sábado, 7 de outubro de 2017

Blade Runner - 2049


Lembranças guardadas com carinho são protegidas de forma aguerrida por todos nós... Seja ela de qualquer tipo. Blade Runner (EUA - 1982) foi um filme que passou despercebido à época de seu lançamento, ganhando status de cult (merecidamente) ao longo dos anos. Quem atingiu a idade da razão nos anos 80 fatalmente deve ter se chocado com este filme, que preencheu o imaginário de uma legião de pessoas que se viram encantadas com a forma com que questões tão profundas foram abordadas na obra. O que nos faz humanos? Para onde vão nossas memórias depois que tudo se acaba para nós? Como lidar com a finitude que nos cerca? Quando eu soube que esta obra iria ganhar uma sequência meu coração se encheu com duas grandes questões fortes e absolutamente antagônicas: 1º - Fiquei extremamente feliz em saber que veria este universo de Philip K. Dick novamente nas telas; 2º - Fiquei extremamente preocupado de que o novo filme poderia mexer com uma lembrança tão carinhosa e profunda para mim, alterando-a negativamente. Ontem finalmente me deparei com a resposta para estas duas questões.


Minhas impressões não poderiam ter sido melhores. O filme de 1982 trazia como grande diferencial um tom NOIR, bem como uma tristeza, melancolia e encantamento subjacentes à trama e que, nem por isso, era menos violenta. Meu grande medo era que o diretor de sua continuação (Blade Runner 2049), Denis Villenueve, deixasse de lado justamente aquilo que havia tornado cult o 1º filme. Meu medo era de que Villenueve cedesse às pressões de uma parcela da indústria cinematográfica que procura atender a sede de violência das grandes massas, e com isso diminuísse os elementos que davam sustentação ao 1º filme. Caso tivesse feito isto teríamos como produto final um filme descartável, que até teria uma bilheteria grandiosa, mas que logo seria esquecido. Isto aconteceu, por exemplo, recentemente com as refilmagens de clássicos com Ben Hur e O Vingador do Futuro.


Da forma como ficou, Blade Runner 2049 pode até receber algumas críticas (como já pude ver no YouTube) daqueles que não conseguem sobreviver a uma sessão de cinema sem ver violência gratuita e sem sentido, mas permanecerá como uma sequência digna. O caráter perene desta continuação está no foco que se dá, acertadamente, ao significado da existência humana a partir das memórias e lembranças que nos fazem quem somos. Talvez o que temos de mais corriqueiro dentro de nós, a saber, "nossas lembranças", "experiências" e "memórias", sejam no final o mais importante de nossa existência. E só é possível perceber isso quando as perdemos, ou então quando sabemos que tais memórias são apenas implantes. Que existem como maquiagem apenas para nos fazer pensar que somos especiais. Esta angústia é o combustível da revolta e tristeza de todo REPLICANTE (Androides fabricados pelos humanos). Seres que compartilham de tudo que somos, menos a percepção de serem verdadeiros, já que são produtos da Engenharia Biosintética.


O filme se passa em 2049, 30 anos após os acontecimentos vistos em Blade Runner de 1982. Acontecimentos importantes aconteceram ao longo destes 30 no Universo da obra. Estes acontecimentos são contados em 03 Curtas Metragens disponíveis no YouTube e que o fã pode ter acesso. O 1º chamado Black Out 2022, o 2º 2036: Nexus Dawn e o 3º  2048: Nowhere to Run. Os acontecimentos destes 03 curtas moldaram o Mundo na forma que o vemos em 2049. Os mesmos elementos do filme anterior estão presentes: a chuva ácida contínua, as ruas apinhadas de pessoas em contraponto à eventuais espaços grandes e vazios, edifícios decadentes e gigantescos, a ostensiva propaganda em todos os lugares (sobretudo de origem japonesa) e a estética cyberpunk que permeia a tudo, até mesmo as roupas dos indivíduos com suas capas transparentes, botas impermeáveis, guarda-chuvas, casacões e veículos blindados pesados e reforçados.


A fabricação da antiga geração de Androides Nexus 6, com seus números de série codificados nas células, foi extinta. As revoltas e problemas causados por esta geração foi o deflagrador de sua extinção. Os poucos modelos remanescentes desta cepa são agora caçados pelos dóceis, obedientes, mas não menos perigosos Nexus 8. A história se desenvolve ao redor do policial "K", personagem de Ryan Gosling. O oficial "K" fará uma descoberta logo no início do filme que precipitará toda a dinâmica da história. A narrativa faz por vezes o espectador tirar conclusões que depois se provam erradas, e isto é outro ponto positivo, por não tornar óbvia a evolução da trama.

Cena de Blade Runner - 1982

A trilha sonora de Hans ZimmerBenjamin Wallfisch segue as linhas melódicas de Vangelis do 1º longa. Já ouvi críticas dizendo que Zimmer e Wallfisch não conseguiram superar Vangelis no quesito trilha sonora. No entanto, este não é um ponto negativo, mas positivo. Os músicos parecem respeitar a obra de Vangelis ao ponto de segui-la, mas (propositalmente) não supera-la. Não há motivo para isto. Minha admiração por Zimmer (autor da belíssima trilha de Interestelar) aumentou depois de Blade Runner 2049. Harrison Ford revive o personagem Rick Deckard do 1º filme, agora com o peso dos 30 anos que se passaram. A densidade alcançada com a presença de Ford/Deackard é palpável, pois percebe-se claramente os segredos que ele guarda a respeito da história. Fiquei contente com o fato de não tentarem tornar o personagem de Ryan Gosling ("K") em um novo Deackard. Teria sido um erro caso tivessem tentado. Nos trailers pareceu-me que isso ia acontecer.


As paisagens fora das cidades são novidades em relação ao filme de 1982. A desolação e melancolia de espaços outrora cheios de vida são impactantes. Não se pode deixar de ressaltar a presença da areia. Algo que parece engolir a tudo. Isto fatalmente nos leva diretamente a outra obra seminal de Ficção Científica: Duna de Frank Herbert. Caso você vá assistir a Blade Runner 2049 eu sugiro que vá de mente aberta. Vá com a mente sensível a mensagens subliminares e subtextos. Ciente de que muito do que é dito no filme está no silêncio, e não nas falas.


Por fim... Vá com a percepção de que milagres existem...

domingo, 24 de setembro de 2017

Miniatura DC Nº 26 - Ra´s al Ghul

Miniatura DC Nº 26 - Ra´s al Ghul

Ra´s al Ghul foi criado pelas brilhantes mentes de Neal Adams e Dennis O´Neil (a mesma dupla que conduziu a aclamada série do Arqueiro e Lanterna Verde nos anos 70) em 1971. A reputação do personagem foi crescendo ao longo dos anos à medida em que um pouco mais de sua misteriosa origem e objetivos foram sendo aos poucos apresentados. Dono de um intelecto incrível e de uma visão apaixonada e violenta de seus ideais, Ra´s al Ghul é sem dúvida um vilão complexo e à altura do Homem-Morcego. Sua mente prodigiosa veio preencher uma lacuna na galeria de vilões do Cruzado Encapuzado, que até então fora construída quase que predominantemente por vilões com mentes perturbadas e doentes. Aqui, Batman foi testado quase que até seu limite, não apenas física e intelectualmente, mas também emocionalmente, já que foi com a filha de al Ghul que Bruce Wayne teve seu filho Damian.

Miniatura DC Nº 26 - Ra´s al Ghul

Ra´s al Ghul foi bem representado na Coleção de Miniaturas DC Eaglemoss. Ele aparece em um postura tradicionalmente vilanesca e com seu traje tradicional que evoca a figura do "Barão", "Duque" ou "Conde". Ao mesmo tempo há interessantes detalhes em seu traje que faz relação direta com o Oriente Médio, sua terra de origem. Podemos identificar mangas largas em sua camisa, que também possui uma abertura na altura do peito lembrando muito bem trajes usados no Oriente. Além é claro de detalhes em amarelo (ouro) nas mangas e orla do manto. A própria cor predominante do manto e camisa nos arremete à bandeira da Arábia Saudita, um verde vivo e inconfundível. Com este visual Ra´s al Ghul compõe uma mistura de "Conde" Europeu e Líder Messiânico Árabe.

Miniatura DC Nº 26 - Ra´s al Ghul

Seguindo o padrão da coleção, o manto do personagem está muito bem modelado, expressando ao mesmo tempo suas ondulações e uma ideia de ser pesado, tal qual um manto cerimonial e imprerial deve ser. Achei muito interessante terem conseguido chegar ao tom diferenciado de pele na peça. Ra´s é do Oriente e, apesar de não ser possível precisar sua origem exata (pode-se muito bem associa-la aos Persas ou aos povos da Península Arábica - Arábia Saudita, Iêmen, Jordânia e Oman), este fato o diferencia em hábitos, visão de Mundo e cor de pele, e é para este último detalhe que chamo atenção na peça. Vemos uma cor de pele diferente do tradicional rosa salmão dos caucasianos (Europeus) e dos negros Africanos. Neste quesito al Ghul está em posição de destaque dentro da coleção, ao possuir este interessante diferencial. A face do personagem, com seu bigode longo, olhos claros e cabeleira farta porém grisalha na lateral, dá o tom necessário para o associarmos à uma certa sabedoria, dramaticidade e profundidade interior.

Miniatura DC Nº 26 - Ra´s al Ghul

A origem de al Ghul é imprecisa, no entanto especulações o colocam como um homem que nasceu no Oriente Médio há 06 séculos, ou seja, no Século 15 (algo entre os anos de 1400 e 1500). Ele teria nascido junto à uma tribo de nômades do deserto. Ainda jovem, al Ghul abandonou sua tribo para buscar conhecimento e aprofundar-se nos mistérios da vida. Nesta busca ele descobriu o que viria a ser sua fonte de "imortalidade", o Poço de Lázaro, uma fonte que traz rejuvenescimento a quem nela adentra. Como efeito colateral, no entanto a fonte traria insanidade temporária. Por ser ainda jovem, Ra´s al Ghul partilhou este segredo com um Príncipe de uma cidade na qual vivia. O Príncipe foi o 1º a acessar a fonte, o que trouxe demência e loucura para ele, levando-o a cometer assassinato. A culpa, no entanto recaiu sobre al Ghul que fugiu para o deserto, se organizou junto à sua tribo e massacrou à todos na cidade que o acusara. Este 1º ato de violência de al Ghul daria o tom de sua personalidade para o resto de sua vida.

Miniatura DC Nº 26 - Ra´s al Ghul

Beneficiando-se dos efeitos do Poço de Lázaro, al Ghul se tornou em excelente espadachim e um lutador versado em diversos tipos de combate. Ele participou como guerreiro em Guerras e Eventos-chave na história da humanidade, tais como a avassaladora Campanha Militar de Napoleão Bonaparte e Revolução Francesa. Mas toda a expertise que acumulou ao longo do tempo daria ao imortal Ra´s a possibilidade de fundar uma organização terrorista chamada "Demônio", sendo um de seus desdobramentos a chamada "Liga dos Assassinos". Nesta trajetória beligerante ele teve duas filhas, a 1ª chamada Nyssa, e a 2ª Tália. O primeiro embate entre Ra´s al Ghul e Batman envolveu justamente Tália. Determinado a encontrar o par perfeito para sua filha e assim um herdeiro digno e à altura de sí, al Ghul percorreu o globo e encontrou o Batman. Alguém que possuía a determinação e coragem que serviria a al Ghul. Aliás, determinar a identidade secreta do Cavaleiro de Gotham não foi problema para al Ghul, que por simples dedução chegou à Bruce Wayne.

Miniatura DC Nº 26 - Ra´s al Ghul

É difícil compreender os objetivos de Ra´s al Ghul. Sabemos que ele possui amor pela vida e pela natureza. Ao longo dos séculos, no entanto ao ver a humanidade se lançar de forma tão voraz em suas Guerras e contra a natureza, ele percebeu o quão letal o homem pode ser. Isto construiu dentro dele uma visão negativa e violenta contra o homem. Hoje poderíamos dizer que o objetivo de al Ghul seria extirpar da Terra o que ele considera como seu "câncer", ou seja, a raça humana. E foi neste contexto que os objetivos dele e de Batman se chocaram. Embora Bruce possui-se afeição e amor por Tália, ele não pôde deixar de rejeita-la frente aos objetivos de al Ghul (muito embora Bruce e Tália tenham sim desenvolvido um romance escondido por muito tempo). Os confrontos entre Batman e Ra´s al Ghul sempre foram brutais e violentos, envolvendo ameaças incríveis contra a raça humana. Foi também contra al Gul que Batman precisou usar sua perspicácia e astúcia como nunca antes usara, sendo estas histórias as que serviram para os autores trabalharem seu perfil detetivesco.

Miniatura DC Nº 26 - Ra´s al Ghul

Damian Wayne nasceu do relacionamento entre Bruce e Tália, porém Batman soube de sua existência quando o menino já era um adolescente. Criado pela mãe e sob o treinamento da Liga dos Assassinos, Damian possui personalidade selvagem e difícil. Hoje ele vive com Batman e é o Robin que temos visto aparecer nos quadrinhos e animações da DC. O avô, Ra´s al Ghul é um vilão muito bom e complexo. Tal qual um Doutor Destino da Marvel, ele carrega conceitos de justiça, lealdade e moral dentro de si. Isto o torna mais difícil de ser decifrado, sobretudo pelo fato de administrar uma causa que muitos se identificam, ou seja, o combate ao efeito negativo da humanidade sobre a criação. Não à toa podemos associa-lo facilmente a personagens ficcionais famosos, como por exemplo Robur, O Conquistador e o Capitão Nemo, ambos de Júlio Verne. Homens que sofreram tragédias e perceberam a crueldade do homem, tornando-se reclusos e com planos de trazer a humanidade à razão, mesmo que seja a força.

Miniatura DC Nº 26 - Ra´s al Ghul

Em minha opinião as histórias envolvendo Ra´s al Ghul devem ser sempre mais associadas à questões dramáticas, do que simplesmente um combate entre "mocinho" e "bandido". Isto coloca o ideal super-heroico em cheque, já que expande o Universo muitas vezes parcial e inflexível do herói.

É isso aí amigos! Deixo um forte abraço à todos!

domingo, 17 de setembro de 2017

O Eternauta


Angustiante, claustrofóbico, sem oferecer quaisquer concessões a seus personagens ou aos desfechos da narrativa, O Eternauta é uma história de ficção científica publicada entre 1957 e 1959. Incrivelmente inteligente, sem clichês e com um final elegante e surpreendente, que oferece inclusive a explicação do que aconteceria se eu voltasse ao passado para encontrar a mim mesmo, O Eternauta estava à frente de seu tempo em 1959 e poso garantir (como alguém que leu muita ficção científica) está também à frente do nosso tempo. A obra foi escrita por Héctor Germán Oesterheld e desenhada pelo fantástico Francisco Solano López, ambos Argentinos. Não posso escrever sobre O Eternauta sem deixar registrado rapidamente em um parágrafo a trágica história do autor Héctor G. Oesterheld. A humanidade deve isso a ele.

Héctor G. Oesterheld e Família - Quase todos assassinados

Em 1976 o General Jorge Rafael Videla chefiou o Golpe Militar na Argentina que depôs a Presidente Isabel Perón. Neste ano, Oesterheld já havia publicado O Eternatuta há muito tempo e se aproximara da resistência política contra o regime ditatorial de Videla. No dia 27 de Abril de 1977 haveria uma reunião da resistência que fora descoberta pelos soldados de Videla. Todos os participantes foram avisados para não ir, menos Héctor, que apareceu no local marcado e foi preso. Todos acharam que Héctor iria delatar os companheiros sob tortura, mas isso nunca aconteceu. Mesmo os leitores nunca ficaram sabendo do desaparecimento de Héctor. As 04 filhas de Héctor (Estela Inés, Diana Irene, Beatriz Mara e Marina) também haviam optado pela resistência política e viviam na clandestinidade. A caçula Marina foi a primeira a ser assassinada pelo regime e a única que Elsa, esposa de Héctor, conseguiu enterrar. Depois do assassinato de Marina, foram assassinadas (também por Videla) Diana, na época grávida do 2º filho, e seu marido. Logo após foi a vez de Beatriz ser assassinada, também grávida (de 8 meses). A filha mais velha (Estela) foi a última a morrer junto com o marido, também assassinados. Héctor foi assassinado por último, possivelmente para que soubesse que sua família havia sido praticamente dizimada. Elsa, sua esposa conseguiu criar 01 neto (Martín), filho de Estela, e encontrou no neto a força para entrar no movimento de resistência Abuelas de Mayo (Avós de Maio), união das avós dos desaparecidos durante o regime de Videla. O regime do sanguinário Videla perdurou até 1983. A história de Héctor G. Oesterheld precisa ser conhecida e propagada para que coisas assim não voltem a acontecer.

Héctor Germán Oesterheld

O Eternauta deve ser lido não em função do sacrifício de Héctor, mas porque a obra tem brilho próprio. E que brilho!! É difícil imaginar que alguém em 1959 tenha imaginado uma história tão claustrofóbica, real, contemporânea e angustiante como O Eternauta. Embora descreva um fenômeno mundial, a história consegue manter o foco em apenas alguns personagens: Juan Salvo (O Eternauta do título), Elena e Martita Salvo (esposa e filhinha de Juan), René Favalli, Alberto Franco, Pablo Ledesma e Ruperto Mosca. A história é narrada por Juan (O Eternauta) ao próprio roteirista (Héctor G. Oesterheld) e, portanto o leitor sabe que o desfecho da história envolverá, possivelmente, muita dor.


Na história, um grande e terrível acontecimento rouba da humanidade qualquer esperança de se perpetuar como espécie na Terra. Um evento que em seu início já produz milhares de mortes. Os poucos que sobram precisam lidar com questões práticas como sobreviver, se alimentar e tentar descobrir quem são os responsáveis por tamanha agressão à nossa raça. A partir daí o autor começa a aumentar a ação que, em vários momentos coloca os personagens principais em situações literalmente inescapáveis. Mas mesmo quando escapam há um custo, e este é um dos brilhantismos do autor, ou seja, qualquer coisa que nos acontece nos muda, tem um preço e nos rouba algo.


Portanto, se você espera ver uma história de saídas fáceis, como se você já imaginasse para onde a história iria, não é o caso aqui. As saídas para os personagens os colocam dentro de situações e cenários até piores que os iniciais. Por ser uma obra escrita em 1959, a forma com que os personagens se tratam é diferente da atual. Não espere por palavrões e expressões de baixo calão. É necessário que entendamos como livros, revistas e a mídia em geral se expressava na época. Na verdade a ausência destas coisas (palavrões e desrespeitos entre as pessoas) não faz absolutamente falta nenhuma. Isto evidencia como este expediente muito em voga hoje em dia (dar relevância à uma obra a partir da quantidade de sangue, palavrões e desrespeitos) é na verdade uma forma de encobrir a falta de talento do roteirista.

A Tomada do Estágio do River Plate

Héctor Oesterheld fez questão de situar a ação em O Eternauta em ruas, praças e monumentos da Grande Buenos Aires. Isto fez com que os leitores da época e das décadas seguintes se familiarizassem e desenvolvessem grande apresso por ela. Atualmente O Eternauta é um clássico dos Quadrinhos Argentinos e, na minha opinião, dos quadrinhos mundiais. Ao ambientar a obra em lugares conhecidos, o autor faz com que o leitor entenda a angústia dos personagens que há pouco  passeavam por aqueles mesmos lugares vivendo suas vidas, e hoje tudo aparece devastado. Outro efeito no leitor é que, sem querer, ele começa a imaginar os lugares que conhece totalmente devastados, tal é a atmosfera que o autor dá às ações. Apesar de não morarmos em Buenos Aires e não conhecermos muitos dos locais mencionados, as reflexões dos personagens nos colocam no mesmo lugar que eles, imaginando a angústia caso acontecesse a mesma história onde moramos.


A arte de Francisco Solano López é perfeita para o clima onírico e de fantasia que se instaura na mente das pessoas envolvidas na história. É impressionante o controle narrativo de López, que consegue expressar nas imagens a fluidez do texto de Oesterheld. Não posso deixar de mencionar coisas que me surpreenderam ao ler a história. Uma delas foi a aparência dos "Gurbos", criaturas que se revelaram em um determinado momento da obra e que, se o leitor observar de perto, é muito parecido com as gigantescas máquinas de 04 patas vistas em Star Wars. Só que com um detalhe, O Eternauta foi escrito duas décadas antes da estreia de Star Wars, ou seja, podemos muito bem ver que muitos beberam na fonte inspiradora que é O Eternauta.


No Brasil não temos (pelo menos que eu conheça) precedente narrativo como o visto em O Eternauta, infelizmente. Carecemos de uma epopeia como essa. É difícil saber o porque e talvez eu não tenha conhecimento nem credencial para supor o porque o Brasil nunca ousou realizar uma obra desta envergadura. Os Argentinos se orgulham muito de O Eternauta. No Bairro de Puerto Madero em Buenos Aires é possível se deparar com a Estátua de Juan Salvo trajado como O Eternauta. Puerto Madero é um bairro que possui lugar importante na história, e nada mais justo do que situa-la ali.

Estátua de O Eternauta em Buenos Aieres - Fonte: http://www.diariodecultura.com.ar/

O desalento no olhar de Juan Salvo - Estátua em Puerto Madero - Buenos Aires

Placa aos pés da Estátua - Fonte: http://ceaa.blogspot.com.br/

Quando Héctor G. Oesterheld foi preso em 1977, chegava às livrarias O Eternauta 2. Volume escrito e desenhado novamente pelos parceiros Oesterhel e López. Héctor não veria a continuação de sua obra chegar às livrarias, pois já estava preso e sendo torturado. Na época, na Europa, alguns roteiristas tentaram fazer alguma coisa por ele, mas sem sucesso. O regime de Videla foi eficiente em manter muitos Argentinos à margem do que acontecia nos porões de seu país. Ainda mais depois que, em 1978, a Argentina sagrava-se campeã da Copa do Mundo de Futebol. No Brasil a obra era inédita em sua versão completa até que, em 2012, a Editora Martins Fontes lançou a obra original, bem como sua continuação. O Eternauta 1 e 2 ainda podem ser encontrados em vários locais no Brasil, inclusive na Amazon Brasil.


O 1º volume de O Eternauta possui um dos finais mais interessantes que já li. Não vou conta-lo aqui, mas saiba que você não consegue saber nem antever o desfecho da História mesmo faltando 01 página para o final. E o mais interessante: este final não decepciona!! Em apenas 01 página Héctor consegue dar um encaminhamento na história que é perfeito!! Você não se decepcionará também.

É isso amigos! Espero em breve trazer uma outra matéria abordando o volume 2 de O Eternauta. Forte abraço!

domingo, 10 de setembro de 2017

Coleção de Cards - Festival Guia dos Quadrinhos: Um Resgate Histórico!!


Se você é fã de quadrinhos, com certeza já se ligou nos eventos sobre o tema por este Brasil afora. Para quem mora em São Paulo (Capital) um destes eventos é o Mercado de Pulgas, chamado a partir de 2016 de Festival Guia dos Quadrinhos (FGQ). Desde 2009 este agradável encontro de amigos vem se fortalecendo ao manter vivo o aspecto "marginal", amigável e verdadeiramente nerd dos quadrinhos. Com o aparecimento dos Mega-Eventos ligados à Cultura Pop, eventos menores e mais focados nas amizades e no aspecto contra-cultural das HQs vinham se perdendo. Quem viveu os anos 70 e 80 sabe que foram estes obscuros e marginais encontros que mantinham viva a chama de uma mídia que por vezes se viu em verdadeiros becos sem saída.


Herdeiro desta tradição, o FGQ é na verdade filho do Portal Guia dos Quadrinhos, uma plataforma no ar desde 2007 e que hoje é o maior banco de dados acerca de lançamentos de Quadrinhos no Brasil. Criado pelo Designer Gráfico Edson Diogo (um dos organizadores do FGQ) o portal é referência para pesquisadores, leitores, jornalistas, editores e tradutores, com quase 200 mil edições, mais de 100 mil capas e 250 mil histórias cadastradas. Na edição de 2016 do Festival, os fãs de quadrinhos que estiveram no local foram presenteados com uma ideia sensacional: um conjunto de 10 cards com capas de revistas extremamente importantes para o quadrinho nacional. Cada card trazia no verso informações importantíssimas sobre a publicação ao contextualiza-la artística e comercialmente.


Na edição de 2017 (que aconteceu no dia 08/04 no Clube Homs - Av. Paulista 735), fomos surpreendidos por mais um conjunto de cards dando continuidade aos do ano anterior. Só que agora, em função do apoio da Loja Virtual Comic Hunter a coleção dobrou de tamanho. Foram oferecidos mais 20 (!!) cards aos participantes. Entre as revistas homenageadas nos cards estão claros expoentes dos quadrinhos mundiais lançados em solo brazuca e que fizeram parte da infância e adolescência de uma verdadeira legião de pessoas, dentre eles: Homem de Ferro e Capitão América Nº 0, Superavanturas Marvel Nº 01, Capitão América Nº 01, Heróis da TV Nº 01, Quarteto Fantástico Nº 01 entre outras.


Revistas em quadrinhos antológicas para o Brasil também estão presentes. O que se constitui em um material de resgate super especial ao também valorizar nossa cultura e tradição. Títulos como O Gibi Nº 03, por exemplo são de uma importância enorme, já que foi esta a  revista que, de tão popular, consolidou em nossa cultura a mania que temos de entendermos HQs como sinônimo de GIBI. 


Outros títulos muito importantes para o Brasil também aparecem, tais como: Chiclete com Banana, O Vigilante Rodoviário, Pererê, Zé Carioca e até mesmo a capa de O Tico-Tico. Publicação que data de (pasmem) 1905!! A expectativa dos organizadores do FGQ é que esta coleção permita aos visitantes formarem um conjunto ímpar de cards que resgatará a memória dos quadrinhos nacionais.





















 





Seguindo a linha editorial aqui do Blog, sempre interessada em resgatar e valorizar a perspectiva histórica da 9ª Arte, eu não podia deixar de valorizar e divulgar esta iniciativa incrível levada à cabo pela equipe de organizadores do Festival. Tudo que nos resta agora é aguardar a edição de 2018 e roer as unhas de expectativa dos novos tesouros a serem oferecidos na forma de cards.

É isso aí amigos! Grande abraço!
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