domingo, 16 de novembro de 2014

Interestelar


Em 1968, quando o Astronauta David Bowman sobrevoou o Monolito estacionado na órbita de Júpiter nos minutos finais do filme 2001 - Uma Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick, ele mandou uma última mensagem antes de desaparecer para sempre. A mensagem dizia: "Está Cheio!! Está Cheio de Estrelas!!". Desde então, todos que assistiram ao filme têm se indagado o que o Monolito representava, e mais, no que consistia aquele breve e surpreso relato de Bowman, que desapareceu na escuridão no Monolito. Após 46 anos, penso eu que a resposta para essa questão pode ser intuída com grande chance de acerto ao assistirmos a INTERESTELAR (2014) do diretor Christopher Nolan.


Tal qual os demais filmes do diretor, Interestelar leva o espectador a se perguntar quais os limites entre o mundo perceptível e o mundo da intuição, aquele que sabemos que existe, embora não possamos comprova-lo por meio de métodos científicos estabelecidos. Numa Terra devastada e exaurida pelo homem, nossa espécie tenta sobreviver cultivando o que é possível. Imensas tempestades de areia tomam conta do mundo, fruto de um processo avançado de desertificação. As imagens iniciais do filme são belas em sua angústia e desolação, lembrando a melancolia e desesperança de "As Vinhas da Ira" (1940) de John Ford. No filme de Nolan, Matthew McConaughey interpreta Cooper, um fazendeiro e ex-piloto que descobre, a partir de uma anomalia gravitacional no quarto da filha, a localização de uma base do governo onde entra em contato com o incrível plano de se encontrar outro mundo habitável. Essa busca por uma nova casa seria a partir um um "Buraco de Minhoca" que apareceu próximo a Saturno.


"Buracos de Minhoca" são anomalias teoricamente possíveis no Universo. Seriam túneis nos quais o tecido do Universo dobra-se sobre si mesmo, permitindo que alguém que passe por ele viaje distâncias incomensuráveis rapidamente (veja figura abaixo). Tal anomalia é possível, porém para gera-lo e mantê-lo aberto são necessárias quantidade incríveis de energia. Daí a ideia de que alguma civilização avançada teria plantado esse Buraco de Minhoca próximo à Saturno para podermos escapar de nossa Terra moribunda.

Buraco de Minhoca

Tal qual foi visto na obra prima de Kubrick, a sensação de solidão, vazio, e imensidão no espaço profundo pode ser percebida no filme. A confrontação do homem com sua solidão de espécie, bem como a fragilidade da existência são temas presentes em Interestelar e, novamente, chocam o espectador mais sensível que consegue perceber o assombro do Cosmo. Embora, Christopher Nolan foque o externo ao mostrar, através de imagens lindas, o espaço, ele se volta também para o interior, para o drama humano expresso no extinto de sobrevivência e no amor entre as pessoas. No filme esse amor é representado pela relação mais primal que existe, o amor entre pais e filhos, no caso entre Cooper e sua pequena e esperta filha Murphy.


Os Planetas visitados pela tripulação comandada por Cooper mostram como podem ser bonitos, inóspitos e, portanto diferentes de nossa casa aqui na Terra. Paisagens alienígenas são mostradas e causam estranheza ao percebermos o quão lindos e letais esses mundos podem ser. A astrofísica é respeitada em boa parte do filme. A Teoria da Relatividade de Albert Einstein aparece várias vezes. Dentre algumas de suas postulações a Teoria de Einstein mostra que quanto mais perto estamos de objetos extremamente gigantescos, mais há deformações no espaço-tempo, fazendo com que o tempo passe mais devagar para a pessoa que estiver próximo à esse corpo celeste gigantesco. Isso é experimentado por Cooper quando o Astronauta desce por cerca de 45 minutos em um planeta próximo à um gigantesco "Buraco-Negro". Cooper percebe que os 45 minutos na superfície do Planeta custaram 23 anos na Terra onde sua filha está.

O Buraco Negro sendo orbitado por um pequeno planeta. Nossa possível nova casa.

Buracos-Negros são gerados a partir de imensas estrelas que após viverem muito tempo morrem. Toda massa da estrela desaba então sobre si mesmo e a força de atração é tão gigantesca que passa a sugar tudo ao seu redor, até mesmo a luz. Nada sai de um Buraco-Negro, apenas entra. Por isso, é impossível saber para onde vai tanta matéria após ser sugada pelo imenso redemoinho cósmico. Teoricamente é impossível para um ser humano sobreviver caso ele fosse sugado para dentro destes gigantes vorazes. Possivelmente seríamos esmagados pela força gravitacional. Nesse ponto é que possivelmente o filme de Nolan faz uma licença poética, pois Cooper entra sim dentro deste Monstro Cósmico!

Figura Ilustrativa de um Buraco Negro.

Atualmente a física se depara cada vez mais com a ideia de que o Universo é mais complexo do que imaginávamos. Especula-se na verdade que nem exista apenas um Universo, mas vários, uma teoria cada vez mais plausível. A gravidade, embora seja, uma força com a qual convivamos em nosso dia a dia é também uma força mais complexa do que pensávamos. Se antigamente pensávamos que ela poderia ser facilmente definida como uma força de atração entre dois corpos, hoje sabemos que na verdade a gravidade deve ser considerada como sendo a deformidade que o corpo celeste causa no tecido do espaço. Tal qual uma pesada bola de metal faria se colocada em cima de um colchão bem fofo.


Buracos Negros podem ser considerados quando a massa do objeto celeste é tamanha que consegue romper esse tecido. Tal qual visto na figura acima. Assim como Kubrick, Christopher Nolan fez um filme não apenas com o frio da ciência e do academicismo, mas conseguiu juntar a ciência com a singularidade do homem. Segredos profundos como esses, presentes à nossa volta encantam e nos aterrorizam ao mesmo tempo. Em minha opinião o famoso Monolito de 2001 - Uma Odisseia no Espaço é nada mais nada menos do que um Buraco de Minhoca. Um milenar e pré-histórico Buraco de Minhoca deixado lá para que um dia o achássemos. E assim como em 2001, Interestelar sugere algo mais do que nossa simples existência aqui na Terra.



Interestelar deve ser assistido e re-assistido sob a perceptiva da ciência e da filosofia, pois nos coloca novamente contra aquilo do qual sempre fugimos. Ou seja, a razão e o papel de nossa existência no Universo. Perguntas que nos aterrorizam e nos encantam, tanto quanto o Buraco-Negro Supermacivo chamado "Gargantua" no filme de Nolan.


Um grande abraço amigos!!

9 comentários:

  1. Boa crítica, Marcelo!

    Eu também assisti este filme, e gostei demais! Cada vez mais o Nolan se mostra como um diretor diferenciado. Já não bastasse a excelente trilogia do Batman, ainda temos Inception, Interestelar e outros bons filmes dele...

    Abraço!

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    1. Olá Gabriel...

      Desculpe a demora em responde amigo. Estava fora e sem internet nos últimos dias!

      Concordo com você sobre o Nolan. A visão dele sobre o mundo está à altura da complexidade da vida e das coisas que nos rodeiam. Seus filme são muito instigantes.

      O irmão dele parece ser igual pois ele (Christopher) e o irmão (Jonathan) assinam o roteiro de Interestelar!

      Gde. Abc. amigo!

      Marcelo.

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  2. Oi, Marcelo!

    Que maravilha poder desbravar o Universo na companhia do Dr. Cooper e Dra Brand. Passar por tantos apuros e situações de dificuldade extrema, contemplar as belezas do Universo (como na cena da nave passando por Saturno) e sempre carregando a esperança de encontrar outro planeta para chamar de lar.

    Bacana terem aplicado, e respeitado, tantas leis da física. Mesmo que não tivessem respeitado, o resultado foi tão magnífico que taria valendo.

    Essa questão do tempo é tão maluca que eu permaneci por 30min na sala do cinema e quando saí já havia passado 3 horas. Que doideira! Rsrs

    Enfim, muita coisa para refletirmos, ótimas interpretações, imagens impressionantes, tudo muito emocionante e situações, as vezes, difíceis de entender.

    Parabéns pelo texto, Marcelão! Ótimas observações.
    Abração!

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    1. Olá Moisa...

      É sempre bom ver seu comentário por aqui!! Valeu mesmo!!

      Você descreve bem a atmosfera do filme. Uma aventura que transcende o tempo e o espaço e aponta para verdades escondidas ainda dos homens. Tudo que podemos fazer por enquanto é apenas elocubrar. O que Christopher Nolan faz muito bem.

      Também acho muito bom terem se preocupado com a validade física na história. As licenças poéticas como por exemplo o voo para dentro do Buraco Negro faz parte de se brincar com o desconhecido. O homem é arrogante quando acho que, frente aos seus pequenos conhecimentos do Universo, consegue dizer o que é possível e o que não é.

      ah ah ah ah... 30 min. que viraram 03 horas! Boa!!

      Valeu mesmo Moisa!!

      Grande abraço!!

      Marcelo.

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  3. Oi, Marcelo.

    "todos que assistiram ao filme têm se indagado o que o Monolito representava"

    Sem ler o romance, tudo fica realmente mais enigmático.

    Quero ver Interestelar, ainda mais após ter me tornado mais "fã" de Matthew McConaughey depois de assistir ao Clube de Compras Dallas. Para mim, foi, por bastante tempo, um autor subestimado.

    Gostei de seus comentários sobre buracos negros. Recordei de minha leitura de O Universo Numa Casca de Noz e A Dança do Universo.

    Abraços!!!

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    1. Olá Kleiton...

      Pois é... Minha percepção a respeito do que o Monolito em 2001 Uma Odisseia no Espaço foi se desenvolvendo ao longo dos anos. Demorei muito tempo para interpreta-lo de uma forma que acho que é a correta.

      Matthew McConaughey está muito bom também. O time de atores é muito bom. Especificamente Matthew M. talvez no passado nem fosse um excelente ator mesmo, porém ele tem sido refinado aos poucos. Aquele velho clichê, o tempo vai depurando as coisas.

      Bem lembrado "O Universo Numa Casca de Noz". Eu tenho esse livro e já algumas partes, mas nunca inteiro.

      Valeu!!

      Marcelo.

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  4. Olá Marcelo! Tive de comentar, mesmo que atrasado, a respeito deste, que na minha opinião é o melhor filme de ficção científica dos últimos dez anos, no mínimo. Tive o prazer de assisti-lo no último fim de semana. Senti também algumas inspirações em 2001, mesmo sem ter feito o paralelo com o monolito, como você bem lembrou. Agora para mim a inspiração está mais do que comprovada. O filme nos faz pensar mas também emociona, porque nos fala sobre esperança e, acima de tudo, sobre assumir responsabilidades para um bem maior. Acho que esse é o grande diferencial que nos prende à cadeira pelas quase três horas de duração. Ficamos na torcida e queremos que tudo corra bem, mesmo sabendo que tudo está indo por água abaixo. Um grande filme altamente recomendável! Um abraço!

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    1. Obrigado pelo comentário Marcelo...

      O filme é tudo isso que você comenta. Além disso, percebo que fica também uma ideia de como somos pequenos diante de certos mistérios. Pegando apenas um aspecto por exemplo: quando o astronauta passa 45 minutos sobre a superfície do Planeta ao lado do Buraco Negro e o filho envelhece 23 anos na Terra. Isso para mim sinaliza a ideia de que aspectos do universo que extrapola nossa existência, ou seja, nossos anos de vida não dão conta de absorver tamanho assombro. Por isso, penso que (sobretudo nas falas do filme a respeito do amor como sendo algo que transcende tudo) fica a ideia de haver algo maior do qual participamos, que nossa finitude é apenas aparente.

      Achei sim que é um filme que será lembrado e (felizmente por um lado, infelizmente por outro) terá que esperar o teste da passagem do tempo para se mostrar à altura de 2001. Porém, na minha opinião acho que ele passará no teste.

      Grande abraço amigo!

      Marcelo.

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  5. Olá Marcelo, tudo bem?
    Acabei não assistindo ao filme no cinema, e acabei de assistir ao filme em Blu-ray. Tinha uma grande expectativa por ser um filme do Nolan e não fiquei decepcionado. Impossível não se lembrar de 2001 durante o filme, que aliás realmente tem o efeito de compressão do tempo. Até ler os comentários acima, não imaginava que passei quase três horas na frente da TV.
    A ideia do robô quadrado foi bem original, só em um filme mesmo. Interessante como o filme isolou os Estados Unidos; tirando o drone, é como se só os Estados Unidos tivessem sobrevivido a um holocausto nuclear. Teve várias forçadas de barra no filme, tipo quando ele "transmite" os dados em Morse para um relógio que ele deu à filha antes da partida dele, e o resgate dele no espaço. E tem um furo enorme e que eu acho que foi intencional dos roteiristas: ele ter dado as coordenadas da base da NASA para ele mesmo. O curioso é que só fui perceber esse paradoxo dias depois de ter assistido ao filme.
    Curiosamente estava fuçando o Netflix e comecei a assistir ao "Dr. Fantástico" do Kubrick. Já assistiu? É de 64, anterior a 2001 e achei bem interessante apesar de ter assistido a apenas meia hora. Pretendo terminar de assistir futuramente. Considerando o contexto histórico de guerra fria, acho que foi um filme bem corajoso de humor negro pois retrata uma iminente guerra nuclear com a União Soviética.
    Um grande abraço, e continue com as ótimas matérias. Você não curte filmes de terror?

    Abs., Carlos - São Paulo.

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