domingo, 12 de junho de 2016

O Homem-Animal de Grant Morrison


No início da década de 90 chegou ao Brasil uma série muito comentada que começava a ser publicada na hoje extinta Revista DC 2000 (Ed. Abril). O autor era um jovem roteirista Britânico chamado Grant Morrison. Para surpresa de muitos, esse nome logo estaria ligado a histórias no mínimo interessantes. Na esteira de sucessos de outros Britânicos, tais como Alan Moore e Neil Gaiman, Grant Morrison era ainda uma grande promessa de sucesso. Na época eu decidi que não leria seu Homem-Animal pela DC 2000 em função da irregularidade com que eram publicadas. Nunca gostei de ficar meses e meses esperando para ler mais uma pequena parte de uma determinada história. Após 25 anos, vi com surpresa e alegria imensa a chegada desta Saga Completa pela PANINI em 2015. Depois de tanto tempo eu iria finalmente ler a tão comentada história do Homem-Animal de Grant Morrison!!


A história por trás desta saga começa nos anos 80 quando a DC resolveu revitalizar vários de seus personagens usando promissores talentos em ascensão na época. Foi assim com o Monstro do Pântano de Alan Moore, Sandman de Neil Gaiman, Superman de John Byrne, Mulher-Maravilha de George Perez e Batman de Frank Miller. Ao contrário do ambiente dark predominante na época, Grant Morrison iniciou sua passagem pelo título do Homem-Animal de forma tímida e regular. As primeiras histórias compiladas no 1º encadernado da PANINI, intitulado O Evangelho do Coiote, trazem um Grant Morrison ainda tentando se achar dentro do personagem, quase que esperando que o próprio Homem-Animal o conduzisse a algo. O grande lampejo do que estava por vir veio com a história título O Evangelho do Coiote. Morrison dá ali, algumas pistas que seguiria pelo caminho da Metalinguagem nas histórias de Buddy Baker, o alter-ego do Homem-Animal. Ganhadora do prestigiado prêmio Eisner dos Quadrinhos, O Evangelho do Coiote faz uma triste referência à intolerância, à incompreensão daquilo que nos é estranho e à solidão da injustiça.


No 2º ato de sua passagem pelo título do herói (encadernado pela PANINI sob o título Origem das Espécies), Grant Morrison já se mostrava adaptado ao personagem e à mitologia de Buddy Baker, Aqui, ele inicia sua grande tarefa de trabalhar com questões complexas voltadas para a pergunta "o que é afinal a realidade?". Ao melhor estilo de Philip K. Dick, Grant Morrison  manipula a hipótese da existência de realidades dentro de realidades, ou seja, do continuum espaço-tempo ser expressão do criador daquela realidade. O Homem-Animal passa a ser envolvido em aventuras em defesa dos animais, sua vida cotidiana no seio de sua família passa a ser destrinchada e, ao longo deste processo, Buddy começa a suspeitar de pequenos e estranhos fatos que começam a lhe acontecer. Da mesma forma que em nossa vida cotidiana acabamos por deixar passar pequenos fatos estranhos, Buddy Baker também faz o mesmo, sem imaginar que essas pequenas idiossincrasias são a "chave" para um entendimento maior da sua realidade quadrinística. Nesse 2º ato eu destaco as histórias "Entre o Demônio e o Azul Profundo do Mar" e "Os Crimes Cronológicos do Comandante do Tempo". Meu maior destaque mesmo é, no entanto para esta última história envolvendo o Comendante do Tempo. Vemos nela um Homem-Animal reflexivo e que pouco atua ao lado de seus companheiros da Liga da Justiça Europa. Tudo já começa a parecer estranho para Buddy, como se apenas ele conseguisse enxergar a estranheza de sua realidade como personagem. 


Porém, é no 3º ato desta saga (Deus Ex Macina) que o mundo desaba sobre a cabeça de Buddy Baker. No início do arco, tudo parece começar bem quando ele recebe, nas primeiras histórias, uma revelação que o faz perceber o real sentido das coisas através de uma grande conexão entre as coisas vivas. Ao passar por esta epifania, Buddy parece finalmente entender as coisas em sua realidade. No entanto, a sua alegria dura pouco com uma imensa tragédia que se abate sobre ele. Dali em diante a questão é a forma com que Grant Morrison passa a conduzir tudo a partir daqui. Se antes, a metalinguagem era apenas insinuada, agora ela se derrama como uma avalanche sobre o personagem. Buddy, vai percebendo sua condição como personagem, sua limitação enquanto um ser preso à um continuum espaço-tempo onde a mais absurda luta de super-herói é vista como normal. Ao lermos a história, é impossível que não façamos um exercício de compara-la com nosso mundo real, aguçando nossos sentidos para os absurdos e coisas estranhas dentro das quais estamos imersos, mas ninguém parece muito "dar bola"! Todos continuam vivendo suas vidas dentro de um esquema, no mínimo, estranho.


Assim como Platão descreve em seu Mito da Caverna, ou o Apóstolo Paulo escreve em sua Carta aos Coríntios (Porque agora vemos como que por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou completamente conhecido)... Grant Morrison constrói uma narrativa em que criatura encontra seu criador, em que todas as perguntas poderiam ser feitas àquele que nos criou. Toda passagem do autor pelo Homem-Animal é um crescendo, atingindo seu ápice apenas na última história de Deus Ex Machina.


Esperei 25 anos para ler essa obra sem interrupções e na íntegra. Mas foi bom... Lê-la aos 20 anos de idade (no início dos anos 90) provavelmente não teria me trazido a compreensão que ela merece e que hoje consigo ter de seus meandros. Minha meia idade tem suas vantagens. Hoje, mais do que nunca, assolam-me dúvidas acerca da realidade e de seus constituintes, e quanto mais penso sobre isso, mais percebo o quanto tudo é possível... Até mesmo sermos personagens em um contexto bem maior.

10 comentários:

  1. blz marcelo?

    de maneira geral não gosto do morrison, pouco material dele me atrai, o homem animal é um deles, só que a distribuição da panini é sem vergonha (pra não falar outra coisa) e não entregou o volume 2 em santa rita do sapucaí MG e pulou direto pro volume 3.
    quando vi que o material não ia chegar mesmo tentei comprar na net só que já era, num acha mais.
    com os preços dos quadrinhos (na verdade tudo esta muito caro, nosso país acha que seus moradores estão jogando dinheiro fora igual aos nossos políticos) nas alturas mais a distribuição porca estão acabando com meu prazer de comprar um bom quadrinho na minha banca preferida.
    acho que muitos leitores estão na mesma situação que a minha.
    e olha que leio quadrinhos desde de sempre, sou de 75 e minha coleção não é pequena.

    abraço

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    1. Olá Gustavo...

      Blz amigo!!

      Então... Acho que o Grant Morrison teve seus altos e baixos. Ele peca muito ao elaborar tramas complexas e por vezes sem sentido. Ou pelo menos tem um sentido que só ele entende... rs rs Tentei, por exemplo, acompanhar a recente saga "MULTIVERSO" da DC que a PANINI estava lançando , mas literalmente abri mão. Acho que às vezes o Morrison quer ficar na Vanguarda fazendo histórias complicadas e cheias de referência. Apenas para alguns leitores dizerem "Olha como sei de quadrinhos! Entendo todas as referências do Morrison". Mas em minha opinião não se precisa disso. Acho que ele às vezes quer imitar um pouco o Alan Moore nesse quesito.

      Os Preços realmente tem assolado à todos e isso é um fenômeno estranho dado a crise na qual estamos.

      Vamos esperar os próximos capítulos desta novela.

      Mas voltando ao morrison, eu acho que há HQs muito boas dele (Asilo Arkham, por exemplo), mas há coisas que acho lugar comum. Acho, por exemplo que ao se avaliar a constância na qualidade das HQs eu prefiro muito mais o Mark Waid.

      Valeu amigo!!

      Gde. Abc.

      Marcelo

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  2. Olá Marcelo. tudo bem?
    Não estou comprando as edições da Panini porque li as histórias na DC2000 e na época não me entusiasmou tanto.
    E aí, já terminou a mudança? Rola umas fotos da sua coleção de miniaturas?
    Minhas últimas aquisições foram o Flash da Iron e os Batmóveis da Eaglemoss. Acabei perdendo a edição #1 mas comprei as #3 e #4 em uma oferta relâmpago. Gostei bastante das peças e já pedi a edição #2. Dei uma parada nas miniaturas da Marvel. Só especiais agora, principalmente depois do aumento. A da DC continuo por causa da assinatura. Você tem a especial do Batman com a moto? Será que fica legal em resina? E o kit Cavaleiro das Trevas, vai adquirir?

    Abs., Carlos - São Paulo.

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    1. Olá amigo Carlos!!! Blz!?!?!?

      Pois é... Essa saga do Homem Animal possui dentro dela algumas HQs que acho simples e até sem brilho. A Saga funciona mesmo quando conseguimos enxerga-la no todo em minha opinião. Como disse ao Gustavo acima, acredito que o Morrison, por vezes, tenta ser gênio lançando mão de um expediente complexo e incoerente. Algumas HQs dele ninguém entende nada. Caso, por exemplo da saga recente "Multiverso" da DC que até tentei acompanhar. Tudo muito complicado e com referências muito complicadas. Acho que à vezes ele quer se tornar outro Alan Moore.

      Então! Quero muito fazer uma matéria com fotos da minha coleção de miniaturas e de HQs já nas estantes novas. Estou terminando meu semestre no emprego e saio de férias daqui à uma semana. Daí quero com calma fazer uma postagem bem legal. Não ainda mesmo por falta de tempo e por querer fazer algo bem legal. Acho que até o fim do mês eu farei! Obrigado por se lembrar e perguntar Carlos!!

      Achei essa coleção dos Batmóveis muito legal mesmo. Qual é esse Flash da Iron que vc comprou? Não sabia que tinha saído um Flash da Iron!! O aumento da Eaglemoss foi algo inesperado também. Muitos estão ficando apenas com as Especiais agora.

      O Batman com a MOTO ainda não saiu ainda, e não comprei de fora. Estou na expectativa!! Acho que ficará legal sim em resina. Tal qual o Grodd.

      O Kit eu vou passar Carlos. Vou me fixar mesmo na coleção central da Eaglemoss.

      Valeu amigo!!

      Marcelo.

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  3. Olá Marcelo, o Flash da Iron é o do seriado da TV, e é uma peça exclusiva da loja Fantoy. Apesar de serem de Santa Catarina o envio foi mais rápido que o da Eaglemoss que fica aqui em Barueri. Não sei se você já comprou com eles, mas a embalagem veio bem protegida, e veio junto uma carta de agradecimento pela compra. Aí sim você se sente tratado como um Cliente. Curto bastante a série e a pose da miniatura ficou bem legal, o que me fez me interessar pela figura. O Kit do Cavaleiro das Trevas talvez em encare junto com os próximos especiais (desde que não esgote).
    No aguardo de fotos da sua coleção. Abs., Carlos - São Paulo.

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    1. Legal Carlos!

      Obrigado! Agora que vc escreveu isso eu estou me lembrando que o vi exposto sim na última CCXP. Só não sabia que era exclusivo da Fantoy. Esses dias fui à Iron Studios e não vi nada sobre essa peça lá. Acho que é porque é exclusivo pela Fantoy! Show!

      Uma vez comprei pela Fantoy e a entrega foi excelente também. Recomendo. Veio exatamente assim como vc descreveu. A peça super bem protegida e com uma carta de agradecimento.

      Valeu mesmo Carlos. Vou postar as fotos sim.

      Gde. Abc.!

      Marcelo.

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  4. Excelente post!
    Dc 2000 é puro saudosismo.

    Abc

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    1. Puxa muito obrigado amigo!!

      Valeu mesmo!

      DC 2000 introduziu muitos autores hoje emblemáticos!!!

      Realmente uma grande revista!

      Fico feliz que tenha gostado do post!

      Gde. Abc!

      Marcelo

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  5. Salve, Marcelo!

    Muito bom o texto! Também não consigo gostar de toda obra do Morrison, mas com Homen-Animal ele se mostrou um gênio! Que bom que a Panini publicou esta fase na íntegra, tomara que se torne cada vez mais acessível!

    Não sei se leu, mas recomendo o "volume 4" com toda fase do Milligan. Pode não superar a anterior, mas vale a leitura! Abs

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    1. Opa!

      E aí Fernando... Blz!?

      Valeu mesmo pela presença! Pois é... Estou curioso para ler a fase do Milligan que veio depois, sabia!?

      Dizem que é muito boa mesmo!

      Gde. Abc.

      Marcelo

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