sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Batman: Noel



De vez em quando nos deparamos com determinadas obras em quadrinhos que nos fazem lembrar o porque um dia nos apaixonamos pela 9ª Arte. De uma hora para outra somos transportados para um limbo artístico dentro do qual nos perdemos e tudo a nossa volta, toda aquela ficção, parece realmente ser real, dando significado à nossas vidas. Muitas destas obras nascem clássicas, no entanto acabam precisando passar pelo teste do tempo para que esta alcunha seja reconhecida por todos. Batman: Noel, de Lee Bermejo é um destes exemplos. Adaptando para a vida do Homem-Morcego o clássico conto de Charles Dickens, A Christmas Carol. Nele, um dos mais famosos personagens da literatura se fez conhecido, Ebenezer Scrooge.


A 1ª coisa que quero ressaltar nesta HQ é a soberba arte de Bermejo. Vivendo na Era Pós Alex Ross, dificilmente conseguimos nos surpreender com novos caminhos artísticos na 9ª Arte. Nas últimas década alguns ilustres desenhistas têm conseguido isso em minha opinião, caso de Alex Maleev, Adi Granov e Esad Ribic, por exemplo. Em Batman: Noel, no entanto Bermejo consegue um efeito que vivenciei poucas vezes até então enquanto admirador da arte quadrinística: uma sensação de cenas e personagens desenhados em camadas e em texturas. Estilo assim pode ser visto também em artes como as de J.J. Muth (Drácula - Graphic Album (Ed. Abril - 1990)) e Kent Willliams (Wolverine & Destrutor - Fusão (Ed. Abril - 1989)). Uma arte que se alinhou perfeitamente ao clima frio, melancólico e desolador da obra de Dickens.


Porém, como se não bastasse a arte, Bermejo reconstrói o conto de Dickens se utilizando da mitologia do Cruzado Encapuzado de forma elegante e sem deixar-se levar por soluções e desfechos comuns para cada sequencia. Uma grande prazer e surpresa para o leitor é ir, aos poucos, descobrindo quem é quem do Conto original, a saber Ebenezer Scrooge e os Fantasmas dos Natais passado, presente e futuro. Todas as premissas por meio das quais o grande Dickens construiu seu conto imortal são aqui trabalhadas: a finitude humana; a falsa sensação de segurança sobre a qual todos nós nos apegamos; a inutilidade de determinadas coisa que insistimos em valorizar; e a sensação de se descobrir algo já conhecido, só que agora visto em sua real essência.


Ilustres convidados aparecem na história, todos desenhados sob a perspectiva clássica e profunda de Bermejo. Em dias em que HQs se utilizam muito do expediente da violência desmedida e temas polêmicos para ganharem espaço no mercado, é muito bom encontrar histórias que se voltam para temas clássicos transpostos para personagens mitológicos modernos.


Ao ler Batman: Noel tive a agradável sensação de revisitar aqueles livros ou antigas enciclopédias que haviam em minha casa em minha infância. Como por exemplo a Enciclopédia Trópico que trazia desenhos que me trasportavam para outros lugares. Lee Bermejo possui um traço nostálgico e vintage, totalmente alinhado com antigas ilustrações. Essa sensação vintage e noir vem aliada, no entanto à uma narrativa gráfica muito moderna. Bermejo se utiliza muito bem de um recurso que confere ao leitor a percepção quase real de sentir cheiros, ouvir sons e tocar coisas junto com os personagens, ou seja, o recurso de transformar os quadrinhos da história (as transições de uma cena para outra), em ferramentas narrativas. Sem dúvida nenhuma um desenhista altamente em sintonia com o roteiro e que consegue domar a difícil arte de alinhar as duas coisas, desenhos e roteiro.


Bem amigos, seguindo a linha editorial aqui do Blog, de sempre comentar sobre inúmeras obras sem dar quaisquer tipos de "spoilers", deixo aqui minha recomendação à uma obra que para mim já poderia ser colocada no verbete "clássico". Mas deixemos o tempo conferir a ela este selo.


Um grande abraço à todos! o/

4 comentários:

  1. É isso mesmo, Marcelo. Também fiquei muito surpreso e feliz ao ler Batman: Noel. A arte e o roteiro fluem perfeitamente e quando nos damos conta, a história já acabou, deixando saudade. hehehe. Fazia tempo que não lia algo assim. Boa lembrança da Graphic do Drácula. Um abraço!

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    1. Opa! E aí Marcelo, tudo bem?

      Que bom que também gostou Marcelo. A fluidez da narrativa é realmente algo muito marcante. Uma combinação perfeita entre roteiro e arte.

      Assim como você fazia algum tempo que não lia algo que me chamava atenção nesse nível.

      A Graphic Novel do Drácula é um clássico!! Sem duvida!!

      Grande abraço!

      Marcelo.

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  2. blz marcelo?

    não consigo ver esta obra como "clássico", mas acho que é uma boa HQ e vale ser comprada (nada de scans) lida e relida, bom material sem apelos "atuais".
    o bermejo é top

    abraço

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    1. Olá Gustavo!! Blz!?

      Pergunto-me muito quando veremos algum evento quadrinístico que mude de forma contundente o jeito de se pensar a 9a Arte. Algum evento que, assim como ocorreu entre a Era de Ouro e a Era de Prata, a de Prata e a de Bronze, a de Bronze e a Moderna marcaram transições importantes. Fico pensando se o CINEMA seria um evento desse nível. Porém, eu penso que a linguagem cinematográfica não trouxe uma mudança tão importante assim para que pudéssemos dizer que mudamos da Era Moderna para alguma outra.

      Por isso, quando eu vejo histórias como essa de Lee Bermejo fico procurando características que pudessem sinalizar na direção de uma NOVA Revolução como as que comentei acima entre uma Era de outra.

      Nesse sentido percebo que "Batman: Noel" é uma HQ que sai fora um pouco do Main Stream atual. Porém, talvez a prova de fogo para "Batman: Noel" se tornar um clássico seja dada pelo tempo mesmo.

      Valeu Gustavo!!

      Grande Abraço!

      Marcelo.

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