sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Fátima - Milagre ou Construção?


Em Julho de 2018 visitei Portugal e não pude deixar de ir à cidade de Fátima e à aldeia de Aljustrel. Conhecido ao redor do Mundo, o Santuário de Fátima possui forte apelo no imaginário coletivo de católicos, estudiosos e pessoas em geral. Minha ida ao Santuário foi motivada por um misto de curiosidade (já que em minha infância eu ouvia muito sobre as aparições de Nossa Senhora no local) e vontade de proporcionar à minha mãe esta viagem e experiência única. Sou cristão, mas minhas raízes católicas ficaram para trás há 3 décadas. Tudo teria sido mais uma experiência turística para mim não fosse uma sensação que me acometeu quando iniciei minha visita pelo Santuário. Confesso que, apesar de já ter se passado alguns meses da visita, ainda não consigo definir o que senti durante a manhã e início da tarde que passei ali. Um misto de uma grande vontade de ficar em silêncio associado à uma sensação profunda de contato com algo diferente, que transcendia meu entendimento. Ao voltar para meu hotel em Lisboa tive muita dificuldade para dormir naquela noite, assolado por uma sensação de "presença". Ainda naquele quarto de hotel decidi que precisava saber o que tinha acontecido de fato em Fátima em 1917. No entanto, queria ler algo que não fosse contaminado por seus detratores ou defensores. Queria um relato destituído dos vieses dos dois lados.

Basília do Santuário de Fátima

Em minha busca (ainda no quarto de hotel) deparei-me com o livro "Fátima: Milagre ou Construção?" da Jornalista Portuguesa Patrícia Carvalho. Comprei-o-o e não via a hora de retornar ao Brasil para lê-lo. Concluída a leitura do livro posso dizer que consigo responder a pergunta do título: "MILAGRE ou CONSTRUÇÃO?". Para mim fica a seguinte resposta: "As duas coisas". Algo sobrenatural realmente parece ter acontecido com os três pequenos pastorinhos (Lúcia dos Santos e os irmãos Jacinta e Francisco Marto), todos abaixo dos 10 anos de idade no dia 13 de Maio de 1917 na região da Cova da Iria. Local que os pequenos usavam para apascentar as ovelhas pertencentes à família de Lúcia. O avistamento relatado por Lúcia em 13 de Maio se repetiria ao longo dos cinco meses seguintes daquele ano, sempre nos dias 13 de cada mês, sendo 13 de Outubro de 1917 a data da última aparição. Portugal vivia à época uma ferrenha perseguição à Igreja Católica fruto de uma Governo Republicano que queria romper definitivamente com dogmas religiosos que, em sua concepção, atrasava o desenvolvimento do país. Missas em lugares públicos e até trajes religiosos (usados por padres e freiras) eram alvo do governo na época.

Da esquerda para direita: Lúcia, Francisco e Jacinta.

Embora o governo central de Lisboa ligasse a religiosidade ao atraso do povo, este por sua vez era pobre e entendia (instintivamente) sua religiosidade como uma forma de ser acolhido e ter esperança diante das agruras cotidianas. Este povo, portanto não entendia este conflito político-religioso que se instituía em plena aurora do novo século. Foi neste cenário, portanto que se deu as Aparições na Cova da Iria próximo à aldeia de Aljustrel. Um povoado pobre onde a maioria das pessoas não sabia ler, e as poucas mães alfabetizadas eram vistas como detentoras de grande sabedoria. A mãe de Lúcia, Maria Rosa, era uma destas mães que sabia ler e sempre lera para seus filhos os catecismos católicos todas as noites. Era, portanto do conhecimento de Lúcia (a principal vidente do trio, com 10 anos de idade em 1917) os relatos das aparições na cidade de Lourdes na França e de outros relatos de milagres que a mãe lia para ela e seus irmãos. Muitos detratores das Aparições de Fátima veriam nestas experiências domésticas de Lúcia, a fonte dos relatos da menina. Mas o que exatamente aconteceu com essas crianças?

Cova da Iria à Época das Aparições - Hoje Local do Santuário de Fátima

No dia 13 de maio de 1917 as 3 crianças estavam da Cova da Iria pastoreando o rebanho e, após terminarem de rezar o terço como de costume, começaram a brincar. Segundo o relato das 3 (mas principalmente de Lúcia) elas foram surpreendidas por um relâmpago acima de uma Azinheira (pequena árvore comum naquela região). Apesar do medo elas observaram um clarão acima da pequena árvore dentro do qual se podia divisar a figura de uma Menina. O relato inicial de Lúcia descreve que era uma menina por volta de seus 15 anos. Estava vestida com sapatinhos, meias, saia, blusa e um cinto com detalhes em ouro (algo que chamou muito a atenção de Lúcia). Lúcia conversou com a "Menina", travando uma conversa (descrita no Livro de Patrícia Carvalho), oscilando entre perguntas sobre sua identidade e o que ela queria. A Aparição não diria à Lúcia (em um primeiro momento) exatamente sua identidade ou mesmo seu desejo, limitando-se à informar que apareceria novamente dali há um mês naquele local. O relato dos pastorinhos aos pais rendeu uma ida à igreja onde eles repetiram tudo ao padre local, que por sua vez (e sabiamente) não emitiu julgamentos. Mantendo esta postura discreta ao longo de 1917 durante as outras aparições. A mãe de Lúcia seria uma das pessoas que mais a desencorajaria a continuar afirmando o que vira. Talvez com medo de estimular uma mentira da filha.


Seria imprudente de minha parte tentar reproduzir todos os diálogos relatados por Lúcia entre ela e a "Menina" (que logo passaria, ao longo dos meses, a ser chamada de "Senhora"). O fato é que apesar de toda discrição do padre local e das palavras contrárias da mãe, o relato de Lúcia ganhou vulto. Isso fez com que a cada 13 de maio ao longo de 1917 o número de pessoas afluindo à Cova da Iria só aumentasse. A imprensa Republicana passou a noticiar os relatos das Aparições condenando-os e explicando-os à luz da histeria coletiva e imaginação fértil e mirabolante de Lúcia. O fato é que mesmo esses artigos fizeram os relatos de Lúcia se expandirem. Foi neste cenário que uma importante figura chegou em Aljustrel, o Padre Manuel Nunes Formigão. Seria ele o responsável por tornar Fátima, ao lado do Bispo Dom José Correia da Silva, um local de adoração divulgando os relatos de Lúcia. Dom José percebeu o difícil momento em que a Igreja se encontrava em Portugal, e Fátima seria talvez a resposta que poderia ser dada ao Governo Laico que ora se impunha. A última Aparição se deu em 13 de outubro de 1917, quando a Senhora prometera realizar um grande milagre nesse dia. A população que afluiu à Cova da Iria nesse dia foi muito grande, e muitos dos presentes realmente relataram o que ficou conhecido como o "Milagre do Sol". Durante algum tempo muitos presenciaram movimentos aleatórios e mudanças de cores no Sol. Um fenômeno que emocionou à muitos no dia, muito embora alguns relatassem não terem conseguido visualizar tal fenômeno. A esta discrepância de relatos se diria que talvez fosse fruto de falta de fé de muitos.

Padre Manuel Nunes Formigão

Bispo Dom José Correia da Silva

E as crianças? O que aconteceu com elas? Jacinta e Francisco morreriam pouco depois do fim das Aparições vítimas de um surto de doenças pulmonares que acometeria Portugal. Lúcia, no entanto teria sua vida controlada pelo Bispo Dom José, que a afasta de Aljustrel e a coloca em um Convento. Não podemos dizer que isso foi contra a vontade de Lúcia, já que ela mesmo descreve em suas cartas sua anuência. Foi à pedido de Dom José que a vidente escreveria o que ficou conhecido como suas Memórias Parte 1, 2, 3 e 4. Nas quais uma Lúcia mais adulta refaz muitos de seus relatos inciais. Dando inclusive mais consistência ao que viria a ser conhecido como Segredos de Fátima. A imagem que conhecemos hoje da Senhora de Fátima foi concebida por um artesão local à pedido do Padre Formigão a partir de ajustes nos relatos inciais de Lúcia, daí as diferenças entre a imagem que conhecemos e os relatos iniciais da vidente sobre uma "Menina".

Jacinta (no colo) pouco antes de seu falecimento

O livro de Patrícia Carvalho traz vários depoimentos de pessoas que estiveram presentes nos dias 13 de cada mês durante as aparições. É interessante notar algumas coincidências entre estes relatos. Por exemplo a presença de um zumbido (como de abelhas) que acompanhava os momentos nos quais a Senhora falava com os Pastorinhos. Vale lembrar que durante as conversas com a Senhora, apenas os 3 viam a Aparição. Um outro aspecto coincidente nestes relatos de terceiros é a existência de uma aura de luz que circundava os 3 pequenos enquanto conversavam com a Senhora. Estes, entre outros aspectos retirados dos relatos de testemunhas oculares dos eventos daquela estranho ano de 1917 nos faz pensar que realmente algo aconteceu naquele local. Porém, não podemos negar que a Igreja também entendeu o potencial para a fé em tudo aquilo e a oportunidade de manutenção de sua existência em terras portuguesas.

Dom José e Lúcia anos depois, próximo à ordenação da vidente

A Igreja Católica reconheceria na década de 30 as Aparições como legítimas a partir de um relatório elaborado por uma comissão tendo o Padre Formigão à frente. Fátima já estava se tornando na época a "Lourdes Portuguesa". O livro de Patrícia Carvalho se encerra com algumas opiniões muito interessantes de estudiosos, leigos e religiosos acerca de Fátima. Um deles me chamou especial atenção. Nele um dos estudiosos diz que podemos considerar a existência de duas "Fátimas". Uma que advém dos relatos originais de uma pequena pastora que sustentou sua experiência mesmo diante de diversas pessoas que pediam para que ela a negasse. Esta seria a "Fátima Original", aquela que se ancora em testemunhos originais dos 3 pastores e de pessoas que estiveram presentes nos locais das Aparições. Há, no entanto uma segunda Fátima, uma que cresceu ancorada sobre relatos de uma Lúcia já adulta. Relatos estes que eram supervisionados diretamente pelo Bispo Dom José e se articulavam com o Mundo em plena transformação (2ª Guerra Mundial, surgimento da Rússia como potência militar...). É curioso notar que nestas memórias posteriores de Lúcia há uma íntima associação entre o que a "Senhora" disse em 1917 e os eventos Mundiais posteriores que, em 1917 nem tinham acontecido ainda. Daí a conclusão, da qual compartilho, de que há duas "Fátimas". Uma primeira, cheia de relatos interessantes, ingênuos e honestos, e uma segunda, já sob supervisão de Dom José e do Padre Formigão.

Jacinta, Lúcia e Francisco
Acontecimentos assim sempre escaparão ao entendimento completo, como sempre acontece ao que é sobrenatural. A ciência não pode trazer respostas cabais quando temos o elemento "fé" dentro da equação e, como é costumeiramente falado nas Missas católicas... Este é o Mistério da Fé.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Miniatura DC Nº 29 - Adão Negro

Miniatura DC Nº 29 - Adão Negro

Com o passar das décadas e, sobretudo após os anos 80, o desenvolvimento de personagens cada vez mais complexos em suas motivações foi ficando cada vez mais frequentes. Isso fez parte do movimento de amadurecimento dos quadrinhos como mídia que espelha nossa realidade muitas vezes ambígua, complexa e injusta. Personagens como Doutor Destino e Ciclope na Marvel são exemplos excelentes, ou seja, passaram a lutar por seus ideais não importando os meios para defender o que consideram um bem maior, ou uma determinada população da qual fazem parte e que foi massacrada ao longo do tempo. Nos casos citados acima, os ciganos (Dr. Destino) e os mutantes (Ciclope). Adão Negro poderia ser alocado dentro desta classe de personagens de comportamento ambíguo e muitas vezes justificável aos olhos de muitos. Um homem com uma origem que remonta ao Egito antigo e que foi cada vez mais assumindo sua ideia de mundo e lutando por ela. Hoje veremos este personagem e a miniatura que a representa dentro da Coleção de Miniaturas Marvel Eaglemoss.

Miniatura DC Nº 29 - Adão Negro

Na peça Adão Negro aparece em sua tradicional postura de arrogância e nobreza em pé com braços cruzados e com um olhar que se dirige para baixo, como que a encarar alguém ou algo que considera abaixo de si. Seu traje obedece ao design criado desde sua primeira aparição em dezembro de 1945 na Revista The Marvel Family Nº 01. O uniforme é na verdade o mesmo de sua contraparte considerada "do bem", o Capitão Marvel, hoje nomeado de Shazam. A diferença está apenas na cor preta que predomina no uniforme. A indumentária de Adão Negro foi muito bem aceita, tanto que até hoje praticamente não sofreu mudanças. A concepção original do personagem já trazia traços faciais marcantes, as sobrancelhas erguidas e pontudas (como que em uma constante averiguação ou análise), orelhas que foram ficando cada vez mais pontudas (como que a expressar um "ar" élfico superior), cabelos bem curtos modelados ao redor de duas entradas na testa caracterizando o aspecto alienígena (pelo menos para época em que foi criado em 1945). Pequenos ajustes como estes impregnam nosso inconsciente e permitem que aloquemos o personagem dentro de um escopo "estranho" e quem sabe até "bizarro". E é justamente isso que nos atrai.

Miniatura DC Nº 29 - Adão Negro

A peça traz uma musculatura razoavelmente bem delimitada e uma pintura que, embora chame bastante a atenção em seu brilho (algo bem caraterístico do personagem), poderia ter sido um pouco melhor realizada nas delimitações entre o amarelo da faixa da cintura e botas com o preto da malha. Mas sabemos que as peças desta coleção são pintadas a mão e, isso explica estes pequenos deslizes. Embora a peça possa parecer sem grandes atrativos em função da ausência de acessórios (armas, dispositivos e outros adereços), ela caracteriza bem o Adão Negro, alguém que não precisa de nada além de si próprio para lutar suas batalhas. Mas de onde veio tanto poder, confiança e orgulho próprio? Veremos agora quem foi e quem é Adão Negro.

Miniatura DC Nº 29 - Adão Negro

O Adão Negro surgiu na antiguidade durante o reinado do Faraó Ramsés II. Teth-Adam era um dos filhos do faraó e, apesar de sua juventude, possuía uma vasta fama por seus atos de justiça. Foi a partir desta conduta que Teth-Adam chamou a atenção do Mago Shazam. Este estava à procura de um protetor para a humanidade e assim escolheu Teth para este fim. Dotando-o de incríveis poderes, o Mago Shazam havia finalmente encontrado seu campeão para o Mundo. Ao dizer a palavra Shazam, Teth passava a ostentar um poder incrível. Durante muitos anos ele protegeu a sua nação de origem, um país chamado Kahndaq, no entanto sua perspectiva das coisas mudaria quando um louco chamado Ahk-ton matou sua família durante sua ausência. Teth-Adam mergulhou em trevas e desespero, passando a governar seu país (Kahndaq) com mão de ferro para que nunca mais alguém sofresse a injustiça que ele próprio havia sofrido. Insatisfeito com as ações de seu pupilo o Mago Shazam chamou-o de Adão Negro, retirando então os poderes de Teth e aprisionando sua alma dentro de um escaravelho.

Miniatura DC Nº 29 - Adão Negro

Milhares de anos depois, o arqueólogo Theo Adam encontra o escaravelho e passa a portar os poderes do Adão Negro. Imbuído de poder Theo mata seus companheiros (CC e Marilyn Batson) para que não descobrissem seu roubo do escaravelho. CC e Marilyn eram os pais naturais de Billy Batson, aquele que viria a portar o título de Shazam em nossos dias. O herói Shazam confronta e vence Adão Negro em uma terrível baralha. Tempos depois o Adão Negro misteriosamente reaparece dizendo que na verdade a personalidade maligna de Theo é que o havia induzido a assassinar os pais de Billy, o que foi estranhamento provado ao compararem as impressões digitais deste Adão Negro com as impressões digitais de Theo. Com isso, o Adão Negro estaria livre para seguir seu caminho, e o fez ao passar a integrar o grupo Sociedade da Justiça da América (SJA), um local que ocupou sob supervisão do herói Shazam. O período de Adão Negro na SJA aproximou-o de outro herói, o Esmaga-Átomo. Ambos compartilhavam de ideias mais radicais para manutenção da lei, ordem e justiça pelo mundo. A partir desta amizade os dois saíram da SJA e formaram um grupo de heróis renegados ao lado do Senhor Cérebro, Nêmese e Eclipso II. A ideia era trazer soluções permanentes para problemas criminais em todo o globo.

Miniatura DC Nº 29 - Adão Negro

Adão Negro e seus amigos renegados voltaram sua atenção para o opressivo regime que governava o atual Kahndaq. Os anti-heróis depuseram e mataram o ditador do Kahndaq e Adão Negro passou a ser seu governante supremo. A SJA opôs-se às ações de Adão Negro e este impasse se resolveu somente após negociações levadas a cabo pelo Esmaga-Átomo que costurou um acordo no qual a SJA deixaria Adão Negro em paz caso ele permanecesse sempre dentro dos limites do Kahndaq. A vida de Adão Negro passaria por um intervalo de paz. Durante este tempo ele se apaixona por uma escrava que lhe fora dada de presente pela Intergangue, a bela Adriana Tomaz. Ela e o irmão também passariam a ostentar poderes derivados do próprio Adão Negro, sendo chamados de Ísis e Osíris. Foi um tempo de paz e justiça no Kahndaq. Infelizmente, no entanto a família de Adão seria vítima de um intrincado jogo de poder arquitetado por ninguém menos que o Dr. Silvana. Tanto a esposa (Adriana Tomaz) quanto o cunhado de Adão morreriam, despertando sua Ira. 

Miniatura DC Nº 29 - Adão Negro

Adão Negro varreu muitos países com sua fúria, e só foi detido pela união de diversos heróis, dentre eles Shazam, que por fim consegue reverter Adão Negro para sua forma humana, destituída de poderes. No processo Shazam muda a palavra mágica que fornece os poderes à Adão, que passa a vagar pela Terra como um homem comum em busca da palavra que lhe conferiria novamente seus poderes. Anos se passariam na vida de Adão até que ele, fortuitamente, descobre a palavra que restauraria seus poderes. Na pele de um andarilho ele chega à Fawcett City e, ao entrar em uma lanchonete ele pode um "Milk-Shake de Chocolate". Shazam, talvez em função de sua personalidade infantil, havia escondido os poderes do Adão Negro dentro desta expressão: Milk-Shake de Chocolate. E foi assim que Adão Negro retornava para sua vida de superpoderes.

Miniatura DC Nº 29 - Adão Negro

Adão Negro possui total potencial para fazer carreira nos cinemas conforme vem sendo esporadicamente alardeado pela Warner dentro de seu Universo Cinematográfico da DC. Para seu sucesso o mais importante é trata-lo com  a nobreza e densidade que sua origem e história exigem. Espero que a DC faça bom uso do personagem.

É isso aí amigos... Um Forte abraço!!

domingo, 23 de setembro de 2018

Livro 2: Messias de Duna - de Frank Herbert

Ilustração de Marc Simonetti - Editora Aleph

Star Trek e Star Wars talvez sejam os dois exemplos de Space Opera mais famosos e que mais fizeram parte do imaginário coletivo. As duas franquias, merecidamente, foram a porta de entrada para muitos no Universo da Ficção Científica por trazerem em seu "DNA" os elementos marcantes do gênero e, sobretudo do subgênero Space Opera. Mas se Star Trek e Star Wars conquistaram até mesmo aqueles com possuem pouca aderência com o universo nerd, A Saga Duna ousou se aprofundar neste subgênero à níveis nunca vistos em minha opinião, transformando a história do Clã Atreides em um tratado de política, misticismo, religiosidade, sociologia e messianismo. O nível de profundidade literária atingido pelo autor Frank Herbert é tal que acabou por tornar a Saga menos palatável para muitos, sobretudo se você conhece apenas adaptações mais superficiais de grandes clássicos da ficção científica. Mas a profundidade da Saga rivaliza com sua qualidade. Escrita entre os anos de 1965 à 1985, a chamada Saga original (já que posteriormente novos livros foram escritos pelo filho de Herbert) possui 06 livros: Duna (1965); O Messias de Duna (1969); Os Filhos de Duna (1976); O Imperador-Deus de Duna (1981); Os Hereges de Duna (1984); As Herdeiras de Duna (1985). Comentei sobre o livro 1 (Duna) aqui no Blog em matéria há não muito tempo. Concluída a leitura do Livro 2, trago agora (sempre sem Spoilers) alguns comentários sobre Messias de Duna.

A Torre de Paul Atreides - Imperador do Universo (Ilustração Marc Simonetti)

Passados os acontecimentos de Duna (Livro 1), Paul Atreides consegue sua vingança sobre todos aqueles que planejaram a morte de seu pai,o Duque Leto Atreides. Muito além do maldito Clã Harkonen, Paul estende sua visão para todo o Universo conhecido tornando-se Imperador no lugar do até então Imperador Shaddam IV, da Casa Corrino. E não só isso, Paul assegura sua legitimidade ao trono casando-se com a filha de Shaddam IV, a Princesa Irulan. Um casamento apenas de fachada, já que seu grande amor é a nativa do Planeta Duna, Chani. É neste cenário que Messias de Duna se inicia 12 anos após o fim do 1º livro (Duna). Arrakis, ou simplesmente Planeta Duna, virou o centro do Universo, de onde Paul governa as 04 principais forças políticas de então: 1) As Grandes e Pequenas Casas (feudos familiares); 2) A Irmandade das Bene Gesserit (mulheres treinadas em rígidos preceitos psicanalíticos e mentais); 3) A Guilda Espacial (um fechado monopólio que domina as viagens pelo espaço e dá coesão ao Império); 4) A CHOAM (empresa que detém o comércio da principal e mais rica commoditie da Galáxia, o Mélange, ou a "Especiaria" que só existe em Duna). Em Messias de Duna, Frank Herbert trabalhará como eixo principal o fato de Paul ser aquele que carrega sobre os ombros o peso de ser O Messias (o Kiwatz Haderach) para Duna.

Paul recebe um dos Membros da Guilda Espacial -  Ilustração Marc Simonetti

Paul conseguiu sua aura de santidade messiânica a partir de dois grandes acontecimentos anteriores descritos no primeiro livro. O 1º destes eventos é a herança genética de Paul. Ele é o clímax de um intrincado plano de cruzamentos genéticos perpetrado por gerações pelas Reverendas Madres da Ordem Bene-Gesserit. Seu patrimônio genético permitiu que sua mente alcançasse determinados níveis que o colocam como alguém com estranhos poderes sensitivos e precognitivos latentes. O 2º evento foi a dieta rica em Mélange a que Paul foi exposto desde pequeno por sua mãe (uma Bene-Gesserit também). Esses dois eventos combinados deu à Paul o dom da Presciência (conhecimento do Futuro). Tal dom, no entanto é mais como uma maldição que uma benção. O futuro é algo mais mutável e sujeito à desvios do que pensamos. Ações cotidianas banais produzem desvios que, como ondas, podem tornar-se grandes e mudar todo o curso de uma história. Desde as primeiras vezes em que Paul teve sua mente expandida pela presciência, ficou claro que todos os caminhos futuros, independentes de quais atalhos tomassem, levariam à uma Guerra Santa (Jihad) em seu nome que se espalharia pelo Universo.

Templo de Alia (irmã de Paul) - Ilustração Marc Simonetti

Paul sofre com esse futuro que, de tão inevitável, torna-se o algoz de sua pacífica alma. Messias de Duna tratará dos intrincados acontecimentos e difíceis decisões que Paul terá que tomar para tentar evitar o inevitável. Suas tentativas de mover o curso de um rio (que é o futuro) para uma outra direção que não a da Jihad. O jovem Imperador é levado ao limite de sua sanidade por um dom que o assola constantemente e por uma corte dentro da qual ele só pode confiar em pouquíssimas pessoas: sua irmã Alia e seu amigo da época em que ele era fugitivo no deserto no 1º livro, o fremem Stilgar. Messias de Duna também expõe um ponto muito importante da natureza humana, a incapacidade do ser humano lidar com a autoridade, mesmo quando esta autoridade se esforça para ser justa. Sempre haverá conspirações, sempre haverá inveja e pensamentos mesquinhos. É por isso que a rede contra a vida de Paul vai se fechando até a última página do livro. O leitor perceberá que, assim como na vida, heróis vem e vão.

Paul disfarçado nas ruas de Arrakina (Capital de Arrakis - O Planeta Duna) - Ilustração Marc Simonetti

Ler a Saga Duna é mergulhar em um Mundo Ficcional crível, mas sobretudo profundo. Profundo ao tocar em temas estranhos e insondáveis pelo ser humano: o tempo, a finitude, os limites da mente humana, a profundidade de nossa almas... É justamente em função da presença destes temas que digo que Frank Herbert avançou em relação às clássicas aventuras Científico-Ficcionais. Star Trek e Star Wars sempre continuarão sendo para mim os melhores exemplos da beleza da Ficção Científica, mas Duna é o avanço em profundidade da especulação acerca dos dons e potenciais latentes de nossa espécie. Caso você queira pular em um mar profundo e infinito, ou caso queira se lançar na direção do espaço profundo e desconhecido da alma humana, então recomendo fortemente esta leitura.

Chani carregando o futuro do Clã Atreides em seu ventre - Ilustração Marc Simonetti

Bem amigos... Um forte abraço à todos!!

domingo, 16 de setembro de 2018

Sentinela - Uma Inesperada e grata SURPRESA! - Salvat Capa Vermelha Nº 74


Dentre as diversas diferenças entre a Marvel e a DC posso citar uma que me parece bem relevante: diferentemente da DC, a Marvel nunca teve uma "Bússola Moral" da envergadura do Superman. Isto não é ruim, é apenas um fato. Heróis como o Capitão América (por exemplo) fazem este papel de epicentro ético dos Heróis Marvel de forma mais tímida. Porém, devido a suas habilidades serem muito menores que as do Superman, podemos dizer que a figura de Steve Rogers não possui a mesma dimensão no imaginário coletivo dos heróis da Marvel que o Superman possui dentro da DC. Isto se dá, provavelmente, pela aura quase divina de seus poderes e origem. O fato da Marvel não possuir um herói construído ao longo de décadas com este perfil, fez (por exemplo) que a Marvel tivesse outras características, no entanto o fato é que não há um herói dentro da Casa das Ideias que possua a dimensão do Superman no que se refere à referencial absoluto de conduta. Mas o que aconteceria se a Marvel tivesse esse herói? Um herói que não é apenas O Mais Poderoso que todos, mas que é também o que Surgiu Primeiro! Pois bem amigos... Este herói existe, ou melhor, talvez tenha existido. Bem vindos a esta grata e ótima surpresa que é a Minissérie SENTINELA, publicada na íntegra no volume 74 da Coleção Capa Vermelha da Salvat.


A minissérie Sentry foi publicada entre 2000 e 2001 nos EUA e teve Paul Jenkins à frente do roteiro e uma arte excepcional de vários artistas. A minissérie propriamente dita possui 05 partes (capas na parte superior da figura acima) e é desenhada por Jae Lee. Os outros 05 materiais de apoio da minissérie principal (apresentados na parte inferior da figura acima, mas também presentes na edição da Salvat) teve seus desenhos divididos por um time de peso, dentre eles: Bill Sienkiewicz, Mark Texeira, Terry Austin e Rick Leonardi. Minha referência acerca do herói Sentinela sempre fora, até ler este encadernado, o Arco O CERCO. No qual um herói superpoderoso (o Sentinela) simplesmente enlouquece e torna-se em um dos eixos principais da história assassinando de maneira horrível o deus Ares. Na época, sinceramente não vi necessidade de procurar saber mais a respeito do desconhecido Sentinela. Eu o considerei, por assim dizer, um herói de ocasião, ou seja, não muito digno de nota. Tudo mudou para mim ao ler o encadernado acima.


Mas quem é o Sentinela e por que ele me cativou tanto? Paul Jenkins conseguiu construir ao redor do personagem uma mitologia crível e muito interessante semelhante à do Superman, além de conseguir causar sobre os demais heróis da Marvel um efeito e uma influência parecida com aquela que Kal-Ell exerce sobre os heróis da DC. Mas como Jenkins fez isso? Não contarei o artifício que ele usou para introduzir um personagem assim, porque parte desta resposta é o eixo central da história e seria um spoiler de minha parte. O fato é que foi uma experiência extremamente interessante ver a relação e influência de um herói desta envergadura sobre os demais heróis da Marvel. Heróis como Hulk, Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, dentre outros relembram, durante o arco, sua relação e admiração pelo Sentinela. Jenkins teve um domínio e uma criatividade fantástica ao desenrolar uma ideia assim. Ver a admiração nos olhos de Reed Richards, Tony Stark, Peter Parker e dos X-Men diante do Sentinela, além da profundidade de sua amizade com o Hulk não teve preço para mim, sobretudo pela forma com que os diálogos foram escritos, ou seja, trabalhando os tradicionais personagens da Marvel com as reações exatas que tais heróis teriam ao se deparar com um Semideus de bondade e poder.

Arte de Jae Lee

O Sentinela surgiu a partir de uma brincadeira de Marketing que o Editor-Chefe da Marvel em 2000 (Joe Quesada) quis fazer. O editor teve a participação do próprio Stan Lee nesta brincadeira. Foi dito que o Sentinela era uma criação perdida de Stan Lee ainda no início da Era de Prata (meados de 1960). O fãs ficaram em polvorosa pela possibilidade de lerem a respeito de um herói criado na efervescência do que foi a Era de Prata dos quadrinhos. Para que a brincadeira não saísse do controle e os fãs não se sentissem enganados a minissérie tinha que ser realmente de excelente qualidade, e foi o que aconteceu. Os fãs se sentiram na verdade recompensados ao lerem um material que resgatava e valorizava o antigo sob a perspectiva do novo. Paul Jenkins elabora uma origem do Sentinela que o coloca como o primeiro herói do Universo Marvel, e que até mesmo por isso, se tornaria referência e modelo para todos os outros.  Mas algo deu terrivelmente errado. O que aconteceu para que este Mega-Herói fosse esquecido por todo o Universo 616?

Arte de Jae Lee

Se você for um leitor regular de quadrinhos, provavelmente você já tem a resposta para a pergunta acima. Se não tem, será um prazer ler esta minissérie. Mas mesmo que você já saiba o motivo do esquecimento do Sentinela na memória dos heróis Marvel, mesmo assim será um prazer ler o arco porque a grande surpresa não está no desfecho, mas no caminho, no desenrolar da história. Ou seja, o que causa surpresa são as reações críveis dos heróis e a inserção de uma Bússola Moral desta magnitude, que causa um distúrbio em um Universo Ficcional conhecido pela fraqueza e humanidade de seus heróis. Assim temos a subversão da identidade primordial da Marvel. O choque de cada herói Marvel (que sabem que são falhos em certas áreas) diante de alguém que é... tecnicamente PERFEITO mental e fisicamente. Um papel, aliás que o Superman desempenha muito bem na DC.

Acima arte fantástica de Mark Texeira

Gostaria de chamar atenção para alguns desenhistas da obra, em primeiro lugar o traço triste e melancólico de Jae Lee. Conheci o traço de Lee quando li aquela que é para mim uma das melhores histórias modernas do Quarteto Fantástico, o arco Quarteto Fantástico 1234. Foi uma das primeiras experiência que tive como leitor ao chegar quase a ouvir sons e a sentir cheiros diante de um traço. Esta característica melancólica, intimista e triste de Jae Lee aparece muito bem na minissérie principal de 05 números. Já nos números de apoio quem brilha para mim são dois: Bill Sienkiewicz e Mark Texeira. Sienkiewicz desenha o número do Hulk e impregna seu traço com a angústia bestial presente na psique do Monstro Esmeralda de forma que a fúria e a loucura é quase palpável. De outro lado, Mark Texeira desenhou o número Sentinela e X-Men, no qual destaca o relacionamento do X-Man Anjo com o Sentinela. A arte de Texeira assemelha-se à arte pintada em aquarela e é dimensionada dentro do desespero e angústia que permeia a obra.


Bem amigos... Espero que usufruam da obra. Para mim foi uma leitura muito prazerosa. Mexer com as raízes dos personagens é algo muito interessante, no entanto precisa ser bem feito, caso contrário no sentimos traídos e enganados. Definitivamente não é isso que vemos nesta obra.

Forte abraço.

Obs.: A arte escolhida para a capa do encadernado da Salvat é do John Romita Jr., porém ele não tem nada a ver com a minissérie do encadernado. Romita Jr. viria a desenhar uma minissérie do Sentinela em 2005, mas não é essa do encadernado da Salvat.

sábado, 8 de setembro de 2018

Etrigan de Jack Kirby


Uma das publicações mais esperadas por mim desde sempre foi Etrigan de Jack Kirby. Meu interesse se justifica em função de uma história sobre ele que li quando era adolescente. Nesta HQ, Glenda (interesse romântico de Jason Blood, alter-ego de Etrigan) surpreende-se com vários quadros expostos no apartamento de Jason. Os quadros mostram antepassados de Jason, no entanto ela praticamente pode jurar que todos seriam o mesmo homem (!!), sugerindo que Jason talvez carregue consigo muito mais do que aparenta. Achei esta ideia tão genial e assustadora que fiquei petrificado e conectado à figura de Jason Blood. Na mesma época estava em cartaz o filme "Highlander I - O Guerreiro Imortal". A história trazia conceito semelhante em relação ao personagem de Christopher Lambert. Só que tem um detalhe aí, Jack Kirby pensou nesta ideia em 1973 (!!), e o filme era de 1986, ou seja, é inquestionável a genialidade e pioneirismo das ideias de Kirby. A matéria de hoje vem para comemorar o lançamento do encadernado Lendas do Universo DC - Etrigan - Jack Kirby Vol. 01 pela Panini. Um resgate incrível de um personagem em seu nascedouro pelas mãos do Rei Kirby.

Cena que menciono acima e que me conectou para sempre à Jason Blood

Lendas do Universo DC - Etrigan - Jack Vol. 01 insere-se no selo "Lendas do Universo DC". Um selo que deu certo e já conta com inúmeros lançamentos no Brasil até o momento. Para vê-los clique aqui. A publicação traz neste primeiro volume as 08 primeiras edições de Etrigan - The Demon originais lançadas de set/1972 à abril/1973. Além disso, traz um excelente texto inicial no qual Marc Evanier conta detalhes inspiradores da criação de Etrigan por Kirby. Dentre eles o fato de que o terror não era um gênero no qual Kirby se sentia a vontade. Mas devido uma série de questões conjunturais da época, quadrinhos de terror vendiam bem, o que fez a DC (editora em que Kirby estava na época produzindo sua Epopeia Cósmica do Quarto Mundo) solicitar um título deste tipo ao autor. Kirby não apenas cria Etrigan, mas lhe confere uma mitologia sólida e cheia de mistérios. O leitor deste texto se assustará ao reconhecer ideias que foram posteriormente aproveitadas por outras pessoas. São inúmeras as ideias geniais de Kirby, uma delas é a criação dos Reencarnadores. A ideia por trás dos Reencarnadores é a mesma presente em filmes recentes como Assassins Creed. Ou seja, a possibilidade de genes ancestrais serem acessados em nossa memória celular e assim resgatarmos habilidades de nossos antepassados. Era Kirby estando à frente de seu tempo em 1972 (!!).

Outra criação incrível de Kirby - Klarion - O Menino Bruxo

Neil Gaiman na década de 80/90 redefiniu de forma irrevogável o mundo da magia nos quadrinhos ao construir histórias que traziam "histórias dentro de histórias". Um artifício no qual o leitor ficava com a estranha impressão de que nada que estava ali era por ocaso, tudo poderia ser uma pista de algo fatal, maligno ou até mesmo o contrário. Kirby criou personagens sólidos para época seguindo de forma pioneira esta fórmula, como por exemplo a introdução de Klarion - O Menino Bruxo, O Monge de Ferro, a Bruxa Meg - A Feia (muito semelhante à mitológica imagem de Baba-Yaga), o Fantasma (inspiração direta no Fantasma da Ópera) e a letal Morgana Le-Fey. Le-Fey é a nêmese de Etrigan, e nestas primeiras histórias temos a dimensão de seu papel na vida do personagem. A História de Etrigan está totalmente amalgamada à do Mago Merlin. Kirby dá a entender que Etrigan é o cão de guarda do Mago Supremo de Camelot. Tudo se inicia com a queda de Camelot  frente à investida das hostes de Morgana Le-Fey. Preferindo imortalizar Camelot no reino da imaginação, à vê-la cair diante de Le-Fey, Merlin convoca seu Demônio que rapidamente encerra o conflito passando então a habitar o corpo de um homem desde então, Jason Blood, enquanto Camelot se retira para o imaginário coletivo e Le-Fey se afasta derrotada.


A relação entre Merlin e Etrigan é muito obscura e intrigante. Não fica claro quais são as algemas que mantém o selvagem Etrigan tão fiel a Merlin. Obscura também é a relação entre Etrigan e seu hospedeiro, Jason Blood. Um homem enigmático que Kirby soube trabalhar com um personalidade profunda e cheia de mistérios. À princípio o leitor entende que Etrigan apenas troca de lugar com Jason, no entanto esta troca (ou possessão) não é explicada. Tudo isso deixa a história cheia de aspectos a serem desvendados. O que Kirby vai fazendo aos poucos, por exemplo quando Etrigan se admira com a coleção de itens mágicos de Jason e se intriga com a personalidade culta de seu alter-ego. O ódio de Etrigan por Le-Fey também não tem sua origem explicada. Sei que muitos autores abordaram essas lacunas ocultas deixadas por Kirby ao longo das últimas décadas nas histórias de Etrigan. Mas recomendo a você ler o material original de Kirby sem conceitos ou imagens pré-concebidas em função do que você já tenha lido. Isso fará você experimentar todo mistério deixado por Kirby ao longo das HQs.

O enigmático Jason Blood

Qualquer conhecedor de Jack Kirby sabe que eu não posso falar dele sem deixar de mencionar sua arte. Sim, pois Kirby escreveu e ilustrou Etrigan. Evanier em seu texto inicial no encadernado da Panini conta, aliás onde e como Kirby criou Etrigan. Foi durante um jantar em uma lanchonete em que Evanier acompanhava a família Kirby. Durante a degustação de um lanche, Jack ficou em silêncio, absorto, como que em um mundo paralelo ou então em contato com um local no além. Ao final do sanduíche Kirby já possuía todas as linhas gerais da mitologia de Etrigan pronta. A imaginação de Kirby é tal que algumas criações da mitologia de Jason Blood precisam ser nomeadas: 1) o apartamento de Jason que se assemelha muito ao Santo Sanctorum do Dr. Estranho da Marvel, porém a arte de Kirby confere características ímpares à habitação de Jason, com sua extensa coleção de artefatos mágicos e livros, além da percepção do apartamento possuir passagens secretas como se fosse infinito; 2) o amigo Rondu, um alto funcionário da ONU de origem indiana e com forte poderes mediúnicos; 3) o amigo Henry Mathews, o típico norte-americano boa vida que não possui absolutamente nenhuma relação com o mundo dos demônios. Isto confere à Mathews o que seria conhecido muitos anos depois como o "alívio" da história; 4) a sedutora, linda, ingênua e frágil Glenda. Alguém que se interessa pelo enigmático Jason e que possui todas os adjetivos acima juntos.

O enigmático apartamento de Jason Blood

Espero que a Panini lance toda a fase de Kirby à frente de Etrigan. Isso será um registro único do Rei em terras Brazucas. Para os curiosos inseri abaixo as capas das edições originais de Etrigan - The Demon.


Bem amigos... É isso aí. Forte abraço! Abaixo a edição da Panini.

domingo, 2 de setembro de 2018

Supercards - Revista Mundo dos Super-heróis


Por que costumo divulgar com tanta frequência iniciativas e novidades da Revista Mundo dos Super-heróis (MSH)? Bem... São dois os motivos: 1º porque é uma excelente publicação dirigida ao fã de quadrinhos. E só isso já responderei à pergunta. Mas há um 2º motivo, e ele tem a ver com meu histórico pessoal. Venho de uma Era (os anos 80) em que vivíamos garimpando fiapos de informações a respeito do Mundo dos Quadrinhos. Comprar os quadrinhos já era algo não muito fácil, sobretudo porque dependíamos do suado dinheiro de nossos pais, mas obter informações então era quase impossível. Nossa única fonte era as sessões de cartas dos gibis. Na época seria impossível pensar que uma Revista do porte da MSH existiria, e mais, que sobreviveria ao longo de 100 (!!) edições. Marca que alcançou em junho de 2018. Assim, torna-se para mim mandatório assina-la e divulgar sua excelente qualidade. A MSH, como que para sinalizar esta marca centenária, decidiu lançar a partir do Nº 101 uma coleção de Supercards contendo imagens emblemáticas do Mundo dos Quadrinhos, e isso inlcui imagens do cinema, TV e dos próprios quadrinhos. Assim nasceu a coleção MSH de Supercards.

Nº 01 - Homem de Ferro - 2008 / Nº 02 - Batman: O Cavaleiro das Trevas - 2008

E porque Cards? Bom... Para saber a resposta exata só perguntando para o Editor Manoel de Sousa. Mas eu posso imaginar o "porque". Não há nada mais emblemático na infância de qualquer "Nerd" verdadeiro do que uma coleção de "gibis" ou de "cards". Figurinhas é o tipo de artefato lendário na mente coletiva inconsciente da fandom. Ter uma coleção e "cards" de momentos emblemáticos então é algo que beira a necessidade! rs rs... Brincadeiras a parte, entendo que este tipo de coleção fala diretamente ao recôndito de nosso coração "Nerd", ou seja, nos remete à uma infância longínqua e cheia de significados. Como será esta coleção?

Nº 03 - Episódio 2 da 2ª Temporada de Supergirl - 2016 / Nº 04 - Logan - 2017

A partir do Nº 101 da revista o leitor terá 08 cards por edição. Cada card possui metade do tamanho de uma página da revista. O papel do card possui gramatura bem maior que a das páginas regulares e em seu verso traz as seguintes informações: 1) - Direção no caso de filme/série e Roteiro/Desenho/Arte-final no caso de um card de gibi; 2) - Sinopse; 3) - Bastidores; 4) - Referências (algo como "curiosidades"). Os cards vem grampeados como se fossem páginas da própria revista. Por isso, recomendo fortemente que você adquira em uma papelaria aquele "removedor de clipe" para retirar os cards de maneira cirúrgica. Caso não queira retira-los, a própria revista serve como um bom local para guarda-los.

Nº 05 - Demolidor - 1ª Temporada - 2015 / Nº 06 - As Aventuras do Capitão Marvel - 1941

Provavelmente os leitores debaterão que gostariam de ver este ou aquele card representativo de uma série, filme ou quadrinho de sua preferência. Eu por exemplo, sou apaixonado pela Era dos Pulps e pela Era de Ouro dos Quadrinhos, portanto fiquei extremamente feliz de ver este card do Capitão Marvel acima. É claro que para alguns este seria um card que deveria ter sido substituído por outro que, em sua opinião, representaria mais seu gosto. Por isso entendo a diversidade que os editores buscaram ao escolherem épocas e personagens tão distintos, ou seja, permitir que cada leitor se veja representado. Confesso que são escolhas difíceis para qualquer editor, mas se a coleção for longa o suficiente, conseguirá representar Eras, Estilos, Gêneros e gostos diferentes.

Nº 07 - Superman II - A Aventura Continua - 1981 / Nº 08 - Homem-Aranha Nunca Mais - 1967

Nesta 1ª leva de cards acredito que temos períodos e obras representativas para qualquer "Nerd". O Nº 01 (Homem de Ferro de 2008) marcou o início da Era das produções cinematográficas Marvel. Não dá para não referendar este filme. Se Homem de Ferro de 2008 abriu as portas para as grandes produções cinematográficas de super-heróis, o Nº 02 Batman - O Cavaleiro das Trevas de 2008, com seu Coringa de Heath Ledger, mostrou que tais filmes poderiam carregar discursos políticos e sociais em sintonia com nosso tempo. O Nº 06 (As Aventuras do Capitão Marvel) é um registro histórico que nos informa o fato de que, antes de nós, existiam gigantes da cultura "Nerd" que batalharam e construíram o que chegou até nós. Se Batman - O Cavaleiro das Trevas inaugurou o filme de Super-heróis para maiores de idade no cinema, foi a 1ª Temporada do Demolidor que fez o mesmo na TV com a série do NetFlix. Por fim, não podemos deixar de lembrar que se filmes e séries de Super-heróis existem é porque existiram obras primas nas HQs primeiro, portanto mais que honrosa a menção à HQ do Homem-Aranha - Nunca Mais. Já Superman II de 1980 dispensa comentários. Se você não sabe a importância de Superman I (1978) e de Superman II (1980) acho melhor você ler urgente a MSH!!

Bom amigos... Espero inserir aqui, daqui para frente, os próximos cards da coleção. Pelo menos para servir de controle para todos nós. É isso aí. Que mais uma Era de 100 edições seja inaugurada para a MSH. Forte abraço!

domingo, 12 de agosto de 2018

Miniatura Marvel Nº 59 - Luke Cage

Miniatura Marvel Nº 59 - Luke Cage

A Editora Marvel Comics sempre teve em eu histórico a vocação de expressar nas páginas de seus quadrinhos demandas, desejos, alegrias e angústias do seu tempo. Foi assim diversas vezes com sagas, personagens e grupos de heróis e vilões. Em 1970 ganhava força o movimento pelos direitos civis nos EUA, inspirado de um lado pelo pacifista Martin Luther King, e de outro pelo separatista Malcolm X. Neste contexto os negros entenderam que seu lugar na sociedade não era apenas um pedido, mas sim um direito. Luke Cage não foi o primeiro herói negro dos quadrinhos, antes dele já haviam sido criados o Falcão e o Pantera Negra na Marvel. Mas sem dúvida nenhuma, Luke Cage foi o primeiro herói negro a ser escrito como um real integrante da comunidade negra dos EUA. Enquanto o Falcão possuía passe livre junto à comunidade super-heróica (sobretudo pela sua amizade e proximidade com o Capitão América), e o Pantera Negra era um nobre soberano de uma nação africana, Luke Cage não era ninguém. O Falcão e o Pantera Negra, aliás, poderiam muito bem serem enquadrados dentro do Modus Operandi social da classe branca. Mas não Luke Cage. Conheçamos um pouco deste que foi e ainda é o herói mais Black que conheço.

Miniatura Marvel Nº 59 - Luke Cage

Luke aparece na Coleção de Miniaturas Marvel Eaglemoss com sua indumentária característica. Ainda que alguns desavisados de plantão achem "estranha" esta roupa, saibam que ela combinava perfeitamente com a estética setentista dentro da qual o personagem foi criado. A peça traz, portanto a celebre camisa e botas amarelas, calça azul, corrente na cintura e tiara de aço na cabeça. Achei tudo muito bem modelado. Com a musculatura do tórax, braços e pernas bem adequada. Não esqueçamos também dos braceletes. Conseguiram deixar a camisa colada ao corpo sem, no entanto deixar de aparecer certas ondulações, simulando muito bem um tecido. Exceto por pequenas falhas na delimitação da pintura entre a calça e as botas, os demais segmentos da miniatura apresenta uma pintura à contento.

Miniatura Marvel Nº 59 - Luke Cage

Todo o conceito de Luke Cage, não apenas em sua personalidade, mas também em sua roupa, foi pensado para que o leitor enxergasse nele um homem das ruas. Corrente na cintura, braceletes e tiara de aço fazem parte desta ideia. Caso você tenha assistido ao filme Warriors - Os Selvagens da Noite de 1979 de Walter Hill, você sabe exatamente do que estou falando. Pois foi exatamente deste tipo de cenário urbano de gangues, violência e falta de oportunidades que surgiu Carl Lucas, o nome verdadeiro de Luke Cage. Criado por Archie Goodwin, John Romita e George Tuska, Cage apareceu pela primeira vez na revista Hero for Hire (algo como Herói sob Contrato ou, como foi usado no Brasil, Herói de Aluguel) Nº 01 de Junho de 1972. Além do cenário de luta pelos direitos civis que o início da década 70 vivia, havia também outras ondas nas quais a cultura pop surfava, dentre elas: filmes de artes marciais e filmes Blaxploitation ou Blacksploitation. A onda Blaxploitation foi um movimento cinematográfico que procurava representar a vida do povo negro norte-americano nos grandes centros urbanos. Os filmes eram protagonizados e realizados por atores e diretores negros, e tinham como publico alvo principalmente os negros. A Marvel iria, portanto surfar também nesta onda.

Miniatura Marvel Nº 59 - Luke Cage

Carl Lucas cresceu no Harlem e, a lado de seu inseparável amigo Willis Styker, aplicava pequenos golpes e roubos. Stryker era bom com facas, enquanto Lucas se virava muito bem com os punhos. O caminho dos dois começou a se distanciar quando os golpes e roubos ficaram mais sérios e Lucas teve um vislumbre de seu futuro naquela vida de crimes. Porém, as coisa iriam piorar muito para ele, pois seu amigo Stryker o incriminou por tráfico de drogas, o que o levou à uma condenação e à prisão no Presídio Seagate. Foi lá que Carl Lucas sofreu nas mãos de um diretor e de guardas corruptos. A personalidade forte de Lucas, somada a sua tendência de ajudar outros presos rendeu-lhe inúmeras surras e períodos na solitária. Foi nesse contexto desolador que Carl se ofereceu como cobaia para um experimento de um cientista pouco ortodoxo que visava a regeneração celular. Carl foi aceito e, no o momento em que estava sendo submetido à um banho químico, um dos guardas mais violentos e odiosos sabotou o experimento, causando a explosão da máquina em que Carl estava.

Miniatura Marvel Nº 59 - Luke Cage

Na explosão o guarda morreu e Carl, assustado, fugiu. Porém não sem levar uma saraivada de balas de outros policiais. Foi aí que ele percebeu que sua pele havia se tornado dura como aço e praticamente indestrutível. Logo em sua chegada em Nova York, Carl impediu um assalto, recebendo por isso uma recompensa. Isso lhe deu uma ideia: encontrou um escritório, mudou de nome (passando a se chamar Luke Cage) e abriu um negócio. Ele seria um herói que poderia ser contratado por aqueles cujas demandas ficavam fora do radar dos grandes super-heróis. Ele lutaria pelas pessoas mais fracas, no entanto precisava viver também, por isso cobraria pelos seus serviços. A origem de Luke Cage descrita acima e apresentada na Revista Hero for Hire Nº 01 já trazia o inusitado perfil deste novo herói. Durante toda sua história de origem Luke é apresentado ao leitor como um homem comum e sofredor. Seus poderes manifestam-se apenas nas últimas páginas da HQ, ou seja, o leitor já admira a fibra de Luke muito antes dele receber seus poderes, sendo estes poderes apenas um acessório à personalidade do personagem, e não o principal.

Miniatura Marvel Nº 59 - Luke Cage

Luke era diferente de outros heróis Marvel, diferente do garoto branco da classe média que recebeu seu poder ao ser picado por uma aranha, ou do cientista bombardeado por uma bomba gama, ou mesmo do Deus Nórdico (loiro e digno do ideal ariano) do Trovão... Luke tinha sofrido e encarado o Mundo como ele era. Foi um longo caminho para nosso herói limpar seu nome. E mais longo ainda até ser integrado às fileiras dos grande heróis Marvel. Talvez dois pontos que tenham sido cruciais para seu reconhecimento tenham sido, 1) primeiramente sua parceria com o milionário Danny Rand, o Punho de Ferro. Embora muito diferentes (um era negro e cheio da ginga das ruas, o outro um lutador de artes marciais herdeiro de uma tradição oriental milenar), a parceria deu muito certo. Luke e Danny conseguiram sintonizar exatamente a necessidade real das ruas, e os Heróis de Aluguel prosperou com a inusitada parceria. Graças aos recursos disponíveis, Luke tinha um negócio respeitável e com isso ficou conhecido por diversos outros heróis. Isso lhe rendeu uma passagem como membro integrante de equipes como Quarteto Fantástico e Defensores.

Miniatura Marvel Nº 59 - Luke Cage

O outro grande momento que consolidou a reputação de Luke foi 2) o evento conhecido como Guerra Civil. Luke ficou ao lado do Capitão América na época, contra a Lei de Registro de Super Humanos. Com isso ele passou a liderar uma unidade clandestina dos Vingadores. Seu desempenho e decisões chamaram a atenção do Capitão que, ao final do arco e de suas consequências, convidou Luke para se juntar ao Heróis Mais Poderosos da Terra. Cage aceitou o convite do Capitão, mas não sem antes impor uma condição: a de que os Vingadores passassem a olhar mais de perto as necessidades do homem comum. Um exercício que trouxe mais humanidade e grandeza à equipe, que por toda sua história sempre lidara com ameaças de nível planetário ou cósmico, algo que a afastava do principal, ou seja, do ser humano comum.

Miniatura Marvel Nº 59 - Luke Cage

Particularmente demorei a gostar de Luke Cage. Suas histórias tinham pouco a ver com minha realidade pessoal em minha adolescência. Quando amadurecemos, percebemos que o mundo é muito maior do que pensávamos, e os problemas e dramas são mais diversos e complexos do que os nossos. Luke Cage foi o personagem que ajudou a amadurecer a Marvel enquanto Editora, fazendo a empresa representar e espelhar melhor o Mundo real.

É isso aí amigos!
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