximo que um Soldado pode almejar, definindo o posto de Centurião de Xandar. O capacete visto aqui é menos extravagante que aquele usado no uniforme original. Particularmente eu preferiria que tivessem trazido o personagem com o uniforme antigo, já que a proposta da Coleção era lançar os personagens em seu formato clássico, haja vista o nome da coleção em inglês: The Classical Marvel Figurine Collection. Isto pode parecer preciosismo de minha parte, mas ao olharmos para a caracterização da maioria dos heróis e vilões dentro da coleção, os veremos em suas versões clássicas, portanto não gosto que alguns deles (como o Nova e o Homem de Ferro, por exemplo) estejam representados de forma mais moderna, enquanto a maioria não está.

Miniatura Marvel Nº 54 - Nova

Polêmicas à parte, o personagem tem sua musculatura, sobretudo a do tronco, bem modelada, e os detalhes dourados ao longo dos braços terminam como se fossem braceletes, e são bem legais. O cinto dourado se funde à uma faixa que desce lateralmente ao longo dos membros inferiores, de maneira que se olharmos a peça pela lateral (foto acima) temos uma lembrança discreta das calças dos soldados da União durante a Guerra da Secessão Americana (1861 - 1865), tão popularizadas em filmes de Westerns, e isto é legal também. Já um detalhe que eu mudaria seria o tamanho da estrela vermelha na testa do personagem. Para mim ela ficou grande demais na peça, e poderia ter sido modelada um pouco menor. As ombreiras tão visíveis em uma visão anterior também se continuam na região posterior dos ombros, e este detalhe também ajuda no reconhecimento de um oficial militar de alta patente, mesmo em uma olhada rápida. Por fim, achei que ficou legal também o reforço dourado anterior das botas, que descem anteriormente e se fundem com uma estrutura que lembra uma espora. Novamente aqui um detalhe relacionado à soldados.

Miniatura Marvel Nº 54 - Nova

Nova foi criado por duas lendas dos quadrinhos, Marv Wolfman (roteirista) e John Buscema (desenhista) e apareceu pela primeira vez em setembro de 1976. O conceito de Nova emula o de dois outros grandes personagens dos quadrinhos: o Homem-Aranha e o Lanterna Verde (DC Comics). Do 1º, Nova herdou os conceitos de um jovem adolescente "perdedor", com pouco traquejo social e frequentemente vítima de Bullying. Do 2º, Nova herdou todos os elementos relacionados à sua origem e filiação à uma força policial intergaláctica (no caso aqui a Tropa Nova) que também possui um Planeta como seu centro de operações. A identidade secreta do 1º Nova (e para mim o original) foi Richard Rider, um jovem adolescente que, como descrito acima, sempre sofria violência física e psicológica na mão dos valentões de seu colégio. No entanto, sua história mudaria quando um ferido Centurião Xandariano chamado Rhomann Dey, pertencente à Tropa Nova chegaria próximo à Terra em sua nave. Na verdade, Rhomann Dey estava no encalço de um vilão alienígena, chamado Zorr, que havia assolado o Planeta Natal (Xandar) de Rhomann. O Centurião almejava deter Zorr, no entanto, percebendo sua fraqueza transmite seus poderes da Força Nova para um humano, ou seja, Richard Rider.

Miniatura Marvel Nº 54 - Nova

Rider recebe por meio de um raio concentrado de energia todo (ou quase todo) poder de Rhomann Dey. Inconsciente, Rider recebe várias diretrizes e explicações e, quando acorda, ainda aturdido, percebe a dimensão de seus novos dons. Nova tenta deter Zorr que já estava na Terra perpetrando uma onde de destruição, porém a pequena experiência de Rider não é páreo para Zorr. Assim, Rhomann Dey em um último suspiro de força, teleporta Zorr para sua nave e o desintegra. Rider passaria por um fase então em que tentaria se firmar como Super-herói na Terra, no entanto seus atos heroicos se restringiam à deter furtos e roubos à bancos. O grande confronto de Nova surgiria apenas quando um grande vilão chamado Esfinge (um ser imortal egípcio com uma grande fonte de poder derivado de uma pedra mágica) tenta acessar o computador global do Planeta Xandar através de Rider. Esfinge força Nova e alguns outros heróis a irem para Xandar (que não havia sido totalmente destruído). Chegando lá Nova prova seu valor em uma luta épica com a participação do Quarteto Fantástico e de Galactus, banindo Esfinge para um lapso temporal.

Miniatura Marvel Nº 54 - Nova

Em algumas aventuras subsequentes em Xandar, Nova torna-se uma referência ao derrotar os Skrulls com a ajuda de ninguém menos que ROM (O Cavaleiro Espacial). Este evento aliás, trouxe Rider de volta à Terra para ajudar ROM a derrotar seus eternos inimigos, os Espectros. Para Rider, no entanto uma difícil escolha estava à sua frente, para continuar com seus poderes ele teria que permanecer em Xandar. Ele, no entanto escolhe ficar na Terra, passando uma fase de sua vida novamente como uma pessoa comum. Não demoraria muito para Rider estar novamente com seus poderes e ser novamente envolvido em batalhas em Xandar e na Terra, e ele se comportaria com a dignidade de um soldado, atuando sozinho ou ao lado de uma equipe de jovens com a qual viveria muitas batalhas, os Novos Guerreiros. Inclusive, os caminhos de Nova e da dinastia Zorr voltariam a se encontrar, já que a filha de Zorr voltaria a assolar Xandar. As várias investidas de forças contra Xandar levaria à criação do que conhecemos como "Mente Global", a junção de todo conhecimento do Planeta compilada em um programa capaz de ser instalado em uma mente humana.

Miniatura Marvel Nº 54 - Nova

O 1º homem a hospedar a Mente Global dentro de si foi um Centurião Xandariano chamado Garthann Saal. Ele caçaria a filha de Zorr pelo espaço a acabaria ficando insano ao hospedar tamanho conhecimento em sua mente. Coube a Rider confrontar Garthann e derrota-lo. Rider seria o escolhido para hospedar a Mente Global, contando que o programa lhe fornecesse algumas salva-guardas de que não seria corrompido pelo conhecimento. Foi neste estado que Richard Rider entraria no conflito que ficou conhecido como Aniquilação, em que uma onda de destruição proveniente da Zona Negativa avançou sobre todo o Universo conhecido tendo o Aniquilador como líder. Nova se tornaria uma "lenda" ao liquidar o poderoso Aniquilador. Apesar desta incrível trajetória, Richard seria "aparentemente" morto em um combate envolvendo Thanos logo em seguida. Isto explica porque o Nova atual é o adolescente Sam Alexander, uma reviravolta que não gostei, pois Rider demorou muito tempo para conseguir ostentar a alcunha de Centurião com dignidade para logo em seguida este título ser passado para um adolescente (!!). Achei no mínimo inverosímel este fato, uma vez que, quem escolheria em sã consciência um adolescente para receber tanto poder? No caso de Richard Rider eu até entendi, pois era uma emergência frente ao ataque de Zorr, mas agora eu achei uma grande besteira narrativa!!

Miniatura Marvel Nº 54 - Nova

De minha parte não vejo a hora do posto de Centurião Nova ser ocupado novamente por alguém experiente e que faça jus em sabedoria e maturidade ao cargo. Há rumores de um possível retorno de Richard Rider, portanto, vamos ficar de olho! Outra grande espera é a possível participação de Nova no Universo Espacial Cinematográfico da Marvel nos cinemas. Sobretudo nos filmes dos Guardiões da Galáxia ou dentro do futuro conflito Guerra Infinita que integrará heróis da Terra e do espaço nos cinemas. Bom amigos é isso aí! Um grande abraço à todos.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Miniatura DC Série Especial Nº 10 - Lobo

Miniatura DC Especial Nº 10 - Lobo

Entender os "por quês" e razões que existem por trás da criação de cada personagem é um exercício muito interessante. Durante este processo podemos perceber que determinados heróis ou vilões encarnaram perfeitamente o Zeitgeist (Espírito do Tempo) de uma época. Esta análise torna possível a leitura de como determinada época sonhava e pensava seus ideais. Personagens da Era de Ouro (1938 à 1956) por exemplo, tinham uma visão bem maniqueísta de seu tempo, em que o bem e o mal eram facilmente reconhecíveis, padronizando assim comportamentos e pessoas, tal qual ocorria no Mundo real naquela época. Já a Era de Prata (1956 à 1970) trazia o ideal da inocência com seus romances e galanteios entre heróis e "mocinhas", mas avançava ao começar a mostrar o dia a dia e os problemas cotidianos de alguns heróis (caso do Homem-Aranha por exemplo, criado em plena Era de Prata). A Era de Bronze (1970 até início dos anos 80) trouxe consigo a morte do Sonho Idealizado e, com isso, heróis marginais, infernais e mais viscerais (caso de Luke Cage, Motoqueiro-Fantasma...). Por fim a Era Contemporânea (a partir dos anos 80) literalmente desconstruiu seus heróis em uma viagem ao âmago de praticamente todos (o Batman de O Cavaleiro das Trevas e Ano Um de Frank Miller; o Demolidor de A Queda de Murdock também de Frank Miller; o Monstro do Pântano de Alan Moore; o Sandman de Neil Gaiman; o Homem-Animal de Grant Morrison) . Mas e o Lobo? O que ele representa? A que ele veio?

Miniatura DC Especial Nº 10 - Lobo

A resposta a esta pergunta começa pelo visual do personagem que pode ser muito bem comentado nesta peça da Eaglemoss. Embora feita de resina, a peça tem detalhes muito legais. A começar pela cabeleira farta, pele branca, um rosto com detalhes que lembram um cavanhaque, olhos vermelhos, e charuto, o personagem acaba ficando com uma mistura de mafioso com halterofilista, roqueiro e motoqueiro. A musculatura destacada parece um pouco avantajada demais, mas pode ser que este detalhe tenha sido proposital para demonstrar algo anabolizado. O colete, a calça jeans e o cinto evocam a indumentária dos motoqueiros norte-americanos, e a frase escrita na parte de trás do colete é um sarcástico e irônico convite à anarquia. A presença de inúmeros adereços que evocam pregos, correntes, fivelas e placas de metal tentam passar logo uma mensagem de revolta e violência.

Miniatura DC Especial Nº 10 - Lobo

O coturno com perneira metalizada destaca-se bem, e o cachorro (parece um Buldogue) mordendo a corrente aponta para selvageria do animal. Não podemos esquecer da arma na mão esquerda que apresenta-se bem modelada, passando até despercebida em face à tantos detalhes selvagens. A cabeça alienígena sob o pé direito de Lobo vem de uma Série publicada no final dos anos 80 pela DC chamada Invasão. Na série um conjunto de raças alienígenas decidem exterminar com a humanidade, e o pobre alien apresentado aqui é da raça Domínion. Eu gostei desta peça, confesso que (como todos) preferia que ela tivesse sido confeccionada em metal, o que lhe daria maior peso e consistência. Apesar disto ela não faz feio na estante ao lado de outros heróis e vilões.

Miniatura DC Especial Nº 10 - Lobo

O Lobo que conhecemos hoje foi reformulado após a mega-série dos anos 80 Crise nas Infinitas Terras. O Lobo anterior (criado em 1983), embora também violento e também caçador de recompensas, não possuía o temperamento tão selvagem e exageradamente homicida do atual. Falaremos aqui do Lobo já reformulado pós Crise e que, em minha opinião, é o verdadeiro. Pois foi este que conquistou uma legião de fãs e participou efetivamente de muitas aventuras importantes. Lobo nasceu no Planeta Czárnia e seu nome, em dialeto Khúndio significa "aquele que devora suas entranhas e se deleita com isso". O personagem é o responsável pelo extermínio completo de sua própria raça, tornando-se o único czárniano vivo em todo o Universo. Uma origem que ironiza a de outro grande herói da DC, Superman. A sede homicida de Lobo o levaria facilmente a fazer dela seu "ganha pão", tornando-se um caçador de recompensas. Embora violento e sem escrúpulos, o personagem trabalha sob um código moral pessoal, valorizando ao máximo seus contratos, sendo incapaz de quebra-los. Muito embora já tenha feito isto a depender do dinheiro envolvido.

Miniatura DC Especial Nº 10 - Lobo

O único vínculo emocional do personagem é com seus pequenos bichos de estimação, golfinhos espaciais. E foi um incidente envolvendo estes animais que forçou Lobo (contra sua vontade) a integrar uma equipe de policiais protetores do Universo chamada de L.E.G.I.Ã.O. Uma tropa de seres de diversas origens espaciais idealizada e presidida pelo coluano Vril Dox. Estas histórias eram muito interessantes porque Lobo se via sempre controlado pelo inteligente Vril, sendo impedido de destruí-lo em função de alguma artimanha de Dox. Claro que toda a mitologia que acompanha Lobo parece muitas vezes estapafúrdia e algumas vezes até de mal gosto ao usar frequentemente a "morte" e a "violência" gratuita de maneira extremamente exagerada em suas histórias. Este componente inverosímel, escrachado e com um toque de humor negro pôde ser visto também em outros arcos do personagem, por exemplo quando ele foi contratado pelo Coelho da Páscoa para matar o Papai Noel, uma vez que este último estava aumentando sua popularidade e monopólio sobre o calendário festivo anual da humanidade.

Miniatura DC Especial Nº 10 - Lobo

Tudo isto nos arremete à pergunta que abriu esta matéria. Qual o "por que" da criação de um personagem como Lobo? Bom... Independente de seus criadores Roger Slifer e Keith Giffen terem pensado nisso, a verdade é que, em minha opinião, Lobo reflete a selvageria, falta de propósito e inutilidade do comportamento humano, sobretudo visto nas últimas décadas. Determinadas ações humanas são tão incrivelmente injustas e violentas que determinados artistas conseguem destilar isto em personagens e obras que ridicularizam fortemente nossa própria espécie. O "absurdo" passa a ser uma ferramenta de expressão que, se bem aplicada, torna-se um espelho para o qual olhamos e reconhecemos a nós mesmos, bem como nossas incoerências. Para mim foi isso que tornou Lobo, bem como outros personagens semelhantes a ele (Ex. Deadpool), símbolos atuais de comportamento super-heroico por não terem "papas na língua". Talvez a humanidade cansada de comportamentos sempre dúbios e cheios de "segundas intenções", encontre prazer em admirar anti-heróis que, embora sejam politicamente incorretos, são verdadeiros e se chocam contra uma ordem social corrupta e mentirosa.

Miniatura DC Especial Nº 10 - Lobo

Entendimentos assim validariam a popularidade de outros personagens como Wolverine e o próprio Deadpool citado acima. É o tipo "Herói Casca-Grossa" que fala o que ninguém tem coragem de falar e acaba cometendo atrocidades altamente condenáveis, mas que acabam por se justificar diante de uma humanidade que comete coisas piores. O comportamento destes anti-heróis se chocam com a forma bem comportada, corrupta e maquiavélica de muitos personagens que, embora menos violentos, cometem atrocidades piores com uma simples assinatura. E já que eu mencionei o Zeitgeist no início, eu diria que este comportamento politicamente correto e corrupto está altamente "in voga" atualmente em vários setores de nossa sociedade.

Miniatura DC Especial Nº 10 - Lobo

O fato é que, se vivêssemos em um Mundo menos insano, mais coerente e menos hipócrita, personagens como Lobo seriam totalmente inadmissíveis. Uma vez que não fariam sentido ao não terem contra o que se contrapor ou mesmo denunciar em sua essência. Mas a verdade é que vivemos num Mundo em que ele não apenas é viável, mas também admirável em alguns sentidos.

Grande abraço à todos!!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sandman - Prelúdio


Quando Neil Gaiman anunciou há alguns anos que escreveria novamente uma história de Sandman o coração de muitas pessoas (inclusive o meu) bateu mais forte e descompassado. Apesar do universo de Lorde Morpheus ter sido expandido por muitos outros autores desde os anos 90, todos sonhavam com o dia em que o próprio Neil Gaiman novamente desse voz ao seu personagem mais emblemático, até porque nenhum outro roteirista, desde então, havia tocado exatamente nele. Mas a que se deve toda esta entropia ao redor de um título como este? Particularmente, posso responder como testemunha ocular da época em que o título Sandman chegou às bancas em novembro de 1989. Naquele momento o mundo dos quadrinhos já vinha sofrendo mudanças com Alan Moore e Frank Miller ao longo da década de 80, e o terreno estava relativamente bem preparado para receber Sandman. O fato é que Gaiman apareceu e jogou toda uma geração de jovens e adolescentes em um turbilhão Shakespeariano jamais visto nos Quadrinhos. Complexo, lindo, terrível, bizarro, sombrio, triste e melancólico, o Universo de Sandman tomou de assalto mentes e corações de jovens que ansiavam por algo que transcendesse a realidade de forma contundente.


Para quem não sabe Sandman é a encarnação de um conceito inerente à existência dos seres vivos: O Sonho. Sandman é o nome de um ser que já teve muitos nomes ao longo das Eras e ao longo das Culturas ao redor do Globo. Ele já foi chamado de Oneiros, Morpheus, O Contador de Histórias, Velho-do-Sono entre outros nomes... Mas a verdade é que Sandman faz parte de um grupo de seres (Os Perpétuos) que, assim como ele, representam um aspecto eterno da realidade: Destino, Morte, Delírio, Desejo... Os Perpétuos são irmãos e foram criados no início da criação para gerirem estes conceitos que sustentam a realidade sobre a qual o Universo está constituído. O Reino de Morpheus (O Sonhar) é o local para onde todos nós vamos quando dormimos. Lá, o solitário Senhor dos Sonhos, administra todas as histórias que já passaram pela mente dos homens, algumas histórias realmente vividas, outras contadas em livros e outras que nem chegaram a serem escritas ou imaginadas.


Sandman foi escrito por Neil Gaiman, mas concebido ao lado de Sam Keith e Mike Dringenberg. No Brasil a Epopeia Onírica do Senhor do Sonhar foi lançada em fascículos de Novembro de 1989 à Outubro de 1998, e demorou todo este tempo para sair em virtude de interrupções que ocorreram ao longo do processo, até a Editora Globo (detentora dos direitos de lançamento em nosso país à época) conseguir finalizar a saga. Todos os 75 fascículos foram compilados desde então em vários relançamentos ao longo das duas últimas décadas, sendo que atualmente todo material está disponível em 04 lindos Tomos lançados pela Editora Panini (abaixo) e que estão sendo novamente relançados. A história por trás da concepção de Sandman passa pela decisão da Editora DC Comics entregar diversos personagens nos anos 80 (Pós Crise nas Infinitas Terras) à talentosos roteiristas britânicos que na época despontavam no mercado. Assim, Neil Gaiman foi convidado a revitalizar o personagem Sandman, da Era de Ouro dos Quadrinhos.


Sandman de Neil Gaiman foi a obra que me tocou mais profundamente até hoje. Conseguindo trazer à minha mente inúmeras reflexões acerca da constituição, finalidade e razão da existência. Dono de uma escrita elegante, diálogos profundos e fortes, Gaiman logo tornou-se um dos autores mais conhecidos, sobretudo para uma legião de Nerds (incluindo eu). Mas qual a importância desta revisitação de Gaiman sobre sua obra em Sandman - Prelúdio? Lá fora, Sandman - Prelúdio foi lançado em 06 fascículos, já aqui no Brasil a Panini optou em lança-lo em 03 encadernados (1ª figura que abre esta matéria). Além do apelo nostálgico sobre uma legião de fãs que Sandman - Prelúdio possui, Neil Gaiman retoma pontos importantes da Mitologia de Lorde Morpheus, dentre eles sua relação com seu pai e sua mãe (nunca antes comentada), a origem de seu Elmo de Batalha e talvez a mais importante de todas: Como ele se deixou apanhar por um simples feitiço como visto no 1º fascículo de novembro de 1989.


Com isto em mente, é fácil deduzir que Sandman - Prelúdio se passa antes da Saga inicial apresentada nos anos 80/90 e compilada nas enormes Edições Definitivas apresentadas na figura mais acima. Para quem viveu e sonhou ao lado de Morpheus no final dos anos 80 e ao longo da década de 90, ler novamente palavras proferidas pelo Senhor do Sonhar após 28 anos é uma viagem pelo tempo e espaço, e um reviver de emoções esquecidas e significados adormecidos dentro de nós.


Sandman - Prelúdio mostra personagens já conhecidos dos fãs, e lida com aspectos da mitologia de Sandman que pode parecer um pouco estranhos para um leitor que nunca tenha lido nada do personagem. Se for este seu caso, minha sugestão é que primeiramente você leia a Saga Completa inicial para então adentrar-se no Reino de Sandman - Prelúdio. Isto dimensionará a obra de outra forma e lhe trará muito mais prazer.


A obra é ilustrada por J.H. Williams III, desenhista premiado e experimentado que conseguiu captar a atmosfera fluida e onírica de Neil Gaiman. A narrativa de Gaiman ao lado do traço de Williams proporciona uma experiência extremamente interessante ao leitor, que consegue em seu íntimo interagir com o clima etéreo do Sonhar.


Caso você nunca tenha lido ou ouvido falar de Sandman de Neil Gaiman está na hora de você conhecer esta obra que rivaliza com qualquer obra clássica em conteúdo e profundidade.

"Não há ninguém no mundo que saiba tantas histórias como o Velho-do-Sono. De noite, quando as crianças ainda estão à mesa, muito quietinhas, ou sentadinhas em seus bancos, ele tira os sapatos e sobe a escada, muito devagar, abre a porta sem fazer barulho e sopra areia nos olhos delas"
Hans Christian Andersen (1805-1875)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Maus - A História de Um Sobrevivente


Escrever sobre eventos históricos sob uma perspectiva acadêmica, ou então meramente informativa foi o que aconteceu ao longo do tempo em relação à diversos acontecimentos históricos. Isto se deu também em relação ao Holocausto Judeu pelas mãos dos Alemães na 2ª Guerra Mundial, a tal ponto de muitos terem banalizado o ocorrido e alocado este genocídio ao lado de tantas outras notícias contemporâneas. No entanto, escrever sobre um evento sob a ótica de quem o viveu, de quem o presenciou, de quem foi consumido por ele, moral e emocionalmente, transforma a obra em atemporal, eterna. É fácil ler que milhões foram mortos em câmaras de gás, difícil é saber que alguém que conhecemos e gostamos foi morto em um lugar assim. Ao lermos Maus de Art Spiegelman é isso que acontece. Nos afeiçoamos às pessoas dentro do livro a tal ponto que elas se tornam indivíduos com os quais nos importamos. Mas além do descrito acima, o que transforma esta obra em algo tão especial? Tão eterna? Tão fascinante em sua dimensão aterradoramente visceral?


Maus foi iniciado no início da década de 1980 e só concluído em 1992. Logo fica muito claro para o leitor o qual custoso, angustiante e necessário foi para o autor sua escrita, tal qual um ritual de exorcismo é imprescindível para o possuído. Art Spiegelman desce aos porões de sua alma e de lá puxa esta obra e, tal qual uma jornada espiritual, consegue trazer à luz algo que o machuca muito, mas ao mesmo tempo parece o absolver de muitas coisas. A obra conta a história de Vladek Spiegelman, judeu Polonês e pai de Art. A narrativa acontece a partir de entrevistas que Art fez com seu pai já velho no final dos anos 70. Mas a obra possui muitas camadas, pois alterna entre o presente (as entrevistas junto ao pai) e o período da 2ª Guerra Mundial, em que tudo vai se desenrolando sob o olhar do inventivo e jovem Vladek. O autor não tem medo de expor sua relação conturbada com o pai que emoldura de um jeito incrível a narrativa de Vladek, dando densidade, humanidade e acima de tudo sentimento ao relato.


Embora criticado por alguns, Art Spiegelman escolhe de forma brilhante um jeito de retratar os diversos personagens desta amarga história. Ao dar características zoomórficas às diversas nações envolvidas, o autor consegue um efeito extremamente genial, pois absolve e culpabiliza os diversos povos que se envolveram no conflito (Judeus são retratados como ratos, Poloneses como porcos, Norte-americanos como cães, Alemães como gatos, Suecos como renas, Franceses como Sapos, Ciganos são libélulas, Russos Ursos, Britânicos Peixes...). Este recurso faz com que a leitura se expanda e amplie as relações entre todos, uma vez que o conflito levou à acentuação das diferenças entre nacionalidades, ao ponto que na época você não era mais uma pessoa, mas uma "nação", estereotipada, julgada e condenada por cada um.


Embora o relato de Vladek seja pungente, forte e visceral, ouso dizer que o que transforma realmente a obra em algo tão precioso tenha sido duas coisas, 1) a capacidade de Art Spiegelman transcender o mero relato de mortes e crueldades para algo além, trazendo luz à maneira como o indivíduo e o coletivo lidaram e ainda lidam com tamanho crime, e 2) a personalidade incrível de Vladek e sua relação com o filho Art. Por mais estranho que meu comentário a seguir possa parecer, garanto que você se pegará rindo da simplicidade, da humanidade, dos problemas e personalidade do velho Vladek, além de sua relação com Art e Françoise (esposa do autor). As "aparentemente" simples e pequenas tiras de desenho da obra escondem tesouros gráficos e aconselho (fortemente) à todos a prestarem muita atenção nas ações de fundo que sempre estão acontecendo em cada quadrinho. Perder isto em uma leitura rápida, é simplesmente perder grande parte da sensibilidade que o autor quis expressar.


Confesso que para mim, Maus figura entre as maiores obras literárias que eu já li, pela sua franqueza, genialidade narrativa, relevância histórica, honestidade e coragem. Maus foi ganhador do Prêmio Pulitzer em 1992, um dos prêmios mais almejados por jornalistas do mundo, outorgado para pessoas que realizam trabalhos de excelência nas áreas de jornalismo, literatura e composição musical. O fato da obra ter ganho este prêmio transcende seu valor e é acima de tudo simbólico, uma vez que foi a 1ª vez que o prêmio foi dado para uma obra em quadrinhos, catapultando os Quadrinhos para um novo nível, consolidando esta mídia como forma de expressão verdadeira de qualquer desenvolvimento artístico.


Bem amigos, finalizo com uma imagem em que Art Spiegelman se auto-retrata. A imagem fala muito por si, mas você só concebe sua verdadeira dimensão ao ler a obra. Em um mundo tão estranho como o nosso atualmente, Maus é um farol a nos lembrar sobre quem somos... Para o bem e para o mau.

Um grande abraço à todos!!

sábado, 14 de janeiro de 2017

Lendas do Universo DC - Lista de Lançamentos - Atualizado Janeiro/2017

Nº 01 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Alan Davis - Vol. 01; Nº 02 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Alan Davis - Vol. 02.

Em dezembro de 2014 vimos uma nova iniciativa da Editora Panini, muito bem sucedida aliás, em resgatar clássicos do Universo DC agrupados a partir da perspectiva dos desenhistas. Artistas que deram tons e características peculiares aos personagens da DC. A iniciativa teve como personagem foco inicial o Cruzado Encapuzado de Gotham e encheu os olhos de leitores antigos e, porque não dizer, de toda uma nova geração que apenas ouvia falar dos grandes profissionais do passado. O 1º a estampar as capas desta linha foi Alan Davis. Qualquer leitor com um pouco de experiência já deve ter localizado determinados traços característicos que, assim como um DNA, informa na hora quem é seu dono. Posso citar um exemplo disto que fará você concordar comigo na hora, John Byrne, por exemplo. O inglês Alan Davis é outro exemplo. Folhear as páginas destes dois volumes acima é uma experiência incrível porque é impossível não lembrar de personagens como Capitão Britânia e grupos como Excalibur, ambos da Marvel. Só que a surpresa é ver este mesmo traço dentro do Universo do Homem-Morcego, simplesmente incrível.

Nº 01 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Jim Aparo - Vol. 01; Nº 02 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Jim Aparo - Vol. 02; Nº 03 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Jim Aparo - Vol. 03; Nº 04 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Jim Aparo - Vol. 04; Nº 05 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Jim Aparo - Vol. 05; Nº 06 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Jim Aparo - Vol. 06; Nº 07 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Jim Aparo - Vol. 07.

Já em 2015 vimos que a iniciativa estava dando certo, pois chegava às bancas a sequencia desta linha com o artista Jim Aparo. Nascido em Nova York em 1932, Jim Aparo faleceu em 2005 sendo um dos grande desenhistas da Era de Prata das HQs. Para mim Aparo definiu o visual do Batman nos anos 80. Seu traço marcaram uma fase importante do personagem nesta década. Histórias importantes na mitologia do Vigilante de Gotham estiveram sob sua responsabilidade artística, como por exemplo Morte em Família (republicada recentemente dentro da Coleção de Graphic Novels Eaglemoss da DC - Nº 11).

Nº 01 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Neal Adams - Vol. 01; Nº 02 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Neal Adams - Vol. 02; Nº 03 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Neal Adams - Vol. 03; Nº 04 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Neal Adams - Vol. 04; Nº 05 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Neal Adams - Vol. 05.

Na mesma época (início de 2015), já começava a correr por fora o lançamento dos volumes ligados à obra de Neal Adams dentro do cânone de Batman. Para mim, os desenhos de Adams sempre foram associados à personagens como Lanterna Verde e grupos como Liga da Justiça, só que não. O destaque deste volume é a passagem de Adams pelas histórias do Homem-Morcego entre a 2ª metade dos anos 60 e 1ª dos anos 70. Outro grande ponto alto, não apenas nestes volumes dedicados à Neil Adams mas também nos dos Jim Aparo, são as histórias ligadas à revista The Brave and The Bold. Uma publicação que possuía como foco a parceria de Batman com outros personagens do Universo DC. Assim, é um grande prazer ver Batman ao lado do Arqueiro Verde, Vingador Fantasma, Desafiador, Canário Negro, Homem-Borracha, Pantera, entre outros.

Nº 01 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Marshall Rogers - Vol. 01; Nº 02 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Marshall Rogers - Vol. 02; Nº 03 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Marshall Rogers - Vol. 03.

Quase que simultaneamente, vimos também chegar às bancas a participação do desenhista Marshall Rogers dentro desta linha. Confesso que não conhecia o traço de Rogers, ou talvez conhecesse mas não ligava à nenhum desenhista específico. Mas posso dizer que frente aos comentários que vi no Facebook de amigos e colegas, acredito que é um material muito bom e emblemático.

Nº 01 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Gene Colan - Vol. 01; Nº 02 - Lendas do Cavaleiro das Trevas - Gene Colan - Vol. 02.

Gene Colan nasceu nos EUA em 1926, ou seja, muito próximo da aurora dos Quadrinhos. Mas foi na década de 60 que se notabilizou na Marvel como desenhista principal de séries como Demolidor, Homem de Ferro e Capitão América. Mas talvez seu trabalho mais popular tenha sido na revista The Tomb of Dracula nos anos 70. Ele praticamente desenhou todos os números da revista, muito popular no mainstream americano à época. Colan também criou, ao lado de Marv Wolfman um personagem conhecido do grande público atualmente, Blade. Bem, tudo isso credencia Gene Colan a estar presente nesta coleção e a ser apreciado com todo mérito que merece.

Nº 01 - Lendas do Homem de Aço - José Luiz García-López - Vol. 01; Nº 02 - Lendas do Homem de Aço - José Luiz García-López - Vol. 02.

Talvez já seja de domínio público esta informação, mas mesmo assim acho que vale a pena mencionar dado a sua importância: José Luis García-López foi ninguém menos o desenhista que estabeleceu o padrão visual dos personagens da DC nos anos 70. Em um esforço de padronizar a imagem de seus heróis em lancheiras, roupas, lençóis, canecas e tudo mais, a DC convidou García-López para trazer esta identidade visual aos seus heróis e vilões. O desenhista há muito já chamava atenção pelo seu trabalho, e estes dois volumes trazem alguns destes mais memoráveis trabalhos. O leitor destes volumes se espantará ao contemplar os desenhos e perceber que este Superman, Mulher-Maravilha entre outros personagens, são exatamente aqueles que sempre habitaram nosso subconsciente como sendo a imagem ideal dos personagens e isto não é à toda, já que muitos de nós crescemos ao lado de produtos licenciados que traziam o traço de García-López.

Nº 01 - Lendas do Universo DC: Lanterna Verde e Arqueiro Verde - Dennis O´Neal e Neil Adams - Vol. 01; Nº 02 - Lendas do Universo DC: Lanterna Verde e Arqueiro Verde - Dennis O´Neal e Neil Adams - Vol. 02; Nº 03 - Lendas do Universo DC: Lanterna Verde e Arqueiro Verde - Dennis O´Neal e Neil Adams - Vol. 03.

O lançamento destes 3 volumes acima é duplamente especial. Em 1º lugar pela óbvia proposta de trazer o traço de Neil Adams mas, em 2º lugar, o fato de contemplar uma das fases mais aclamadas destes dois personagens dentro do Universo DC. Lançadas no início dos anos 70 esta fase conseguiu sintonizar exatamente a efervescência dos problemas da época. As Editoras, confrontadas com novos problemas derivados da desilusão do "Futuro Ideal" apregoado nos anos 50 e 60 dentro da geração de Baby Boomers, deu liberdade aos roteiristas para aproximarem suas histórias de super-heróis aos problemas do homem comum. A interação entre Lanterna e Arqueiro Verde foi então usada como epicentro deste desafio, fornecendo histórias que questionavam o papel do herói e sua relevância em um Mundo muito mais complexo, em que o agressor nem sempre é o errado. O idealista Oliver Queen (Arqueiro Verde) coloca o "escoteiro" Hall Jordan (Lanterna Verde) para pensar sobre estas questões e tudo virá uma genial sequencia de histórias. Ou seja, oportunidade única de ler este material!!!

Bem amigos... Tudo que espero é que a Ed. Panini continue com esta proposta. Recentemente ela anunciou a chegada de mais volumes desta linha agora abordando a Princesa Amazona Mulher-Marilha sob o traço de ninguém menos que George Pérez, um dos gênios responsáveis pela reformulação da Princesa de Themyscira pós Crise nas Infinitas Terras.

Um grande abraço à todos!

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Miniatura DC Nº 24 - Pistoleiro

Miniatura DC Nº 24 - Pistoleiro

Letal e muito perigoso, o Pistoleiro construiu sua carreira no Universo DC rivalizando com personagens importantes, como visto em seus diversos encontros com o Cruzado Encapuzado de Gotham. Embora tenha aparecido pela 1ª vez em Detective Comics Nº 59 de Julho de 1950, foi apenas nos anos 80 que o Pistoleiro foi elevado à outro nível pelas mãos do escritor John Ostrander e artistas como Luke McDonnell e Karl Kesel ao inseri-lo dentro do grupo Esquadrão Suicida. A partir disto os fãs de quadrinhos realmente se conectaram com a dinâmica do personagem. Hoje examinaremos a miniatura do Pistoleiro dentro da Coleção de Miniaturas da DC da Eaglemoss, bem como sua origem e saga pessoal até se transformar em uma máquina humana de matar, rivalizando até mesmo com sua contraparte da Marvel, o Mercenário.

Miniatura DC Nº 24 - Pistoleiro

Um dos primeiros destaques da peça para mim foi a pintura que, neste caso, apresenta-se bem feita e, tão importante quanto, bem delimitada. Além disso, as cores são vivas e, no caso da máscara, destaca-se por um brilho metálico à semelhança de uma "malha" de metal. São muitos os adereços de combate presentes no personagem. Todos podem ser muito bem vistos na peça. Além dos braceletes carregados com balas e em forma de pistola, temos também a indumentária branca que recobre abdômen, tórax e calção. Na região do abdômen, vemos placas que simulam um colete, dando firmeza e proteção ao tronco. O cinto traz pequenas bolsas nos dois flancos, provavelmente usadas para carregar pequenos acessórios de combate.

Miniatura DC Nº 24 - Pistoleiro

É interessante notar também a presença de dois dispositivos presos por cintos ao redor das coxas. Ao que parecem são locais para guarda de munição extra. Embora tais dispositivos sejam pequenos, apresentam-se bem delimitados e modelados. As botas trazem o mesmo amarelo das luvas e um tipo de reforço na superfície anterior da perna, chegando bem próximo aos dedos dos pés. A tradicional luneta telescópica (marca registrada do personagem) no olho direito está presente e destaca-se muito bem, além do alvo marcado bem no meio do tórax, evidenciando a tendência suicida do personagem. Um último detalhe a ser destacado é a existência das mesmas placas brancas (vistas ao redor do abdômen), também na região do tórax superior. Isto mostra que o Pistoleiro usa, por baixo da malha vermelha, um colete que recobre todo seu tronco, mas que é visível apenas na região superior do tórax, nas costas, ao redor do abdômen e cintura.

Miniatura DC Nº 24 - Pistoleiro

O homem por trás da máscara do Pistoleiro chama-se Floyd Lawton, e sua tendência homicida e suicida tem origem em sua infância, fruto de um lar disfuncional e cheio de problemas. Lawton era filho de um homem muito rico chamado George Lawton, sua mãe, Genevieva passou a odiar o marido em função de suas características abusivas e ditatoriais. O irmão de Floyd, Ed, era apenas um pouco mais velho que ele, porém tinha grande familiaridade com armas, assim como o pequeno Floyd. A desequilibrada Genevieva, no entanto planejou um hediondo plano que envolvia os filhos. Jogando os dois meninos contra o pai, ela pediu à eles que o assassinem, justificando isso pela necessidade de ser protegida do marido. Floyd não concorda com isso, mas Ed sim, que tranca o pequeno Floyd para fora de casa numa tarde para executar o assassinato.

Miniatura DC Nº 24 - Pistoleiro

As coisas, no entanto pioraram mais ainda. Floyd idolatrava o irmão e, na ânsia de impedi-lo de cometer o crime, pega uma arma e sobe em uma árvore para tentar atirar no braço de Ed, impedindo-o assim de se tornar um criminoso. Porém, quando foi atirar o galho que o sustentava quebrou, fazendo com que Floyd disparasse e acertasse a cabeça de Ed. O pai também sofre um tiro da arma de Ed e fica paralítico. Todo incidente foi abafado com a fortuna e influência de George Lawton que continuou legalmente casado com Genevieve, porém praticamente sem contato algum. Com tudo isso Floyd cresceu à sombra deste terrível acontecimento, e não tardaria para que se tornasse um adulto muito inquieto e cheio de uma estranha necessidade homicida e suicida. Após casar-se, Floyd teve um filho, Eddie, e mudou-se para Gotham City. Talvez sugestionado pela obscuridade da cidade, ele começou a atuar como um combatente do crime apenas usando máscara, casaco e chapéu. Isso fez com que logo Floyd entrasse no radar do Homem-Morcego, que o prendeu. Após cumprir pena, Floyd retornou a atuar, só que agora como assassino de aluguel, adotando o nome de Pistoleiro e vestindo o uniforme já tradicional do personagem.

Miniatura DC Nº 24 - Pistoleiro

Nessa época o Pistoleiro entraria em vários conflitos com o Batman e ingressaria para o Esquadrão Suicida, provavelmente motivado por suas tendências letais e de auto-agressão. No Esquadrão, Floyd ficaria conhecido pela sua inconsequência diante do perigo e letalidade observada em várias missões. O passado, no entanto o alcançaria novamente. Sua mãe, Genevieve sequestraria o pequeno filho do Pistoleiro, Eddie, condicionando sua liberdade ao assassinato de George, pai de Floyd pelas suas próprias mãos. Dentre os sequestradores contratados por Genevieve havia um homem muito perigoso chamado Wes, que além de tudo possuía histórico de pedofilia. Floyd revirou Gotham City atrás de seu filho, matando todos os envolvidos, exceto Wes, que conseguiu fugir com Eddie. Quando o Pistoleiro encontrou o esconderijo de Wes, seu filho já estava morto. A vingança de Floyd contra Wes foi horrível, e levou o sequestrador à uma morte lenta e dolorosa. Quanto à sua mãe, Floyd foi ao seu encalço e atira propositadamente em sua espinha, deixando-a paralítica e condenando-a ao mesmo destino do marido.

Miniatura DC Nº 24 - Pistoleiro

O Pistoleiro continuaria sua saga violenta, ora sozinho ora ao lado do Esquadrão Suicida. Histórias memoráveis tendo o personagem como seu centro foram publicadas no Brasil, como foi o caso de Pistoleiro, publicada em DC Especial Nº 04 de Março de 1991, em que a psiquê de Floyd Lawton é dissecada pela psiquiatra Marrie Herrs, que tenta cura-lo de sua depressão e tendências suicidas. Nesta história a psiquiatra tenta atingir seu objetivo revisitando o passado de Floyd e sua tentativa frustrada de resgatar o filho Eddie. Recentemente, o personagem alcançou popularidade mundial dentro do fraco Esquadrão Suicida, filme de 2016, em que é interpretado por Will Smith.

Miniatura DC Nº 24 - Pistoleiro

De todo modo, o Pistoleiro é um personagem enigmático e com grande potencial dramático, haja vista sua história pessoal e seu histórico de combate. Um homem complexo, que oscila entre o lado bom e mal com consequências catastróficas para todos ao seu redor. Um personagem que sintetiza bem nosso tempo, em que heróis não são 100% bons e bandidos também são mais complexos do que pensamos, tendo em vista serem produto de uma organização econômica, social e política cheia de falhas.

É isso aí amigos... Um grande abraço à todos!!

sábado, 31 de dezembro de 2016

O Soldador Subaquático


Raras são as vezes em que estamos no lugar certo, na hora certa e em contato com a obra certa... É necessário a associação de muitas variáveis fora do nosso controle para que o cenário perfeito ocorra e nos permita então viver uma "epifania" (epifania aqui no sentido de: "Aparecimento ou manifestação divina"). Mas às vezes acontece... E quando acontece podemos tocar algo inefável, só entendido por nós no nosso íntimo mais profundo. Determinados acontecimentos em nossas vidas favorecem o aparecimento destes ponto únicos da existência... Por exemplo: Nascimentos, Mortes, Uniões Conjugais... São momentos que nos ajudam a alcançar e tocar o tecido da existência. Bem... E ao apagar das luzes de 2016 chegou às minhas mãos uma obra que para mim foi uma epifania. Uma obra que me permitiu acessar coisas muitos profundas dentro de mim e, justamente por ser uma leitura pessoal, pode ser que, caso você venha a ler tal obra, talvez não sinta as mesmas coisas porque tudo é sempre muito pessoal. Mas assim foi comigo com O SOLDADOR SUBAQUÁTICO de Jeff Lemire.

 

O Soldador do título é Jack Joseph, um homem à espera de seu 1º filho. Há coisas, no entanto no passado de Jack relacionado ao seu pai que não lhe permitem avançar, receber as coisas novas que a vida lhe oferece. Jack se sente preso à um passado mal resolvido e assim sua vida vai se consumindo à margem da existência. O único lugar que Jack se sente razoavelmente bem é no fundo escuro e silencioso do oceano, soldando e consertando as fundações de uma Plataforma de Petróleo próxima ao vilarejo em que vive na região litorânea da Baia de Tigg. A vida de Jack passaria assim, como a de tantas pessoas que se arrastam na existência em busca de algo novo, revelador sobre si. Pessoas que cada dia mais se embriagam de coisas materiais em busca do imaterial... Jack passaria assim pela vida, não fosse algo que acontece com ele um dia no profundo oceano... Algo revelador.


Sempre foi difícil para mim ler histórias em preto e branco, e quando vi que O Soldador Subaquático era uma história assim pensei em declinar desta viagem. Mas venci o preconceito e fui supreendido com uma explosão de tons, sons (sim... sons!) e subtextos nesta obra de Jeff Lemire. Você pode ler O Soldador Subaquático rapidamente, prestando muito pouca atenção nas imagens e tesouros escondidos em cada quadrinho, muitas vezes sem qualquer coisa escrita, no entanto se fizer isso não conseguirá submergir na história. Mas, caso opte em prestar atenção em cada quadro, cada expressão facial dos personagens e deixar as onomatopeias de cada quadro soarem em seu cérebro, você viverá uma experiência única. Conseguirá mergulhar fundo na psiquê das personagens e terminará a obra realmente se importando com elas, amando-as.


A obra é enxuta nas palavras mas traz uma torrente de significados, aprofundando a solidão de Jack e criando uma atmosfera que proporciona uma experiência de imersão no leitor. Uma imersão completa na vida e no drama pessoal de Jack. Sem soluções mirabolantes, mas contidas, Jeff Lemire entrega uma obra fantástica que eu passo a enquadrar entre as minhas preferidas. Isso me deixa mais curioso para conhecer o outro trabalho de Lemire, a Saga de Sweet tooth.


Epifanias são raras e totalmente pessoais... Não são traduzidas em palavras e, quando tentamos fazer isso seu significado nos escapa e ficamos totalmente frustrados com o efeito que nossa tentativa causa nas pessoas à nossa volta. As únicas pessoas credenciadas para traduzir epifanias para o Mundo são um tipo bem especial de gente... Os Poetas, que conseguem se comunicar em um linguagem diferente daquela que usamos cotidianamente, a linguagem do coração. Jeff Lemire transmuta algo assim em uma história que chegou às minhas mãos nos estertores de um ano que se esvai e um novo ano que se avizinha trazendo sensações e sentimentos novos.

 

O que será que está subentendido na história de nossa existência? O que está por baixo? Porque conseguimos tocar isto apenas ocasionalmente ao longo de nossa vida? O SOLDADOR SUBAQUÁTICO não responde a essas perguntas... Mas dá apenas tênues pistas. Um FELIZ 2017 à todos!!