sábado, 7 de setembro de 2019

Simplesmente... Shamballa


Oculta aos olhos humanos, situada entre as montanhas do Himalaia e o Deserto de Gobi, a cidade de Shamballa é considerada em algumas tradições orientais (taoísmo, hinduísmo e budismo) como a morada dos Deuses ou dos Mestres Ascensos. Shamballa seria uma cidade localizada não exatamente no reino físico, mas em um local no limiar entre o "aqui" e o "além", que poderia ser acessada apenas por uma árdua e difícil jornada através de montanhas e intempéries naturais. A "lenda" ou "mito" acima possui similitudes com a jornada do personagem Stephen Strange, o Doutor Estranho, que após sua árdua jornada conseguiu encontrar O Ancião e alcançou seu destino como Mago Supremo do Universo. Lançada originalmente nos EUA em 1982, e no Brasil apenas em 1989, Dr. Estranho - Shamballa talvez seja a HQ que melhor defina o universo no qual o personagem habita. Uma HQ que conseguiu como nenhuma outra captar e essência do personagem. Lisérgica em sua narrativa e em sua apresentação gráfica, Shamballa deve ser conhecida e recebida com o silêncio e respeito que merece.


Quando Stan Lee e Steve Ditko criaram o Dr. Estranho em 1963 estavam criando na verdade um poderoso elemento catalizador para um grande anseio da época. O ocidente, sobretudo os Estados unidos, estava descobrindo o oriente com sua forma peculiar de ver a vida. A abordagem intimista das religiões orientais fascinaram uma geração que buscava algo mais que a simples concretude que o capital lhes prometia. Discos como o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band de 1967 sintetizava em algumas faixas esse anseio pelo místico. O próprio movimento Flower Power dos hippies nos anos 60/70 bebia na fonte do prazer imaterial místico. A genialidade de Lee e Ditko esteve na capacidade dos dois lerem o "espírito do seu tempo" (Zeitgeist) e traduzirem esse anseio em um personagem. Embora surpreendente na época, o interesse de uma gama enorme de pessoas (sobretudo universitários) nas histórias do Dr. Estranho foi na verdade apenas um efeito natural e consequente, se pensarmos no que o Dr. Estranho oferecia: uma viagem lisérgica por mundos imateriais.


Como citei acima, algumas histórias tem a capacidade de destilar a essência de um personagem. Exemplos disso seriam Batman - Ano UM, A Queda de Murdock no caso do Demolidor, Deus Ama o Homem Mata no caso dos X-Men, entre outras. No caso do Dr. Estranho eu acho que poderíamos citar Shamballa. Com uma arte verdadeiramente catártica, onírica e até psicodélica, o artista Dan Green emoldura uma obra única. Shamballa narra o retorno do Dr. Estranho depois de muitos anos ao Himalaia para visitar o santuário do seu outrora Mestre, O Ancião. Um turbilhão de imagens e lembranças preenche a alma de Stephen Strange ao andar novamente pelos corredores vazios do templo em que antes estivera como aprendiz. Ali, naquele santuário de silêncio e lembranças Strange recebe um presente deixado pelo seu falecido mentor, uma caixa.


A partir deste presente a história se desenrolará afundando o personagem e o leitor em uma viagem por locais sagrados da Terra. Shamballa resgata o interessante conceito místico chamado de As Linhas de Ley. O termo foi cunhado em 1913 pelo arqueólogo Alfred Watkins em seu livro Early British Trackways, e retomado décadas mais tarde pelo escritor John Michell em seu livro The View Over Atlantis de 1969. Este conceito pressupõe que a Terra (assim como nosso corpo na Acupuntura) possui linhas de energia que a percorre e se cruzam em lugares específicos do Globo. Esses cruzamentos teriam originado o que conhecemos hoje como locais sagrados. Assim como em nosso corpo na Acupuntura, a energia fluindo por esses caminhos indicaria saúde. No caso do mundo indicaria a saúde mística e espiritual do planeta.  A história também resgata o anseio tão difundido nos anos 70 sobre a chegada de uma Nova Era para a Humanidade, o que foi chamado de A Era de Aquário.


A Shamballa do título aparece na história como o local da morada de mestres que outrora viveram em nosso mundo e repousam agora neste local como uma mente integrada. Um local de paz, mas ao mesmo tempo de reflexão destes mestres que de lá ainda participariam do destino do Mundo com suas decisões. O conceito da cidade de Shamballa foi muito bem explorado em outra obra, o livro Horizonte Perdido publicado em 1933 e escrito pelo autor britânico James Hilton. No livro de Hilton, Shamaballa recebe o nome de Shangri-lá e é uma cidade mística escondida nas montanhas do Tibet. Na história um avião com alguns passageiros cai nas montanhas e, seus sobreviventes acabam por atingir Shangri-lá. A obra foi adaptada de forma soberba e definitiva pelo cineasta Frank Capra em 1937, ganhando Oscar de melhor filme na época.


Doutor Estranho - Shamballa ganhou relançamento no Brasil pela Editora Panini em 2016 em capa dura e acabamento que honra a obra. Conhecer a história é se aprofundar em um Universo que, embora místico, mostra-se crível e plausível. O leitor é levado a perceber de forma muito sútil que há forças muito superiores que operam na esfera da vida e, sem querer parecer paradoxal, que o imaterial é talvez mais concreto do que pensamos. Como trilha sonora para a leitura de Dr. Estranho - Shamablla, recomendo a música Landing in Shambhala presente no disco UFO Planante do grupo Companhia de Ópera Invisível do Tibet (Invisible Opera Company of Tibet), uma iniciativa musical mundial que aqui no Brasil ficou ao cargo dos músicos da banda Violeta de Outono com seu líder Fábio Golfetti.


Simplesmente Shamballa...

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