domingo, 3 de novembro de 2019

Guerras Secretas - 2015


Jonathan Hickman vem pavimentando sua carreira de forma sólida e constante. Apesar de seu nome não ser tão badalado quanto de outros roteiristas atuais como Tom King e Jeff Lemire, suas histórias tendem a ser épicas e com amplos desdobramentos. Para quem leu na totalidade ou em parte (como é meu caso) seu roteiro para Os Vingadores a partir da Nova Marvel, pôde perceber a complexidade de sua narrativa que foi se desenrolando desde a Saga Infinito até chegar ao fim com o arco Guerras Secretas (lançado pela Editora Panini em um encadernado único). Em Guerras Secretas, Hickman finalmente dá um desfecho para o que ficou conhecido como As Incursões, a aniquilação mútua e contínua de Terras/Universos alternativos. Conceito semelhante, aliás foi usado pela DC na década de 80 com sua Crise Nas Infinitas Terras, que serviu de assunto para duas análises aqui no Blog: Crise Nas Infinitas Terras - Remodelando Universos Parte I e Parte II.


Por ter sido publicada no Brasil em encadernados seguindo a forma como a histórias foram lançadas em suas revistas de origem nos EUA, A Saga Infinito ficou difícil de acompanhar, o que me motivou a fazer um guia de leitura da Saga que você pode acessar aqui. Para entender as Guerras Secretas de Jonathan Hickman, uma leitura prévia de A Saga Infinito talvez seja recomendado. Mas mesmo que você não o faça, Guerra Secretas pode ser apreciado levando-se em conta os bons diálogos e a postura de cada personagem vivendo no Mundo Bélico, um mundo remanescente feito de retalhos das últimas Terras que estavam sofrendo o processo de aniquilação. O termo Guerras Secretas é antológico e muito simbólico dentro da Marvel, assim como o é o termo Crise para DC. Isso se dá em função da saga Guerras Secretas de 1984. Uma das primeiras grandes sagas publicadas nos quadrinhos envolvendo uma grande quantidade de heróis com verdadeiras repercussões para vários personagens. A Guerras Secretas original foi um grande evento na Marvel, planejado para amparar uma linha de brinquedos que sairia a partir de um acordo entre a Marvel e a Matel na época. Apesar deste objetivo comercial por trás, havia empenho do Editor-Chefe da Marve à época, Jim Shooter, e de roteiristas para realizarem uma história bem legal, e assim o foi.


O que Jonathan Hickman faz em sua saga, é homenagear a ideia original de 1984 ao criar o seu Mundo Bélico. Nele, o Dr. Destino tornou-se o deus absoluto do planeta ao ter sido um dos únicos mortais capazes de salvar o pouco que restava das Terras em aniquilação. Talvez justamente por este caráter ambíguo (salvador e ao mesmo tempo vilão) é que a participação de Victor Von Doom seja tão interessante, ora sendo visto como deus, ora como o mesmo vilão egocêntrico que conhecemos. Um dos pontos altos deste arco é também a representação que Hickman dá às várias facetas do Universo Marvel. Se o leitor observar, cada território do Mundo Bélico (mapa acima) representa personagens ou núcleos clássicos da Marvel, tais como o núcleo mutante, aracnídeo, inumano, asgardiano, místico... É bem interessante observar cada aspecto do Universo da Editora ali representado.


Tudo poderia ir muito bem para Destino não fosse duas balsas (naves) terem sobrevivido à Aniquilação final das Terras, trazendo em uma delas um conjunto de heróis (Sr. Fantástico, Capitã Marvel, Sr. das Estrelas, Homem-Aranha "Peter Parker" e a Thor Jane Foster) e de vilões (Thanos, seus Generais, Terrax, Cisne Negro, o Inumano Maximus, Reed Richards do Universo Ultimate e, de forma escondida, o Homem-Aranha "Miles Morales", também do Universo Ultimate). A narrativa de Hickman é relativamente complexa, derivada de idas, vindas e de passagens onde há muitas coisas sub-entendidas. Os diálogos deixam muitas coisas no ar, mas que se encaixam com a observação do desenho, da expressão do personagem e, sobretudo, do contexto. Para o leitor desavisado, ou rápido demais na leitura, algumas coisas podem soar sem explicação. Esse tipo de narrativa pressupõe que todo leitor acompanhou muita coisa e é perspicaz o suficiente para entender o que não é dito. Tal opção narrativa é uma faca de dois gumes, já que para aquele leitor familiarizado com os acontecimentos-chave da saga há total entendimento, mas para leitores que não conseguem acompanhar tudo, algumas coisas ficam mesmo no ar. Particularmente sou um leitor vindo diretamente dos anos 80, época em que muita cronologia não vinha para o Brasil. Assim, desde aquela época aprendi a pressupor minha ignorância e tentar aproveitar a HQ.


Outro ponto que achei bem interessante nesta Guerras Secretas foi a mudança que cada personagem teve nesse novo mundo controlado por Destino. O Dr. Estranho por exemplo estava com Destino no momento em que ele recria a Terra no formato Mundo Bélico, ou seja, partilhou e corroborou a ação de Victor Von Doom. Seu papel no arco é, portanto de conselheiro e braço direito na corte de Destino. Apesar disso, é possível claramente ver a personalidade de Stephen Strange relativamente intacta diante de tudo. Capitão Britânia, Apocalipse, Sr. Sinistro, Madelyne Pryor e o Hulk Maestro, são alguns dos personagens detentores de Baronatos (Países) no Planeta de Destino. Praticamente ninguém possui lembrança do que havia antes, exceto Stephen Strange e o Homem-Molecular (Owen Reece), este último com um importante papel nas Guerras Secretas de 1984 e nesta também. Quando fiquei sabendo da ideia de se criar um arco com a premissa de um Mundo Bélico, com remanescentes dos Universos Marvel, achei que a ideia não iria funcionar. Mas funciona principalmente pela personalidade que Hickman imprime a cada herói e vilão. Um mérito obviamente de um bom roteirista.


Não pude deixar de comparar as Guerras Secretas de Jonathan Hickman com outras obras distópicas da Marvel. Há semelhanças com arcos como Dinastia M (Brian Michael Bendis), A Era de Ultron (Brian Michael Bendis), Os Gêmeos do Apocalipse (Rick Remender) e até mesmo Terra X (Jim Krueger, Alex Ross). As 3 primeiras sagas mostram uma realidade distorcida dentro do Universo Marvel tradicional a partir de anomalias temporais ou místicas. Já Terra X é realmente um Universo Alternativo no qual heróis e vilões tiveram destinos distintos do Universo Canônico. Guerras Secretas traz elementos de todas elas, mas que em nada sugere (em minha opinião) cópia ou falta de inspiração por parte de Hickman. Os desenhos ficaram por conta do Croata Esad Ribic (desenhista dos aclamados Loki e Namor - As Prundezas). Ribic, como sempre, desenha agregando a atmosfera necessária à narrativa do roteirista. Gostaria, no entanto, de expressar um ponto que achei negativo. O desfecho do arco talvez tenha sido rápido demais. Se considerarmos que esta história vinha sendo construída há tanto tempo, eu esperava por um desfecho que se estendesse por mais páginas, como que a prolongar o ápice. A apoteose se dá em um conflito entre Reed Richards e Victor Von Doom, com direito à acusações e sentimentos mútuos acerca de um em relação ao outro. No papel de um leitor que quer ver o clímax durar, achei que o final poderia ter se estendido mais, o que não significa que não foi bom.


Para mim Guerras Secretas de Jonathan Hickman é uma boa história, com bons diálogos, que homenageia importantes Sagas Distópicas da Marvel e a saga homônima de 1984. 
Gde. Abc. amigos.

2 comentários:

  1. Acho incrível as "coincidências" entre as editoras, pois na mesma época a DC publicou "Convergência". Não sei quem plagiou quem, mas o fato é que a saga da Marvel ficou bem melhor, e olha que sou mais dcnauta que marvete.
    Algumas coisas para mim estavam muito esquisitas desde antes da saga, como a facilidade com que universos poderiam ser eliminados para evitar as incursões e como o Sr. Destino conseguiu acabar com os Beyonders e tomar o poder, mas serviu para matar saudades, dar continuidade às histórias do excelente personagem Miles Morales e tem muitos tie-ins
    muito bons, como o do Velho Logan, que ia sendo arremessado de reino em reino, e o da Guerra Civil, que apesar de dramático, trouxe uma piada muito boa sobre a lábia dos advogados.

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    Respostas
    1. Olá amigo Moura...

      Sabe que até quis acompanhar Convergência, mas acabei não acompanhando. Fiquei muito surpreso com a vitória do Von Doom sobre os Beyonders. Neste encadernado da Panini não fica claro, e como não acompanhei os desdobramentos da Saga Infinito não entendi muito bem como se deu esta vitória.

      Particularmente não vejo problemas em Universos Múltiplos sabe. Acho até uma ideia muito interessante para se manter temáticas diferentes dentro da editora. Por exemplo, seria muito legal se cada Universo uma temática e uma linha de revistas. Caso eu gostasse do Universo Noir eu acompanharia o Universo com essa "Pegada". Caso eu gostasse mais da Era de Ouro dos Quadrinhos, ou Prata, ou Bronze eu acompanharia um determinado Universo onde a tônica é aquele segmento de HQs.

      Acho que isso diversificaria bem as HQs e atenderia à muitos. O único problema é quando os roteiristas começam a se perder e não cuidam da sua linha cronológica.

      Li pouca coisa do Miles sabia? Mas o pouco eu vi ele me pareceu um personagem bem legal. E a relação dele com o Peter é muito sadia e interessante.

      As diversas repercussões que as Incursões tiveram no Universo Marvel eu também acabei não acompanhando, dentre elas estas que você cita, mas me deixou bastante curioso!

      Valeu amigo!

      Marcelo

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