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sábado, 14 de setembro de 2019

Guia Completo: Supercards Revista Mundo dos Super-heróis - 1ª Série


Como noticiado aqui no Blog antes, a Revista Mundo dos Super-heróis (MSH) alcançou em 2018 a marca hercúlea de 100 edições. Um feito para poucas revistas no Brasil. Para comemorar esta marca e fomentar um olhar para o futuro, sem perder o respeito pelo passado, os editores começaram a lançar a partir da MSH Nº 101 um conjunto de grandes cards em cada edição, com momentos históricos para os super-heróis, sejam eles em mídia impressa (quadrinhos) ou em mídia áudio-visual (cinema, animações, games e streaming). Recentemente a 1ª Série desta iniciativa chegou ao fim totalizando um conjunto de 88 Supercards distribuídos ao longo de 10 números da MSH (101 à 111). O registro abaixo refere-se a esses memoráveis 88 Supercards, e busca oferecer um controle à todos que queiram ter em mãos não apenas as imagens destes importantes momentos dos super-heróis, mas informações acerca de cada momento, já que no verso de cada cartão o colecionador encontra uma excelente explanação situando a importância da imagem do card. Espero que esta matéria auxilie a muitos.

1 - Filme: Homem de Ferro (2008); 2 - Filme: Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008); 3 - Série: Os Últimos Filhos de Krypton - Supergirl - Temporada 2 - Episódio 2 (2016); 4 - Filme: Logan (2017); 5 - Série: Demolidor - Temporada 1 (2015); 6 - Nostalgia (Série): As Aventuras do Capitão Marvel (1941); 7 - Filme: Superman II - A Aventura Continua (1981); 8 - Quadrinhos: Homem-Aranha Nunca Mais (The Amazing Spider-Man #50) (1967).

9 - Filme: Pantera Negra (2017); 10 - Animações: Batman - A Série Animada (1992); 11 - Filmes: Deadpool 2 (2018); 12 - Filmes: Liga da Justiça (2017); 13 - Série: Loucura, Loucura - Jéssica Jones - Temporada 2 - Episódio 7 (2018); 14 - Série: Lendas do Amanhã Temporada 2 (2016); 15 - Série: Legion - Temporada 1 (2017); 16 - Quadrinhos: Surge... O Wolverine! (The Incredible Hulk #181) (1980).

17 - Filme: Mulher-Maravilha (2017); 18 - Filme: Vingadores; Guerra Infinita (2018); 19 - Filme: Flash Gordon (1980); 20 - Série: Os Melhores do Mundo - Supergirl - Temporada 1 - Episódio 18 - (2016); 21- Filme: X-Men - Dias de Um Futuro Esquecido (2014); 22 - Filmes: Batman - O Homem-Morcego (1966)23 - Filme: Curta Marvel: Agente Carter (201); 24 - Quadrinhos: Flash de Dois Mundos (The Flash #123) (1961).

25 - Filme: O Homem de Aço (2013); 26 - Filme: Capitão América - Guerra Civil (2016); 27 - Série: Crise na Terra X - Supergirl - Temporada 3 - Episódio 8Arrow Temporada 6 - Episódio 8 / Flash Temporada 4 - Episódio 8 / Lendas do Amanhã Temporada 3 - Episódio 8 (2018); 28 - Game: Batman - Arkham Asylum (2009); 29 - Nostalgia (Série): O Fantasma Voador (1943); 30 - Filme: Watchmen: O Filme (2009); 31 - Série: Agents of Shield - Temporada 4 (2017); 32 - Quadrinhos: O Justiceiro Ataca Duas Vezes (The Amazing Spider-Man #129) (1974).

33 - Filme: Guardiões da Galáxia (2014); 34 - Série: Arrow - Temporada 1 (2012); 35 - Série: Luke Cage - Temporada 1 (2016); 36 - Filme: X-Men - Primeira Classe (2011); 37 - Filme: Superman - O Filme (1978); 38 - Filme: Hellboy II - O Exército Dourado (2008); 39 - Filme: Lego Batman - O Filme (2017); 40 - Quadrinhos: Stan Lee Encontra o Espetacular Homem-Aranha (Stan Lee Meets Spider Man #1) (2006). 

41 - Filme: Thor - Ragnarok (2017); 42 - Série: Smallville - As Aventuras do Superboy - Temporada 1 (2001); 43 - Filme: O Homem-Aranha Volta a Atacar (1979); 44 - Animações: Batman - A Piada Mortal (2016); 45 - Filme: Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007); 46 - Filme: Monstro do Pântano (1982); 47 - Série: Manto e Adaga - Temporada 1 (2018); 48 - Quadrinhos: Starro, O Conquistador! (The Brave and The Bold #28) (1960).

49 - Filme: Capitão América - O Primeiro Vingador (2011); 50 - Filme: Esquadrão Suicida -  (2016); 51 - Série: Os Defensores (2017); 52 - Animações: Planeta Hulk (2010); 53 - Série: Krypton - Temporada 1 (2018); 54 - Filme: Homem-Aranha (2002); 55 - Filme: Batman - Máscara do Fantasma (1993); 56 - Quadrinhos: Miss América, a Mulher-Maravilha (Wonder Woman #1) (1942).

57 - Filme: Batman vs. Superman - A Origem da Justiça (2016); 58 - Filme: Homem de Ferro 3 (2013); 59 - Série: Linha de Chegada - Flash - Temporada 3 - Episódio 23 (2017); 60 - Game: Ultimate Marvel vs. Capcom 3 (2011); 61 - Filme: Blade - O Caçador de Vampiros (1998); 62 - Série: Demolidor - Temporada 2 (2016); 63 - Nostalgia (Série): O Homem Atômico Contra o Super-Homem (1950); 64 - Quadrinhos: Se Este For o Juízo Final (Fantastic Four #49) (1966).

65 - Filme: Doutor Estranho (2016); 66 - Filme: Batman Begins (2005); 67 - Série: Fugitivos - Temporada 1 (2017); 68 - Animações: Grandes Astros - Superman (2011); 69 - Filme: Homem-Aranha 2 (2004); 70 - Filme: O Doutrinador (2018); 71 - Nostalgia (Série): Capitão América, O Vencedor (1944); 72 - Quadrinhos: Os Novos Titãs (The New Teen Titans #1) (1980).

73 - Filme: Aquaman (2018); 74 - Filme: Guardiões da Galáxia - Vol. 02 (2017); 75 - Filme: Superman - O Retorno (2006); 76 - Série: Punho de Ferro - Temporada 1 (2017); 77 - Animações: Superman / Shazam! - O Retorno de Black Adam (2010); 78 - Filme: Mestres do Universo (1987); 79 - Filme: V de Vingança (2006); 72 - Quadrinhos: Caso 1 - Conheça o Capitão América (Captain America Comics #1) (1941).

81 - Filme: Capitã Marvel (2019); 82 - Filme: Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012); 83 - Série: Inumanos (2017); 84 - Filme: Supergirl (1984); 85 - Filme: Hulk (2003); 86 - Série: Titãs - Temporada 1 (2018); 87 - Filme: O Fantasma (1996); 88 - Quadrinhos: Detective Comics #1000 (2019).

É isso aí amigos. Grande abraço!

sábado, 7 de setembro de 2019

Simplesmente... Shamballa


Oculta aos olhos humanos, situada entre as montanhas do Himalaia e o Deserto de Gobi, a cidade de Shamballa é considerada em algumas tradições orientais (taoísmo, hinduísmo e budismo) como a morada dos Deuses ou dos Mestres Ascensos. Shamballa seria uma cidade localizada não exatamente no reino físico, mas em um local no limiar entre o "aqui" e o "além", que poderia ser acessada apenas por uma árdua e difícil jornada através de montanhas e intempéries naturais. A "lenda" ou "mito" acima possui similitudes com a jornada do personagem Stephen Strange, o Doutor Estranho, que após sua árdua jornada conseguiu encontrar O Ancião e alcançou seu destino como Mago Supremo do Universo. Lançada originalmente nos EUA em 1982, e no Brasil apenas em 1989, Dr. Estranho - Shamballa talvez seja a HQ que melhor defina o universo no qual o personagem habita. Uma HQ que conseguiu como nenhuma outra captar e essência do personagem. Lisérgica em sua narrativa e em sua apresentação gráfica, Shamballa deve ser conhecida e recebida com o silêncio e respeito que merece.


Quando Stan Lee e Steve Ditko criaram o Dr. Estranho em 1963 estavam criando na verdade um poderoso elemento catalizador para um grande anseio da época. O ocidente, sobretudo os Estados unidos, estava descobrindo o oriente com sua forma peculiar de ver a vida. A abordagem intimista das religiões orientais fascinaram uma geração que buscava algo mais que a simples concretude que o capital lhes prometia. Discos como o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band de 1967 sintetizava em algumas faixas esse anseio pelo místico. O próprio movimento Flower Power dos hippies nos anos 60/70 bebia na fonte do prazer imaterial místico. A genialidade de Lee e Ditko esteve na capacidade dos dois lerem o "espírito do seu tempo" (Zeitgeist) e traduzirem esse anseio em um personagem. Embora surpreendente na época, o interesse de uma gama enorme de pessoas (sobretudo universitários) nas histórias do Dr. Estranho foi na verdade apenas um efeito natural e consequente, se pensarmos no que o Dr. Estranho oferecia: uma viagem lisérgica por mundos imateriais.


Como citei acima, algumas histórias tem a capacidade de destilar a essência de um personagem. Exemplos disso seriam Batman - Ano UM, A Queda de Murdock no caso do Demolidor, Deus Ama o Homem Mata no caso dos X-Men, entre outras. No caso do Dr. Estranho eu acho que poderíamos citar Shamballa. Com uma arte verdadeiramente catártica, onírica e até psicodélica, o artista Dan Green emoldura uma obra única. Shamballa narra o retorno do Dr. Estranho depois de muitos anos ao Himalaia para visitar o santuário do seu outrora Mestre, O Ancião. Um turbilhão de imagens e lembranças preenche a alma de Stephen Strange ao andar novamente pelos corredores vazios do templo em que antes estivera como aprendiz. Ali, naquele santuário de silêncio e lembranças Strange recebe um presente deixado pelo seu falecido mentor, uma caixa.


A partir deste presente a história se desenrolará afundando o personagem e o leitor em uma viagem por locais sagrados da Terra. Shamballa resgata o interessante conceito místico chamado de As Linhas de Ley. O termo foi cunhado em 1913 pelo arqueólogo Alfred Watkins em seu livro Early British Trackways, e retomado décadas mais tarde pelo escritor John Michell em seu livro The View Over Atlantis de 1969. Este conceito pressupõe que a Terra (assim como nosso corpo na Acupuntura) possui linhas de energia que a percorre e se cruzam em lugares específicos do Globo. Esses cruzamentos teriam originado o que conhecemos hoje como locais sagrados. Assim como em nosso corpo na Acupuntura, a energia fluindo por esses caminhos indicaria saúde. No caso do mundo indicaria a saúde mística e espiritual do planeta.  A história também resgata o anseio tão difundido nos anos 70 sobre a chegada de uma Nova Era para a Humanidade, o que foi chamado de A Era de Aquário.


A Shamballa do título aparece na história como o local da morada de mestres que outrora viveram em nosso mundo e repousam agora neste local como uma mente integrada. Um local de paz, mas ao mesmo tempo de reflexão destes mestres que de lá ainda participariam do destino do Mundo com suas decisões. O conceito da cidade de Shamballa foi muito bem explorado em outra obra, o livro Horizonte Perdido publicado em 1933 e escrito pelo autor britânico James Hilton. No livro de Hilton, Shamaballa recebe o nome de Shangri-lá e é uma cidade mística escondida nas montanhas do Tibet. Na história um avião com alguns passageiros cai nas montanhas e, seus sobreviventes acabam por atingir Shangri-lá. A obra foi adaptada de forma soberba e definitiva pelo cineasta Frank Capra em 1937, ganhando Oscar de melhor filme na época.


Doutor Estranho - Shamballa ganhou relançamento no Brasil pela Editora Panini em 2016 em capa dura e acabamento que honra a obra. Conhecer a história é se aprofundar em um Universo que, embora místico, mostra-se crível e plausível. O leitor é levado a perceber de forma muito sútil que há forças muito superiores que operam na esfera da vida e, sem querer parecer paradoxal, que o imaterial é talvez mais concreto do que pensamos. Como trilha sonora para a leitura de Dr. Estranho - Shamablla, recomendo a música Landing in Shambhala presente no disco UFO Planante do grupo Companhia de Ópera Invisível do Tibet (Invisible Opera Company of Tibet), uma iniciativa musical mundial que aqui no Brasil ficou ao cargo dos músicos da banda Violeta de Outono com seu líder Fábio Golfetti.


Simplesmente Shamballa...

sábado, 31 de agosto de 2019

Resenha: Flores para Algernon


A doença mental é ainda um continente inexplorado em se tratando do público leigo. Talvez até mesmo para a psiquiatria moderna. É difícil imaginar que apenas o déficit de alguns mililitros de hormônios ou substâncias seja o que separa uma mente "normal" de uma mente pouco ou nada capaz. Que apenas um determinado desequilíbrio eletroquímico condene alguém à uma vida dentro de uma caverna interior, longe de percepções, sensações e sentimentos que nos invadem continuamente. Em 1959 o autor Daniel Keyes (1927-2014) lançou o livro Flores para Algernon, recentemente publicado no Brasil pela Editora Aleph (novamente a Aleph!), um relato intimista, poético e real do universo que circunda o déficit mental. Vencedor do Prêmio Nebula Awards de 1967, o livro conta a história de Charlie Gordon, um homem que desde sempre viveu e sofreu a clausura do déficit cognitivo. Flores para Algernon é uma narrativa sólida e envolvente do que vai dentro de alguém que vive assim.


O Algernon do título é, ninguém menos que um ratinho, que também possui importante papel na narrativa. Mas qual o fio condutor do romance? Charlie Gordon, o protagonista, por uma série de razões acaba sendo submetido à uma inovadora técnica cirúrgica e psicoterapêutica por meio da qual tem seu intelecto, que sempre fora reduzido, impulsionado à níveis extremamente elevados. Keyes se concentra de forma envolvente na gradativa mudança de percepção de Charlie diante do que lhe acontece. Narrado em primeira pessoa a história se utiliza, como ferramenta narrativa, de relatórios que o próprio Charlie precisa fazer no âmbito da experiência à qual está sendo submetido. Apesar da opção perigosa do autor quanto a forma de narrar a história, ela funciona bem e logo você está totalmente integrado à leitura e ao mundo interior de Charlie.

Daniel Keyes

Embora ancorado em uma premissa ficcional (a cirurgia inovadora a que Charlie é submetido), o livro narra uma realidade extremamente presente e concreta: a vida do deficiente mental. Quando Charlie torna-se inteligente, o autor aproveita para trazer a tona lembranças esquecidas do protagonista, toda intimidação, ridicularizarão e discriminação (velada ou não) que sofreu. Tais lembranças e a noção do novo "eu" dentro de Charlie fazem com que mergulhemos no seu interior e experimentemos a esmagadora noção do mundo como ele é. Embora o protagonista se torne extremamente inteligente, fica muito claro que inteligência (razão) e emoção são elementos distintos da psiquê humana. Enquanto o primeiro tem a ver com crescimento e expansão neuronal, o segundo necessita de experiências prévias para ser construído, trabalhado e amadurecido. Nesse sentido, Charlie experimenta agora uma outra dor, a de se ver incapaz de lidar com o turbilhão de emoções que se fazem pela primeira conscientes, uma vez que não teve o amadurecimento emocional pelo qual deveria ter passado.


Adaptado para o cinema em 1968, Flores para Algernon foi chamado apenas de Charly nos cinemas americanos, e no Brasil recebeu o nome de Os Dois Mundos de Charly. O filme rendeu o Oscar de melhor ator para Cliff Robertson (sim ele mesmo, o Tio Ben do 1º filme do Homem-Aranha do Diretor Sam Raimi) no papel de Charly Gordon. Voltando ao livro, a obra impressiona pelo alto conteúdo psicológico muito bem conduzido por Daniel Keyes, que não caiu na armadilha de torna-la demasiadamente dramática ou emocional, e assim transforma-la no que comumente chamam, pejorativamente, de "dramalhão". Esta habilidade de Keyes está, possivelmente, ligada à sua formação acadêmica. O autor era Psicólogo pelo Brooklyn College. O livro poderia muito bem servir de objeto de estudo ou análises acadêmicas.

O Ator Cliff Robertson no papel de Charlie Gordon 

Uma interessante curiosidade a respeito de Daniel Keyes é que ele era colega e associado a Martin Goodman, simplesmente o criador da Editora Atlas, a Editora precursora da Marvel. Keyes foi editor da Revista Pulp Marvel Science Stories e chegou a ser editor da Marvel sob a tutela de ninguém menos que Stan Lee. Ele também chegou a escrever histórias de Horror e Ficção Científica para a editora nos anos 50, época em que o Boom da Era de Prata dos Super-heróis ainda não havia se iniciado.


A curadoria da Editora Aleph acerta mais uma vez ao trazer Flores para Algernon para o Brasil. Um livro a ser lido, discutido e apreciado em tempos como o nosso em que a tecnologia, o individualismo e a polarização de discursos ideológicos diminuem o tão importante exercício da alteridade.

Um grande abraço à todos!!

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Senhor Milagre de Tom King



Tom King, roteirista de quadrinhos, ex-agente da C.I.A. e um dos nomes mais falados ao lado de Jeff Lemire, surpreendeu o mercado inicialmente com seu trabalho na HQ autoral Xerife da Babilônia (que particularmente não li). Seu nome entrou para o radar de muitos aqui no Brasil, sobretudo a partir do lançamento de sua série envolvendo o Sintozóide Visão (Visão Vol. 01 - Pouco Pior que um Homem e Visão Vol. 02 - Eu também Serei Salvo pelo Amor), esta sim que li e achei muito, mas muito acima da média em qualidade. Por conta disso, seu trabalho envolvendo o personagem Senhor Milagre vinha sendo aguardado por toda uma legião de fãs. King tem uma abordagem muito voltada para questões filosóficas e existenciais, utilizando-se dos personagens como veículos de suas reflexões, sem deixar de lado (obviamente) o universo no qual o super-herói está inserido. Desta forma já sabíamos que seu trabalho envolvendo o Sr. Milagre teria esta perspectiva. Apesar de eu já saber desta característica marcante do trabalho do autor, fiquei surpreso em Sr. Milagre com a densidade dramática e com os aspectos profundamente depressivos envolvendo a narrativa. Vamos então conhecer um pouco (sem spoilers) deste último trabalho de Tom King aqui no Brasil.


Escrever um arco de histórias envolvendo personagens do 4º Mundo é um desafio para qualquer roteirista. O 4º Mundo foi uma Saga criada pelo Rei Jack Kirby durante sua passagem pela Editora DC nos anos 70. Kirby concebeu uma mitologia completa envolvendo dois Mundos irmãos: Nova Gênese e Apokolips, lar do Pai Celestial e Darkseid, respectivamente. Mundos irmãos, porém antagônicos. O Senhor Milagre ou Scott Free (seu nome verdadeiro), é filho do Pai Celestial (Regente de Nova Gênese), e foi objeto de uma troca ainda bebê para selar um tratado de paz entre os dois mundos. Enquanto Scott Free foi enviado para ser criado pelo cruel Darkseid, o Pai Celestial de Nova Gênese recebeu como seu próprio filho Órion, filho do déspota Darkseid. Um acordo absolutamente cruel e impensável, mas que foi feito. A Saga do 4º Mundo ou dos Novos Deuses (como também é chamada) é uma obra-prima e introduziu personagens extremamente interessantes e críveis. Uma verdadeira Space Opera quadrinística que finalmente chegará ao Brasil em breve pela Editora Panini dentro da série Lendas do Universo DC (fique atento). Fica claro, portanto a responsabilidade de Tom King ao assumir um arco como esse.


Para mim ficou muito claro que muitas reflexões feitas pelo personagem Sr. Milagre/Scott Free ao longo do arco, são reflexões do próprio autor Tom King. Há um profundo sentimento de depressão e melancolia que permeia a obra. King mistura o cotidiano do Senhor Milagre, casado com a Grande Barda, e vivendo em Los Angeles, com a insanidade da Guerra novamente declarada entre Nova Gênese e Apokolips, e que ele tem que assumir e até liderar. Um sentimento profundo fica patente nas falas do personagem principal, a ideia de que tudo a sua volta não faz o menor sentido em função de que a maior questão de sua vida sempre esteve em suspenso, ou seja: Quem ele é? Como seu pai teve coragem de troca-lo? Qual o sentido de tudo que nos rodeia frente ao absoluto e total caos no qual o mundo atualmente vive, com a superficialidade de suas redes sociais, notícias e pessoas FAKES? Na ausência de respostas para estas perguntas o que Scott Free faz é simplesmente deixar-se levar pela loucura das situações sem sentido.


Um acontecimento marcante envolvendo o herói já nas primeiras páginas do 1º volume já resume bem o que eu disse acima. O leitor mais atento perceberá que toda essa falta de rumo e de direcionamento é algo, muito provavelmente, experimentado pelo próprio autor. Isso porque seria muito difícil conduzir essa história mantendo esse tom contínuo de desconexão com a própria identidade sem um mínimo de experiência própria. Como informado no início da matéria, Tom King foi agente da C.I.A., e possivelmente teve acesso em menor ou maior grau a decisões que, possivelmente o fizeram desconectar-se de si mesmo, ou descrer do status quo. No arco envolvendo o Visão já ficava claro essa busca filosófica do autor. De qualquer forma, para além desta abordagem, Senhor Milagre de Tom King aprofunda-se muito bem na Mitologia criada por Jack Kirby. Aparecem o amigo Oberon, além de Órion, Vovó Bondade, Desaad, Kalibak, as Fúrias, Metron... ou seja, o leitor não ficará com a ideia de uma história escrita por um novato ou desinformado sobre os Novos Deuses. No entanto, aqui vai um questionamento que faço e que gostaria muito de ouvir a opinião de quem já leu: Como fica os eventos mostrados nesta série em relação à cronologia oficial? Digo isso porque as coisas que acontecem na história são simplesmente bombásticas! E se isso fizer parte da cronologia oficial, então simplesmente a "casa caiu" (!), pois como ficaríamos depois destes acontecimentos?


As respostas para essa minha pergunta estariam dentro de três possibilidades, são elas: 1) a história não faz parte da cronologia oficial, devendo ser considerada apenas um delírio criativo de King; 2) a história seria algo irreal, ou seja, construído pela mente angustiada e melancólica de Scott Free; 3) a terceira e última hipótese (e que eu acho mais plausível) prefiro não comentar aqui para não gerar spoiler. Vou deixar esta última hipótese para conversar com quem quiser nos comentários abaixo. Assim, se você ainda não leu a história, é só ler e depois voltar aqui nos comentários da matéria para debatermos. Há inúmeras referências e metáforas espalhadas pela história, e só isso já daria debates interessantes acerca do que cada um deles significa. Por exemplo, de tempos em tempos há distorções nos desenhos, como se fossem uma interferência. Isso pode ser visto na 2ª imagem desta matéria. Se você observar direitinho perceberá que há uma parte dela que está distorcida e em descompasso com o restante. Esse efeito é constante ao longo da história e em minha opinião significa algo que validaria minha 3ª hipótese (que explicarei nos comentários abaixo para quem quiser).


A arte ficou ao cargo de Mitch Gerads, desenhista estadunidense de 37 anos. O tipo de arte de Gerads à princípio não me agradaria, mas surpreendentemente o desenhista me fisgou ao introduzir um elemento emocional extremamente forte nos desenhos, trazendo alma e profundidade às imagens (vide acima). Algo muito importante em uma HQ na qual há silêncios e movimentos sutis dos personagens, coisas que o leitor deve prestar muita atenção para experimentar toda dimensão da história. Isso fez com que o trabalho de Gerads entrasse para meu radar de leitor a partir de agora. Não posso de deixar de mencionar a semelhança do traço de Gerads com o de outro desenhista imortal, Bill Sienkiewicz.


Bem amigos... Gostaria muito de saber a opinião de você sobre esta história, sobretudo em relação a interpretação dos fatos nela ocorridos e suas implicações cronológicas e mitológicas para os Novos Deuses. Tenho minhas hipóteses. Quais são as suas?

Forte abraço!
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