sábado, 2 de agosto de 2014

A Voz do Fogo - Alan Moore


Recentemente terminei de ler o livro A Voz do Fogo de Alan Moore. Obra do cultuado e misterioso escritor inglês. Xamânico, tribal e sobretudo metafórico, o livro possui um efeito lisérgico à todos àqueles que perseverarem no desbravamento de suas páginas. A Voz do Fogo estabelece como personagem principal não uma pessoa, mas sim um Lugar: Northamptom na Inglaterra, cidade natal do escritor. Moore enfatiza de forma subliminar ao longo do livro algo que pode ser atestado por todo aquele que tiver um pouco de sensibilidade e paciência diante da natureza: a ideia de que há uma consciência que nos rodeia e que conecta todas as coisas. O ser humano é realmente um ser admirável em sua inteligência e capacidade, no entanto ao meu ver perdeu a conexão que possuía com a criação, ficando à margem das sensações profundas e compartilhadas existentes na natureza. Nossa queda nos deixou mais pobres, arrogantes e superficiais. Ao longo do livro percebe-se que Alan Moore tem pensamento semelhante ao destacar essa presença em sua cidade natal.


O livro narra, em cada capítulo, situações específicas que aconteceram ao longo das Eras em Northamptom. Pessoas que viveram em épocas diferentes mas foram afetadas por essa visão singular da cidade. Iniciando sua narrativa em 4000 a.C., o livro começa com "O Porco do Bruxo", um relato em que um garoto relata em linguagem  pobre e destituída de maiores significados (difícil de ler) sua experiência ao ser sacrificado pelo Bruxo local. A partir desta primeira narrativa e nas seguintes Moore subentende um intercâmbio entre o mundo real e o imaginário da localidade, em que pessoas são de alguma forma vítimas e, em alguns casos, algozes de seus destinos. Os capítulos vão lentamente percorrendo as vidas de pessoas da Idade do Ferro, do Bronze, procuradores romanos, freiras, mendigos, rebeldes, bruxas queimadas e vigaristas, até chegar a si próprio no ano de 1995 (quando o livro foi concluído).


As narrativas metafóricas de Moore necessitariam de um exame mais minucioso para serem melhores compreendidas, além é claro, de uma familiaridade com o lugar. Porém isso não impede o leitor de embarcar em uma construção narrativa que entorpece e aguça o imaginário. Há, no entanto, uma visão constantemente negativa e bizarra do lugar, sem muito espaço para a esperança e redenção. Essa característica não me surpreendeu de todo, no entanto eu esperava encontrar algumas saídas e passagens secretas para longe do desespero em alguns locais do livro. Para o conhecedor razoável das obras de Moore é possível se observar tênues pontes que nos afasta da solidão e angústia da existência. Em geral tais atalhos estão contidos nas relações pessoais, como por exemplo na amizade de Rorschach e o Coruja em Watchman (um oásis na "insanidade" ou "sanidade" do personagem). Ou então na ocasional paz que Alec Holland (O Monstro do Pântano) sentia nos braços de Abby. Tais alívios não existem em A Voz do Fogo.


Assim, Alan Moore se compromete com uma história em que o leitor se vê envolvido pelas mesmas labaredas que dão nome ao livro. Não sei se o labirinto sem saída construido pelo autor representa exatamente sua visão de mundo, ou se foi apenas um recurso narrativo. No vídeo "A Paisagem Mental de Alan Moore", disponível no YouTube, pode-se ter uma ideia de suas reflexões e muitas delas passam pela temática que abordei no início da matéria. Por isso mesmo surpreendeu-me, de certa forma, a manutenção da inescapabilidade do desespero existencial apresentada no livro. Minha interpretação é muito pessoal e baseada em divagações internas. Há com certeza, muitos amigos que poderiam contribuir para um maior e melhor entendimento desta obra Sui Generis.


Sem dúvida nenhuma A Voz do Fogo é um mergulho em mitos, lendas e medos encravados no inconsciente coletivo da humanidade. É também uma obra que mostra o quão frágil pode ser o tecido que separa a realidade da fantasia. Um livro que nos leva a um local onde o tecido da realidade se esgarça e onde é possível olhar para longe do pensamento concreto. Eu, no entanto, consigo enxergar os escapes, atalhos e caminhos alternativos àquilo que é mostrado por Moore. Algo que Neil Gaiman também vê, como pude comprovar no livro O Oceano no Fim do Caminho. Acredito e torço para que Moore também os enxergue.

Abraço à todos!

4 comentários:

  1. Olá Marcelo,

    É porque você não viu a Zoe no Colombiana. rsrsrsr

    Ainda não vi o filme, mas já esta na fila.

    Abraços

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    1. Oi Wellington! Tudo bem, amigo!?

      Acho que você se refere à Zoe Saldana do Guardiões na Galáxia, não é mesmo!?

      Fiquei interessado em ver esse filme que pelo que fui investigar é de 2011! Valeu pela dica!!

      Abcs!

      Marcelo.

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  2. "Tais alívios não existem em A Voz do Fogo."

    Curioso. De todo o seu relato, de todas as suas impressões acerca do romance, esta parte me chamou atenção. Realmente, parece que não encontramos nenhum momento de fuga do ambiente claustrofóbico que nos envolve, criado por Moore. Parece que, desde o sacrifício do "porco" do Bruxo, a dor e a agonia reverberaram sem dar espaço a um episódio sequer de alento. Outro ponto em comum - acho - com a hq "Do Inferno", além dos aspectos de psicogeografia.

    Há uma edição especial (acho que americana) ilustrada com belíssimas fotografias de Jose Vilarrubias. Pena que a Veneta não investiu nesse material mais incrementado quando lançou sua "nova" edição no Brasil.

    Abraços!

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    1. Pois é Kleiton...

      Essas foram minhas impressões. Mas uma coisa é muito interessante. Quanto mais passa o tempo desde o término da minha leitura de A Voz do Fogo, mais o livro tem reverberado dentro de mim e alcançado outras interpretações mais profundas. É como se fosse uma obra que precisa do tempo para ser digerida, tal qual uma grande refeição que precisa de várias horas para que todos os elementos químicos dos alimentos ingeridos possam ser degradados e digeridos satisfatoriamente.

      Sendo assim, acredito que ainda outras leituras da obra virão.

      Grande abraço!

      Marcelo.

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