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sábado, 14 de setembro de 2019

Guia Completo: Supercards Revista Mundo dos Super-heróis - 1ª Série


Como noticiado aqui no Blog antes, a Revista Mundo dos Super-heróis (MSH) alcançou em 2018 a marca hercúlea de 100 edições. Um feito para poucas revistas no Brasil. Para comemorar esta marca e fomentar um olhar para o futuro, sem perder o respeito pelo passado, os editores começaram a lançar a partir da MSH Nº 101 um conjunto de grandes cards em cada edição, com momentos históricos para os super-heróis, sejam eles em mídia impressa (quadrinhos) ou em mídia áudio-visual (cinema, animações, games e streaming). Recentemente a 1ª Série desta iniciativa chegou ao fim totalizando um conjunto de 88 Supercards distribuídos ao longo de 10 números da MSH (101 à 111). O registro abaixo refere-se a esses memoráveis 88 Supercards, e busca oferecer um controle à todos que queiram ter em mãos não apenas as imagens destes importantes momentos dos super-heróis, mas informações acerca de cada momento, já que no verso de cada cartão o colecionador encontra uma excelente explanação situando a importância da imagem do card. Espero que esta matéria auxilie a muitos.

1 - Filme: Homem de Ferro (2008); 2 - Filme: Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008); 3 - Série: Os Últimos Filhos de Krypton - Supergirl - Temporada 2 - Episódio 2 (2016); 4 - Filme: Logan (2017); 5 - Série: Demolidor - Temporada 1 (2015); 6 - Nostalgia (Série): As Aventuras do Capitão Marvel (1941); 7 - Filme: Superman II - A Aventura Continua (1981); 8 - Quadrinhos: Homem-Aranha Nunca Mais (The Amazing Spider-Man #50) (1967).

9 - Filme: Pantera Negra (2017); 10 - Animações: Batman - A Série Animada (1992); 11 - Filmes: Deadpool 2 (2018); 12 - Filmes: Liga da Justiça (2017); 13 - Série: Loucura, Loucura - Jéssica Jones - Temporada 2 - Episódio 7 (2018); 14 - Série: Lendas do Amanhã Temporada 2 (2016); 15 - Série: Legion - Temporada 1 (2017); 16 - Quadrinhos: Surge... O Wolverine! (The Incredible Hulk #181) (1980).

17 - Filme: Mulher-Maravilha (2017); 18 - Filme: Vingadores; Guerra Infinita (2018); 19 - Filme: Flash Gordon (1980); 20 - Série: Os Melhores do Mundo - Supergirl - Temporada 1 - Episódio 18 - (2016); 21- Filme: X-Men - Dias de Um Futuro Esquecido (2014); 22 - Filmes: Batman - O Homem-Morcego (1966)23 - Filme: Curta Marvel: Agente Carter (201); 24 - Quadrinhos: Flash de Dois Mundos (The Flash #123) (1961).

25 - Filme: O Homem de Aço (2013); 26 - Filme: Capitão América - Guerra Civil (2016); 27 - Série: Crise na Terra X - Supergirl - Temporada 3 - Episódio 8Arrow Temporada 6 - Episódio 8 / Flash Temporada 4 - Episódio 8 / Lendas do Amanhã Temporada 3 - Episódio 8 (2018); 28 - Game: Batman - Arkham Asylum (2009); 29 - Nostalgia (Série): O Fantasma Voador (1943); 30 - Filme: Watchmen: O Filme (2009); 31 - Série: Agents of Shield - Temporada 4 (2017); 32 - Quadrinhos: O Justiceiro Ataca Duas Vezes (The Amazing Spider-Man #129) (1974).

33 - Filme: Guardiões da Galáxia (2014); 34 - Série: Arrow - Temporada 1 (2012); 35 - Série: Luke Cage - Temporada 1 (2016); 36 - Filme: X-Men - Primeira Classe (2011); 37 - Filme: Superman - O Filme (1978); 38 - Filme: Hellboy II - O Exército Dourado (2008); 39 - Filme: Lego Batman - O Filme (2017); 40 - Quadrinhos: Stan Lee Encontra o Espetacular Homem-Aranha (Stan Lee Meets Spider Man #1) (2006). 

41 - Filme: Thor - Ragnarok (2017); 42 - Série: Smallville - As Aventuras do Superboy - Temporada 1 (2001); 43 - Filme: O Homem-Aranha Volta a Atacar (1979); 44 - Animações: Batman - A Piada Mortal (2016); 45 - Filme: Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007); 46 - Filme: Monstro do Pântano (1982); 47 - Série: Manto e Adaga - Temporada 1 (2018); 48 - Quadrinhos: Starro, O Conquistador! (The Brave and The Bold #28) (1960).

49 - Filme: Capitão América - O Primeiro Vingador (2011); 50 - Filme: Esquadrão Suicida -  (2016); 51 - Série: Os Defensores (2017); 52 - Animações: Planeta Hulk (2010); 53 - Série: Krypton - Temporada 1 (2018); 54 - Filme: Homem-Aranha (2002); 55 - Filme: Batman - Máscara do Fantasma (1993); 56 - Quadrinhos: Miss América, a Mulher-Maravilha (Wonder Woman #1) (1942).

57 - Filme: Batman vs. Superman - A Origem da Justiça (2016); 58 - Filme: Homem de Ferro 3 (2013); 59 - Série: Linha de Chegada - Flash - Temporada 3 - Episódio 23 (2017); 60 - Game: Ultimate Marvel vs. Capcom 3 (2011); 61 - Filme: Blade - O Caçador de Vampiros (1998); 62 - Série: Demolidor - Temporada 2 (2016); 63 - Nostalgia (Série): O Homem Atômico Contra o Super-Homem (1950); 64 - Quadrinhos: Se Este For o Juízo Final (Fantastic Four #49) (1966).

65 - Filme: Doutor Estranho (2016); 66 - Filme: Batman Begins (2005); 67 - Série: Fugitivos - Temporada 1 (2017); 68 - Animações: Grandes Astros - Superman (2011); 69 - Filme: Homem-Aranha 2 (2004); 70 - Filme: O Doutrinador (2018); 71 - Nostalgia (Série): Capitão América, O Vencedor (1944); 72 - Quadrinhos: Os Novos Titãs (The New Teen Titans #1) (1980).

73 - Filme: Aquaman (2018); 74 - Filme: Guardiões da Galáxia - Vol. 02 (2017); 75 - Filme: Superman - O Retorno (2006); 76 - Série: Punho de Ferro - Temporada 1 (2017); 77 - Animações: Superman / Shazam! - O Retorno de Black Adam (2010); 78 - Filme: Mestres do Universo (1987); 79 - Filme: V de Vingança (2006); 72 - Quadrinhos: Caso 1 - Conheça o Capitão América (Captain America Comics #1) (1941).

81 - Filme: Capitã Marvel (2019); 82 - Filme: Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012); 83 - Série: Inumanos (2017); 84 - Filme: Supergirl (1984); 85 - Filme: Hulk (2003); 86 - Série: Titãs - Temporada 1 (2018); 87 - Filme: O Fantasma (1996); 88 - Quadrinhos: Detective Comics #1000 (2019).

É isso aí amigos. Grande abraço!

sábado, 7 de setembro de 2019

Simplesmente... Shamballa


Oculta aos olhos humanos, situada entre as montanhas do Himalaia e o Deserto de Gobi, a cidade de Shamballa é considerada em algumas tradições orientais (taoísmo, hinduísmo e budismo) como a morada dos Deuses ou dos Mestres Ascensos. Shamballa seria uma cidade localizada não exatamente no reino físico, mas em um local no limiar entre o "aqui" e o "além", que poderia ser acessada apenas por uma árdua e difícil jornada através de montanhas e intempéries naturais. A "lenda" ou "mito" acima possui similitudes com a jornada do personagem Stephen Strange, o Doutor Estranho, que após sua árdua jornada conseguiu encontrar O Ancião e alcançou seu destino como Mago Supremo do Universo. Lançada originalmente nos EUA em 1982, e no Brasil apenas em 1989, Dr. Estranho - Shamballa talvez seja a HQ que melhor defina o universo no qual o personagem habita. Uma HQ que conseguiu como nenhuma outra captar e essência do personagem. Lisérgica em sua narrativa e em sua apresentação gráfica, Shamballa deve ser conhecida e recebida com o silêncio e respeito que merece.


Quando Stan Lee e Steve Ditko criaram o Dr. Estranho em 1963 estavam criando na verdade um poderoso elemento catalizador para um grande anseio da época. O ocidente, sobretudo os Estados unidos, estava descobrindo o oriente com sua forma peculiar de ver a vida. A abordagem intimista das religiões orientais fascinaram uma geração que buscava algo mais que a simples concretude que o capital lhes prometia. Discos como o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band de 1967 sintetizava em algumas faixas esse anseio pelo místico. O próprio movimento Flower Power dos hippies nos anos 60/70 bebia na fonte do prazer imaterial místico. A genialidade de Lee e Ditko esteve na capacidade dos dois lerem o "espírito do seu tempo" (Zeitgeist) e traduzirem esse anseio em um personagem. Embora surpreendente na época, o interesse de uma gama enorme de pessoas (sobretudo universitários) nas histórias do Dr. Estranho foi na verdade apenas um efeito natural e consequente, se pensarmos no que o Dr. Estranho oferecia: uma viagem lisérgica por mundos imateriais.


Como citei acima, algumas histórias tem a capacidade de destilar a essência de um personagem. Exemplos disso seriam Batman - Ano UM, A Queda de Murdock no caso do Demolidor, Deus Ama o Homem Mata no caso dos X-Men, entre outras. No caso do Dr. Estranho eu acho que poderíamos citar Shamballa. Com uma arte verdadeiramente catártica, onírica e até psicodélica, o artista Dan Green emoldura uma obra única. Shamballa narra o retorno do Dr. Estranho depois de muitos anos ao Himalaia para visitar o santuário do seu outrora Mestre, O Ancião. Um turbilhão de imagens e lembranças preenche a alma de Stephen Strange ao andar novamente pelos corredores vazios do templo em que antes estivera como aprendiz. Ali, naquele santuário de silêncio e lembranças Strange recebe um presente deixado pelo seu falecido mentor, uma caixa.


A partir deste presente a história se desenrolará afundando o personagem e o leitor em uma viagem por locais sagrados da Terra. Shamballa resgata o interessante conceito místico chamado de As Linhas de Ley. O termo foi cunhado em 1913 pelo arqueólogo Alfred Watkins em seu livro Early British Trackways, e retomado décadas mais tarde pelo escritor John Michell em seu livro The View Over Atlantis de 1969. Este conceito pressupõe que a Terra (assim como nosso corpo na Acupuntura) possui linhas de energia que a percorre e se cruzam em lugares específicos do Globo. Esses cruzamentos teriam originado o que conhecemos hoje como locais sagrados. Assim como em nosso corpo na Acupuntura, a energia fluindo por esses caminhos indicaria saúde. No caso do mundo indicaria a saúde mística e espiritual do planeta.  A história também resgata o anseio tão difundido nos anos 70 sobre a chegada de uma Nova Era para a Humanidade, o que foi chamado de A Era de Aquário.


A Shamballa do título aparece na história como o local da morada de mestres que outrora viveram em nosso mundo e repousam agora neste local como uma mente integrada. Um local de paz, mas ao mesmo tempo de reflexão destes mestres que de lá ainda participariam do destino do Mundo com suas decisões. O conceito da cidade de Shamballa foi muito bem explorado em outra obra, o livro Horizonte Perdido publicado em 1933 e escrito pelo autor britânico James Hilton. No livro de Hilton, Shamaballa recebe o nome de Shangri-lá e é uma cidade mística escondida nas montanhas do Tibet. Na história um avião com alguns passageiros cai nas montanhas e, seus sobreviventes acabam por atingir Shangri-lá. A obra foi adaptada de forma soberba e definitiva pelo cineasta Frank Capra em 1937, ganhando Oscar de melhor filme na época.


Doutor Estranho - Shamballa ganhou relançamento no Brasil pela Editora Panini em 2016 em capa dura e acabamento que honra a obra. Conhecer a história é se aprofundar em um Universo que, embora místico, mostra-se crível e plausível. O leitor é levado a perceber de forma muito sútil que há forças muito superiores que operam na esfera da vida e, sem querer parecer paradoxal, que o imaterial é talvez mais concreto do que pensamos. Como trilha sonora para a leitura de Dr. Estranho - Shamablla, recomendo a música Landing in Shambhala presente no disco UFO Planante do grupo Companhia de Ópera Invisível do Tibet (Invisible Opera Company of Tibet), uma iniciativa musical mundial que aqui no Brasil ficou ao cargo dos músicos da banda Violeta de Outono com seu líder Fábio Golfetti.


Simplesmente Shamballa...

sábado, 31 de agosto de 2019

Resenha: Flores para Algernon


A doença mental é ainda um continente inexplorado em se tratando do público leigo. Talvez até mesmo para a psiquiatria moderna. É difícil imaginar que apenas o déficit de alguns mililitros de hormônios ou substâncias seja o que separa uma mente "normal" de uma mente pouco ou nada capaz. Que apenas um determinado desequilíbrio eletroquímico condene alguém à uma vida dentro de uma caverna interior, longe de percepções, sensações e sentimentos que nos invadem continuamente. Em 1959 o autor Daniel Keyes (1927-2014) lançou o livro Flores para Algernon, recentemente publicado no Brasil pela Editora Aleph (novamente a Aleph!), um relato intimista, poético e real do universo que circunda o déficit mental. Vencedor do Prêmio Nebula Awards de 1967, o livro conta a história de Charlie Gordon, um homem que desde sempre viveu e sofreu a clausura do déficit cognitivo. Flores para Algernon é uma narrativa sólida e envolvente do que vai dentro de alguém que vive assim.


O Algernon do título é, ninguém menos que um ratinho, que também possui importante papel na narrativa. Mas qual o fio condutor do romance? Charlie Gordon, o protagonista, por uma série de razões acaba sendo submetido à uma inovadora técnica cirúrgica e psicoterapêutica por meio da qual tem seu intelecto, que sempre fora reduzido, impulsionado à níveis extremamente elevados. Keyes se concentra de forma envolvente na gradativa mudança de percepção de Charlie diante do que lhe acontece. Narrado em primeira pessoa a história se utiliza, como ferramenta narrativa, de relatórios que o próprio Charlie precisa fazer no âmbito da experiência à qual está sendo submetido. Apesar da opção perigosa do autor quanto a forma de narrar a história, ela funciona bem e logo você está totalmente integrado à leitura e ao mundo interior de Charlie.

Daniel Keyes

Embora ancorado em uma premissa ficcional (a cirurgia inovadora a que Charlie é submetido), o livro narra uma realidade extremamente presente e concreta: a vida do deficiente mental. Quando Charlie torna-se inteligente, o autor aproveita para trazer a tona lembranças esquecidas do protagonista, toda intimidação, ridicularizarão e discriminação (velada ou não) que sofreu. Tais lembranças e a noção do novo "eu" dentro de Charlie fazem com que mergulhemos no seu interior e experimentemos a esmagadora noção do mundo como ele é. Embora o protagonista se torne extremamente inteligente, fica muito claro que inteligência (razão) e emoção são elementos distintos da psiquê humana. Enquanto o primeiro tem a ver com crescimento e expansão neuronal, o segundo necessita de experiências prévias para ser construído, trabalhado e amadurecido. Nesse sentido, Charlie experimenta agora uma outra dor, a de se ver incapaz de lidar com o turbilhão de emoções que se fazem pela primeira conscientes, uma vez que não teve o amadurecimento emocional pelo qual deveria ter passado.


Adaptado para o cinema em 1968, Flores para Algernon foi chamado apenas de Charly nos cinemas americanos, e no Brasil recebeu o nome de Os Dois Mundos de Charly. O filme rendeu o Oscar de melhor ator para Cliff Robertson (sim ele mesmo, o Tio Ben do 1º filme do Homem-Aranha do Diretor Sam Raimi) no papel de Charly Gordon. Voltando ao livro, a obra impressiona pelo alto conteúdo psicológico muito bem conduzido por Daniel Keyes, que não caiu na armadilha de torna-la demasiadamente dramática ou emocional, e assim transforma-la no que comumente chamam, pejorativamente, de "dramalhão". Esta habilidade de Keyes está, possivelmente, ligada à sua formação acadêmica. O autor era Psicólogo pelo Brooklyn College. O livro poderia muito bem servir de objeto de estudo ou análises acadêmicas.

O Ator Cliff Robertson no papel de Charlie Gordon 

Uma interessante curiosidade a respeito de Daniel Keyes é que ele era colega e associado a Martin Goodman, simplesmente o criador da Editora Atlas, a Editora precursora da Marvel. Keyes foi editor da Revista Pulp Marvel Science Stories e chegou a ser editor da Marvel sob a tutela de ninguém menos que Stan Lee. Ele também chegou a escrever histórias de Horror e Ficção Científica para a editora nos anos 50, época em que o Boom da Era de Prata dos Super-heróis ainda não havia se iniciado.


A curadoria da Editora Aleph acerta mais uma vez ao trazer Flores para Algernon para o Brasil. Um livro a ser lido, discutido e apreciado em tempos como o nosso em que a tecnologia, o individualismo e a polarização de discursos ideológicos diminuem o tão importante exercício da alteridade.

Um grande abraço à todos!!

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Senhor Milagre de Tom King



Tom King, roteirista de quadrinhos, ex-agente da C.I.A. e um dos nomes mais falados ao lado de Jeff Lemire, surpreendeu o mercado inicialmente com seu trabalho na HQ autoral Xerife da Babilônia (que particularmente não li). Seu nome entrou para o radar de muitos aqui no Brasil, sobretudo a partir do lançamento de sua série envolvendo o Sintozóide Visão (Visão Vol. 01 - Pouco Pior que um Homem e Visão Vol. 02 - Eu também Serei Salvo pelo Amor), esta sim que li e achei muito, mas muito acima da média em qualidade. Por conta disso, seu trabalho envolvendo o personagem Senhor Milagre vinha sendo aguardado por toda uma legião de fãs. King tem uma abordagem muito voltada para questões filosóficas e existenciais, utilizando-se dos personagens como veículos de suas reflexões, sem deixar de lado (obviamente) o universo no qual o super-herói está inserido. Desta forma já sabíamos que seu trabalho envolvendo o Sr. Milagre teria esta perspectiva. Apesar de eu já saber desta característica marcante do trabalho do autor, fiquei surpreso em Sr. Milagre com a densidade dramática e com os aspectos profundamente depressivos envolvendo a narrativa. Vamos então conhecer um pouco (sem spoilers) deste último trabalho de Tom King aqui no Brasil.


Escrever um arco de histórias envolvendo personagens do 4º Mundo é um desafio para qualquer roteirista. O 4º Mundo foi uma Saga criada pelo Rei Jack Kirby durante sua passagem pela Editora DC nos anos 70. Kirby concebeu uma mitologia completa envolvendo dois Mundos irmãos: Nova Gênese e Apokolips, lar do Pai Celestial e Darkseid, respectivamente. Mundos irmãos, porém antagônicos. O Senhor Milagre ou Scott Free (seu nome verdadeiro), é filho do Pai Celestial (Regente de Nova Gênese), e foi objeto de uma troca ainda bebê para selar um tratado de paz entre os dois mundos. Enquanto Scott Free foi enviado para ser criado pelo cruel Darkseid, o Pai Celestial de Nova Gênese recebeu como seu próprio filho Órion, filho do déspota Darkseid. Um acordo absolutamente cruel e impensável, mas que foi feito. A Saga do 4º Mundo ou dos Novos Deuses (como também é chamada) é uma obra-prima e introduziu personagens extremamente interessantes e críveis. Uma verdadeira Space Opera quadrinística que finalmente chegará ao Brasil em breve pela Editora Panini dentro da série Lendas do Universo DC (fique atento). Fica claro, portanto a responsabilidade de Tom King ao assumir um arco como esse.


Para mim ficou muito claro que muitas reflexões feitas pelo personagem Sr. Milagre/Scott Free ao longo do arco, são reflexões do próprio autor Tom King. Há um profundo sentimento de depressão e melancolia que permeia a obra. King mistura o cotidiano do Senhor Milagre, casado com a Grande Barda, e vivendo em Los Angeles, com a insanidade da Guerra novamente declarada entre Nova Gênese e Apokolips, e que ele tem que assumir e até liderar. Um sentimento profundo fica patente nas falas do personagem principal, a ideia de que tudo a sua volta não faz o menor sentido em função de que a maior questão de sua vida sempre esteve em suspenso, ou seja: Quem ele é? Como seu pai teve coragem de troca-lo? Qual o sentido de tudo que nos rodeia frente ao absoluto e total caos no qual o mundo atualmente vive, com a superficialidade de suas redes sociais, notícias e pessoas FAKES? Na ausência de respostas para estas perguntas o que Scott Free faz é simplesmente deixar-se levar pela loucura das situações sem sentido.


Um acontecimento marcante envolvendo o herói já nas primeiras páginas do 1º volume já resume bem o que eu disse acima. O leitor mais atento perceberá que toda essa falta de rumo e de direcionamento é algo, muito provavelmente, experimentado pelo próprio autor. Isso porque seria muito difícil conduzir essa história mantendo esse tom contínuo de desconexão com a própria identidade sem um mínimo de experiência própria. Como informado no início da matéria, Tom King foi agente da C.I.A., e possivelmente teve acesso em menor ou maior grau a decisões que, possivelmente o fizeram desconectar-se de si mesmo, ou descrer do status quo. No arco envolvendo o Visão já ficava claro essa busca filosófica do autor. De qualquer forma, para além desta abordagem, Senhor Milagre de Tom King aprofunda-se muito bem na Mitologia criada por Jack Kirby. Aparecem o amigo Oberon, além de Órion, Vovó Bondade, Desaad, Kalibak, as Fúrias, Metron... ou seja, o leitor não ficará com a ideia de uma história escrita por um novato ou desinformado sobre os Novos Deuses. No entanto, aqui vai um questionamento que faço e que gostaria muito de ouvir a opinião de quem já leu: Como fica os eventos mostrados nesta série em relação à cronologia oficial? Digo isso porque as coisas que acontecem na história são simplesmente bombásticas! E se isso fizer parte da cronologia oficial, então simplesmente a "casa caiu" (!), pois como ficaríamos depois destes acontecimentos?


As respostas para essa minha pergunta estariam dentro de três possibilidades, são elas: 1) a história não faz parte da cronologia oficial, devendo ser considerada apenas um delírio criativo de King; 2) a história seria algo irreal, ou seja, construído pela mente angustiada e melancólica de Scott Free; 3) a terceira e última hipótese (e que eu acho mais plausível) prefiro não comentar aqui para não gerar spoiler. Vou deixar esta última hipótese para conversar com quem quiser nos comentários abaixo. Assim, se você ainda não leu a história, é só ler e depois voltar aqui nos comentários da matéria para debatermos. Há inúmeras referências e metáforas espalhadas pela história, e só isso já daria debates interessantes acerca do que cada um deles significa. Por exemplo, de tempos em tempos há distorções nos desenhos, como se fossem uma interferência. Isso pode ser visto na 2ª imagem desta matéria. Se você observar direitinho perceberá que há uma parte dela que está distorcida e em descompasso com o restante. Esse efeito é constante ao longo da história e em minha opinião significa algo que validaria minha 3ª hipótese (que explicarei nos comentários abaixo para quem quiser).


A arte ficou ao cargo de Mitch Gerads, desenhista estadunidense de 37 anos. O tipo de arte de Gerads à princípio não me agradaria, mas surpreendentemente o desenhista me fisgou ao introduzir um elemento emocional extremamente forte nos desenhos, trazendo alma e profundidade às imagens (vide acima). Algo muito importante em uma HQ na qual há silêncios e movimentos sutis dos personagens, coisas que o leitor deve prestar muita atenção para experimentar toda dimensão da história. Isso fez com que o trabalho de Gerads entrasse para meu radar de leitor a partir de agora. Não posso de deixar de mencionar a semelhança do traço de Gerads com o de outro desenhista imortal, Bill Sienkiewicz.


Bem amigos... Gostaria muito de saber a opinião de você sobre esta história, sobretudo em relação a interpretação dos fatos nela ocorridos e suas implicações cronológicas e mitológicas para os Novos Deuses. Tenho minhas hipóteses. Quais são as suas?

Forte abraço!

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Guia de Leitura Pessoal - Warlock & Thanos


Olá amigos... Em 2020 o Blog "Marcelo - Antologias" completará 10 anos de existência. Como parte das comemorações para esta data, o blog receberá algumas mudanças visuais que embora discretas, farão a diferença, aproximando-o cada vez mais de sua linha editorial. Mas além disso, iniciarei esta nova série de matérias que tratarão de um assunto sobre o qual sempre quis escrever mas tinha dificuldade para encontrar a melhor abordagem, a saber: A Forma Correta e Cronológica de Ler Minha Coleção. Para isso debrucei-me em uma extensa pesquisa para conseguir construir Guias de Leitura o mais completas possíveis, que fossem capazes de enxergar o conteúdo dos encadernados ao longo dos anos e, portanto, sua importância em um contexto maior dentro dos quadrinhos. Para este início escolhi apresentar a sequência de leitura de Sagas envolvendo dois importantes personagens, Warlock e Thanos. Meu desafio era montar um painel gigantesco que pudesse, visualmente, dar a dimensão correta de algumas sagas que foram lançadas no Brasil e que fazem parte de minha coleção. O intuito destas matérias é compartilhar com a fandom um material que fiz para mim, contendo os encadernados que eu tenho. Portanto, é possível que você, caro leitor, talvez tivesse feito diferente, já que é possível que você tenha algum encadernado a mais que eu. Começarei apresentando abaixo o painel completo para, logo abaixo, apresenta-lo de forma segmentada.

Para obter as imagens com visualização adequada acesse o link abaixo.

Painel Cronológico Completo de Leitura 

Como podem ver há certa sobreposição entre os materiais nas edições brasileiras. Isso pode ser explicado de certa forma em função de editoras diferentes publicarem material semelhante. Neste caso as Editoras Panini e Salvat. Como são empresas diferentes não podemos esperar a mesma curadoria na composição dos encadernados. De qualquer forma estes encadernados contemplam um período longo de tempo, que vai de 1967 à 1994. A possibilidade de enxergar o panorama acima, nos permite escolher a sequencia de leitura tendo por base a forma como as Sagas foram cronologicamente pensadas. Há meses, por exemplo, em que diversos materiais paralelos saíam ao mesmo tempo em revistas distintas. Esta forma que estruturei para apresentar os arcos permitirá que nós leitores leiamos os encadernados buscando a forma cronológica de lançamento e, desta forma tiremos maior proveito do encadernado, indo e voltando dentro do volume a partir da cronologia de lançamento. Não darei detalhes específicos de cada Saga nestas matérias porque acabaria fugindo dos objetivos principais, que são a organização e dimensionamento cronológico das histórias. Vamos agora à apresentação de cada material de forma mais específica e que, na minha opinião, deveria ser lidos nesta ordem. Obs.: Para ver melhor cada uma das imagens clique no link acima para baixar as imagens (pasta compartilhada do Google Drive).

1º - A Saga de Thanos - Panini

O encadernado A Saga de Thanos, lançado recentemente (maio de 2019) pela Editora Panini, seria o ponto de partida mais antigo para lermos os primórdios das histórias de Warlock/Thanos. O encadernado foi muito bem montado trazendo inclusive a origem de Warlock nas mensais do Quarteto Fantástico #65 e #66 e Thor #165 e #166, de 1967 e 1969, respectivamente. Um material clássico de valor inestimável. A partir deste ponto o encadernado vai para 1972 dando início à primeira grande saga envolvendo Adam Warlock em uma história na Contra-Terra, um experimento do Alto Evolucionário. A Saga possui forte cunho messiânico e foi responsável por pavimentar a personalidade de Warlock.

2º - Coleção Histórica Marvel - Os Vingadores #1 e #2

A Coleção Histórica Marvel (CHM) é um selo da Editora Panini que deu muito certo. Desde 2012 ela vem trazendo material clássico imperdível. Os dois primeiros encadernados da coleção referente aos Vingadores (lançados em 2014) trouxeram importantes momentos envolvendo Warlock e Thanos. Um material que, além disso, coloca em evidência outro herói muito importante na Marvel quando pensamos em sagas cósmicas, o Capitão Marvel. CHM - Os Vingadores #1 e #2 nos ajuda a dimensionar corretamente o Universo Cósmico da Marvel.

3º - Coleção de Graphic Novel da Editora Salvat
Capa Preta #XXXII e XXXIII
Capa Vermelha #44

As Coleções de Graphic Novels da Editora Salvat (atualmente suspensas/encerradas) iniciaram sua trajetória em 2013 e nesses últimos 6 anos trouxeram muito material importante. Conhecidas como Coleções Capa Preta e Capa Vermelha, estas duas coleções trouxeram nas edições da série clássica de Capa Preta #XXXII e XXXIII e Nº 44 da Capa Vermelha, parte da epopeia cósmica de Warlock e Thanos. Os dois encadernados da Capa Preta trazem talvez a Saga mais emblemática de Warlock/Thanos por ter sido eternizada no Brasil em Grandes Heróis Marvel #1 da Editora Abril de setembro de 1983. O gibi trazia o fim desta saga e marcou uma geração. Já o encadernado da Capa Vermelha mostra Warlock em 1972 e logo salta para 1992, portanto pode ser visto como um material complementar em minha opinião.

4º - A Trilogia do Infinito
4a - Desafio Infinito
4b - Guerra Infinita
4c - Cruzada Infinita

Apresentar a Saga do Infinito, publicada no Brasil mais recentemente em 3 encadernados (Desafio Infinito, Guerra Infinita e Cruzada Infinita) foi um desafio uma vez que a complexidade do painel acima fala por si. Mas fiquei muito satisfeito em entender pela primeira vez a concepção cronológica da Saga, uma vez que me permitirá lê-la aproveitando-a de forma muito melhor. Esta Trilogia ganhou especial anteção mais recentemente por ter servido de inspiração para os roteiros de Vingadores - Guerra Infinita e Vingadores - Ultimato.

Bem amigos, espero que tenham gostado das mudanças já notadas por aqui e que os painéis desta série de matérias os ajudem (como a mim) a obterem uma leitura mais eficiente e prazerosa. Não deixem de comentar o que acharam!

Grande abraço!

sábado, 13 de julho de 2019

Doutor Sono - A Continuação de "O Iluminado"


O livro Doutor Sono (prestes a ganhar sua versão cinematográfica) e continuação direta do livro O Iluminado, é um caça-níquel de Stephen King? A resposta é não. E porque não? Bem... por 4 motivos. 1) primeiro porque acredito (sinceramente) que Stephen King não precisaria manchar um dos seus mais conhecidos livros com uma sequência apenas para lhe render dinheiro já que o autor, com mais de 50 livros publicados e inúmeras adaptações para o cinema e TV, não precisaria de dinheiro ganho desta forma (comprometendo um trabalho tão emblemático com uma sequência a toque de caixa); 2) segundo porque a narrativa de King continua para mim vigorosa, visceral e talvez até melhor, pois está mais apurada e o autor consegue se expressar por meio de metáforas fortes e mais profundas ao longo do livro; 3) terceiro porque a história é realmente crível e faz jus aos personagens que habitam o imaginário de tantas pessoas nas 3 últimas décadas, dentre eles Jack e Wendy Torrance, Dick Halloran e o pequeno Danny Torrance (O Iluminado do título do livro de 1977); e 4) King comenta em uma nota ao final do livro que gestou a história ao longo de um bom tempo e só decidiu escreve-la após o ano de 2009 a partir de uma pergunta que o assolava: O que teria acontecido ao pequeno Iluminado Danny Torrance?


É muito importante que o leitor que decidir ler Doutor Sono entenda que o livro é continuação direta do livro de 1977, e não do filme O Iluminado de Stanley Kubrick de 1980. Isso deve ficar claro porque o final do filme tem diferenças importantes em relação ao livro, este último sim a história original de King. Isto não faz o filme de Kubrick ruim, na verdade é uma grande obra cinematográfica, na verdade é apenas a leitura que o cineasta fez da história. Isto quer dizer que se você assistiu ao filme e for ler Doutor Sono, estranhará algumas coisas, já que a continuação literária segue diretamente a história original de King. Quando fiquei sabendo do lançamento da continuação de O Iluminado achei incrível. Porém, meu estranhamento começou pelo título. Doutor Sono me pareceu o título mais improvável e estranho para a continuação de uma obra que eu achava perfeita até no título, já que O Iluminado trazia consigo um ar perturbador logo de cara. Mas tive que deixar o estranhamento de lado para mergulhar na leitura.


Doutor Sono resolve logo nas suas primeiras páginas o futuro imediato dos sobreviventes do Hotel OverlookDany, Wendy e Dick, contando os acontecimentos imediatos logo após o encerramento do 1º livro. Após esta retomada veremos Daniel Torrance cerca de 30 anos depois, vivendo em uma situação difícil, ou seja, como alcoólatra, "pavil curto" e flertando com drogas. Um destino que deixa o leitor triste e incomodado, mas entendemos que é a forma que Daniel encontrou para lidar com a iluminação que o faz ver coisas de um mundo que o assombra. Stephen King além de estabelecer logo de cara o destino de Danny, precisou elaborar um novo desafio que fosse a altura daquele enfrentado no livro de ´77. Esse desafio vem na forma de um grupo de pessoas sobre as quais não darei nenhuma informação para evitar spoilers. Só posso dizer que é assustador por se tratar de algo plausível vivendo em nosso mundo real.


Algo que deixa o leitor muito satisfeito ao longo do livro é a sensação de conhecer os personagens de longa data, isso se você leu (é claro) O Iluminado. Essa sensação de conhecer os personagens há muito tempo produz uma profunda identificação entre o leitor e a vida de Daniel Torrance, sobretudo quando ele retoma lembranças de seu passado no famigerado Overlook Hotel, palco dos assustadores acontecimentos de sua infância. Stephen King faz questão de manter o Overlook e seus acontecimentos em evidência em Doutor Sono, muito provavelmente porque sabia que o leitor mais veterano se identificaria com isso. Embora o Hotel tenha sido destruído no final de O Iluminado, o leitor fica se perguntando o que teria acontecido com o local onde um dia o hotel estivera. E por incrível que pareça King satisfaz a curiosidade do leitor, voltando a colocar o local, onde outrora o Overlook esteve, em evidência.


Há questões também acerca de Jack Torrance (pai de Danny interpretado no filme de Kubrick por Jack Nicholson) que sempre tivemos curiosidade de saber. Em certa medida, temos algumas respostas para algumas questões superficiais acerca da vida de Jack. Isso também situa o leitor novamente no clima do livro anterior. Stephen King reconhecidamente já disse que o resultado final do filme de Kubrick não o agradou tanto. De minha parte posso dizer que o filme de 1980, embora não siga à risca o livro, é uma obra prima. Apesar disso, eu fico com o final do livro. Se você compartilha de minha opinião eu recomendo uma minissérie da década de 90 que adapta para a TV a história. Assisti esta adaptação e gostei muito. Não apenas por ser mais fiel ao livro, mas porque reproduz muito bem a atmosfera pretendida por King, que inclusive faz uma rápida aparição (uma "ponta") na minissérie. Esta minissérie foi lançada em DVD não faz muito tempo no Brasil pela Vinyx Multimídia.


Doutor Sono estreará no cinemas mundiais em 07 de dezembro de 2019 e trará Ewan McGregor no papel da Daniel Torrance. Um ator experiente que acredito que dará conta de interpretar o personagem em sua complexidade dramática. Uma dúvida que eu tinha era se o filme seria continuação do livro ou do filme O Iluminado. Porém, ao checar o elenco já percebi que será a continuação do livro O Iluminado e não do flime de Kubrick, isso porque teremos o personagem Dick Halloran, alguém que no filme de Kubrick faleceu, e no livro não.


Recomendo a leitura de Doutor Sono não apenas porque o filme estreará, mas porque é um bom livro. Em geral prefiro ler o livro primeiro antes de ver o filme. Uma regra que procuro seguir para qualquer adaptação, porque acredito que ler o livro nos coloca em contato com a história original, e não com aquela que já sofreu influência da interpretação do diretor. Sempre que fiz isso (ler o livro primeiro) eu me beneficiei disso, pois me permitiu formar a minha interpretação da história sem nenhuma contaminação.

Se você já leu Doutor Sono e quer compartilhar sua impressão do livro, não deixe de comentar abaixo. Um grande abraço à todos!!

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Batman - O Messias


Batman já foi desconstruído muitas vezes. Talvez a mais famosa e emblemática vez foi em 1986 pelas habilidosas mãos de Frank Miller em seu Batman - O Cavaleiro das Trevas. Mas poderíamos citar também Asilo Arkham do polêmico Grant Morrison. Mas tanto Miller quanto Morrison fizeram esta desconstrução focando no "Mito" Batman, sem ferirem de forma profunda a psiquê do Morcego, quebrando suas barreiras psíquicas contra a dor e senso de realidade, levando-o para uma imobilizadora fragilidade. A coragem de fazer esta desconstrução mais visceral deve ser atribuída (em minha opinião) à Jim Starlin (sim, o criador do Thanos). Conhecido por suas psicodélicas e incríveis sagas cósmicas envolvendo o Capitão Marvel, Thanos, Warlock Gamora entre outros, Starlin ousou quebrar o Morcego no final da década de 80 em Batman - O Messias, desnudando sua infalibilidade tão conhecida, sua dureza e frieza, deixando-o de joelhos e colocando palavras nunca antes ouvidas na boca do Cruzado Encapuzado, tais como, "por favor", "socorro" e "pare". Mesmo sagas como A Queda do Morcego de Doug Moench e Jim Aparo quebraram Batman apenas em seu físico, não em sua mente. Mas que vilão Jim Starlin usou em O Messias para quebrar Batman neste nível? Que vilão teria conseguido este triunfo? O Coringa, em sua psicopatia lúdica? Bane, com sua anabolizada bestialidade? Ra´s al Ghul, em sua letal megalomania? Na verdade não... Este troféu foi para um homem "santo"... um religioso... o desconhecido Diácono Blackfire.


Lançada nos EUA em 1988, a minissérie O Messias levou Batman para locais nunca antes vistos (pelo menos por mim) até então. Quando li a história na época de seu lançamento no Brasil, entre maio e agosto de 1989 (eu tinha algo em torno de 17 anos), fiquei chocado com os níveis de brutalidade, crueldade e violência da história. Mas não apenas por isso, mas sobretudo pela fragilidade com que o autor expõe Batman. Não darei spoilers da história aqui, apenas linhas bem gerais do que se trata O Messias. A 1ª parte da minissérie já apresenta um Batman quebrado, algemado, machucado, drogado, com fome, sede e alucinando nas catacumbas de Gotham City. Neste estado Batman é levado a questionar os limites da realidade e se vê a mercê das palavras do Diácono que o converte à sua seita. Daí em diante o Diácono avança em seu plano de tomar Gotham a partir de seus fiéis, a maioria rejeitados, bêbados, mendigos e párias sociais. A opinião pública se divide quanto aos intentos de Blackfire já que sob o comando de seus fiéis, os crimes vão escasseando, tornando Gotham uma cidade enfim segura.


Batman é questionado inclusive sobre isso, já que seus métodos nunca conseguiram dar conta de quase 100% dos crimes, coisa que o Diácono consegue. Como somos leitores acostumados a encontrar um Batman na maioria das vezes infalível, que sempre possui "planos Bs" para tirar da "cartola", ficamos a todo momento durante esperando a "grande virada" do Morcego. Ou seja, o momento no qual Batman vira o jogo em toda sua glória investigativa e estratégica. Porém, em O Messias isso não ocorre. O Homem-Morcego tem que sair sozinho de seu estado. Embora receba algum apoio logístico do Robin da época (Jason Todd), o caminho por meio do qual Batman ressurge é o difícil e doloroso caminho da luta interior. Mesmo nas páginas finais da história, o Batman que aparece ainda é um homem alquebrado e cheio de dúvidas.


O Diácono Blackfire, embora tenha conseguido a façanha de dobrar Batman em seu psiclógico, é (em minha opinião) um vilão "clichê". Em nenhum momento da história ele explicita concretamente seu evangelho. Na verdade apenas evoca continuamente um discurso messiânico genérico. Talvez Starlin não quisesse causar polêmica nesse aspecto. Há partes da narrativa em que Blackfire lança mão de recursos retóricos como "martírio pessoal", "círculo pessoal de seguidores", como se quisesse emular os passos de Jesus. Estranhamente, no entanto, Starlin caracteriza Blackfire com feições indígenas norte-americanas. Nas poucas páginas em que a origem do diácono é contada, se observa que ele tem centenas de anos, e estava vivo mesmo antes do estabelecimento das primeiras colônias britânicas na região da Nova Inglaterra nos EUA. Em alguns momentos da leitura tive um lampejo de que Starlin talvez quisesse usar Blackfire como uma metáfora de "vingança" dos povos indígenas contra a usurpação que o homem branco fez. Porém, isso seria apenas especulação de minha parte.


O novo encadernado da Panini traz uma interessante introdução com texto do próprio Jim Starlin, no qual o roteirista situa a trama de O Messias dentro de uma temática bem real da história humana: a censura. Starlin destaca que em vários momentos no passado antigo e recente dos quadrinhos, sobretudo nos EUA, ocorreram tentativas sistemáticas de se censurar as histórias. O exemplo mais conhecido e destacado por Starlin, obviamente, foi o que ocorreu na década de 50 a partir da publicação do livro A Sedução do Inocente de Fredric Wertham em 1954. Setores conservadores da sociedade conseguiram aval do governo da época para implantarem um selo de censura nos quadrinhos, o Comics Code Authority. O resultado foi uma longa fase de HQs infantilizadas, o que fez com que talentosos quadrinistas tivessem que mudar de ramo. No final de década de 80 porém, com a maior profundidade dada aos Super-heróis a partir de histórias como as de Frank Miller, Alan Moore e Neil Gaiman, houve nova tentativa de setores da sociedade para restringir a liberdade de roteiristas. Starlin diz que Batman - O Messias foi seu grito contestatório contra esta nova onda de censura. Sua tentativa de se posicionar firmemente contra este tipo de movimento.


A arte de Batman - O Messias ficou por conta do saudoso Bernie Wrightson. Vetereno de revistas voltadas para o terror como Eerie e Creepy (publicadas no Brasil na revista Kripta), Wrightson faleceu recentemente em 2017. A importância do desenhista extrapola seu ofício, já que foi co-criador do personagem Monstro do Pântano. Particularmente achei que a forma como a HQ foi colorizada por  Bill Wray fez desmerecer a arte de Wrightson. O aspecto final da história em sua estrutura artística fez com que ficasse datada, muito embora o enredo seja altamente atual. Ao lê-la, o leitor mais experiente lembrará muito de histórias da década de 90, tais como Batman - Shaman, Batman - O Filho do Demônio e Batman - Mestres do Futuro, continuação de Batman 1889.

Capas da Minissérie lançada no Brasil em 1989

A versão de Batman - O Messias de 1989 da Ed. Abril é uma das pérolas da minha coleção. Apesar do tempo, consegui manter os 4 fascículos da minissérie original comigo (acima). Mesmo assim, comprei o novo encadernado da Panini. Achei que era uma história que merecia ter em minha coleção em um outro formato. Bem amigos, recomendo a HQ e ficaria contente de receber as opiniões de vocês sobre a história.

Arte de Bernie Wrightson em Batman - O Messias.

Um grande abraço à todos!
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