terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Leitura em 2015


Ao encerrarmos mais um ano relembramos ganhos e perdas, refazemos mentalmente caminhos que tomamos, escolhas que fizemos e, na maioria das vezes (ainda que inconscientemente) fazemos um balanço de tudo. Aqui vou fazer isso em relação aos livros que li.


O ano se iniciou com a ácida viagem ciberpunk de William Gibson. Comentei sobre esto livro aqui no Blog em uma matéria. Com uma linguagem toda própria e uma narrativa psicodélica, Gibson influenciou toda uma geração nos anos 80. Muitos o consideram o herdeiro de Philip K. Dick. Neuromancer realmente não é para iniciantes (odeio dizer isso), mas é que sua escrita exige certa persistência e audácia por parte do leitor. Mas sem dúvida nenhuma assemelha-se à uma lisérgica viagem!



Asimov nunca me decepcionou. Em Eu, Robô (nada a ver com o filme estrelado pelo Will Smith) Isaac Asimov descreve com delicadeza a relação entre homem e máquina em contos que crescem em complexidade. Um excelente livro!! Clássico!!



Em Encontro com Rama, Arthur C. Clarke nos entrega uma história que mais esconde do que apresenta, e é justamente ao fazer isso com maestria que ele cria uma grande obra de ficção científica. Um objeto cilíndrico e rotativo, de proporções enormes se aproxima da Terra. Quais seus objetivos? O que traz consigo? Novamente aqui vemos questões existenciais (tão comuns aos trabalhos de Clarke) permearem a narrativa. Um grande clássico!!



Aqui está, sem dúvida nenhuma, uma das grandes obras de ficção científica de todos os tempos. O leitor verá que digo a verdade. Embora Ursula K. LeGuin não siga as tradicionais receitas das grandes e poderosas sagas de ficção científica, mesmo assim o livro é uma obra-prima por retratar o universo interior do ser humano com uma profundidade incrível. Em um futuro distante um planeta frio, isolado e com uma sociedade constituída por hermafroditas é contactado para se filiar à um grande conclave de Planetas Unidos. A narrativa envolve o contato de Genli Ai, o emissário da confederação junto aos habitantes do estranho planeta. Incrível alegoria sobre nossa sociedade, seus medos, ódios, amores e limitações. Ursula acabou por escrever uma epopéia digna de O Senhor dos Anéis. o/



Se eu achava que Asimov não podia se superar, fiquei estasiado ao perceber que ele pode! Em O Fim da Eternidade ele subverte os conceitos acerca do tempo e do espaço e constrói uma história que é, além de científica, reflexiva, cheia de reviravoltas e apaixonante!! Um livro que (sem trocadilhos) até a última página o leitor não consegue adivinhar o que acontecerá no final, e mais, apesar das poucas páginas do último capítulo a trama não fica vazia e sem sentido. Pelo contrário, é cheia de significados, sobretudo para aquele que leu A Saga da Fundação de Asimov e percebe que, em O Fim da Eternidade, ele consegue a unificação de seus Universos.



O ano de 2015 já ia alto quando comecei a ler O Homem do Castelo Alto (aqui sim um trocadilho, rs rs rs), algo em torno de junho. A premissa do livro envolve um dos temas mais caros à Philip K. Dick, realidades paralelas e o significado da existência humana. A premissa é: "E se a Alemanha Nazista tivesse ganho a 2ª Guerra Mundial?". Subvertendo o espírito do nosso tempo, Dick constrói uma trama que interliga a vida de várias pessoas que sonham com um Mundo em que o Nacional Socialismo não colocou suas garras. O Homem do Castelo Alto está sendo produzido em forma de Série pela Amazon e poderá em breve estar disponível para assistirmos.



Após a hermética leitura de O Homem do Castelo Alto resolvi aliviar com uma ficção científica. Sombra do Paraíso é um recente livro que espelha bem a forma atual de se escrever. O escritor se sente o tempo todo na obrigação de manter o leitor preso à trama e com isso escreve de forma frenética e cheia de intenções cinematográficas. Não é que Sombra do Paraíso seja um livro ruim, na verdade eu diria que é mediano, sobretudo se formos comparar com os livros dos "Monstros Sagrados" da ficção que citei acima. A verdade é que parece que estamos lendo um roteiro para o cinema, e nesse processo o autor sacrifica algo muito importante, aquele olhar para dentro, para o íntimo do personagem. Sacrifica a reflexão que emoldura a trama.



Há muito tempo que eu queria votar a ler Stephen King. Qualquer um que tenha lido algo dele, invariavelmente um dia voltará para sua obra. Andando pela Livraria Cultura me deparei com esse livro recente do Mestre do Terror que me chamou atenção sobretudo pela capa vintage. Joyland é uma obra interessante e reflexiva de King. Gostei do livro e admito que não se equipara às suas grandes obras, mas o grande destaque do livro é que se percebe claramente que King não o escreveu mesmo para sê-lo. Há todos os elementos do terror e da fantasia, mas o escritor quis ter olhar para interior ao construir uma obra pequena e sem compromisso de ser grande. Vale a pena.



Embora soubesse da importância de Ray Bradbury para a ficção científica eu nunca havia lido nada dele. Fahrenheit 451 sempre me chamou atenção por ter sido um livro de ficção escolhido por François Truffaut para ser adaptado para o cinema. Sempre quis saber o que havia chamado atenção deste gênio do cinema. O livro é uma ficção distópica em que o Mundo caiu na superficialidade, no entretenimento barato e na banalidade. A semelhança com nossa época atual é brutal, e por isso Bradbury foi profético nesse livro de 1953 (!!). Em um mundo pueril os livros são proibidos e a casta mais proeminente da sociedade são os bombeiros que tem a função de queimar qualquer reduto de literatura que exista. Um romance com uma reflexão profunda e fascinante sobre a sociedade humana, suas aspirações e inclinações. Recomendadíssimo!



Meu desejo de conhecer Henry David Thoreau nasceu quando assisti ao filme Na Natureza Selvagem. Eu conhecia apenas o mito ao redor deste lendário homem de vida simples e ideias naturalistas. Em setembro deste ano resolvi que deveria conhecê-lo de verdade. Walden é um livro que narra os 02 anos nos quais o autor morou em isolamento às margens do Lago Walden (Massachusetts - EUA) no ano de 1845. Decidido a abdicar da vida e dos hábitos ditos "civilizados", Thoreau empreende uma jornada interior e exterior na direção das coisas que realmente importam nessa vida. Tido como uma utopia romântica do Século 19, Walden é muito, mas muito mais que isso. É a declaração de liberdade do homem que deseja se reconectar com a natureza e redescobrir a riqueza da simplicidade. Adotado nos anos 70 pelo experimento Sociedade Alternativa, o livro para mim não impõe tal jornada ao coletivo, na verdade é um convite à experimentação pessoal da vida simples, do respeito pelo sagrado que existe dentro e fora de nós. Não é à toa que o autor foi e ainda é um dos personagens mais influentes para aqueles que percebem o inevitável rumo que a humanidade tomou.

Assim, encerro esta matéria com uma frase que Thoreau escreveu em seu belo Walden:

"Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido. (...) Queria viver profundamente e sugar a vida até a medula, viver com tanto vigor e de forma tão espartana que eliminasse tudo o que não fosse vida (...)"

Assim termina minha epopéia literária de 2015. Qual foia a sua?

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