sábado, 21 de setembro de 2019

LIVRO: Interestelar - Editora Gryphus


A profundidade com que cada obra toca individualmente uma pessoa é uma experiência extremamente única e intransferível. Embora existam consensos estatísticos a respeito da bilheteria de um filme ou índices de venda de um livro, cada obra sempre encontrará terrenos diferentes para crescer dentro de cada mente. Quando assisti ao filme 2001 - Uma Odisseia no Espaço a obra já levava a alcunha de "clássico", portanto não foi difícil encontrar opiniões semelhantes à minha de que o filme era uma obra prima. Desde que vi ao filme de Stanley Kubrick sobre o monólito de Arthur C. Clarke, no entanto, nenhuma outra obra havia me tocado da mesma forma, ou seja, me feito imergir no ambiente eterno dos espaços vazios do Universo, até eu assistir Interestelar. O filme é complexo e talvez até inverossímil com suas dilatações temporais, mas é assim porque o Universo é complexo e cheio de armadilhas temporais. E quando saí da sala de cinema fiquei maravilhado com o respeito com que o Diretor Christopher Nolan tratou os segredos do Universo e como teve a coragem de nos situar na posição real que ocupamos nisso tudo, ou seja, como pequenos seres diante de forças colossais. Tudo isso me fez comprar e ler o livro Interestelar do Selo Geek da Editora Gryphus. Na verdade um romance que adapta ipsis litteris o filme e, não por isso, menos interessante.


Ler um livro como esse, que adapta ao pé da letra o filme pode parecer, à princípio, uma experiência redundante, mas não é e não foi para mim. Pelo contrário, pude expandir em minha mente as nuances científicas do filme, compreender como o roteiro é interessante e entender as motivações e dramas de cada personagem. O responsável pela adaptação, o escritor Greg Keyes, acrescentou muito pouco à narrativa já expressa no filme. Mas o que acrescentou dimensionou o universo pessoal dos principais personagens, o astronauta Cooper e sua filha Murphy, o Dr. e Dra. Brand, os doutores Doyle, Romily e os maravilhosos, críveis e interessantes androides militares Case e Tars. A história torna-se ainda mais crível através da lente do livro, ao nos fazer enxergar como o futuro da Terra imaginado pelos irmãos Nolan é totalmente plausível para os próximos séculos. Desertificações, tempestades de poeira, escassez de alimentos... uma visão de um Planeta que não nos quer mais aqui, que se cansou de nos abrigar, que se cansou de nossa irresponsabilidade. Em um mundo como o nosso, só isso já um alerta a ser revisitado várias e várias vezes.


O livro nos ajuda a entender situações cruciais para a história, e que no filme (em função da narrativa rápida) fica difícil de se acompanhar: 1º o papel do "Buraco de Minhoca" plantando próximo à Saturno; 2º o efeito temporal absurdo que o Buraco Negro Gargântua causou na história quando Cooper, Brand e Doyle descem no Planeta da Dra. Miller que orbitava o Buraco (uma parte da história em que 45 minutos na superfície do planeta correspondeu à 23 anos no tempo da Terra); 3º a abjeta traição do Dr. Mann (papel de Matt Damon no filme) que tenta matar Cooper no segundo planeta explorado; 4º a experiência quase mística de Cooper e Tars no Hipercubo dentro do Buraco Negro, momento em que Cooper percebe-se como o "fantasma" que tentava se comunicar com a filha Murphy ainda criança.


Mas em que medida uma história como essa relaciona-se com o nosso universo pessoal terrestre real? Na verdade são as respostas para esta pergunta que me fizeram gostar tanto do filme. Em 1º lugar o filme nos permite visualizar um aspecto da existência muitas vezes sublimado dentro de nosso dia a dia. Ao vivermos nossa vida dentro de uma rotina tão acirrada, em que problemas e afazeres terrenos nos inundam, fica difícil de enxergar a natureza das coisas ao nosso redor sob uma perspectiva infinita e eterna. Quando conseguimos escapar da força da rotina conseguimos ter vislumbres de uma realidade muito maior e infinitamente assustadora e bela. O filme pode servir de veículo para atingirmos esta "velocidade de escape" das coisas ao nosso redor para, por algum tempo, as transcendermos. Em 2º lugar o "tempo" é algo que não conseguimos entender. O filme lança luz sobre a possibilidade do tempo ser mesmo uma dimensão e, como tal, passível de ser observada. Desde criança me pergunto para onde vão todos os momentos felizes e infelizes que vivemos e que são, com certeza, nossos constituintes. O filme nos faz vislumbrar a possibilidade de existência de uma dimensão onde tudo isso é guardado. O hipercubo no qual Cooper é jogado dentro do Buraco Negro é um receptáculo para as memórias e vivências de sua filha. Um local sagrado onde algo e alguém está preservado no infinito. Em 3º lugar sempre me perguntei se algo poderia viajar através do tempo, e o filme traz duas especulações muito críveis de que a gravidade (algo que ainda não entendemos direito o que é até hoje) e o "amor" não seriam na verdade uma propriedade física e um sentimento, respecivamente. Mas sim uma linguagem.  Uma linguagem que, tal qual um código Morse, nos permitiria conversar através das dimensões.


Em 4º lugar, a obra nos permite enxergar o grandioso e ameaçador impacto do universo em nós. Em uma das passagens finais do livro (cenas finais do filme) Cooper encontra com a filha (Murphy) que havia deixado para trás há apenas alguns meses. Mas agora ela está com 83 anos. Este antinatural e esmagador encontro teve um profundo efeito sobre mim. Pude perceber que não estamos preparados (ou não fomos feitos) para lidar com a grandeza do Universo em sua estrutura de espaço-tempo. Nossas frágeis mentes e corações não foram dotados de instrumentos capazes de nos proteger destas imensas variações que, para o Universo, são fenômenos comuns e corriqueiros. Em 5º lugar, penso que as licenças poéticas do filme funcionam muito bem. Estantes de livros sempre me fascinaram desde criança. Um dos meus sonhos aliás era, quando adulto, ter um quarto repleto de livros do chão ao teto. E por que sempre fui fascinado por isso? Sempre que olhava para uma estante cheia de livros ficava imaginando que cada livro era uma caixinha mágica, ou um portal para Universos ou dimensões desconhecidas. Quando a estante de livros é usada na quarto de Murphy como veículo de comunicação entre as dimensões, isso fez muito sentido para mim, ou seja, as coisas que vemos esconderiam mesmo um sentido maior do que pensamos, mesmo coisas inanimadas e aparentemente inertes como uma estante. Poderiam, quem sabe, ser realmente portais de comunicação? Hoje, adulto, tenho minha estante em um dos cômodos da casa, e podem ter certeza que quando olho para ela quase que posso sentir algo além.


Todas essas sensações e percepções que me sobrevieram, talvez não tivessem me alcançado se não fosse outro detalhe da obra (aqui, falando especificamente do filme), a saber: A Trilha Sonora de Hans Zimmer. Adquiri o CD porque são poucas as vezes em que um compositor consegue amalgamar de forma tão perfeita o sentimento na tela com o som. Ennio Morricone foi Mestre nisso, e Hans Zimmer conseguiu transmutar o assombro e a solidão do Cosmo em contraponto com o universo contido e frágil do coração humano nesta trilha. Recomendo fortemente que o filme, ou o livro sejam apreciados tendo como pano de fundo a trilha de Zimmer.


Há muito ainda sobre o que discorrer a respeito da história. Sensações e nuances que me inundaram enquanto lia e assistia as adaptações da obra. Não há como não admitir, no entanto, que tudo isso que escrevi tem a ver com toda uma experiência pessoal. E isso mostra que cada um de nós, no final, sejamos também pequenos portais para Universos interiores grandiosos e majestosos.

Um grande abraço à todos!

2 comentários:

  1. "e, não por isso, menos interessante"

    Deveras. Há um certo preconceito em relação à novelização de obras oriundas do cinema ou da TV. Acho isso uma grande bobagem. Todas as mídias se complementam e podem ser felizes em conseguir, realmente, expandir dado universo.

    Abraços!

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    Respostas
    1. Com certeza amigo.

      Há obras que necessitam mesmo de uma expansão, de um olhar mais aprofundado. Raciocínio semelhante é possível se fazer com 2001 - Uma Odisseia no Espaço também citado na matéria. Outro exemplo para mim foi também ler depois de assistir ao livro do Jon Krakauer "Na Natureza Selvagem". Filme que para mim é uma obra prima por ter-me atingido como um bólido quando o assisti.

      Gde. abc.!!

      Marcelo

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