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domingo, 29 de dezembro de 2019

Destaques 2019 - Quadrinhos


Nesta matéria apresentarei as HQs que li em 2019 e que me chamaram atenção. Como vocês poderão ver, são obras que não necessariamente saíram em 2019, mas sim que li em 2019. Algumas delas inclusive são antigas, porém passaram por um relançamento recente. Neste ano, um dos grandes destaques foi a manutenção da publicação de HQs clássicas, sobretudo dentro de linhas como Coleção Histórica Marvel e Lendas do Universo DC, duas linhas que infelizmente possuem futuro incerto, uma vez que a Panini foi relativamente ambígua ao falar sobre sua continuidade na última CCXP 2019. A grande justificativa seriam as vendas. De qualquer forma vamos às minhas leituras. Os destaques estão em ordem de leitura ao longo do ano e deixei abaixo de cada dica um link da Amazon para caso você se interesse por alguma HQ. Você pode adquiri-la usando um dos links que deixei, o que ajudará muito o Blog. Caso você tenha interesse em saber mais a respeito de cada obra abaixo (sem spoilers), você poderá ler posts específicos que fiz para quase todas, é só clicar nos nomes das obras (em vermelho) que você será direcionado aos posts.


Em janeiro de 2019, iniciei meu ano com uma boa surpresa: O Que Aconteceu ao Capitão Stone?. Lançada no Brasil pela Editora Mythos, a história traz uma arte que emula e homenageia o grande Bill Sienkiewicz, além disso, é inteligente, violenta e uma excelente crítica ao nosso tempo, à atual superficialidade e inconsequência. A história envolve mistério, dimensões paralelas e questões envolvendo o espaço-tempo. Sua linha narrativa lembra muito a obra Batman - O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Há referências à Guerra do Golfo, Saddam Husseim, Arnold Schwarzenegger, Al Pacino e seu Scarface, Led Zepelin, Conan - O Filme... O final da HQ deixa uma grande interrogação. Em contato com o editor da Mythos, perguntei acerca da continuação da série no Brasil e ele me respondeu que mesmo nos EUA ainda não havia saído a continuação. Outro ponto que pode influenciar sua continuidade por aqui seria o comportamento das vendas deste 1º volume, o que acredito que não tenha sido tão boa. Infelizmente.


Amor e Guerra é uma Graphic Novel do Demolidor lançada no Brasil em 1988 e relançada em capa dura em 2018 por aqui. Proveniente de uma época de ebulição criativa de Frank Miller e de maturidade do traço de Bill Sienkiewicz, a HQ traz à tona a ambiguidade da personalidade de Wilson Fisk, O Rei do Crime, ao ser confrontado com o adoecimento de Vanessa, sua amada. Fisk é forçado pelo "amor" que sente por Vanessa a fazer o que nunca pensou, ou seja, se submeter à situação que lhe é imposta. Sienkiewicz  desenha a partir das emoções e sentimentos envolvidos em cada cena. Por exemplo, quando quer informar sobre o poder de Fisk, o artista o desenha com proporções gigantescas. O leitor sabe que ele não é tão grande assim fisicamente, no entanto percebe as intenções artísticas de  Sienkiewicze, e funciona muito bem!



Lançado no apagar das luzes de 2018, O Relatório de Brodeck é um verdadeiro bólido dramático. Tanto roteiro quanto arte estão 100% à serviço de um objetivo: mergulhar o leitor no interior de corações humanos submetidos à um estresse emocional enorme, a saber, a 2ª Guerra Mundial. A HQ se passa em um microcosmo, ou seja, em uma pequena cidade perdida nas montanhas Europeias. Em uma leitura mais superficial podemos ficar tentados a tomar partido do guarda florestal Brodeck, mas há coisas mais complexas como pano de fundo. O desafio proposto ao leitor é compreender o que pessoas acabam por fazer para manter íntegra suas famílias, comunidade e pessoas que amam. Caso o leitor alcance esse sub texto proposto na obra, verá que O Relatório Brodeck é uma obra que nos coloca em xeque enquanto seres humanos.




Talessa Kuguimiya é uma artista brasileira extremamente versátil. Seu traço camaleônico tanto pode assumir de forma brilhante a tradição do mangá quanto navegar por outras paragens gráficas facilmente, como por exemplo na obscura HQ Olho Verde ou em Minsk, uma obra com todo o frescor da infância. Em Cinco Vermelhos, obra financiada na Plataforma Catarse, Talessa nos apresenta uma história que casa de forma excepcional a arte gráfica com a sonora. O leitor pode acessar uma plataforma para ter acesso, via QR Code, a vídeos complementares nos quais a arte de Talessa se funde à música da violonista e compositora Karla Dallmann. Essa experiência expande completamente a perspectiva do leitor. Esta fusão de arte gráfica e música já esteve presente em outros trabalhos da autora como na supracitada Minsk e na recente Sobre Trilhos. Especificamente em Cinco Vermelhos temos uma história de vingança em pleno Japão feudal. A história nos transporta para uma época em que a paz e a guerra, a quietude e a violência, a honra e a desonra estão em estreito equilíbrio. Grande destaque de 2019.


Mudando completamente de gênero, outro destaque é a HQ N., lançamento primoroso da Editora Darkside de um conto expandido de Stephen King. A adaptação ficou por conta do escritor Marc Guggenheim e do aclamado artista Alex Maleev. N. (referência à primeira letra do nome do protagonista) é uma história Lovecraftiana no qual o leitor realmente se depara com algo assustador. Perdido na zona rural de uma pequena cidade norte-americana, um monumento milenar é alvo da atenção de um fotógrafo amador (o N. do título). Ao fotografar o monumento algo estranho parece passar a influenciar de forma aterradora ao vida de N. Tudo poderia ser apenas mais um conto de terror, mas a forma como Guggenheim adapta a história e a atmosfera que Maleev impõe às cenas e às expressões do personagens, transformaram N. em um conto realmente assustador. Outro grande destaque de minhas leituras.





Um dos pontos altos de 2019 foi o lançamento da Coleção Príncipe Valente pela Editora Planeta DeAgostini. Eu sempre ouvira falar da qualidade desta longeva obra que atravessou o Século XX (de 1937 até hoje), mas nunca havia lido nada. Com o lançamento da coleção resolvi finalmente lê-la. Realmente tudo que ouvira falar é verdade, a obra é excepcional não apenas por conta da maravilhosa e acadêmica arte de Hall Foster, mas a história envolvendo Valente (o protagonista) é realmente envolvente e cheia de reviravoltas. A ambientação é algo que eu nunca havia visto, Foster se preocupou em retratar não apenas os Cavaleiros Arturianos, mas também as vestimentas, armas, mobiliário e até utensílios domésticos. Hall Foster entrou rapidamente para meu Top 5 de melhores desenhistas de todos os tempos. Cada volume trás as tiras referentes a 01 ano, em que cada página refere-se à uma tira semanal. Este modelo de narrativa pode parecer ultrapassado, mas funciona muito bem, inclusive a opção do autor de não narrar a história por meio de balões, mas sim por meio de pequenos textos sobre sobre cada cena, é extremamente adequado à história e flui muito bem. Realmente grande destaque de 2019!





Batman - O Messias é outro relançamento dos ano 80 em capa dura e volume único que apresenta uma das melhores HQs do Batman depois das aclamadas e imbatíveis Batman - O Cavaleiro das Trevas e Batman - Ano Um ambas de Frank Miller. Na HQ Batman é visto pela primeira vez sendo quebrado em seu ponto mais forte, sua mente. A obra é violenta e alcança níveis de barbárie insanas, com uma Gotham City sitiada por fanáticos seguidores de um estranho líder espiritual. O mesmo líder que consegue subverter a psiquê de Batman, transformando-o em alguém inseguro de si mesmo. Duro e difícil é o caminho que Bruce Wayne precisa percorrer para resgatar a si mesmo. É Jim Starlin (o Criador de Thanos e responsável pelas consagradas Sagas do Infinito da Marvel e por personagens como Dreadstar) em seu melhor estilo.



O 4º Mundo de Jack Kirby foi uma epopeia cósmica lançada nos anos 70 na DC. Uma época em que Kirby estava afastado de sua casa original, a Marvel. Foi nesta saga que o autor trouxe à luz uma mitologia inteira envolvendo dois Mundos, Apokolips, lar de Darkseid e Nova Gênese, lar do Pai Celestial. Esta rica mitologia trouxe também personagens incríveis, como é o caso do Sr. Milagre. O badalado autor Tom King faz aqui uma leitura do personagem no qual trabalha seu relacionamento com a Grande Barda, outra personagem do 4º Mundo e com a qual é casado. A HQ, além de focar no dia a dia doméstico do casal, tem um grande fundo dramático ao remexer no passado de Scott Free (alter-ego do Sr. Milagre). Um passado de dor, mágoa e angústia ao ter sido trocado por seu pai (O Pai Celestial de Nova Gênese) pelo filho do tirânico Darkseid de Apokolips, Órion. Tom King já anunciou que a história terá uma continuação. Gostei muito da HQ e fiquei com uma grande impressão de que a história tem um fundo alternativo, ou seja, fora da cronologia oficial (mas isso é impressão minha dado os grande eventos que ocorrem ao longo da história).





Outro relançamento excepcional foi Shamballa, HQ assinada por J.M. DeMatteis e com a maravilhosa e lisérgica arte de Dan Green. Lançada nos anos 80, a obra traz o Dr. Estranho em uma história que conseguiu captar o DNA do personagem. Cada personagem, seja ele da Marvel ou da DC, sempre possui uma ou outra história em que o autor consegue destilar a essência do herói ou vilão. Shamballa cumpre este papel no caso do Dr. Estranho. Não apenas pela beleza da arte, mas por um roteiro que, se lido com os silêncios sugeridos em várias páginas sem diálogos, leva o leitor à uma catarse típica dos processos meditacionais profundos ou experiências sobrenaturais. Uma obra imprescindível na coleção de qualquer amante da 9ª Arte!


Guerras Secretas de Jonathan Hickman é o clímax de uma saga que ficou conhecida como A Saga do Infinito de Jonathan Hickman, e se iniciou com o lançamento da iniciativa Nova Marvel, ainda no início desta década. Foram inúmeros encadernados dos Vingadores, Novos Vingadores e Especiais lançados por aqui narrando o fenômeno multiversal conhecido como As Incursões. A fase foi aclamada lá fora e teve uma publicação complexa aqui no Brasil, sendo necessário até um guia para sua leitura, pois para uma melhor compreensão o leitor precisava ir e vir entre os encadernados. Cheguei inclusive a fazer um post aqui no Blog explicando como lê-la. Este encadernado acima finaliza a Saga e homenageia as Guerras Secretas de 1984, ou seja, heróis e vilões lutando entre si em um Mundo. Gostei da finalização da saga, os diálogos são bons e o único ponto negativo no encadernado foi que o grand finale ficou reservado apenas para as últimas páginas. O leitor fica com a vontade do clímax se estender um pouco mais tendo em vista o longo desenrolar da saga.



Por ocasião do lançamento no Brasil, este ano, da continuação do Universo de Sandman, tendo Neil Gaiman como consultor, resolvi reler Os Livros da Magia. Estou comprando os novos encadernados desta retomada do Universo do Sonhar e entre eles quem retorna é Tim Hunter, o personagem central de Os Livros da Magia. Lançada originalmente em 1990 nos EUA, e em 1991 por aqui, a história continua originalíssima e não apenas manteve seu brilho, mas até o consolidou, uma vez que verificamos que as coisas tratadas em suas páginas realmente são atemporais. A arte dos 4 desenhistas continua vigorosa e emoldura perfeitamente cada parte. Uma HQ que também não pode faltar para aquele que é colecionador.




Já que estava imerso no Universo de Sandman, resolvi ler uma obra que estava em minha pilha mas que por "n" motivos ainda aguardava minha atenção: As Fúrias. Proveniente também dos anos 90 na fase pós encerramento de Sandman por Neil Gaiman, As Fúrias, embora não seja escrita por Gaiman é como se fosse. É lírica, violenta, melancólica, mágica... E a arte do incrível John Bolton está simplesmente incrível. As expressões que Bolton conseguiu dar aos personagens os faz saltar das páginas. Tive uma experiência realmente incrível com esta HQ. Ela não é apenas relevante cronologicamente dentro da Mitologia do Sonhar, é também um incrível mergulho no mundo de deuses e semideuses, mitos, tradições e história. Recomendo fortemente!!

Bem amigos estes são meus destaques no que se refere à quadrinhos lidos em 2019! E os seus? Escreva nos comentários para debatermos! Um grande abraço e já deixo aqui meu Feliz 2020 para todos vocês. Na sequencia trarei meus destaques de 2019 no que se refere à livros que li este ano. Não deixem de acessar.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos


Paranóico, lúcido, brilhante, imaturo, perspicaz, confuso, visionário, obtuso, profético e, acima de tudo genial, Philip K. Dick já foi chamado pela escritora Úrsula K. LeGuin de Jorge Luis Borges da ficção científica. Mas como alguém pode ter tantos adjetivos contraditórios e ser reconhecido desta forma? Por muitos anos  enxerguei Dick como uma lenda da ficção científica (e ele realmente o é) que avançou para campos polêmicos em seus livros, tais como: Qual a verdadeira natureza da realidade? Vivemos em uma Matrix? Quais atributos fazem de nós seres humanos? Podemos sair da caverna para a verdadeira realidade para a qual fomos criados? Dick fez parte de um tipo de sub gênero da ficção científica conhecido como New Science Fiction. Um subgênero do qual a própria Úrsula K. LeGuin e autores como Robert A. Heinlein fizeram parte, e que usava a ficção científica para abordar questões filosóficas e até espirituais. Lançado no Brasil pela Editora Aleph há algum tempo, o livro Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos do francês Emmanuel Carrère se propôs a mergulhar fundo na psiquê do escritor. Na minha estante há um bom tempo, o livro me convidava a mergulhar no universo que foi a mente de Dick. Finalmente percebi que era a hora de descobrir quem realmente ele foi, além de tentar entender a mística experiência cristã que ele alegava ter passado.


Caso você não tenha reconhecido, Philip K. Dick, falecido em 1982, é a mente por trás de histórias que ajudaram a dar forma à boa parte do imaginário ficcional moderno, abordando questões profundas e filosóficas. Só para citar alguns de suas obras que viraram filmes: Blade Runner - O Caçador de Androides de 1982 (baseado no livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?); Minority Report de 2002 (baseado em um conto de mesmo nome); O Vingador do Futuro de 1990 (baseado no conto We Can Remember It for You Wholesale); a série Sonhos Elétricos de 2018 (baseado no livro de mesmo nome), entre outros. Inquieto e paranoico, Dick construiu ao longo da vida uma densa malha de conjecturas a respeito de si próprio e da realidade ao nosso redor. O livro de Carrère vai fundo nesses delírios e apresenta-os dentro da lógica do autor, segundo a qual existem significados profundos nas pequenas idiossincrasias de nosso dia a dia, como um programa de computador de uma Matrix que eventualmente passa por falhas. Caso você tenha percebido alguma similaridade entre esta forma de pensar e o filme MATRIX, já adianto que o filme dos Irmãs Wachowski com Keanu Reeves no papel principal foi lançado em 1999, enquanto as ideias de Dick surgiram nos anos 60 e 70.


Dick era gêmeo da pequena Jane, irmã que faleceu ainda bebê em função da falta de orientação de sua mãe que não complementava a alimentação da filha. Assombrado por isso a vida inteira, Dick já mostrava sinais de uma imaginação fértil e uma inteligência ímpar ainda criança. Capaz de entreter uma plateia facilmente com seu carisma, ele se divertia em defender pontos de vista e, ao convencer seus interlocutores acerca de alguma questão, mudava de opinião imediatamente, deixando a todos desnorteados. Desde cedo ele enveredou pela dependência de medicamentos, o que se aprofundou com a consolidação de seu status de escritor. Embora sonhasse com um lugar na literatura dramática (gênero adotado e reconhecido como "literatura séria" pelos acadêmicos desde sempre), foi na ficção científica que ele percebeu que conseguiria dar vazão às suas conjecturas. Ainda jovem, um de seus primeiros livros de sucesso O Homem do Castelo Alto, foi sucedido por uma estranha experiência na qual foi surpreendido por um imenso e medonho rosto que o observava do céu. Esta experiência, que se repetiria algumas vezes, o aproximou da fé cristã, para a qual se converteu e foi fiel (dentro de seu modo de pensar) até sua morte.


O livro de Carrère nos permite mergulhar na mente de Dick a partir de seus livros, ou seja, é possível entender a evolução do pensamento do autor a partir do que cada livro aborda. Em O Tempo Desconjuntado de 1959, por exemplo, percebemos que nossa realidade pode ser simplesmente um simulacro universal, temática que evoluiria em seus livros na década de 60. Como parte de seus questionamentos e consequente evolução deles, em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? de 1968, Dick escreve mais que um livro, escreve um tratado de teologia cibernética com direito à profundos questionamentos filosóficos. O sucesso do filme derivado, Blade Runner, apenas confirma a qualidade dos delírios/conjecturas do autor. É muito prazeroso acompanhar o desenvolvimento da mente de Dick, e conseguir enxergar seu reflexo em sua obra. Mas toda esta criatividade viria acompanhada de casamentos desfeitos (em geral pela imaturidade emocional de Dick) e pela paralisante convivência com pessoas complicadas. Durante uma grande fase dos anos 60/início de 70 o autor ficaria em companhia de drogados. O próprio Dick sempre fizera uso, dentre os vários medicamentos, de anfetaminas e metanfetaminas.


Mas foi em 1974 que ele passaria por uma experiência única pela qual Deus havia se comunicado com ele. Dick sempre fugiu de nomear Aquele que lhe contatou como Deus, pois sabia da conotação religiosa e fanática que essa declaração poderia sugerir nas pessoas. Por isso preferia chama-Lo de outros nomes que não vou mencionar aqui para não entregar spoilers da biografia. A experiência é descrita no livro de Carrère e é moldada a partir de sonhos, imagens, visões e línguas que chegavam a Dick. Carrère procurou manter uma postura de respeito diante da experiência, mas não deixa de apresentar as diversas medicações (o que poderia explicar o que aconteceu) que Dick fazia uso. O que, de certa forma, não invalidaria a legitimidade das possíveis teofanias. A partir de destas experiências Dick passaria a entender porque teria escrito o que escreveu em seus livros anteriores, passando a considera-los mensagens a serem entregues ao mundo, mensagens acerca da grande conspiração que estaria por trás do simulacro de realidade no qual vivemos. Não à toa, ele passaria a se sentir perseguido por pessoas que, ao seu julgamento, não queriam que tal verdade fosse conhecida das pessoas.


Toda esta sensação de perseguição de Dick foi validada pela forma como foi desmascarado o então presidente Norte-Americano à época, Richard Nixon. Toda investigação que desembocou em seu processo de Impeachment validava as várias teorias de Dick a respeito de agentes que operam à nossa revelia para nos manter em um estado de ignorância a respeito de quem somos. Em todo esse contexto vale ressaltar que Dick acreditava na divindade de Jesus Cristo e entendia sua vinda à Terra como parte do plano de Deus para nos salvar de uma mentira que sempre nos corrompeu enquanto humanos. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará, fazia todo sentido dentro da perspectiva de vida de Dick. Ao longo dos anos 60, ele arrebanhou diversos admiradores de vanguarda, que viam em sua visão ímpar, o ressoar da contracultura que se instalava na América. Por exemplo, o ressignificar de dogmas e modelos de pensamentos arcaicos. Mas este mesmo grupo de vanguardistas o abandonou quando ele passou a defender sua visão de mundo em que Deus passava a ter protagonismo em suas ideias. Isto ficou claro em um histórico discurso que Dick fez na França à convite de escritores para discursar em uma Universidade, onde revelou como realidade o fato de vivermos em uma matrix, e citou a Bíblia em vários momentos do discurso.


Obviamente minha interpretação da visão de Dick aqui é muito simplória e superficial, se considerarmos o espaço que tenho e o objetivo do post. Fica fácil de entender, por exemplo, a reação de rejeição de seus fãs diante do acirramento de seus posicionamentos delirantes adotados na segunda metade da década de 70 a respeito do grande plano de Deus. Não posso deixar de dar minha opinião, no entanto, do que acho da mente de Dick, concorde você comigo ou não. Acredito que a visão dele era única dentro de uma teologia pessoal, e que seus sentimentos eram, apesar de confusos, genuínos e honestos na busca de um sentido maior para a vida. Nesse sentido, Philip parecia dar mais valor à sacralidade de sua busca do que à fama derivada dela. Isso o coloca acima de vários autores, infelizmente muito mais interessados em chocar seu público e polemizar assuntos em benefício próprio. Dick realmente queria descobrir o sentido das coisas, sua busca era honesta e verdadeira, e isso já o coloca acima de uma legião de escritores.


Talvez exista mesmo uma mensagem escondida no conjunto de sua obra. Algo que deva ser ainda decodificado e nos coloque dentro de uma percepção nova a respeito de quem somos e de nosso lugar em meio à tudo. Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos é um livro que não exclui os pontos fracos e fragilidades de Dick, e talvez justamente por isso eleve suas ideias.

Recomendo muito o livro de Carrè, e caso alguém se interesse, deixei o link na Amazon que está com ótimos preços. Se você for compra-lo, faça pelo link aqui do Blog, assim você estará ajudando na sua manutenção.


Um grande abraço à todos!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Miniatura DC Nº 31 - Aquaman

Miniatura DC Nº 31 - Aquaman

Criado ainda na Era de Ouro dos Quadrinhos (1938-1956), Aquaman sempre foi um personagem à beira do triunfo. Um herói com todas as prerrogativas dramáticas para se tornar um imenso sucesso. Embora visto na maioria das vezes como coadjuvante, ele tem uma mitologia própria que contempla uma trajetória digna de um grande personagem. Criado pelo grande editor da DC Mort Weisinger, Aquaman nasceu na efervescência de uma Era que, sob o peso da 2ª Guerra Mundial, testemunhou a criação de semideuses (Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Capitão América...). Weisinger tem em seu currículo a co-criação de outros importantes personagens como Arqueiro Verde e o Flash da Era de Ouro Jay Garrick. Hoje veremos as características da peça de Nº 31 da Coleção de Miniaturas da DC Eaglemoss e desbravaremos um pouco da mitologia deste que é um dos membros fundadores da Liga da Justiça América.

Miniatura DC Nº 31 - Aquaman

Em minha opinião a peça apresenta Aquaman em uma postura digna e que honra seu título de grande soberano dos mares. Sua posição altiva, segurando o grande Tridente, lhe confere ares de realeza e ao mesmo tempo de combate. Gostei bastante também da malha dourada amarelo ouro na peça. Além de compor seu traje original, a pintura da malha está muito bem feita e a presença das escamas devidamente destacada. A luvas verdes, em consonância com a malha verde das calças, traz o detalhe de barbatanas na parte posterior dos antebraços e da perna. Um detalhe que possui não apenas objetivo funcional para auxiliar no nado, mas também faz alusão à barbatana de predadores dos mares, como o tubarão, por exemplo. 

Miniatura DC Nº 31 - Aquaman

O tridente apresenta-se bem modelado, e as lanças que o compõe estão devidamente distintas, e os detalhes circulares, como se fossem anéis na região superior, média e inferior do cabo, evocam um estilo épico Art Deco. A pintura está bem delimitada e não ultrapassa os limites de cada item da indumentária. A modelagem das feições está aceitável, diferentemente de algumas peças da Coleção de Miniaturas Marvel da Eaglemoss, que trazia as feições um pouco deformadas. O rosto do Aquaman aliás pode muito bem ser atribuído ao ator e nadador Buster Crabbe. Intérprete de personagens importantes no cinema nos anos 30, dentre eles Tarzan, Flash Gordon e Buck Rogers. A musculatura está bem definida na peça, sobretudo a do tórax, que se projeta de forma muito mais avantajado do que os membros inferiores. Característica esta, marcante em nadadores de longa data em função da hipertrofia da musculatura ventilatória e de membros superiores.

Miniatura DC Nº 31 - Aquaman

Mas qual a história de Aquaman? Podemos dividi-la em duas, o Aquaman da Era de Ouro, cuja origem estava ligada ao seu pai, um importante explorador dos oceanos que descobre a cidade perdida, submersa e em ruínas de Atlântida. Ali, o pai do herói estabelece sua morada em uma casa à prova d´água onde passa a estudar os manuscritos e a ciência da outrora metrópole. Graças a segredos antigos descobertos, o pai de Aquaman ensina o pequeno filho a viver e respirar embaixo da água. E não apenas isso, o herói passa a deter força sobre-humana e sentidos que o permitiam (nessa versão inicial) "falar" literalmente com os animais do oceano, já que ele seria também versado na língua deles. As histórias desta versão foram publicadas ao longo da revista More Fun Comics, sendo que sua primeira aparição ocorreu no Nº 73 de novembro de 1941. A maioria dos vilões que Aquaman combatia eram nazistas em suas embarcações (U-Bots). Após a Guerra seus vilões converteram-se em piratas modernos, ameaças à vida marinha e às rotas das embarcações. A base de operações do herói era um solitário trono escondido em meio à cidade submersa.

Miniatura DC Nº 31 - Aquaman

Com a chegada dos anos 60, uma verdadeira revolução instalava-se no meio quadrinístico capitaneada pelos editores Julius Schwartz na DC e Stan Lee na Marvel. Vários heróis foram resgatados da Era de Ouro e reinventados sob uma nova perspectiva, mais científica e "pé no chão". Aquaman também teria então sua origem recontada. Nela, uma rainha de Atlântida chamada Atlanna concebeu um menino loiro a quem deu nome de Orin. Em função de uma superstição milenar ligada à "cabelos loiros", Orin foi abandonado em um recife para morrer. Orin, no entanto não morreu, mas foi adotado por golfinhos que o ajudaram a sobreviver no hostil oceano. Em sua adolescência Orin conheceu um solitário zelador de farol chamado Arthur Curry, que viria a ensinar-lhe várias coisas acerca do mundo da superfície, dentre elas seu idioma e costumes. Esta experiência ao lado de Arthur, gerou em Orin uma profunda empatia pela amabilidade humana, sobretudo quando guerreiros Atlantes descobriam Orin e o atacaram. Nesta ocasião, Arthur não apenas defendeu Orin, mas deu sua vida por ele.

Miniatura DC Nº 31 - Aquaman

Após a morte de seu mentor, Orin foge e passa a ser caçado por Atlantes que por fim o prendem em uma prisão em Atlântida, onde recebe o uniforme de prisioneiro de malha amarela. É na prisão que ele conhece Vulko, outro prisioneiro que o ensina o idioma Atlante. O jovem herói descobriria que sua mãe Atlanna estaria na mesma prisão que ele, mas infelizmente ela é morta antes que ele pudesse conversar com ela. Foi neste ponto que o herói foge da prisão e em uma incursão na superfície conhece o herói Flash, com o qual passa a ter uma amizade que o introduz ao mundo dos heróis da superfície. Orin, que adotara o nome de Arthur, se juntaria à outros grandes heróis fundando nesta época a Liga da Justiça da América e ganhando a alcunha de Aquaman. Já maduro, e com suas emoções controladas, Aquaman retornaria à Atlântida, encontrando-a sob um novo governo do qual seu antigo Vulko fazia parte. Aquaman descobriria também suas origens reais e seria então convidado a se tornar Rei. Foi nesta época que ele se apaixona pela linda Mera e tem seu filho Arthur Curry Jr.

Miniatura DC Nº 31 - Aquaman

Mas foi justamente nesta fase que uma das maiores tragédias dos quadrinhos se abateu sob Aquaman, o assassinato de seu pequeno e inocente filho pelo vilão Arraia Negra. Um evento que tenho dificuldade de aceitar até hoje pela sua brutalidade. O consenso atual sobre Aquaman é um pouco diferente desta origem da Era de Prata. Considera-se que o herói é na verdade filho de um relacionamento entre Atlanna e o faroleiro Tom Curry. Esta alteração na sua origem tem sido aceita e até foi representada no filme que trouxe Jason Momoa no papel do herói. Há diversas outras idas e vindas na mitologia do herói que, se expostas trariam maior dificuldade para seu entendimento. Esta intrincada mitologia é algo característico a todo herói antigo que passou por inúmeras fases e Eras e teve seu perfil alterado para expressar determinado pensamento da época vigente. Particularmente gostaria de ver Aquaman cada vez mais como protagonista, e posso dizer que as melhores adaptações do personagem foram aquelas retratadas nas Animações da DC Liga da Justiça Guerra, Trono de Atlântis, Ponto de Ignição, Liga da Justiça Deuses e Monstros e na Série Animada Liga da Justiça dos anos 2000. Estas animações conseguiram captar exatamente a essência do personagem, afastando-o completamente de qualquer aspecto piegas, sem subverter seus atributos originais, como o filme com Jason Momoa acabou fazendo em minha opinião.

Miniatura DC Nº 31 - Aquaman

Aquaman é sem dúvida nenhuma um monarca ao melhor estilo épico, e não precisaria ser transformado em um personagem superficial, fanfarrão e inconsequente como foi no filme da DC dirigido por James Wan. Em minha opinião sacrificaram características essenciais do personagem para agradar a expectativa atual, o que poderia muito bem ter sido feito sem precisar desconfigura-lo. Haja vista a interpretação de Chris Evans para o Capitão América.

Bem amigos... é isso aí. Um grande abraço à todos!

domingo, 1 de dezembro de 2019

Além do Planeta Silencioso - C.S.Lewis


Se você possui raízes minimamente cristãs, possivelmente já deve ter se perguntado (com certa decepção e até irritação) porque grandes escritores (com exceção de alguns poucos) nunca se utilizaram de formas narrativas tão ricas como a Fantasia e seus subgêneros como Alta Fantasia Baixa Fantasia, além do Realismo Fantástico, Ficção Científica, Fantasia Medieval, Espada e Magia, Ficção Histórica e gêneros até mais arrojados como Steampunk, Cyberpunk e Solarpunk como veículos para narrar aspectos tão ricos da tradição cristã. Excetuando Paraíso Perdido de 1667 de John Milton, e O Senhor dos Anéis de 1954 de J.R.R. Tolkien, quem nunca quis ver figuras, elementos e personagens bíblicos exponencialmente expandidos e retrabalhados dentro de Universos interessantes e catárticos como aqueles encontrados dentro destes gêneros literários? Eu já me fiz esta pergunta "n" vezes e até acredito que a resposta para isso é que, vincular o Universo Cristão (com seus incríveis personagens) a esse tipo de literatura é arrumar alguma rusga com algumas Instituições Centenárias. Assim, talvez muitos autores tenham decidido não "mexer com o que está quieto" e trabalhar suas ideias em outras cearas.

Nave concebida e construída pelo físico Weston

Clive Staples Lewis, mais conhecido como C.S. Lewis foi, no entanto exceção à regra. Professor vinculado tanto à Universidade de Oxford quanto de Cambridge, Lewis foi um dos escritores mais prolíficos e versáteis que já conheci. Conhecido por seus diversos livros de apologética cristã, Lewis ousou se aventurar por outras praias narrativas sem medo de ser confrontado por seus pares ao usar gêneros literários, sobretudo a fantasia, para desenvolver arquétipos cristãos. Lewis teve a coragem de se apropriar de "fadas", "duendes", "elfos", "magos", "feiticeiras", "sátiros", "minotauros" e até zoomorfizar figuras sacras, como é o caso do Leão Aslan em sua obra de ficção mais conhecida: As Crônicas de Nárnia. Mas há uma outra série de Fantasia menos conhecida do autor, a Trilogia Cósmica, do qual o livro Além do Planeta Silencioso (1º livro da trilogia) faz parte. A trilogia foi escrita a partir de uma aposta que Lewis fez com seu amigo J.R.R. Tolkien. Decidido no cara ou coroa os temas "viagem no tempo" e "viagem no espaço" foram sorteados e o segundo tema caiu para C.S. Lewis. O autor cumpriu sua parte da aposta escrevendo a Trilogia Cósmica. Tolkien cumpriu parcialmente seu lado da aposta, inserindo o tema viagem no tempo em um dos seus contos dentro do livro O Silmarillion.


A aposta foi paga por Lewis muito bem. A Trilogia Cósmica narra, pelo menos nos dois primeiros livros a experiência do Professor Universitário inglês Elwin Ransom. Ransom era filólogo, uma excelente e inteligente escolha por parte de Lewis, pois os dons do professor seriam muito úteis na sua aventura. Ransom é levado contra a vontade e de forma violenta para um lugar distante por meio de uma nave construída por um proeminente físico (Weston) e financiada por um outro professor mal caráter (Devine). A ciência envolvida na construção da nave não é alvo de explicações por parte de Lewis, e nem precisa, já que a narrativa é tal inventiva que a supressão de nossa descrença logo acontece. Ransom é levado para um distante planeta que logo entendemos se tratar de Marte, ou Malacandra, na língua dos nativos. A própria viagem de Ransom em direção à Malacandra é incrível aos olhos de qualquer pessoa que tenha o mínimo de espiritualidade latente. A forma como Lewis descreve a esfera celeste e os elementos que permeiam o espaço, nos enchem de uma concepção quase palpável do mundo espiritual que nos rodeia, deixando-o tão concreto quanto o mundo real.


Malacandra é habitada por 3 espécies distintas, os Sorns, os Hrossa e os Pfifltriggl, todas com dialetos distintos mas que falam em conjunto a língua dos Hrossa. Língua essa que Ransom vem a aprender e dominar. Embora parecido no questio aventura com a obra Uma Princesa de Marte (John Carter de Marte) de Edgar Rice Burroughs, a obra de Lewis possui, para o cristão, segredos escondidos. Cada personagem, situação e mitologia ali apresentada possui um significado maior. Além das espécies acima mencionada, há seres elevados que vivem em Malacandra. Chamados de Eldila tais seres servem a um Oyarsa, que também vive em Malacandra. Esse grande ser (Oyarsa) chega a encontrar e conversar com Ransom em uma determinada parte do livro. Para o leitor perspicaz, ficará claro quem são esses seres e quem seria aquele a quem todos servem, o grande Maleldil. Mas o interessante não é simplesmente o jogo de identificar quem é quem, mas sim perceber o véu que se descortina e que lança luz sobre a rebelião celeste Bíblica pré-Adâmica. Tudo isso somado vai  ressignificando o Planeta Terra no contexto cósmico.


Uma das estratégias narrativas de Lewis é usar o impacto cultural que Ransom sofre ao conhecer raças tão diferentes de nós e com visões tão distintas do cosmos, para nos fazer gradativamente perceber as coisas no universo a partir de uma nova ótica, muito diferente, aliás, da nossa. Ao fazermos isso vamos sendo confrontados com a maneira torta como o ser humano enxerga a si mesmo, os outros e a criação. Nossa nudez vai sendo exposta e vamos realmente enxergando tudo a partir de um novo prisma, o prisma dos Malacandrianos. Lewis vai dando pistas também da existência de um ideal cósmico muito maior e do qual nós, seres humanos, um dia fizemos parte, e para o qual estaríamos destinados um dia retornar. Nesta concepção cósmica, nós humanos teríamos um destino bem diferente daquele que atualmente vivenciamos. E todo esse desvio de rota ocorreu por causa de uma entidade, um outro Oyarsa. O nosso Oyarsa. Não vou ficar discorrendo mais para não estragar a leitura. A ideia do post é mesmo dar um contexto para a obra, e não estraga-la com spoilers.


Escrita nos anos que antecederam e subsequentes ao início da 2ª Guerra Mundial, A Trilogia Cósmica guarda segredos e tesouros valiosos escondidos, tal qual outras grandes obras chamadas (equivocadamente) de juvenis, dentre elas O Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, A Fantástica Fábrica de Chocolate de Roald Dahl, A História Sem Fim e O Teatro de Sombras de Ofélia de Michael Ende, O Circo do Dr. Lao de Charles G. Finney, O Oceano no Fim do Caminho de Neil Gaiman, Caninos Brancos de Jack London entre outras. Além do livro Além do Planeta Silencioso, compõem A Trilogia Cósmica, Perelandra e Aquela Fortaleza Medonha (às vezes traduzido como Uma Força Medonha). Há um 4º livro de C.S. Lewis chamado A Torre Negra que continua o Universo da Trilogia Cósmica. Nele, seis histórias se entrelaçam como um esboço de continuação deste mágico universo.


É isso aí amigos. Um grande abraço!

sábado, 9 de novembro de 2019

Os Livros da Magia de Neil Gaiman


Com o recente início das publicações no Brasil do Universo de Sandman, decidi reler Os Livros da Magia de Neil Gaiman. Publicado originalmente em 1990 nos EUA, em 1991 no Brasil em forma de fascículos pela Editora Abril, e republicado pela Editora Panini em 2013 em edição de luxo, Os Livros da Magia é uma história em 4 capítulos que é o ponta pé inicial para todo um Universo arcano baseado em personagens da DC, alguns criados pelo próprio Gaiman dentro da série Sandman. Reler algo é um processo interessante, já que ninguém é mais o mesmo de pois de anos, e isso por si só já abre as portas para novos dimensionamentos e resignificações de obras anteriormente visitadas. Posso dizer que Os Livros da Magia cresceram em dimensão e importância após esta releitura.


Muito antes de existir Harry Potter, existia Timothy Hunter, personagem criado por Gaiman nesta primeira minissérie de 1990. Poderíamos até dizer que o Bruxo de Hogwarts parece ter sido uma cópia de Tim Hunter. Apesar da semelhança de idade, Harry Potter e Tim Hunter estão inseridos em Mundos muito diferentes, o de Timothy Hunter é muito mais perigoso e próximo de nossa realidade. A minissérie Os Livros da Magia serviu para apresentar Tim Hunter e seu lugar dentro do Universo Mágico Adulto da DC. Infelizmente, depois da publicação em 1991 pela Editora Abril, nada mais foi lançado do jovem Tim por aqui, o que está mudando com a reabordagem do personagem a partir do selo O Universo de Sandman, dentro do qual novas histórias de Tim Hunter serão trazidas para cá.

John Constantine, Dr. Oculto, Mr. Io e Vingador Fantasma

Em Os Livros da Magia são 4 os personagens incumbidos de apresentar ao menino o Mundo Arcano. Um Mundo que coexiste junto ao nosso mas que pode ou não ser revelado às pessoas, dependendo apenas do quanto elas se abrem para crer. Vingador Fantasma, John Constantine, Dr. Oculto e Mr. Io são os responsáveis em conduzir Tim à aspectos distintos do Universo da Magia, a saber: passado, presente, o mundo das fadas e o futuro. Mas o que o menino teria de especial? Tim Hunter é, na verdade, um garoto que traz dentro de si um potencial enorme para se tornar o próximo grande mago da Terra. Se ele se tornará esse mago tudo dependerá do que ele decidir frente ao que lhe for mostrado.

Passado, Presente, Mundo das Fadas e Futuro

Recheada de referências mitológicas Os Livros da Magia impressiona não apenas pelo texto de Gaiman (muito bem ajustado ao Universo DC na época e à própria Mitologia que havia criado), mas também em função da primorosa arte de 04 desenhistas: John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson (este último, infelizmente abandonaria, anos depois, a carreira de desenhista para seguir carreira na medicina oriental). A arte dos 04 permite ao leitor uma íntima sintonia com os mundos e momentos que a história pretende retratar. Literalmente o leitor se sente imerso em um ambiente estranho, sobrenatural e cheio de interfaces com nosso mundo. Neil Gaiman estava em seu auge nesta época e há diversas intersecções entre a história e a Saga do próprio Morpheus


Outro aspecto muito interessante da obra é a presença de diversos personagens da DC ligados ao mundo da magia. Dentre os mais conhecidos temos Desafiador, Espectro, Zatanna, Sr. Destino, Madame Xanadu, Jason Blood/Etrigan. Mas há também outros personagens da mitologia clássica e da DC, mais obscuros. O estudioso de quadrinhos com certeza deve ter identificado. Dentre eles O Mago Sargon, Zatara - O Mago, Dr. Terrence Thirteen (Dr. 13), Tala - A Rainha do Mal, Tannarak - O Feiticeiro, Félix Fausto, Jacinto e Leandro, Barão Winter, Thomas - O Leal, O Gigante Maugys, Snout e Sr. Glory, ambos do Mundo das Fadas, a Bruxa Baba Yaga... A respeito de Etrigan é muito interessante entender de onde vem a profunda relação entre Jason Blood (cujo nome verdadeiro era Iason) e o mago Merlin. Uma relação que acabou por acorrentar Jason ao Demônio Etrigan. A participação do próprio Sandman (na época ainda Lorde Morpheus) é rápida mas cheia de significado. Para os leitores de Sandman da velha guarda revisitar sua participação na história não tem preço.


Os Livros da Magia é uma ótima porta de entrada para o Universo Místico da DC, sobretudo agora com a iniciativa da editora em dar continuidade ao Universo de Sandman. Um grande abraço à todos.

domingo, 3 de novembro de 2019

Guerras Secretas - 2015


Jonathan Hickman vem pavimentando sua carreira de forma sólida e constante. Apesar de seu nome não ser tão badalado quanto de outros roteiristas atuais como Tom King e Jeff Lemire, suas histórias tendem a ser épicas e com amplos desdobramentos. Para quem leu na totalidade ou em parte (como é meu caso) seu roteiro para Os Vingadores a partir da Nova Marvel, pôde perceber a complexidade de sua narrativa que foi se desenrolando desde a Saga Infinito até chegar ao fim com o arco Guerras Secretas (lançado pela Editora Panini em um encadernado único). Em Guerras Secretas, Hickman finalmente dá um desfecho para o que ficou conhecido como As Incursões, a aniquilação mútua e contínua de Terras/Universos alternativos. Conceito semelhante, aliás foi usado pela DC na década de 80 com sua Crise Nas Infinitas Terras, que serviu de assunto para duas análises aqui no Blog: Crise Nas Infinitas Terras - Remodelando Universos Parte I e Parte II.


Por ter sido publicada no Brasil em encadernados seguindo a forma como a histórias foram lançadas em suas revistas de origem nos EUA, A Saga Infinito ficou difícil de acompanhar, o que me motivou a fazer um guia de leitura da Saga que você pode acessar aqui. Para entender as Guerras Secretas de Jonathan Hickman, uma leitura prévia de A Saga Infinito talvez seja recomendado. Mas mesmo que você não o faça, Guerra Secretas pode ser apreciado levando-se em conta os bons diálogos e a postura de cada personagem vivendo no Mundo Bélico, um mundo remanescente feito de retalhos das últimas Terras que estavam sofrendo o processo de aniquilação. O termo Guerras Secretas é antológico e muito simbólico dentro da Marvel, assim como o é o termo Crise para DC. Isso se dá em função da saga Guerras Secretas de 1984. Uma das primeiras grandes sagas publicadas nos quadrinhos envolvendo uma grande quantidade de heróis com verdadeiras repercussões para vários personagens. A Guerras Secretas original foi um grande evento na Marvel, planejado para amparar uma linha de brinquedos que sairia a partir de um acordo entre a Marvel e a Matel na época. Apesar deste objetivo comercial por trás, havia empenho do Editor-Chefe da Marve à época, Jim Shooter, e de roteiristas para realizarem uma história bem legal, e assim o foi.


O que Jonathan Hickman faz em sua saga, é homenagear a ideia original de 1984 ao criar o seu Mundo Bélico. Nele, o Dr. Destino tornou-se o deus absoluto do planeta ao ter sido um dos únicos mortais capazes de salvar o pouco que restava das Terras em aniquilação. Talvez justamente por este caráter ambíguo (salvador e ao mesmo tempo vilão) é que a participação de Victor Von Doom seja tão interessante, ora sendo visto como deus, ora como o mesmo vilão egocêntrico que conhecemos. Um dos pontos altos deste arco é também a representação que Hickman dá às várias facetas do Universo Marvel. Se o leitor observar, cada território do Mundo Bélico (mapa acima) representa personagens ou núcleos clássicos da Marvel, tais como o núcleo mutante, aracnídeo, inumano, asgardiano, místico... É bem interessante observar cada aspecto do Universo da Editora ali representado.


Tudo poderia ir muito bem para Destino não fosse duas balsas (naves) terem sobrevivido à Aniquilação final das Terras, trazendo em uma delas um conjunto de heróis (Sr. Fantástico, Capitã Marvel, Sr. das Estrelas, Homem-Aranha "Peter Parker" e a Thor Jane Foster) e de vilões (Thanos, seus Generais, Terrax, Cisne Negro, o Inumano Maximus, Reed Richards do Universo Ultimate e, de forma escondida, o Homem-Aranha "Miles Morales", também do Universo Ultimate). A narrativa de Hickman é relativamente complexa, derivada de idas, vindas e de passagens onde há muitas coisas sub-entendidas. Os diálogos deixam muitas coisas no ar, mas que se encaixam com a observação do desenho, da expressão do personagem e, sobretudo, do contexto. Para o leitor desavisado, ou rápido demais na leitura, algumas coisas podem soar sem explicação. Esse tipo de narrativa pressupõe que todo leitor acompanhou muita coisa e é perspicaz o suficiente para entender o que não é dito. Tal opção narrativa é uma faca de dois gumes, já que para aquele leitor familiarizado com os acontecimentos-chave da saga há total entendimento, mas para leitores que não conseguem acompanhar tudo, algumas coisas ficam mesmo no ar. Particularmente sou um leitor vindo diretamente dos anos 80, época em que muita cronologia não vinha para o Brasil. Assim, desde aquela época aprendi a pressupor minha ignorância e tentar aproveitar a HQ.


Outro ponto que achei bem interessante nesta Guerras Secretas foi a mudança que cada personagem teve nesse novo mundo controlado por Destino. O Dr. Estranho por exemplo estava com Destino no momento em que ele recria a Terra no formato Mundo Bélico, ou seja, partilhou e corroborou a ação de Victor Von Doom. Seu papel no arco é, portanto de conselheiro e braço direito na corte de Destino. Apesar disso, é possível claramente ver a personalidade de Stephen Strange relativamente intacta diante de tudo. Capitão Britânia, Apocalipse, Sr. Sinistro, Madelyne Pryor e o Hulk Maestro, são alguns dos personagens detentores de Baronatos (Países) no Planeta de Destino. Praticamente ninguém possui lembrança do que havia antes, exceto Stephen Strange e o Homem-Molecular (Owen Reece), este último com um importante papel nas Guerras Secretas de 1984 e nesta também. Quando fiquei sabendo da ideia de se criar um arco com a premissa de um Mundo Bélico, com remanescentes dos Universos Marvel, achei que a ideia não iria funcionar. Mas funciona principalmente pela personalidade que Hickman imprime a cada herói e vilão. Um mérito obviamente de um bom roteirista.


Não pude deixar de comparar as Guerras Secretas de Jonathan Hickman com outras obras distópicas da Marvel. Há semelhanças com arcos como Dinastia M (Brian Michael Bendis), A Era de Ultron (Brian Michael Bendis), Os Gêmeos do Apocalipse (Rick Remender) e até mesmo Terra X (Jim Krueger, Alex Ross). As 3 primeiras sagas mostram uma realidade distorcida dentro do Universo Marvel tradicional a partir de anomalias temporais ou místicas. Já Terra X é realmente um Universo Alternativo no qual heróis e vilões tiveram destinos distintos do Universo Canônico. Guerras Secretas traz elementos de todas elas, mas que em nada sugere (em minha opinião) cópia ou falta de inspiração por parte de Hickman. Os desenhos ficaram por conta do Croata Esad Ribic (desenhista dos aclamados Loki e Namor - As Prundezas). Ribic, como sempre, desenha agregando a atmosfera necessária à narrativa do roteirista. Gostaria, no entanto, de expressar um ponto que achei negativo. O desfecho do arco talvez tenha sido rápido demais. Se considerarmos que esta história vinha sendo construída há tanto tempo, eu esperava por um desfecho que se estendesse por mais páginas, como que a prolongar o ápice. A apoteose se dá em um conflito entre Reed Richards e Victor Von Doom, com direito à acusações e sentimentos mútuos acerca de um em relação ao outro. No papel de um leitor que quer ver o clímax durar, achei que o final poderia ter se estendido mais, o que não significa que não foi bom.


Para mim Guerras Secretas de Jonathan Hickman é uma boa história, com bons diálogos, que homenageia importantes Sagas Distópicas da Marvel e a saga homônima de 1984. 
Gde. Abc. amigos.
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