domingo, 9 de junho de 2019

Lone Sloane - Impressões pessoais


Lone Sloane é um dos recentes lançamentos da Editora Pipoca e Nanquim (PN). Um lançamento que vem sendo comemorado por fãs brasileiros da Revista Norte Americana Heavy Metal, fãs do escritor e desenhista Moebius e fãs de Ficção Científica Europeia. Todo e qualquer lançamento do PN entra diretamente para o meu radar. Tenho praticamente todos os lançamentos deles. E com Lone Sloane não foi diferente. Este lindo encadernado traz praticamente toda a saga do viajante cósmico Lone Sloane, excetuando sua participação em uma história chamada Salammbô. O PN traz um lançamento que compreende uma saga que foi escrita e desenhada pelo francês Philippe Druillet (criador de Sloane) ao longo de décadas (décadas de 60, 70, 80, 90, 2000 até início da década de 2010). Diante de tamanho acabamento gráfico (a capa é simplesmente incrível) e indicações, passei Lone Sloane à frente de muitas outras obras que estavam em minha pilha de leitura. Mas vamos à minha opinião acerca deste lançamento...


A obra traz realmente uma narrativa muito próxima do estilo presente em HQs de Moebius e em HQs ficcionais europeias. As primeiras histórias do encadernado (O Trono do Deus Negro, A Ilha dos Ventos Selvagens, Rose, A Ponte sobre as Estrelas e Terra) me chamaram muito a atenção pelo seu tom psicodélico e onírico. Isso pode ser conferido em artes como esta acima que faz parte do início da obra. Confesso que essas pequenas histórias iniciais criaram em mim a expectativa que a obra traria histórias desta ordem, ou seja, oníricas, de cunho existencial e líricas. Cheguei a esperar que a obra iria pelos caminhos de títulos como "2001 Uma Odisseia no Espaço" de Arthur C. Clarke, "Eram os Deuses Astronautas?" de Erick von Däniken com sua narrativa arqueológica e milenar, e até mesmo iria para a veia onírica de Esteban Maroto em seu Espadas e Bruxas (também lançado pelo PN no Brasil). No entanto, a partir da história Delirius (arco que se estenderá até o fim do encadernado, se desdobrando em outros segmentos) há uma mudança muito grande (em minha opinião) na temática e até no traço de Druillet. O aspecto onírico, filosófico, fantástico e milenar dá lugar à uma narrativa mais política, beligerante, social e por vezes desconexa, mudando também o traço do autor para um tipo bem menos psicodélico.


Talvez deste ponto em diante é que a história fique mais próxima da narrativa da Heavy Metal. O texto subjacente desta parte em diante é outro. Fica bem claro uma acidez, pessimismo e desdém nas palavras e atitudes de Sloane. Se antes ele era reflexivo, distante de sua humanidade e até bem parecido com o personagem cósmico da Marvel chamado Warlock, do arco Delirius em diante Sloane torna-se algo semelhante à um pirata renegado lutando contra um Império maligno personificado pelo Imperador Shann. Esta mudança na caracterização de Sloane deve refletir (acredito eu) a frustração, desdém e acidez do próprio autor Druillet, que após a morte de sua esposa na década de 70 possivelmente passa a se relacionar com o mundo de forma diferente. Particularmente preferia que o Sloane inicial tivesse sido aquele a ser desenvolvido por Druillet. Identifico-me muito mais com ele. Independente destas minhas impressões é necessário reconhecer a importância desta grande obra e de seu autor. Esta grandeza fica muito clara nas ilustrações de Druillet e em como ele quebrou paradigmas ao descortinar verdadeiras obras de arte gráficas representando cenários cósmicos totalmente fora dos padrões vigentes.


A forma de enquadramento de Druillet revela-se ousada e inovadora até mesmo para nossos dias. As páginas são concebidas por meio de um lay-out totalmente extravagante e revolucionário. A vertiginosa sequencia de leitura coloca o leitor em um movimento espiral tal qual a página pressupõe. Não à toa, Druillet tem seu nome colocado ao lado de grandes lendas dos quadrinhos. Conhecedores da 9ª Arte provavelmente citarão seu talento dentre os maiores dos quadrinhos. Artistas como Jack Kirby foram influência para Druillet e ao mesmo tempo sofreram influência dele. Nomes como George Lucas e seu Star Wars e Ridley Scott já revelaram abertamente que se inspiraram muito em Druillet. Por tudo isso, Lone Sloane é uma obra a ser conhecida e apreciada.


Eu precisaria de um pouco mais de tempo para entender melhor o impacto deixado por esta edição de Lone Sloane em mim. Se de um lado fiquei boquiaberto com as imagens, construções narrativas de Druillet e primeiras histórias de Lone Sloane, por outro fiquei confuso com o rumo que a história tomou de Delirius para frente, sobretudo em função das expectativas que criei a partir das inferências que fiz depois das primeiras histórias. De todo modo o material precisa sim ser conhecido e, gostaria de ouvir opiniões de outros fãs, inclusive para que eu pudesse enxergar coisas que possivelmente deixei passar e não me permitiram aproveitar como deveria a obra, sobretudo de Delirius em diante.


Bem amigos... é isso aí. Agradeceria muito se deixassem comentários abaixo sobre a obra. Um grande abraço!

segunda-feira, 27 de maio de 2019

N. - Uma Experiência Lovecraftiana


Depois de várias décadas Stephen King continua sendo um dos maiores nomes da literatura do século XX, por mais que a Academia tenha relutado em aceitar isso. Sua longeva e profícua carreira atestam uma das mentes mais inquietas da literatura. N. é uma adaptação de um conto de King presente no livro Ao Cair da Noite, publicado no Brasil pela Editora Suma das Letras. Nesta adaptação em quadrinhos o escritor Marc Guggenheim e o artista Alex Maleev assumem a difícil tarefa de colocarem seus nomes em um material que tem o selo de King. Verdadeiramente assustadora, a HQ foi lançada no Brasil pela DarkSide Books, uma editora que entendeu a paixão e exigência dos leitores do gênero suspense e terror e tem nos brindado com lançamentos cada vez mais excepcionais. Não apenas em função do conteúdo, mas também pelo acabamento gráfico e concepção artística das obras.


Impresso em um papel diferenciado, permitindo que a arte de Alex Maleev ganhasse conotações intimistas, a edição Brasileira é um primor em acabamento e experiência sensorial ao leitor. A começar pelo toque, cheiro e exuberância visual. Maleev conseguiu expressar os personagens com expressões corporais e faciais que literalmente transportam o leitor para o interior de cada um deles. O trabalho de adaptação de Guggenheim fez jus à ideia inicial de King, expandindo o que era apenas um conto, em uma história que se aprofunda no universo interno de cada um dos envolvidos.


Para mim, a especialidade de Stephen King sempre foi relatar universos pequenos e perdidos. Cidades pequenas (à princípio simples e sem atrativos), sítios, fazendas... Locais em que ninguém veria qualquer problema acontecendo. Porém, King sempre foi mestre em nos fazer mergulhar naquilo que está escondido debaixo dos "tapetes" sociais, relacionais e pessoais. Em N., temos algo parecido, um local perdido e que possivelmente nem consta no Google Maps. Este pequeno e isolado pedaço de terra é visitado sem nenhuma pretensão pelo economista e fotografo amador N. (do título). N. tem um hobby, tirar fotos de paisagens e estruturas da vida rural no entorno da pequena cidade na qual reside. E este é o começo da trama, N. fica interessado em uma pequena formação de pedras dispostas em círculos no local mas que, estranhamente, alterna entre 7 e 8 o número de pedras que compõe o círculo. Quando observado à olho nu são 7, quando observado pelas lentes de sua câmera são 8.


O assustador da história está no que não é revelado, ou seja, o objetivo milenar daquelas pedras e sobretudo o efeito perturbador e psíquico que passa a ter sobre N. Uma parte significativa da história gira em torno da lenta deterioração da psiquê de N., que em suas sessões de terapia tenta explicar ao seu psiquiatra as visões, manias, compulsões e distúrbios que vem apresentando. O leitor acaba por entender algumas coisas nas entrelinhas e é o preenchimento destas lacunas da história pela mente do leitor que  acaba por construir um painel assustador e profundo. Em suas obras, Stephen King  sempre sugeriu a imanência de certos lugares, ou seja, as emoções e sensações que certos locais guardam, e que nós, imersos em nossos universos tecnológicos e virtuais acabamos por não perceber. Mas dependendo do lugar, aquilo que está ali guardado começa a transbordar e vazar, chegando a invadir até mesmo as mentes mais urbanas e racionais.


Este "vazamento" começa ocorrer do local que N. encontra e atinge outras pessoas ao seu redor. Outras pessoas passam protagonizar a história e este é outro positivo da obra, ou seja, a centralidade da trama passa de uma pessoa para outra, o que dinamiza o drama e o expande. O termo "Lovecraftiano", muito em voga atualmente, pode ser muito bem aplicado em N. Sem dúvida nenhuma a origem da pedras e sua função são diretamente ligadas à um Universo inominável que existiria paralelo ao nosso. A influência de Lovecraft sobre King nesta história e sobre Guggenheim ao adapta-la é total. Se você é fã de Lovecraft deve ler esta obra. Não pude deixar de associar a história a existência de outros monumentos estranhos presentes no mundo como Stonehenge na Inglaterra.


A DarkSide Books está de parabéns por este lançamento, que estará entre minhas indicações de melhores HQs lidas em 2019.

Um grande abraço à todos!

sábado, 18 de maio de 2019

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Escrever a respeito do Super-Skrull é escrever sobre os primórdios da Era de Prata na Marvel... No início da década de 60, quando Stan Lee ao lado de diversos outros gigantes da 9ª Arte lançavam as bases do que viria a ser a Marvel no futuro, raças alienígenas ainda não haviam consolidado seu papel dentro do Universo ficcional da Casa das Ideias. Iniciativas de trazer ETs para a Terra já haviam sido feitas nos primeiros números de revistas como Journey into Mystery (alienígenas de Pedra), Incredible Hulk (Homens-Sapo) e Tales to Astonish (Extraterrestre Lodoso). Mesmo os Skrulls, que haviam sido apresentados no Nº 02 de Fantastic Four, ainda não haviam se firmado como raça realmente poderosa e dotada de importante articulação com o heróis da Terra. Podemos imaginar que o conceito de ETs ainda era muito influenciado pelo que fora apresentado na década 50, quando os carros-chefe das publicações eram revistas de monstros e alienígenas genéricos. O Super-Skrull começaria em Fantastic Four Nº 18 (sua primeira aparição) de Setembro de 1963 uma longa jornada em direção a um posto importante como representante de uma das maiores raças alienígenas do Universo Marvel.

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Antes de mais nada, no entanto, analisemos sua miniatura dentro da Coleção de Miniaturas Marvel da Eaglemoss. A miniatura ficou um pouco aquém da imagem poderosa que em geral o personagem passa. De maneira que algum desavisado admirador da coleção possa até achar que o Super-Skrull é um personagem desconhecido ou mesmo desimportante dentro da Marvel. As nuances da face ficaram pouco definidas, deixando a peça praticamente sem expressão. A pele craquelada da espécie Skrull deve ser difícil mesmo de ser capturada, no entanto mesmo outras personagens da coleção com a mesma característica tiveram um melhor tratamento. A parte muscular também está também pouco definida, não fazendo jus ao histórico de guerreiro deste selvagem Skrull. Como o próprio nome já diz, o "Super" vem do fato do Super-Skrull emular os poderes dos 04 personagens que compõem o Quarteto Fantático: a elasticidade do Sr. Fantástico, a invisibilidade da Mulher-Invisível, a força bruta do Coisa e a combustão do Tocha-Humana. Apesar disso, vemos representado apenas dois destes poderes, a força do Coisa por meio da pele rochosa da mão direita e a combustão do Tocha-Humana no braço esquerdo em chamas.

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Todos esses aspectos mais negativos da peça não tiram, no entanto, a importância do personagem, ou mesmo seu direito de estar representado nesta coleção. Vejamos então quem é o Super-Skrull. Kl´rt é o nome do Skrull que se ofereceu para participar de um experimento que lhe daria grande poder ao combinar os poderes do grupo de heróis que era, na época, uma pedra no sapato do Imperador Dorrek, líder máximo do Império Skrull. Mas antes de falarmos disso voltemos um pouco no tempo para o primeiro episódio envolvendo humanos e Skrulls. Foi este episódio que motivou o Imperador à tomar a decisão de criar o Super-Skrull. A Terra entrou para o radar imperialista da raça Skrull na década de 30, mas apenas nos anos 60 é que uma intervenção foi realmente pensada. Alguns espiões foram enviados à Terra e, graças à habilidade transmorfa dos Skrulls, esses espiões conseguiram se infiltrar facilmente em nossa sociedade. Uma frota de naves vieram e orbitaram nosso Planeta levando o Quarteto Fantástico a intervir. Ciente de nossa inferioridade numérica e tecnológica, o Sr. Fantástico (Ree Richards) consegue ludibriar o Imperador Dorrek fazendo-o crer em uma capacidade de defesa que não tínhamos. Dorrek decide então abandonar a invasão e os espiões que estavam na Terra foram deixados à própria sorte, sendo então encontrados e hipnotizados por Reed, passando então a se comportarem como vacas, inclusive na aparência (uma vez que eram transmorfos).

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Obviamente, o embuste de Reed foi descoberto por Dorrek que então financia um programa em seu planeta para transformar um soldado (Kl´rt) em um ser que, utilizando-se dos mesmos poderes do Quarteto Fantástico, varreria do Universo a nojenta e abjeta raça humana. Kl´rt, transformado agora em um super soldado chega aos EUA e planta uma bandeira Skrull em plena Times Square. O Quarteto, pego de surpresa pelo ataque e por encontrar um ser que mimetizava exatamente seus próprios poderes, é derrotado. De volta ao Edifício Baxter, Reed se aprofunda então no único poder que o Super-Skrull não emulava, seu intelecto. Reed descobre que os poderes do vilão eram acionados e mantidos em funcionamento a partir de um raio ultrassônico que era continuamente transmitido à Terra a partir do Planeta Skrull. Graças a um dispositivo elaborado por Reed, o Super-Skrull é então derrotado ao ver seus poderes anulados. Essa estratégia de Reed foi suplantada pelos engenheiros Skrulls e rapidamente o  famigerado Super-Skrull voltaria ao embate com o Quarteto.

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

As batalhas entre o Super-Skrull e o Quarteto Fantástico se seguiram, tendo sempre o Quarteto como vencedor. Este estado de coisas levou o Imperador Dorrek a simplesmente desprezar Kl´rt, vendo-o como um inútil. Com isso Kl´rt passa a experimentar o pior dos sentimentos para um Guerreiro, ou seja, passa a se ver como um Guerreiro inútil e sem honra. Isso alimentou seu ódio pela família fantástica, levando-o a arquitetar diversos planos mortais contra nossa espécie. As coisas teriam um rumo triste e melancólico para o Kl´rt caso disputas internas e acontecimentos externos não tivessem destroçado o Império Skrull. Isso permitiu que uma ambiciosa Skrull chamada S´Byll chegasse ao poder. Para piorar as coisas toda raça Skrull havia perdido uma de suas marcas mais emblemáticas, sua capacidade transmorfa. S´Byll consegue ludibriar o Super-Skrull criando uma improvável aliança entre ele e o Surfista Prateado, unidos para enfrentar uma suposta ameaça à raça Skrull, os reptilianos Badoons. É por meio deste episódio que S´Byll consegue unir o poder cósmico do Surfista com as raras propriedades das células de Kl´rt, restaurando o poder transmorfo de sua raça. Isso alça S´Byll ao posto de Imperatriz da raça Skrull.

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Acontecimentos levariam à morte de S´Byll, e quem conseguiria chegar ao poder agora seria Kl´rt. Ele agora seria o monarca que levaria novamente sua raça ao posto que ele, como guerreiro sempre achara que lhe era de direito. Estes sonhos foram interrompidos pela Onda de Aniquilação que irrompeu da Zona Negativa (um universo paralelo ao nosso que possui como Imperador a criatura insetóide conhecida como Aniquilador). Estes eventos foram relatados na Saga Aniquilação na Marvel. Apenas a união de diversos personagens cósmicos da Marvel, dentre eles Nova, Surfista Prateado, Ronan, o próprio Super-Skrull, dentre outros, é que conseguiria deter o Aniquilador, mas isso a partir do sacrifício supremo do Super-Skrull, sendo ele o improvável personagem que consegue deter a Onda de Aniquilação que varria o Universo. Este sacrifício o colocaria em um grande posto dentro do Universo Marvel, passando a ser respeitado e até reconhecido como herói por muitos. Em função da banalidade com que a Marvel vem lidando com a morte de seus personagens, o Super-Skrull voltou a viver, tendo nova participação na luta contra uma segunda Onda de Aniquilação que irrompeu a partir do Território Kree (outra raça alienígena famosa por serem inimigos mortais dos Skrulls). 

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Esta nova Onda de Aniquilação forjou uma estranha aliança entre Kl´rt e Ronan, um dos mais importantes personagens dentro da hierarquia Kree. Um estranho respeito nasceu entre os dois guerreiros, permitindo que as histórias envolvendo os dois personagens ganhassem maior dramaticidade e riqueza. A história do Super-Skrull mostra claramente como um personagem que era, pelo menos à princípio, mais um vilão do Quarteto Fantastico, passou a integrar de forma importante o Universo Cósmico da Marvel. E mais, a jornada do Super-Skrull forjou uma personalidade mais complexa e dramática no personagem e  isto o tem colocado ao lado (em minha opinião) de personagens complexos em suas motivações, como por exemplo Dr. Destino e Ciclope.

Miniatura Marvel Nº 60 - Super-Skrull

Bem amigos... É isso. Quem sabe com o estabelecimento da raça Skrull no Universo Cinematográfico da Marvel no último filme da Capitã Marvel, somado à vinda dos direitos do Quarteto Fantástico da Fox para Disney, nós não vejamos um dia a encarnação de Kl´rt nas telas.

Gde. Abraço à todos!

domingo, 24 de março de 2019

O Relatório de Brodeck


"Quem conhece o mal que se esconde no coração dos homens?". Se você é um leitor de quadrinhos, você sabe a qual personagem esta pergunta está ligada. No entanto, diferente do que você está pensando em responder, a resposta verdadeira para esta pergunta seria, sem dúvida nenhuma, a seguinte: BRODECK conhece. O Relatório de Brodeck é uma HQ europeia que chegou ao Brasil no ano passado. A obra destila e desperta as mesmas sensações e emoções que grandes obras, tais como, MAUS de Art Spiegelman e A ARTE DE VOAR de Antonio Altarriba conseguiram. E, para quem já as leu, sabe que este tipo de comparação vale muito. Embora violenta, a história de O Relatório de Brodeck é aterradora não exatamente por causa disso, mas por descer nos silenciosos porões escuros da alma humana. E esta viagem se dá por meio dos diálogos e imagens do artista Emmanuel Larcenet. Dentre as diversas reflexões possíveis para a obra, podemos dizer com toda certeza que o drama das relações humanas, em toda a sua virulência e profundidade, pode ser vivenciado mesmo em microambientes, em microcosmos isolados e perdidos, como é o caso do vilarejo no qual a história se passa. E talvez, justamente por este isolamento, consigamos sentir as pessoas dentro da obra em toda sua plenitude, livres de tantas amarras tecnológicas e perfis fakes tão comuns em nosso tempo. Na obra encaramos o humano em toda sua beleza e vilania.


Fazendo apena uma breve contextualização (sem spoilers), a história se passa em um vilarejo em um país europeu não exatamente definido, no entanto muito próximo da Alemanha ao que tudo indica. O período seria logo após a 2ª Guerra Mundial. Brodeck é um dos moradores deste vilarejo e mora em uma cabana afastada da comunidade local. Na cabana vivem Brodeck, sua esposa (que possui aparentemente uma doença mental cuja origem será revelada mais à frente na obra), sua filhinha e uma velha que salvou Brodeck quando este ainda era um pequeno garotinho sobrevivente de uma vila destruída. Logo nas primeiras páginas o enredo principal se revela. Brodeck vai à vila comprar manteiga e ao entrar no único armazém do local se depara com vários homens do vilarejo com expressões estranhas e olhos cheios de desconfiança. Brodeck logo percebe o que acabou de acontecer no local. Os homens haviam acabado de cometer um assassinato, e a vítima era aquele que todos conheciam como o "Anderer", palavra do dialeto local que significa "desconhecido", algo como "forasteiro". O Anderer havia chegado à vila algum tempo antes e desenvolvido uma relação com o povo local que oscilava entre curiosidade e extrema desconfiança.


Brodeck não participara do assassinato, mas havia chegado ao local no momento errado e na hora errada e, talvez por ser um dos únicos moradores da vila que sabia escrever, receberia a partir daquele momento a incumbência de escrever um relatório a respeito do que acontecera desde a chegada do Anderer até aquele fatídico desfecho. Acuado e intimidado à todo momento pelos homens do vilarejo, Brodeck precisa escolher entre aquilo que realmente aconteceu, e aquilo que a população quer que seja escrito. Neste doloroso processo, Brodeck recorda em flash-backs os eventos que circundaram a chegada e a vida do Anderer na aldeia, ao mesmo tempo que se lembra de seu período em um Campo de Concentração Nazista. Desta forma a narrativa se passa em 3 frentes: 1) a atual, na qual Brodeck escreve seu relatório e continua com sua vida; 2) a anterior, em que eventos envolvendo o Anderer são descritos por meio das memórias de Brodeck; 3) mais anterior ainda, na qual se desenrolam eventos da época em que Brodeck era prisioneiro nas mãos dos Nazistas. Em momento algum o leitor se confunde entre estas 3 frentes, uma vez que o domínio narrativo é perfeito.


A questão central da obra é, sem dúvida nenhuma os instintos humanos e como lidamos com eles em situações extremas. E ao lê-la, vamos descendo a escadaria das masmorras da alma humana. Ao mesmo tempo em que fazemos esta aterradora viagem, somos confrontados com o que há de mais belo no mundo, os pequenos gestos de uma família que se ama, de um homem que mesmo tendo sofrido ao extremo, tenta manter sua bondade e humanidade intactas. Desta ambiguidade nasce uma obra que nos desvenda o intrincado painel que é a mente e a alma humana. Passados alguns dias do término da leitura, consigo refletir também acerca das atitudes das pessoas do vilarejo. Embora, em momento algum eu deseje validar quaisquer atitudes violentas e brutais que os homens do local tomaram, eu fico me perguntando o que EU faria se visse minha família e minha vida serem afrontadas com a violência dos Nazistas. Teria eu a coragem necessária para me erguer contra o duro e brutal punho do dominador? Conseguiria arriscar a vida da minha família e mesmo a minha vida contra o rolo compressor que foi a máquina de matar de Hitler? Responder perguntas assim sentado no sofá ou assistindo TV hoje é fácil. Por isso, ao nos colocarmos no lugar dos habitantes da vila, temos também uma outra forma de pensar a obra.


Esse medo e fragilidade foi vivenciado por todos naquela época. Por isso, peço especial atenção às palavras dos moradores e até do próprio prefeito do vilarejo quando se manifestam durante a ocupação nazista. Tais palavras, se contextualizadas, fazem muito sentido. Embora o ponto central seja a passagem do Anderer pela vila, todo o contexto da Guerra deve ser levado em consideração na obra, já que podemos sentir todo o trauma latente que foi despertado com a passagem do Anderer, e é este trauma latente que é a força motriz das atitudes dos personagens. Até mesmo as atitudes do Anderer, embora inofensivas, podem ter servido de "gatilho" para ressentimentos escondidos e traumas não tratados. Sendo assim, há um texto subjacente na obra. Ou seja, o fato de atitudes serem o tempo todo escondidas, sublimadas, e nunca trabalhadas pelo coletivo, transformam um povo em uma bomba-relógio. O caldo emocional e psíquico que isso gera em um povo é potencialmente perigoso à partir do momento que determinados "gatilhos" são acionados. Xenofobia, racismo, intolerância sobrevêm como uma erupção vulcânica e, qualquer semelhança com nosso tempo atual não é mera coincidência.


Por último não posso deixar de celebrar aqui a arte de Larcenet. A leitura de O Relatório de Brodeck tem que ser feita considerando todos os silêncios que Larcenet pressupõe em cada quadro. Ler esta obra com a mesma voracidade de um consumidor mais desatento, poderá reduzir drasticamente o significado da obra, uma vez que a própria natureza (animais, árvores, neve, arbustos, rios, paisagens...) faz parte da leitura. A ideia do autor parece-me que é fazer da natureza um expectador dos fatos. Tal como o leitor assim o é. Há muitos mistérios escondidos nas páginas e é possível que eu me aventure novamente na leitura de O Relatório de Brodeck na tentativa de decifra-los. Não poderia terminar sem chamar a atenção para os diálogos, mas destaco um que é sobremaneira impactante, a saber, a conversa que Brodeck tem com o Padre da aldeia. Prepare-se!


Bem amigos... Gostaria muito de conversar com alguém que já tenha lido a obra e trocar algumas palavras acerca de suas impressões, uma vez que ela é cheia de percepções que podem ter me escapado. É isso aí amigos! Forte abraço!

domingo, 10 de março de 2019

A Vida Secreta das Árvores - Descobrindo um Mundo Oculto


Ao caminhar por uma floresta, você já teve a sensação de estar em contato com algo que, embora incomunicável, está totalmente presente, pulsante e em silêncio ao seu redor? Sempre imaginei que se um ser fosse capaz de se desenvolver lentamente, totalmente em silêncio e por um longo espaço de tempo, era porque ele tinha descoberto algo que havia escapado aos seres humanos. Coisas que nos escaparam e das quais no desligamos e, para nosso prejuízo, nos empobreceu. Árvores sempre estiveram no centro deste mistério para mim. Sobretudo em função de viverem da forma descrita acima e por conseguirem existir dentro de uma perspectiva de tempo ampla e sem pressa. Quando descobri o livro Best-Seler do Engenheiro Florestal alemão Peter Wohlleben, fiquei extremamente ansioso pois percebi que finalmente entenderia porque sempre vi a vida vegetal sob esta perspectiva profunda. E realmente foi isso que encontrei ao ler o livro! A beleza da vida das árvores é realmente inimaginável. Cheia de segredos, mistérios e com uma vida que se desenvolve dentro de uma outra escala de tempo. E talvez justamente por isso, estes seres acabam por nos parecer (de forma errada) imutáveis ou mesmo estáticos. Isto está bem longe de ser verdade como você pode descobrir ao ler A Vida Secreta das Árvores, lançado no Brasil em 2017 pela Editora Sextante.


Embora Wohlleben seja um profissional com grande conhecimento acadêmico, sua narrativa é claramente direcionada para o público leigo, sem abrir mão, no entanto de conhecimentos ancorados em estudos e recentes descobertas científicas. Há vários pontos no livro que precisam ser destacados positivamente. Além de sua narrativa fluída, poética e cheia de cuidado, a surpresa maior se dá em função das informações que nos conduzem a um entendimento maior, mais profundo e cheio de respeito por estes seres que durante toda a existência do homem na Terra, sempre foram vistos como simples pano de fundo para paisagens, como fonte de calor, lucro e extrativismo. A percepção geral do homem é de que as árvores são seres vivos de segunda categoria e, portanto altamente passíveis de serem manipulados e explorados. Descoberta recentes tem, porém posto por terra toda esta noção rasa que o homem tem do reino vegetal.


Algo que eu já suspeitava era a possibilidade de comunicação e vida em comunidade das árvores. O que é realmente um fato. Matas são capazes de estabelecer um eficiente sistema de comunicação entre os espécimes. Conforme pesquisas recentes, isto se dá por meio do micélio, o corpo vegetativo da maioria das espécies de fungos que se entrelaçam com as raízes das árvores formando o que chamamos de micorriza, associação simbiótica entre o micélio de certos fungos e as raízes. Esta rede permite que haja troca de nutrientes entre espécimes saudáveis e doentes, de maneira que árvores mais fracas sejam ajudadas por árvores saudáveis. Além deste troca, há também troca de informações de maneira que ataques de determinados predadores (besouros, determinados fungos e outros animais) possam ser compartilhadas. Tudo isso faz com que entendamos que existe uma Wood Wide Web que, embora parecida com a nossa World Wide Web, já existia à milhões de anos. Por meio desta comunicação, espécies fazem associação de suas raízes com outras com as quais desejem se relacionar, ou não. Assim como seres humanos, pode ser que as árvores não queiram se relacionar com outras espécies ou espécimes. Isto aponta para a ideia de que as árvores tem um forte senso de suas existência, contrariando totalmente o que pensávamos sobre elas.


A vida em comunidade é também bem estabelecida entre elas. O autor nos revela formas de se comunicar que não apenas por meio da rede comentada acima. Por exemplo: quando atacadas por determinado inseto ou predador que morde suas folhas, a árvore exala determinadas substâncias que, carregadas pelo vento, passa a alertar toda a floresta, que começam a secretar fitocidas (agentes químicos em suas folhas) que espanta seus agressores. Isso vale até mesmo para grandes agressores mamíferos. Girafas por exemplo, ao perceberem o que as árvores fazem tendem a iniciar sua refeição comendo as folhas contra o vento. Assim, caso a árvore que está sendo atacada emita este sinal, ele só será sentido pelas árvores que estão a favor do vento, e não contra. Esta é uma estratégia da girafa para burlar este senso coletivo entre as árvores. Peter Wohlleben é muito claro ao ressaltar a importância de florestas naturais ou aquelas que possuem uma grande diversidade. Árvores plantadas a partir de reflorestamento, em que apenas uma espécie é plantada no local (florestas de eucaliptos por exemplo) tendem a ser solitárias. Apesar de existirem a poucos metros de outras, em geral não se comunicam ou colaboram. Tal comportamento tem sido alvo de estudos atualmente.


Em um dos capítulos nomeado como "Manual de Etiqueta das Árvores", Wohlleben coloca como devem ser as escolhas de uma árvore para que alcance um bom desenvolvimento. Vários fatores externos impedem que elas façam as escolhas corretas, sobretudo em áreas urbanas ou em florestas muito machucadas pela presença do homem. O que diminui as chances de um bom desenvolvimento. Embora pareça loucura, há espaço no livro até para se falar em fluxos migratórios das árvores! Sim! Elas migram... Em uma velocidade muito diferente daquela praticada por espécies animais. Mas há um fluxo de cada espécie, determinado por diversos fatores. Estes fluxos podem ser muito bem verificados quando os observamos por meio de uma janela de tempo adequada. Saber sobre essas coisas e humanizar as árvores é um caminho que deveríamos aprender. E por que? Porque no passado, quando atribuímos sentimentos em nossas relações com os animais, a história mostrou que isso foi acompanhado de outra coisa, ou seja, de DIREITOS para esses animais. Na medida em que conseguíssemos trilhar este mesmo caminho em relação às árvores talvez o homem pudesse estabelecer uma relação diferente com estes seres.

Peter Wohlleben

Para o homem sempre foi difícil entender ou aceitar espécies muito diferentes dele. Só porque as árvores e a flora em geral vivem dentro de uma outra perspectiva de passagem de tempo, usam outras ferramentas metabólicas, são estáticas e possuem mecanismos adaptativos mais lentos que os nossos, isso não nos dá o direito de desclassifica-las ou mesmo desrespeita-las. Peter Wohlleben reflete de forma muito lúcida ao final do livro ao aceitar o fato de que mesmo animais e até plantas sobrevivem a partir da exploração de outra espécie. Desta forma não estamos errados ao usarmos a madeira de uma árvore em nossas construções. A questão é que os animais e as árvores usam aquilo que precisam. E só!! Não exploram além do que precisam. E esta atitude pode ser entendida como uma ato de respeito ao próximo enquanto criatura e habitante do mesmo planeta em que vivemos.

Deveríamos nos ver muito mais como mordomos do que como usuários. "A Vida Secreta das Árvores" é cientificamente correto, poético e ao mesmo escrito com o cuidado que apenas alguém que aprendeu com seres milenares consegue desenvolver!

segunda-feira, 4 de março de 2019

Crise Nas Infinitas Terras - Remodelando Universos - Parte II


Na primeira parte desta matéria (Remodelando Universos - Parte I), apresentei os eventos que culminaram com a decisão da DC em reiniciar seu Universo Ficcional em 1985. Reverenciada por uma legião de fãs, a Saga Crise Nas Infinitas Terras ficou conhecida como a saga que influenciou todas as sagas envolvendo super-heróis que vieram depois. Sua validade e importância não tem precedentes para o Universo dos Quadrinhos. Embora sua qualidade seja uma unanimidade entre os fãs nas últimas décadas, haveria espaço para alguma voz contraditória em meio à avalanche de elogios? Bem... Vamos falar um pouco disso abaixo. Qual a premissa básica da Saga?


A história usada para reiniciar o Universo DC em 1985 saiu da mente do roteirista Marv Wolfman, e envolvia sua ideia ainda criança (conforme comentado na primeira parte desta matéria) sobre o Bibliotecário. A ideia central de Marv é que no princípio de todas as coisas havia apenas um Universo que, caso nada desse errado, se desenvolveria normalmente. No entanto, graças à intervenção de Krona (um habitante do planeta Oa), que alterou por meio de suas pesquisas o princípio de tudo, houve um distúrbio que conduziu ao aparecimento de diversos Universos paralelos. Todos eles com os mesmos planetas e desenvolvimento semelhante, exceto por pequenas mudanças que ao longo do tempo levou à variações importantes em cada um deles. Esse conceito explicaria a intrincada mitologia DC. Porém, nasceu ali também um Universo chamado de Universo de Anti-Matéria, cujo ser mais poderoso e governante foi chamado de Anti-Monitor. O Anti-Monitor possuía sua contraparte benigna em nosso Universo, o Monitor. Angariando progressivamente um poder incalculável, o Anti-Monitor conseguiu produzir uma gigantesca onda de anti-matéria que passou a tragar e aniquilar todas as coisas nos universos de matéria positiva.


Diante deste drama, o Monitor e sua ajudante, a Precursora, passaram a recrutar super-heróis de diversas Terras com intuito de formar uma coalisão capaz de deter a aniquilação dos Universos. Uma das primeiras estratégias do grupo é a instalação de Diapasões Cósmicos nos Universos ainda restantes com objetivo de conter a onda de anti-matéria e assim retardar seu avanço. Neste processo diversas Terras são extintas, sobrando apenas 5 delas, a Terra 1 (lar dos Heróis que tiveram sua ascensão na Era de Prata dos Quadrinhos), a Terra 2 (lar dos Heróis da Era de Ouro), Terra 4 (lar dos heróis da antiga Editora Charlton, dentre eles Besouro Azul, Capitão Átomo, Questão e Pacificador), Terra S (local de existência dos Heróis da Fawcet Comics, Capitão Marvel/Shazam e Família Marvel) e Terra X (local onde viviam os heróis adquiridos pela DC da Editora Quality Comics). Por volta do meio da Saga temos as maiores e mais conhecidas baixas da história da DC, a morte da Supergirl e do velocista Barry Allen, o Flash. Duas mortes que foram anunciadas como definitivas mas com o passar das décadas vimos que os dois personagens retornaram.


Sem dar spoiler (até porque a HQ tem mais de 30 anos), a Saga termina com apenas uma Terra restante. Não que as outras 3 foram necessariamente destruídas, mas sim amalgamadas em apenas 01. Desta forma eventos cronológicos foram fundidos, enquanto tantos outros foram literalmente esquecidos. O final da Saga me deixou com diversas dúvidas. Por exemplo: ao final diversos heróis continuavam se lembrando de suas origens pré-Crise. Diante disso, não entendo muito bem como a DC amarrou as novas origens de personagens que sabiam de suas origens antigas. Superman por exemplo ganhou uma nova origem sob a batuta de John Byrne, Mulher-Maravilha pelas mãos de George Pérez... Ou seja, tais heróis tiveram suas histórias recontadas, no entanto ao final da Saga eles sabiam de suas origens antigas. Mas dúvidas pessoais à parte vamos à pergunta-chave: Havia a necessidade deste reinício? Vamos lá... Antes de mais nada quero deixar claro que para mim o formato ideal de abarcar toda a cronologia de uma editora como a Marvel e a DC seria termos mesmo multiversos. Ou seja, multiversos nos quais cada época ou abordagem seria retratada. Por exemplo: vamos supor que eu seja apaixonado por personagens e quadrinhos da Era de Ouro dos Super-heróis, portanto nada mais interessante do que ter um universo só dedicado a esta temática. Por outro lado talvez eu goste também da abordagem adulta e violenta que se instaurou nos quadrinhos a partir dos anos 80. Então tenhamos um Universo onde esta temática é totalmente explorada. Para mim este seria o sonho de consumo. Sendo assim, ter um Multiverso é a melhor coisa para uma editora de grande porte como a DC. Validando as diversas realidades e fatos de cada versão de um herói ou vilão.


Então porque a DC não optou por isso? A resposta está em algo que Marv Wolfman aponta em suas reflexões nos Extras do encadernado Crise Nas Infinitas da Terras - Edição Definitiva (Panini 206 e 2018). Lá Marv nos conta que os roteiristas da DC foram escrevendo suas histórias ao longo das décadas sem se preocupar que tais histórias tivessem consistência com outras anteriormente publicadas, ou seja, escreviam o que achavam interessante para vender. Caso eles tivessem respeitado as fronteiras entre os Multiversos, nada disso teria sido necessário. Vou dar um exemplo, se eu sou um roteirista que escrevo dentro do Universo da Era de Ouro dos Quadrinhos, não posso simplesmente deixar que meu personagem interaja com outro que, sabidamente, vive no violento universo da Era Moderna dos anos 80. Este foi o problema! Havia muitas inconsistências. Isso teria motivado a DC a reiniciar seu Universo na época. Quando a DC anunciou recentemente que faria o chamado Rebirth, eu pensei que eles finalmente iriam assumir seus Multiversos de maneira séria. Mas pelo que já li a respeito não tem sido o caso.




Roy Thomas,  um dos Gigantes da Era de Bronze dos Quadrinhos (1970 - 1985), com passagens tanto na Marvel como na DC era um dos que eram contra o Reboot feito em Crise Nas Infinitas Terras. É possível checar esta sua oposição nos memorandos que eles escreveu endereçados à Marv Wolfman e Dick Giordano, também presentes nos Extras da Edição Definitiva da Panini. Roy admite sua oposição e, por saber que não seria atendido, simplesmente escreveu diversos memorandos pedindo que Marv não fizesse isso ou aquilo na tentativa de preservar o máximo possível da cronologia DC. Acho Crise nas Infinitas Terras uma Saga um pouco confusa, mas longe de mim diminuir sua importância dentro da 9ª Arte, ou mesmo sua influência no que aconteceu depois. Só acho que a solução emprega para sanear a complicada cronologia da DC poderia ter sido outra. E nesse caso concordo com Roy Thomas. Deveríamos ter separado os Universos definitivamente, mantendo um fronteira intransponível entre eles (ou pelo menos muito difícil de ser transposta), preservando assim personagens e enredos do passado. Esta seria uma solução que teria colocado fronteiras e saneado a cronologia da mesma forma.



É isso aí amigos... E você? O que pensa acerca da existência de múltiplos universos? Na vida real ou na ficção? Um grande abraço à todos!!

sábado, 2 de março de 2019

Crise Nas Infinitas Terras - Remodelando Universos - Parte I


Quando criança o Editor da DC Marv Wolffman ficava fantasiando uma história que pudesse incluir o máximo de heróis e vilões possível. Nela, existia um super vilão a quem Marv deu o nome de O Bibliotecário. Um ser que vivia em um satélite invisível coletando informações a respeito de nosso universo para usar quando e contra quem ele bem entendesse. Embora Marv tivesse crescido, ele jamais abandonou esse sonho. Em 1982, o já adulto Marv tornara-se roteirista e editor da DC, e ao se deparar com uma carta de um leitor sobre uma determinada incoerência na infindável e complexa cronologia DC (que na época possuía 50 anos de história), ele simplesmente travou, ou seja, não sabia a resposta. E isso passou a incomoda-lo muito. Durante uma viagem de trem  à uma Convenção de Quadrinhos ao lado de dois amigos, o também editor Len Wein e o desenhista Joe Staton, Marv explicou sua angústia... Nascia ali o embrião do que viria a ser CRISE NAS INFINITAS TERRAS, a super saga que redefiniu o Universo DC de Abril à Dezembro de 1985 no EUA. Mas por que tudo se tornara tão complexo para a DC a ponto de ser necessário um remodelamento colossal como foi CRISE NAS INFINITAS TERRAS? A resposta para isso está no passado distante.

Showcase #123 - Outubro de 1956 - Pistas de Múltiplos Universos

Como parte da iniciativa de resgatar os super heróis para uma nova Era, a DC procurava em 1956 repaginar diversos heróis dos anos 40 para que fossem atualizados para uma nova e ávida geração de adolescente e jovens do pós-guerra que vivia sob os auspícios de avanços científicos incríveis. Assim, Julius Schwartz (editor da DC na época) decidiu trazer de volta heróis que embora compartilhassem o mesmo nome de suas contrapartes dos anos 40, eram na verdade outras pessoas. Na história publicada em Showcase Nº 123 de outubro de 1956 o cientista forense Barry Allen estava lendo uma história em quadrinhos com um herói cujo poder era a super velocidade, o velocista Flash (Jay Garrick). Ao deixar o gibi sobre a mesa, Barry volta aos seus afazeres em seu laboratório e é atingido por um raio que destrói a estante com produtos químicos ao seu lado. Barry é banhado por uma mistura química eletrificada e então desenvolve poderes semelhantes àqueles do herói da revista que acabara de ler. Esta pequena passagem na história pode parecer sem importância, no entanto ela abriu um grandioso precedente ao informar aos leitores que os super heróis da Era de Ouro dos Quadrinhos (1938 à 1856) existiam em um universo ficcional.

Flash #123 - 1961 - Setembro de 1961 - A Grande Descoberta de um Multiverso

Mas o grande acontecimento que viria a delinear as próximas décadas dentro da DC e a consolidação de um Multiverso, ocorreu mesmo em Setembro de 1961 nas páginas de Flash Nº 123. Há nesta história uma das mais geniais sacadas dos quadrinhos. Com roteiro de Gardner Fox e participação direta do Editor Julius Schwartz, a história mostra o Flash Barry Allen se exibindo para um grupo de crianças ao vibrar seu corpo em uma determinada velocidade. Ao fazer isso, Barry sintoniza as moléculas de seu corpo com as vibrações de um Universo paralelo ao dele, acessando a cidade de Keystone onde vive o Flash da Era de Ouro Jay Garrick. Muito fantasioso para você? Pois não é, você verá mais abaixo que a Teoria das Cordas (altamente aceita como possível atualmente pela física moderna postula exatamente isso). O fato é que ao encontrar Jay, Barry Allen diz: "Você era famoso em meu mundo como um personagem de ficção em uma revista  chamada Flash Comics! Quando eu era mais jovem, você era meu herói favorito! Um roteirista chamado GARDNER FOX escrevia sobre suas aventuras, que ele dizia surgirem para ele nos sonhos! Isso explica como ele sonhou o FLASH!". Essa história é genial para mim!!

Os Flashes Barry Allen (esquerda) e Jay Garrick (direita)

Você já imaginou a implicação disto? De repente tudo era válido dentro da editora, já que ocorria em universos diferentes. Julius Schwartz e Gardner Fox encontraram uma elegante e científica forma de explicar elementos válidos que se existissem na mesma TERRA seriam irreconciliáveis. Além disso, esta proposta é altamente plausível. Você já não teve um sonho sobre si mesmo vivendo de uma outra forma? Eu por exemplo já tive sonhos nos quais minha vida foi muito diferente. Ao acordar me perguntava intrigado: "Nossa... De onde eu tirei tanta imaginação?". Bem... é possível que isso seja apenas resultado da "feijoada" que comi na noite anterior? Acho que sim. Mas o fato é que esses meus sonhos realmente me intrigam!! E onde a existência de múltiplos Universos levou a DC? Onde foi que as coisas deram errado? A Terra de Barry Allen passou a ser conhecida como Terra 1, enquanto a de Jay Garrick a Terra 2, onde os heróis da década de 40 haviam vivido. Aqui vão alguns problemas que derivaram disso:


O Superman também havia vivido aventuras nos anos 40. Isso implica que na Terra 1 todos deveriam conhecer sua identidade secreta, já que ele era um personagem de gibi publicado na Terra 1. Onde também existia um Superman! Como explicar que a identidade secreta de Jay Garrick era conhecida na Terra 1 e a do Superman não, já que os dois eram personagens de gibis? Outros problemas com o passar das décadas foram: o editor/roteirista "A" poderia criar uma Atlântida que nada tivesse a ver com a Atlântida do Aquaman; personagens passaram a mudar de "Terra" ao bel prazer de roteiristas, passando a fazer parte de aventuras com outros heróis em outras Terras... e por aí vai. Com o passar do tempo nasceu a Terra 3, um local onde  o único herói era Lex Luthor e os demais eram todos super vilões. Já a Terra "S" passou a abrigar os personagens da Editora Fawcet que a DC havia comprado, dentre eles o Capitão Marvel (hoje SHAZAM!) e sua família Marvel. A Terra "S" abrigou os heróis da Editora Quality Comics (também adquirida pela DC), uma Terra onde a 2ª Guerra nunca acabou. Por fim veio a TERRA PRIMORDIAL, ou seja, a Terra onde nós (eu e você) existimos.


Diante do exposto acima, e em função dos roteiristas não estarem muito preocupados que suas histórias apresentassem fatos inconsistentes com outras anteriormente publicadas, tudo foi ficando muito complicado e de difícil entendimento. A solução proposta e apresentada à diretoria de DC por Marv Wolffman e Len Wein em 1982, buscava a unificação de todos os Universos (Terras) em uma só. E para fazer isso seria criada uma grande saga que seria publicada ao longo de 1985, ano do aniversário de 50 anos da DC. Assim, e por causa de tudo isso, nasceu a Saga Crise Nas Infinitas Terras. Mas esta saga era realmente necessária? Ela realmente merece a alcunha que angariou ao longo das últimas décadas, como a mais importante Saga já publicada e parâmetro para diversas outras que vieram depois? Bom amigos... Isso responderei com minha opinião na próxima e última parte desta matéria. Não perca!!

Abcs à todos!
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