sábado, 22 de junho de 2013

O Rosto da Mudança


As recentes manifestações que vem abalando e deixando perplexos os dirigentes de nossa nação chegaram de súbito e mostraram novamente que o poder emana do povo. Uma máscara tem sido vista constantemente no meio das manifestações como se fosse um código a ser interpretado pelas pessoas. Você sabe de onde vem esse símbolo? Bem... O que muitos talvez não saibam, e talvez até se espantem, é que essa máscara vem diretamente do universo das histórias em quadrinhos (HQs). Seguindo a linha editorial aqui do Blog (que se baseia em muito no universo dos quadrinhos) e em respeito à voz do povo e à singularidade das manifestações, essa matéria visa esclarecer um pouco de quem é esse rosto.


O rosto que vemos nas máscaras vem diretamente de uma história em quadrinhos do aclamado roteirista inglês Alan Moore chamada de "V for Vendetta" (V de Vingança em português). A história, escrita nos anos 80 e publicada pela primeira vez no Brasil em 1989, traz um anti-herói do povo, identificado apenas como "V", extremamente hábil com facas e em luta corporal que nunca mostra seu rosto. Na história de Moore uma Guerra Nuclear varreu a África e a Europa, levando ao subsequente colapso da sociedade abrindo espaço para que um governo autoritário e fascista subisse ao poder na Inglaterra. Na história todas as pessoas potencialmente subversivas (negros, asiáticos, judeus e gays) foram colocados em um mesmo local, evitando assim levantes e protestos. É nesse cenário que surge "V", um solitário manifestante/terrorista que inicia uma campanha de destruição de diversos símbolos do governo fascista, incitando assim o povo à despertar contra o sistema vigente. A máscara que "V" usa o tempo todo, e que vemos atualmente nas manifestações, é o rosto de um personagem real chamado Guy Fawkes.


Guy Fawkes foi um cidadão inglês que nasceu em 1570 e que participou da Revolução Católica chamada de "Conspiração da Pólvora" por volta de 1605 durante o governo do Rei protestante James I. O levante objetivava lutar contra a repressão de James I aos direitos políticos dos católicos, que por sua vez queriam restaurar o poder da igreja católico no governo. Fawkes era especialista em explosivos, por isso em uma tentativa do movimento de explodir o parlamento inglês durante uma sessão com todos os parlamentares e o Rei presente, Fawkes foi quem ficou cuidando dos barris de pólvora no subsolo do parlamento. Com medo de que a explosão ferisse inocentes os líderes da conspiração enviaram avisos para que as pessoas se mantivessem longe do parlamento naquele dia. Um dos avisos porém, chegou até o Rei, que ordenou uma revista ao prédio do parlamento, encontrando assim Guy Fawkes no subsolo guardando a pólvora.

Guy Fawkes

Após sua prisão Fawkes foi torturado e resistiu bravamente à tortura até não conseguir mais, entregando assim, ao final de uma semana todos seus companheiros. A coragem de Fawkes foi reconhecida inclusive pelo próprio Rei James I. Todos foram condenados à decapitação, Fawkes no entanto, conseguiu se desvencilhar dos guardas enquanto estava sendo levado para o cadafalso se atirando de um  muro e quebrando desta forma o pescoço, escapando assim da decapitação.

Prisão de Guy Fawkes

Alan Moore se baseia nessa história e cria "V", o terrorista libertário de "V for Vendetta". A máscara, que trás o rosto de Guy Fawkes representaria o ideal do povo contra os desmandos e corrupção de um governo.


O símbolo da máscara de Guy Fawkes vem aparecendo cada vez mais nos movimentos sociais ao redor do mundo trazendo não apenas o ideal de oposição ao governo, mas a possibilidade de manter escondida a identidade de seus usuários, forçando seus governantes à identificarem o rosto do povo, e não o rosto de uma pessoa. Os protestos no Brasil surpreenderam a todos, mas sabemos que já eram uma crônica anunciada frente aos desmandos e corrupção vistos nas últimas décadas. Percebo três tipos de manifestantes nas recentes manifestações: o 1º o manifestante pacífico, o 2º o vândalo e o 3º (e que ninguém ainda percebeu) é aquele que expressa a revolta da nação quando se depara com qualquer símbolo ligado ao governo (em Brasília ou em qualquer cidade). Ao se deparar com o símbolo o indivíduo se vê roubado e vilipendiado ao longo dos anos, o que acende sua ira. Para que as manifestações continuem ocorrendo com o apoio da massa é preciso que esse sentimento de indignação seja controlado e canalizado para os meios adequados. 

Guy Fawkes guardando os barris de pólvora

Não posso deixar de comentar a decepção que tive ao saber que nossos governantes preferiram se consultar com "marqueteiros" ao invés de buscarem respostas ao clamor do povo junto à sociólogos e antropólogos extremamente competentes das nossas universidades. A mensagem precisa ser decodificada e trabalhada. Outro ponto que me irrita muito é o fato de muitos falarem que o voto é nossa principal arma. Acredito sim que o voto direto é uma das maiores conquistas de nossa sociedade, porém ele é mais uma "ferramenta" e não um "fim". Isso porque o voto de nada adianta se só podemos votar um uma lista de candidatos previamente aprovada pelos corruptos de plantão. Ou seja, podemos escolher apenas entre aqueles que "eles" já escolheram. Solução? Bem... A solução é preservarmos a todo custo o voto direto, ao mesmo tempo que lutamos por uma "REFORMA POLÍTICA" na qual os corruptos percam espaço e regras sejam determinadas, impedindo conchavos e vendas de apoio mútuo, minimizando assim a possibilidade de escolhas de candidatos baseados em interesses particulares. Despeço-me com o orgulho de ver nossa nação se politizando e crescendo junto às demandas de nosso tempo.



10 comentários:

  1. OI, Marcelo! Tudo bem? Muito importante esse teu texto, chama a gente a refletir.

    Acho que o povo sabe de tudo isso o que você falou sobre o voto e vemos duas vertentes daí: uma, que explicita exatamente o que você explica sobre a lista de políticos que já são corruptos e que somos obrigados a eleger por falta de opção; e outra, que explicita o mal uso mesmo do voto no que se refere a candidatos mais simples que acabaram se candidatando apenas por se candidatar e o povão acabou elegendo-os por puro protesto. Só que agora o mesmo povão percebeu que esses caras nada fazem de útil lá. Espero que esse tipo de candidato não seja eleito de novo, assim eu penso. Lugar de palhaço é no circo, já que nada tem feito pelo povo.

    Sobre a manifestação, o terceiro tipo de manifestante... aqui acredito que as pessoas deram-se conta, sim, pois elas repudiaram quem aparecia lá com faixas e placas de partidos e sentiam-se mais motivadas a protestar. O que acontece, porém, é que as pessoas que por algum motivo só acompanham pela mídia acabam não tendo essa clareza, pois a mídia não fala a respeito desse terceiro tipo de manifestante com a verdade que deveria ter. É uma pena. Vejo que todos os canais pecam nessa cobertura ao movimento, cada um à sua forma.

    E sobre a máscara, lembro de ter visto o filme uma vez e só depois soube que era baseado em uma HQ. Como é chato a gente perceber que as HQs não possuem uma divulgação tão abrangente quando as mesmas acabam resultando filmes. Quando são livros, tem até informativo no pôster do filme. Mas quando é uma HQ, simplesmente ocultam ou deixam o marketing tão discreto que mal dá para perceber.

    Particularmente, não curto ir a esse tipo de movimento com máscara já que vivemos em uma sociedade baderneira que se utiliza desses artifícios para causar pânico e destruição. Acho que a máscara poderia ser melhor aproveitada se fosse desenhada em cartazes ou roupas do que colocada no rosto.

    Abração, Marcelo! Parabéns pela postagem que mais uma vez tem seu traço ímpar de razão e sensibilidade profunda que faz a gente pensar a respeito.

    Fabiano Caldeira.



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    1. Oi Fabiano...

      Valeu aí pelo interessante comentário.

      Realmente você toca em um ponto importante. O voto de protesto já foi uma estratégia no passado, porém hoje as pessoas estão começando a perceber que ele apenas piora as coisas ao colocar pessoas totalmente despreparadas e ridículas.

      A mídia convencional realmente não apenas está desconectada com a voz do povo (tal qual os governantes) como também se vê em cheque por não ser mais o grande veículo formador de opinião. Eles ainda continuam dando notícias sob um ótica arcaica e anacrônica. A mídia convencional (televisiva e impressa) ainda tenta desconsiderar o poder das redes sociais, tal qual a indústria fonográfica (por ganância) vem tentando ignorar o modelo de música compartilhada na rede. Isso tem feito com que a mídia esteja tão perplexa quanto os governos.

      De certa forma não deixo de ficar orgulhoso do fato das HQs terem contribuído com tão importante personagem hoje. Uma mídia muitas vezes marginalizada e vítima de ataques hipócritas é hoje uma mídia que consegue se comunicar muito bem com os jovens e assim fornecer símbolos importantes.

      Quanto ao que vc fala da máscara eu concordo. Preferiria que esse movimento utilizasse a máscara de uma forma diferente, não para esconder os rostos. Isso assusta à muitos pelo fato de pessoas mal intencionadas poderem se esconder também.

      Agradeço novamente seu comentário e reflexões meu amigo!

      Abc.

      Marcelo.

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  2. Ótima matéria, Marcelo...

    "V de Vingança" é uma daquelas obras q já nasceram eternas!!!

    e aqui vai um recado de hj de um dos representantes do movimento apontando as mentiras da presidenta no discurso de ontem (vale a pena assistir, pois o cara encarnou o próprio personagem do "V" pra mandar o recado, rs):

    http://www.youtube.com/watch?v=gAuq7FTFSr8

    Abs!

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    1. Oi Leo... Blz?

      Valeu amigo. Com certeza. Hoje mesmo estava compartilhando com o amigo Moisa que "V for Vendetta" foi uma das obras seminais que fizeram com que entrássemos na Era Moderna dos Quadrinhos.

      Vi o vídeo que você recomenda. Realmente contundente! Vamos acompanhar!!

      Valeu Leo!!

      Marcelo.

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  3. Muito bom seu post!
    Escreves com muita competência,
    de forma sábia nos contagiando com o fato.
    Amei te ler!
    Abraços! Boa noite,um amanhecer abençoado
    e feliz pra ti.

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    1. Oi mãe!! Fico muito contente quando comenta aqui! Obrigado mesmo pelo apoio.

      Deixo um grande abraço para você e para meu pai! Uma boa noite para vocês aí!!

      Abcs!

      Marcelo.

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  4. Nem sei o que dizer sobre V. Que gibi fenomenal. Já o filme, lamentável.

    Uma curiosidade, mesmo, foi quando milhares de manifestantes incluíram, nos EUA, a Time Warner entre as grande corporações que precisavam de censura pública. Mas compraram as máscaras de V para protestar. Enfim, encheram mais o bolso da Cia atacada. Paradoxos do capitalismo!!!

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    1. Realmente Kleiton...

      Conversando com um camarada esse fim de semana dizia a ele que "V de Vingança" ao lado de "Batman - O Cavaleiro da Trevas", "Sandman", "Watchmen", "Monstro do Pântano", "Batman - Ano Um", "Orquídea Negra", "Asilo Arkham" entre outras, ajudou a redefinir as HQs e marcou o fim de uma Era (de Bronze) e o início de outra (Moderna) na 9ª Arte.

      Interessante também é observar a força de determinados símbolos e como catalisam um sentimento ou ideal. Só não concordo com a forma mais violenta que às vezes esse grupo "Anonymous" às vezes se apresenta. Gostei da maioria dos vídeos que eles fizeram e colocaram no Youtube, um outro porém foi feito com cenas de violência e intimidação.

      Quanto ao lance da Warner eu nem tinha ficado sabendo. Realmente um imenso paradoxo!! rs rs

      Abc.

      Marcelo.

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  5. Marcelo,

    quando puder, dê uma conferida em Do Inferno. Não sei como anda a disponibilidade para compra, pois tenho meus volumes há alguns anos. Mas considero a obra prima de Alan Moore. Melhor HQ de heróis? Watchmen. Melhor HQ (em geral)? Do Inferno. Essa é minha classificação pessoalíssima. Vale a pena conferir. Mas esqueça do filme com Johnny Depp. Aquilo foi uma "adaptação" ridícula. Sobre a era da "maturidade" das HQs, ainda fico as obras de Eisner e, em se tratando de heróis, com o Miracleman de Alan Moore.

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    1. Valeu pela dica Kleiton...

      Realmente "Do Inferno" eu conheço só o filme mesmo, vou checar! Esse ranking que vc coloca eu creio que está de bom tamanho sim. Preciso pensar para tentar fazer o meu. Geralmente escolher a melhor HQ envolve o universo que é conhecido pelo leitor. Como que não li "Do Inferno" ele ficaria de fora do meu por exemplo. Acho muito saudável a gente trocar essas listas de preferências pois nos instiga a procurar boas HQs.

      Will Eisner é para mim um dos grandes, ao lado de Jack Kirby. Seu traço inovador e os elementos narrativos que ele incorporou nas HQs são atemporais.

      Já li muito sobre a fase Alan Moore de Miracleman e sempre tive vontade de ler. Porém não sei se há esse material disponível no Brasil. Vou procurar também.

      Valeu!

      Marcelo.

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