2021 tem sido um ano de anúncios extraordinários para o leitor de quadrinhos brasileiro. Além da volta de Storm ao Brasil pela Editora Tundra, do recente anúncio do retorno de Corto Maltese de Hugo Pratt pela Editora Trem Fantasma e das diversas obras publicadas de mestres como Alberto Breccia (Ninguém, Viajante de Cinza, Um Tal Daneri, Perramus...) e Sérgio Toppi (O Colecionador, Fábulas do Velho Mundo, Tanka), tivemos também a volta de Ken Parker pela Editoria Mythos. Infelizmente para mim, conheci tardiamente a riqueza do Universo Bonelliano, mas mesmo apesar do meu desconhecimento, Ken Parker sempre esteve em meu radar em função das excelentes análises que sempre li sobre o personagem. Com tantos elogios uma obra sempre corre o risco de estar superestimada. Mas definitivamente não é o caso de Ken Parker. Criado em 1977 pelo roteirista e desenhista Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, respectivamente, a obra que narra a história de Keneth Parker atinge graus de realismo, dramaticidade e poder narrativo impressionantes. O leitor se deparará com uma realidade na qual Berardi não faz concessões ao expressar a dureza da violência e a complexidade das relações humanas norteadas por questões políticas, étnicas e territoriais no ainda fragmentado Estados Unidos do pós Guerra da Secessão (1861-1865). Conflito no qual o Norte (progressista) confronta os Estados Confederados do Sul (ainda resistentes ao progresso e, sobretudo, libertação dos escravos). Ken se difere dos diversos outros personagens dos Westerns ao ser confrontado com questões que o colocam constantemente em cheque, e dentro das quais ele tenta tomar a melhor decisão possível (muitas vezes equivocadas), mas sempre com a humildade de revê-las. O assassinato do seu irmão mais novo nas primeiras páginas da 1ª História da série passa a influenciar profundamente a decisão de Parker a ficar ao lado de pessoas mais fracas. Mas nada é tão simples, pois a ambiguidade das ações do homem branco é sempre um desafio para qualquer homem de bem. As cenas e os desfechos são poderosos e causam forte comoção no leitor. Não pude deixar de ficar sem saber para quem "torcer" nas duas primeiras histórias deste número 01 da Editora Mythos (que se propõe a publica-las em ordem cronológica). Isso porque as ações de índios e homens-brancos são difusas se analisarmos o complexo pano de fundo. Se adotarmos uma base moral simplista, será muito difícil entender na sua totalidade a profundidade de Ken Parker. A ambientação é excelente ao apresentar locais conhecidos dos amantes dos filmes de faroeste. Também não pude deixar de ver o personagem Ken Parker como uma mistura de Daniel Boone (1734-1820 - explorador estadunidense), Henry Thoreau (1817-1862 - naturalista, filósofo e autor da maravilhosa obra WALDEN) e John Muir (1838-1914 - explorador e escritor escocês-americano). Outro ponto que diferencia muito a obra é o fato de que Ken Parker experimentará a passagem do tempo ao longo das edições, mudando seu físico e posições acerca das coisas que o cercam. Berardi/Milazzo inovam ao decidir pela finitude ficcional do personagem. Isso aproxima o personagem do leitor, no entanto, acaba por impor um fim à trama no futuro. Mas assim é a vida real também. Se você quer conhecer uma série de extrema qualidade, adulta e totalmente fora do lugar comum, você precisa conhecer Ken Parker.













































