domingo, 16 de abril de 2017

Qual o Problema da Marvel: Diversidade ou Descaracterização?


Recentemente vimos acontecer uma grande reunião entre lojistas, distribuidoras e os executivos da Marvel. Algo que havia acontecido apenas no passado em um período de maior fragilidade da Editora e do Mercado de Quadrinhos nos EUA. O motivo da atual reunião? A redução sustentada das vendas em relação à sua grande rival DC Comics, que vem emplacando uma acertada estratégia de retorno às origens e DNAs de seu personagens mais emblemáticos. A reunião na Marvel tomou as manchetes porque um dos motivos debatidos para as baixas vendas teria sido a tentativa da editora em alterar seus principais personagens para versões diferentes, caracterizando-os a partir de indivíduos de outras etnias e gêneros, com personalidades muito diversas daquelas de suas contrapartes originais. Mas seria apenas este o motivo das baixas vendas? Na verdade a questão me parece não tão complicada de ser analisada ou resolvida...


Tirando uma parte (que acho que seja pequena) dos fãs de quadrinhos mais alinhados com o discurso repressor e segregacionista, eu diria que a maciça maioria dos Nerds e fãs de HQs sempre conviveu e aceitou extremamente bem a inclusão de etnias, gêneros e opções sexuais diferentes em suas fileiras. E isto sempre aconteceu por 01 único motivo: nós Nerds também sempre fomos segregados e sofremos do mesmo mal que estas populações acima citadas sofreram. Entendemos o sentimento ruim que advém da segregação e da chacota simplesmente porque já vivemos muito disto. Claro que a experiência de bullying que qualquer Nerd sofreu não se compara a odiosa segregação que fazem com as minorias étnicas ou de opções sexuais diferentes, que deixa marcas terríveis para o resto da vida. Não vejo que o problema seja a adoção de representantes de diversos segmentos sociais e étnicos como o precipitador das baixas vendas. Em minha opinião o problema é outro, mas passa sim pela "mal" feita inclusão destas minorias em seu Universo ficcional nos últimos anos. A Marvel sempre esteve à frente ao incluir personagens representantes de minorias, no entanto sempre fez isso muito bem no passado. Podemos até citar alguns destes exemplos: Shang-Chi, Luke Cage, Tigre Branco, Pantera Negra. Fóton (ou Capitã Marvel afro-descendente), Estrela Polar e muitos outros... Mas porque agora essa expertise inclusiva não está mais sendo efetiva? Simplesmente porque, em minha opinião, vem sendo feita às custas da descaracterização de personagens já bem estabelecidos e queridos dos fãs.


Embora algumas destas caracterizações até tenham alcançado sucesso de crítica atualmente, caso da Thor (Jane Foster), do Capitão América (Sam Wilson) e do Homem-Aranha (Miles Morales), o fato é que grande parte dos leitores ainda são de uma geração que cresceu lendo histórias em que Thor Odinson, Steve Rogers e Peter Parker são as respectivas identidades do heróis acima. Personagens com histórias de vida longas, cheias de brilho e tragédias. Romper com isso é impor um luto ao leitor. Acho que a Marvel precisa continuar sendo vanguardista em abrir seu Universo para personagens de outras etnias, preferências sexuais e gêneros, mas que sejam personagens novos, com sua luz própria, com sua trajetória própria. A DC Comics também cometeu erro semelhante há alguns anos ao transformar o Lanterna Verde Alan Scott em homossexual. Um herói que tinha mitologia própria, era casado e tinha filhos que se tornaram heróis também. Opções sexuais diferentes podem e devem estar presentes no Mundo dos Quadrinhos simplesmente porque ele é um espelho de nosso Mundo Real, só que isto não pode ser feito às custas da desfiguração de um outro personagem já estabelecido, pois isto agride o leitor que lhe acompanhou pela vida inteira. Aliás, isto pode até desfavorecer a causa inclusiva!!


Mas há mais coisas que explicam as baixas vendas na Marvel. Desde 2006 quando foi lançada a super bem sucedida Mega-Saga Guerra Civil, a Marvel não parou mais de lançar os tais mega-eventos. Arcos que simplesmente envolvem quase todos os heróis da Editora em desafios gigantescos. A fórmula é boa, porém ao ser levada à exaustão nestes últimos 11 anos impossibilitou o desenvolvimento dos personagens em suas vidas e carreiras pessoais. Excetuando o Demolidor de Mark Waid, não tivemos mais arcos que examinassem de forma lenta, progressiva e íntima a vida pessoal, heroica e dramática deste ou daquele herói. Tudo ficou grandioso demais e o pequeno, o cotidiano deixou de ser trabalhado. Isto explica, por exemplo o sucesso de Sagas como as do Gavião Arqueiro atualmente, que focam o homem e seu cotidiano por trás da máscara. Ou mesmo a nova Miss Marvel Kamala Khan, que faz sucesso muito mais pelas suas dificuldades de adolescente do que pelos grandes males que combate. Resumindo: A Marvel bebeu demais da fonte das Mega-Mega-Sagas, e sua ressaca começa a ser vivida agora.


Não à toa que as maiores obras-primas dos quadrinhos são aquelas que se afundaram dentro do universo pessoal do personagem e daqueles que os cercam (Batman: Ano Um; Demolidor: A Queda de Murdock; Batman: O Cavaleiro das Trevas; Marvels). Temos que nos lembrar que a ficção é, de certa forma, "escapismo", porém para funcionar precisa estar ancorada na realidade e em problemas reais que cada um de nós conhece. Esta foi a fórmula de sucesso de sagas que aparentemente tinham tudo para naufragarem na desconexão com a realidade. Posso citar como exemplo disto a Série Clássica Star Trek, que só alcançou o sucesso que alcançou porque trazia embates e questões que faziam parte do cotidiano racial e social das pessoas. Tudo recheado de uma boa aventura e escapismo ficcional. Todas as vezes que a Marvel se fixou em apenas um expediente editorial (como é o caso de sua fixação atual por Mega-Sagas) ela afundou. Vimos isto acontecer no passado (anos 90) com o tema "Militância Mutante", que foi sugado até o "osso" e nos deixou à todos com uma ressaca e uma mitologia que de tão complexa passou a ser incompreensível e totalmente dissociada da vida comum.


A Marvel precisa rever seus objetivos quanto à forma de abordar seus personagens clássicos e seus expedientes editoriais. O Portal OMELETE recentemente em um vídeo no Youtube comentou, por meio de sua editora Natália Bridi, que o simples fato de converterem um herói clássico em uma outra versão etnicamente ou sexualmente diferente já é um tipo de discriminação porque parece quererem sanar o problema do preconceito tratando estas pessoas de forma diferente, ou seja, oferecendo-lhes um cargo de destaque, sendo que poderiam muito bem desenvolverem suas carreiras de forma como todo super-herói fez no passado, ou seja, de forma lenta e progressiva. Embora concorde com a Natália, achei apenas um pouco incoerente dizerem no final do vídeo que o problema da Marvel não é a "diversidade". Na verdade, penso que parte do problema é sim a "diversidade" feita da maneira atual, pois ao ser implementada desta forma forçada, descaracterizadora e que agride o fã de determinado herói, acaba não ajudando muito a necessária bandeira da "inclusão". Temos que evoluir para uma cultura de tolerância entre pessoas, mesmo dentro dos quadrinhos, mas não às custas da desconstrução do passado.

Valeu amigos!

10 comentários:

  1. a diversidade mal feita foi um dos motivos ate do ultimo filme do quarteto fantastico afundar , o ator que fez o tocha e um puta ator adorei poder sem limites mas nao e o tocha humana , q aliais pra forçar a " diversidade " e incluir o ator tiveram q mudar a historia da sue e inventar dela ser adotada , quer fazer faz bem feito poderiam ter colocado um indio pra interpretar wayat ingfoot (provavelmente escrevi errado) , tem que colocar um negro pra cumprir a cota inventa um personagem ....

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    1. Olá amigo!!

      Tudo bem?! Em primeiro lugar agradeço sua presença e comentário. E em segundo lugar peço desculpas pela demora em responder.

      Concordo com você. Muitos tem confundido esta posição como segregacionista. Mas é o contrário. As chamadas minorias não deveriam aceitar receberem papel de personagens que eram em suas origens "brancos". Deveriam exigir que fossem criados personagens que os representasse. Da forma como é feito hoje, além de descaracterizar o que já existe, parece que a Marvel está fazendo um favor para eles ao os retratarem, sendo que na verdade negros, mulheres e homossexuais não precisavam aceitar este tipo de "esmola".

      Para inserir o ator negro no filme do QF tiveram realmente que mudar a história original descaracterizando a família mais importante da Marvel.

      Obrigado pela presença! E valeu pelo comentário!

      Ass.
      Marcelo

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  2. Marcelo,

    O tema desta é muito interessante. Casualmente há alguns dias eu havia lido uma matéria sobre esta queda das vendas da Marvel.
    Permita-me então contribuir para o debate, apresentando a MINHA opinião sobre esta questão.

    Acho esta "atualização" dos personagens totalmente desnecessária. Na minha juventude lia muito os quadrinhos da Marvel pelas editoras Abril, Bloch e RGE. Eu achava as histórias incríveis e, se permanecessem como tal, eu certamente ainda estaria consumindo.
    As histórias dos anos 60, 70 e 80 estavam dentro do contexto da guerra fria, WWII, Vietnã, Coreia, etc. Também tinham aquele clima de fantasia e ficção científica, sem qualquer preocupação com o famigerado "politicamente correto". A modernização dos personagens os descaracterizou, tirando toda a sua essência e graça.
    Outro problema que eu vejo nas modernizações é que não vejo graça em ler sobre gente que tem os mesmo problemas que eu. Acho isso muito chato. (Gente, é apenas uma opinião pessoal, ok?)

    Um exemplo que acho interessante no universo dos quadrinhos é o da Disney, que ainda costumo comprar eventualmente. Mas o que eles têm de diferente? De modo geral, permanecem atemporais. Novas tecnologias e costumes foram incorporados às histórias, mas os personagens permanecem os mesmos em sua essência. E no meu caso é exatamente este estilo "clássico" que me atrai. Nos quadrinhos Disney dispenso a leitura daquelas historinhas metidas a moderninhas. Os clássicos, por sua vez, valem a pena ler (e, em muitas vezes, reler).

    Cheguei a pensar num comparativo da Marvel com o case do lançamento da Coca-Cola com nova fórmula. O público americano rejeitou o produto e o fracasso foi tanto que a companhia teve que relançar a velha fórmula com o nome de Classic Coke.

    Nos novos filmes de Star Wars também há uma preocupação em tornar os cenários mais "orgânicos", depois dos excessos em CG cometidos por George Lucas os episódios I,II e III.

    Na minha opinião, a Marvel deveria fazer o mesmo.

    Se lançasse uma nova série batizada de "Classic Marvel", com novas aventuras mas com roteiros ambientados no contexto clássico, desenhados e colorizados do modo tradicional, eu certamente voltaria a comprar as revistas.

    E desta forma deixaria que cada público definisse o sucesso editorial de sua linha favorita. Preservando os leitores clássicos, e também conversando com os novos.

    Pelo menos assim o leitor teria uma chance de escolher o que prefere ler.

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    1. Olá Renato...

      Obrigado pela presença e desculpe a demora em responder. Estou na correria aqui com a chegada do meu 1º herdeiro! rs rs

      Em seu 1º parágrafo você toca em uma questão que eu ainda não havia pensado. Se a atualização fosse realmente necessária, porque ainda existiriam personagens antigos e ainda que atraem muito público? A atualização não deve ser sobre as características do personagem, mas sim sobre suas aventuras e temas que aborda no dia a dia. Haja vista o exemplo que dei na matéria. A fase atual do Gavião Arqueiro. Concordo plenamente com vc.

      Os personagens da Disney a que você se refere são exemplos disto também. Há toda uma legião de pessoas que ainda os curtem da maneira como sempre foram. Por isso volto a dizer que o que pode ser eventualmente atualizado são alguns contextos ao redor do personagem.

      A Marvel está indo na contra-mão de algumas coisas. A DC já percebeu que sua riqueza está no DNA de seus personagens, na essência destes personagens. Inda mais agora com esta história maluca que o Capitão América realmente sempre foi agente da Hydra. Agora não posso nem mais deixar meu filho crescer gostando do Capitão América, ou seja, não posso permitir que ele goste de um personagem nazista!!!!

      Agora... Sua ideia de criar segmentos dentro da Marvel que atendessem diversos gostos de leitores eu já tinha pensado antes e acho a verdadeira solução. Quem gostar de um Capitão América Nazista que leia o segmento dedicado à essas modificações. Quem gostar de uma abordagem mais clássica migraria para o ramo mais clássico da Editora. Isso resolveria tudo!!

      Não entendo como alguém ainda não pensou nisso ainda. O Universo Ultimate foi algo neste sentido e que deveria ser ali que deveriam fazer essas apostas de descaracterização dos personagens.

      Valeu Renato! Agradeço mesmo sua participação e excelente contribuição.

      Abração!

      Marcelo

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  3. Bela Matéria Marcelo!

    Ainda não li nenhuma destas novas atualizações dos herois (ainda bem), não tenho nada contra, mas Thor Mulher, Hulk adolescente, Homem de Ferro adolescente.....nada a ver né.
    Concordo que é necessário acompanhar as atualizações do nosso tempo, mas que sejam criados novos personagens, não vou nem citar os clássicos Estrela Polar. Luke, Mistica e Sina dentre outros dos anos 80, mas olhe bem a Equipe de adolescentes Os Fugitivos, eu adorei o material e a equipe tem tudo o que se quer em inovações, casais homoafetivos, afrodescendentes, nerds, outro Grupo que representa o mesmo, Os novos Vingadores, tem a mesma pegada, por que então não valorizar estes novos personagens com ótimas histórias para atender a demanda evolutiva, ou até mesmo valorizar a linha Millenium, Marvel ta me lembrando rede Globo.....

    Deixem nossos medalhões como estão, time que esta ganhando não se mexe.

    Abraços

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    1. Olá amigo Wellington!

      Blz!? Obrigado pela presença!!

      Pois é... É o que eu comentei junto ao amigo Renato acima, deveriam fazer estes experimentalismos em segmentos distintos do segmento clássico. Assim, eles teriam vários públicos lendo os diferentes segmentos. Acho que ousar é necessário, mas acho também que tem que se levar em consideração os leitores que tanto investiram comprando revistas desde sempre. Este leitor acaba se sentindo traído.

      Minha opinião é exatamente a sua. Aliás, como coloquei na matéria, acho que as minorias não deveriam aceitar serem incluídos desta forma. A Marvel deveria representa-los por meio de novos personagens!

      Acredito que a DC continuará por um bom tempo à frente da Marvel!!

      Valeu amigo!

      Marcelo

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    2. Marcelo me corrija se eu estiver errado..

      Me lembro vagamente de uma história em que o Capitão América chega a levantar o martelo do Thor, ou quase consegue, (e não vi isto só no filme não), como isto se justificaria sendo ele um traíra desde os primórdios, isto que é matar uma lenda, depois vem com uma invasão Skrull muito porca para justificar tanta heresia, ou então aquela palhaçada de pacto com Mefisto que o Aranha fez para esquecerem a identidade dele que ele entregou de bandeja pro Stark.



      Parabéns pelo Herdeiro.

      Abraços

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    3. Wellington...

      Cara... Só de lembrar dessa lambança que estão fazendo com Capitão América fico com muita raiva. Isso eu chamo de incompetência completa dos roteiristas e dos editores chefes. Inovam polemizando... Tentam alavancar as vendas com aquilo que dará mais lucro o mais rápido possível.

      Estão matando a galinha dos ovos de ouro, que é o DNA de seus principais heróis. E não concordo com as pessoas que dizem que é preciso inovar para crescer. Inovar é um termo muito mais amplo, complexo e criativo... Se fosse fácil teríamos revoluções científicas todos os dias. Inovar é trabalhar com criatividade. Inovar é diferente de "POLEMIZAR". Que é o que fazem.

      As lambanças acabam sendo corrigidas com mais lambanças ainda... Como essas que vc citou. Pacto com MEFISTO ou invasão dos metamorfos Skrulls.

      Valeu pelos parabéns Wellington!! Obrigado mesmo!

      Abcs!

      Marcelo

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  4. Sempre acompanhei o Thor Odinson desde que a Ebal publicava aqui no Brasil (meu pai comprava) dei continuidade a coleção dele.

    Atualmente leio a Lady Thor (Jame Foster) e achei a personagem muito legal e interessante, a questao dela ter uma doença e ao mesmo tempo ter o poder de um Deus mitologico é fantastica, ate o Thor Odinson ficou bom, pois o personagem cresceu ao nao mais ficar dependente do Martelo magico, poderes de Asgard/Odin na revista dele (THOR o Indigno) ele tem que correr atras das coisas sem papai ou martelo magico pra ajuda-lo isso fez o personagem crescer.

    Resumindo ambos os personagens cresceram.

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    1. Olá Bruno!

      Interessante e muito bem vindo seu comentário... Valeu pela opinião!

      Vamos ver como serão os próximos passos após a queda nas vendas. Acredito que eles darão uma guinada tal qual a DC na direção das histórias clássicas.

      Abcs!

      Marcelo

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