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sábado, 31 de março de 2018

Duna de Frank Herbert - Livro 1

Ilustração de Marc Simonetti - Editora Aleph

Alguns livros precisam ser conquistados, domados pelo leitor. Sua leitura torna-se uma epopeia, uma batalha que exige estratégia, força, e que, ao longo do tempo, vai se mostrando valer a pena cada minuto investido nesta solitária e íntima batalha que só você tem acesso. Uma batalha que não aparece a olhos vistos, mas é ferrenha em nossa mente. Duna, livro de 1965 de Frank Herbert é um desses livros que vale cada gota de sangue, suor e lágrima derramada sobre ele. Um marco da ficção científica vencedor de vários prêmios que transcende o gênero e alça vôos por outros nichos literários e temas tais como, religião, espiritualidade, poesia, ecologia, política, economia, guerra, vingança, sobrevivência, dor e porque não... vida. Um Universo Ficcional (e aqui talvez eu magoe algumas pessoas) tão rico e profundo que talvez até supere o Universo da Saga da Fundação de Isaac Asimov (até então o melhor para mim) e do Senhor das Anéis de J.R.R. Tolkien. Esta superação talvez ocorra porque Herbert alcança um tom de sacralidade e misticismo muito mais profundo e tocante que coloca sua obra em um nível de credibilidade nunca antes visto por mim. Bem vindos à um Universo de Castas, Religiosidade, Política, Profecias e Messianismo que te levará à uma profundidade interior para a qual a maioria de nós não está preparada. Bem vindo ao Universo de Duna.

Imagem Tradicional de uma Bene Gesserit - Casta de Mulheres iniciadas em Conhecimentos Psicanalíticos

O Universo de Duna é tão vasto que poderia conter centenas de livros, já que o período de tempo em que diversos acontecimentos aconteceram é vastíssimo. Frank Herbert, em seu 1º livro da Saga, começou por um destes eventos primordiais, A Queda da Casa Atreides e ascensão do Herdeiro Paul Atreides. Há 04 forças ao redor das quais o Universo de Duna se constrói: 1) As Grandes e Pequenas Casas, que nada mais são do que feudos familiares de grande ou menor poder; 2) A Irmandade das Bene Gesserit: Mulheres treinadas em rígidos preceitos psicanalíticos e mentais que fazem com que as pessoas cheguem a pensar que tal casta possui poderes místicos, daí o nome de "Bruxas" ou "Feiticeiras" que muitos atribuem às Bene Gesserits; 3) A Guilda Espacial: Um fechado monopólio que no passado dominou as viagens pelo espaço, o que consolidou a coesão do Império; 4) A CHOAM: Uma empresa que detém o comércio da principal e mais rica commoditie da Galáxia, o Melange, ou mais conhecido como a "Especiaria", uma substância que confere ao seu usuário maior longevidade, permitindo a manutenção de sua saúde. No comando deste intrincado equilíbrio encontra-se o Imperador Shaddam IV, da Casa Corrino.

O Planeta Arrakis - Também Conhecido como Duna - Ilustração Sam Weber

Duna, na verdade é o nome que se deu ao Planeta Arrakis, único lugar do Universo conhecido onde se pode encontrar a Especiaria. Duna, no entanto é totalmente árido e possui seus desertos quase infinitos habitados por imensos Vermes da Areia que possuem relação direta com o Melange. Além disso, o planeta possui uma população nativa chamada de Fremen. Homens e mulheres que aprenderam a sobreviver nas agruras do deserto profundo reciclando a umidade dos próprios corpos por meio de trajes altamente especiais (os chamados Trajestiladores). Tudo isso é palco para a história do 1º livro de Herbert, onde nas primeiras páginas ficamos sabendo que o governo de Arrakis foi cedido pelo Imperador à Casa Atreides. Os Atreides são inimigos mortais de outra Casa, a dos Harkonnen, antiga casa gestora de Arrakis. Nada do que coloco neste post é spoiler, já que logo nas primeiras páginas do livro percebe-se que a concessão de Arrakis para a Casa Atreides faz parte de um plano dos Harkonenn para assassinar o Duque Leto Atreides e assim varrer do mapa sua linhagem. Tudo isso poderia mesmo acontecer se não fosse algumas antigas profecias do arredios Fremens, que esperam a chegada de um Messias que um dia iluminará e trará prosperidade à Arrakis. Incrivelmente tais profecias parecem se encaixar totalmente ao perfil do menino Paul Atreides, filho de Leto.

Paul Atreides e o Gom Jabar das Bene Gesserit - Ilustração Sam Weber

Não há como descrever a profundidade com que cada personagem é construído e desenvolvido por Herbert no livro. O Universo de Duna parece-se muito com nossa realidade, no entanto é como se olhássemos por um espelho e enxergássemos um estranho destino para a humanidade. O leitor acompanhará a tragédia abater-se sobre Paul Atreides e ficará atônito com o processo pelo qual o garoto passará para se tornar Paul Muad´dib, o Guerreiro, o Kwisatz Haderach (aquele que pode estar em dois lugares ao mesmo tempo), a Lisan al Gaib (a voz do outro Mundo). Parte da estranheza que nos afeta durante a leitura do livro está na escolha de Frank Herbert em ancorar boa parte de sua mitologia na cultura Árabe ou Indiana. Nossa cultura ocidental acaba por maravilhar-se com a riqueza de termos e costumes dentro de Duna e seus paralelos com as culturas árabe e indu. Este maravilhamento/estranhamento torna-se palpável quando imaginamos que o ponto de partida para muito do que é vivido em Duna são conflitos existentes entre Ocidente e Oriente.

O Barão Harkonnen - Ilustração Sam Weber

Duna seduz e ao mesmo tempo afasta a muitos. Em suas adaptações para outras mídias foi assim também. Em 1975 o já reconhecido cineasta Chileno Alejandro Jodorowsky tentou adaptar para o cinema o Universo de Frank Herbert. Sua empreitada se mostraria um calvário que no final não teve êxito. Tal empenho rendeu um famoso documentário chamado Duna de Jodorowsky, filme biográfico de 2013 no qual é narrado as dificuldades, tentativas e fracassos para a produção de Duna. O cineasta David Linch levaria Duna ao cinema em 1984. Com visual marcante, estranho e em sintonia com os conceitos de Herbert, Linch trouxe atores muito interessantes para os papeis principais, dentre eles Kyle MacLachlan (de Twin Peaks, também de Linch) interpretando Paul Atreides, o músico Sting como o na-Barão Feyd‑Rautha Harkonnen (herdeiro do Barão Harkonnen) e até Patrick Stewart como o Guerreiro da Casa Atreides chamado Gurney Halleck. Embora capitaneado por um cineasta talentoso como David Linch, o filme Duna mostrou-se um Universo a ser conquistado mesmo para cineastas deste calibre, naufragando nas bilheterias na época.

Lady Jessica (Bene Gesserit mãe de Paul Atreides) ao beber da Água da Vida - Ilustração Sam Weber

Duna também foi adaptado na forma de minissérie pelo Canal Sci-fi Channel. A minissérie teve uma continuação chamada Filhos de Duna, produção englobando os dois livros subsequentes à Duna, Messias de Duna de 1969 e Filhos de Duna de 1976. Não assisti à estas minisséries, portanto não posso dizer se são boas. Minha maior expectativa no momento está voltada para uma possível nova produção de Duna para o cinema tendo à frente o cineasta Denis Villeneuve, diretor de Blade Runner - 2049, A Chegada e Sicario. O Universo Duna é tão rico que, além de cineastas, também chamou atenção de diversos ilustradores, que tentaram deixar sua visão dos lendários e estranhos personagens da Saga. Algumas destas interpretações já foram apresentadas acima (de Marc Simonetti e Sam Weber). Abaixo segue a visão do ilustrador Tom Kraky.

Casa Atreides

Casa Harkonnen

Homens do Círculo Interno dos Atreides

Homens Fremen

Aqui fica meu testemunho da beleza, estranheza, riqueza e profundidade do Mundo criado por Frank Herbert. A Editora Aleph lançou no Brasil os 04 primeiros livros da Saga em excelente acabamento: Duna (1965), Messias de Duna (1969), Filhos de Duna (1976) e O Imperador Deus de Duna (1981). Faltaria ainda Os Hereges de Duna (1984) e As Herdeiras de Duna (1985). Todos estes livros são de autoria do criador Frank Herbert. Posteriormente ao falecimento do autor em 1986, seu filho Brian Herbert publicou outros livros em parceria com Kevin J. Anderson expandindo mais ainda o Universo criado por seu pai. Tais livros não possuem publicação no Brasil, são eles: House Atreides; House Harkonnen; House Corrino (Prelude to Dune 3); The Bluterian Jihad; Dune: The Machine Cruzade; The Battle of Corrin.

Grande abraço à todos!

domingo, 25 de março de 2018

Miniatura Marvel Nº 58 - Jaqueta Amarela

Miniatura Marvel Nº 58 - Jaqueta Amarela

Em que mundo vive Henry (Hank) Pym (o alter ego do Homem-Formiga e do Jaqueta Amarela)? Hank sempre viveu no mundo dos livros e das pequenas coisas. Mas não só ali... o Dr. Pym também habita em obscuros lugares da psiquê humana. Arrastado por questões que envolvem autoestima, autodepreciarão e ao mesmo tempo uma dificuldade muito grande de enxergar seu próprio valor, Hank foi sendo corroído em sua brilhante mente. Uma mente que rivaliza com outras grandes mentes do Universo Marvel, como por exemplo Reed Richards, Tony Stark e Victor Von Doom. Hoje revisaremos um pouco do passado deste que é um dos Vingadores fundadores e participou direta ou indiretamente de vários momentos cruciais da mitologia Marvel como um todo.

Miniatura Marvel Nº 58 - Jaqueta Amarela

Talvez justamente em função de sua personalidade cheia de facetas, Hank foi um dos homens que mais mudou de codinome em sua vida heroica, tendo sido chamado de Homem-Formiga, Gigante, Golias e Jaqueta Amarela. A Coleção de Miniaturas Marvel da Eaglemoss representa Hank Pym em duas de suas encarnações: Jaqueta Amarela e Gigante, este último dentro do segmento especial da coleção. A representação de Jaqueta Amarela ficou bem interessante. Aliás, seu uniforme sempre me chamou muito a atenção. É impossível não observar linhas e  acessórios que nos lembram um inseto (talvez a grande fonte de inspiração da vida de Hank), em especial a formiga. A grande aba que se projeta a partir do cinto ganhando altura e volume ao longo do tórax, ombro e costas é arrojada e totalmente vinculada à época (final da década de 60). Época em que trajes futuristas deste tipo eram criados para representar exploradores, viagens espaciais e psicodelia. Por isso, embora possa nos parecer estranho um traje como este atualmente, ele era perfeitamente ajustado às intenções da época.

Miniatura Marvel Nº 58 - Jaqueta Amarela

A máscara cobre parte do rosto e conjuga um par de antenas favorecendo a vinculação ao estereotipo do inseto. Luvas e botas negras e lustrosas nos dão a impressão de serem de borracha, algo compatível com o resto da indumentária. Há alguns deslizes na pintura da peça, deixando os contornos e os limites entre as cores não muito bem delimitados, isto poderia ter sido melhor realizado. No entanto, a modelagem da musculatura é bem correta, tanto de membros inferiores (quadríceps e panturrilhas) quanto de membros superiores (deltóides, bíceps, tríceps, peitorais e abdominais). A presença da heroína e ex-eposa de Hank, a Vespa, sobre o ombro esquerdo do herói traz um toque bem interessante e, apesar de sua versão diminuta, a heroína aparece bem. Gosto desta peça como um todo e na estante ela tem boa presença.

Miniatura Marvel Nº 58 - Jaqueta Amarela

Falemos então do Dr. Pym a partir dos acontecimentos mais longínquos de seu passado, seu casamento com a Húngara Maria Trovaya. Maria era emigrante da Hungria comunista e os eventos que envolveram este primeiro e curto casamento de Hank não são tão claros. O casal resolveu passar a Lua de Mel no país natal de Maria, sem perceberem o perigo que isso representava, pois em represália à deserção de Maria ela foi assassinada pela polícia Húngara (possivelmente para prevenir futuras deserções). De volta aos EUA, um arrasado e impotente Hank jurou lutar contra injustiças como a que sofrera, e assim assumiu seu lado científico, tornando-se um dos maiores bioquímicos do mundo, também especializado em robótica. A primeira grande descoberta de Pym foram as partículas subatômicas que foram batizadas com seu nome (Partículas Pym). As partículas permitiam que Hank manobrasse massa para uma dimensão paralela, daí a capacidade que ele ganharia tornando-se diminuto (em sua carreira como Jaqueta Amarela e Homem-Formiga) ou enorme (em sua carreira como Gigante e Golias). Não sabemos exatamente se foi o assassinato de Maria que trouxe à alma de Hank suas desconfianças a respeito de si mesmo, mas sabemos que desde sua primeira investida no mundo dos heróis como Homem-Formiga ela já estava presente.

Miniatura Marvel Nº 58 - Jaqueta Amarela

Dentre seus primeiros atos heroicos, ainda como Homem-Formiga, Hank salvou a jovem recém órfã, herdeira e socialite Janet van Dyne de um raptor alienígena. Janet era um misto de "patricinha", aventureira e dama da alta sociedade e, talvez por isso tudo, encantadora. Hank e Janet passaram a namorar a não tardou para que ela também passasse a utilizar as partículas de Pym, assumindo o codinome de Vespa. Hank e Janet participaram da formação original dos Vingadores, sendo considerados membros fundadores ao lado de Thor, Homem de Ferro e Hulk. Talvez o maior ponto de inflexão na vida de Hank tenha acontecido logo à frente, ou seja, o que foi seu maior triunfo também foi seu maior e eterno pesadelo, a criação da Inteligência Artificial Ultron. Instalado dentro de um robô à princípio rudimentar, Ultron logo evoluiu para outras formas que o contivesse. Com um profundo ódio pela humanidade e um total "complexo de Édipo", Ultron tem como único objetivo exterminar a humanidade e fazer Hank sofrer. A raiva de Ultron pelo pai se deve ao fato de seu genitor não ter compartilhado sua terrível visão a respeito da humanidade, gerando no robô um enorme sentimento de abandono.

Miniatura Marvel Nº 58 - Jaqueta Amarela

Hank Pym sofreria o resto de sua vida o tormento por ter criado a coisa mais letal já feita pelo homem. É difícil para nós entendermos como alguém que é um super-herói, rico, casado com uma linda mulher e reconhecidamente um gênio científico, tenha um olhar sobre si mesmo autodepreciativo. Mas isso é mais comum do que pensamos. Quando somos crianças, construímos crenças a respeito de nós mesmos que se consolidam quando crescemos. Caso em nossa infância e juventude não tenhamos o apoio, o reconhecimento e a validação de nossos pais ou responsáveis, possivelmente cresceremos e teremos dificuldade em acreditar que somos funcionais, que o que fazemos tem valor, que aquilo que decidimos deve ser respeitado. Na verdade ficaremos o resto da vida buscando validação para nossos atos e decisões, esperando que as pessoas (geralmente nossos cônjuges, amigos ou chefes) validem quem somos. Lidar com isso é uma das coisas mais doloridas, pois mexe com crenças matriciais que temos a nosso respeito. Em relação a Hank Pym, não temos dados acerca de sua infância ou juventude, mas independente disso sua personalidade amargurada, frustrada e triste por não se sentir à altura dos demais, é um alerta à todos nós. Não é questão de fazermos apologia à soberba ou orgulho (o que está na verdade no outro extremo deste problema), mas sim buscarmos entender que temos nosso valor inerente à nós mesmos, nem mais, mas também nem menos.

Miniatura Marvel Nº 58 - Jaqueta Amarela

O Jaqueta Amarela nasceu dentro de Hank Pym a partir de uma cisão de personalidade. Toda frustração e dúvidas a respeito de seu valor culminaram com a liberação de uma personalidade rebelde, ousada, confiante e impertinente. O deflagrador desta cisão foi um acidente no laboratório de Hank que o fez inalar alguns gases que ajudaram a liberar esta força interna dentro dele. Foi nesta época que Hank (Jaqueta Amarela) e Janet (Vespa) se casaram. Os dois se amavam, mas como em geral acontece, toda frustração e dor de uma pessoa é liberada sobre aquele (a) que está mais próximo (a), e assim foi que Janet foi a primeira heroína dos quadrinhos a receber maus tratos do marido e a protagonizar um terrível e dolorido caso de violência doméstica (isso aconteceu na década de 70 dentro das revistas dos Vingadores). Tudo isso resultou na expulsão de Hank dos Vingadores e no difícil e longo caminho de sua recuperação. Hank e Janet, no entanto se separariam e viveriam suas vidas separadas apesar do amor mútuo.

Miniatura Marvel Nº 58 - Jaqueta Amarela

Em junho de 2016 a Panini-Brasil lançou uma HQ chamada Vingadores - A Ira de Ultron. O encadernado tem roteiro de Rick Remender e está inserido no selo Original Graphic Novel, o chamado selo OGN. A proposta deste selo é resgatar o conceito inicial de uma Graphic Novel, ou seja, uma história fechada que apresente um tema importante e de grande influência, e não apenas uma coletânea de HQs quaisquer. Vingadores - A Ira de Ultron traz o destino atual de Hank Pym. Distante de Janet, e consumido por mágoas, frustrações e decepções, Hank tenta lutar contra a oferta de Ultron, que sempre foi que se juntasse a ele na cruzada contra as incoerências e pecados da humanidade. O encadernado é excelente e recomendo sua leitura para entender Hank Pym e seu trágico e, por enquanto, atual destino!!

Ok amigos... Um forte abraço à todos vocês!!

sábado, 17 de março de 2018

Pantera Negra


Infelizmente não sou antropólogo, sociólogo ou historiador como a maioria dos usuários do Facebook, por isso gostaria de fazer alguns comentários sobre o filme Pantera Negra (EUA 2018) sob a perspectiva de um simples fã que procura não perder aquela velha "chama" que brilhou a 1ª vez que viu este fantástico mundo ficcional dos quadrinhos. Muitas vezes as teorias, academicismos e análises dentro de análises acabam por enterrar aquele brilho que todos nós "nerds" temos dentro de nós, acabando por restar apenas pessoas que não são mais capazes de enxergar o simples, o encantador e o catártico nestas histórias. São "nerds" que se perdem no caminho e se transformam em peças ocas nas quais um dia habitou o brilho que mencionei acima. Pantera Negra atendeu todas as expectativas que eu tinha e as superou, entendendo que minhas expectativas estavam ancoradas na perspectiva que mencionei acima, ou seja, de alguém que não quer se perder no mundo virulento das agressividades tão vigentes hoje em dia nas redes sociais, mas quer apenas ver seus personagens amados representados na tela.


Dito isto, eu gostaria de citar características que, para mim, fizeram do filme um manifesto da rica, milenar, sofrida e poderosa cultura negra. Uma das coisas que mais gostei foi o fato do Diretor ter conseguido construir Wakandanos realmente livres e que nunca sequer se sentiram marginalizados. Eles apenas eram o que eram, ou seja, pessoas como qualquer outra. Tanto que para muitos deles a ideia de existir um mundo onde o quesito "raça" promova certas divergências soa até patética. Com isso o Diretor Ryan Coogler transcendeu a discussão racial (muitas vezes superficial) que toma conta de incontáveis páginas do Facebook. Um ser humano é um ser humano, e ponto. Por outro lado, Coogler não cai na fantasia utópica também, uma vez que traz para o palco alguém que viveu a segregação e a dor, o "vilão" Killmonger. A pergunta aliás, que me ocorreu ao ver as motivações de Killmonger foi: É possível que depois de tanta dor, humilhação e frustração uma raça possa simplesmente mudar uma "chave" mágica e se torne um povo como os Wakandanos, com todos os predicados mencionados acima? Esta é uma das muitas questões que se apresentam diante do espectador ao longo da obra, um verdadeiro choque de irmãos com destinos diferentes.


Outro ponto maravilhoso no filme foi o orgulho com que foi interpretado e apresentado a cultura africana. Poderosa, colorida, profunda e antiga. Muitos já passaram pela experiência de assistir um filme e querer se parecer com os personagens apresentados na tela. Pois foi assim que me senti, quis ser negro, ser detentor daquela força, poder, ginga e alegria. Em meu post no Facebook mencionei que o filme transcendia seu gênero ao apresentar esse elemento, e acredito que ao proporcionar tais sensações, é isso mesmo que ocorra, ou seja, o gênero de "super-heróis" tem um incrível potencial de fortalecer culturas, inspira-las e produzir padrões elevados a serem seguidos. Tudo isso sem perder de vista o Universo ficcional e canônico no qual os personagens estão inseridos. Cabe dizer, aliás que o gênero "super-herói" sempre será relevante se ele fizer o que algumas importantes obras de fantasia fizeram no passado (Star Trek, Star Wars...), ou seja, mantiveram-se fiéis ao humano e não deixaram o "efeito especial", as explosões, violência e a pancadaria serem o prato principal. O principal sempre terá que ser o homem, suas incoerências, discrepâncias, idiossincrasias e dores.


Todas as mulheres do filme estavam excelentes em minha opinião. Todas mostraram-se à altura do papel que tinham, sem perder a feminilidade e charme. Cito também um aspecto que me deixou extremamente interessado, que foi o sotaque dos Wakandanos. Percebe-se uma entonação própria que os diferencia. Talvez isto tenha contribuído para serem vistos com o distanciamento necessário para serem considerados uma nação distinta. Não pareciam Norte-Americanos, mas sim homens e mulheres vindos de um outro lugar. Este detalhe trouxe credibilidade e identidade distinta ao povo, diferenciando-os do norte americano. Acredito que isso foi proposital para gerar este efeito.


Gostei muito do fato de Martin Freeman (o personagem que representava o ocidental típico no filme) ter tido um papel relevante mas ao mesmo tempo secundário, ou seja, os protagonistas eram os Wakandanos. Digo isso porque sempre foi "lugar comum" nos filmes a trama ser resolvida por um herói tipicamente americano ou europeu. Nada contra isso, mas poucas vezes se viu o contrário no cinema, ou seja, quem chega para salvar o dia em Pantera Negra, ou que tem a força para mudar as coisas não são os típicos ocidentais, mas os próprios africanos habitantes de sua terra. A Marvel teve a sensibilidade de empoderar quem deveria efetivamente ser empoderado no filme. Lembro, por exemplo, da crítica de Muhammad Ali quando, em uma entrevista, ele mostrou sua estranheza frente ao fato do Homem das Selvas (no caso Tarzan) ser um homem branco que trazia a habilidade de se comunicar com os animais e liderar as tribos africanas. Seria muito mais plausível imaginar que o detentor de tais habilidades fosse um homem negro africano, uma vez que seu povo habita aquele continente há centenas de milhares de anos. Este tipo de inconsistência não existe em Pantera Negra.


Um dos momentos mais importantes para mim foi a cena de morte de Killmonger ao lado do Pantera Negra ao por do sol Wakandano. Estranhamente durante a cena foi possível perceber a formação de um vínculo entre os dois personagens. Algo que só se forma quando há um grande respeito entre dois oponentes. A frase de Killmonger resume muito a epopeia do seu povo quando ele diz que preferia "pular do navio" e morrer no mar (referência aos negros que preferiam pular dos navios negreiros a serem conduzidos para uma morte lenta como escravos) do que ser preso novamente. O comentário do Killmonger dá a dimensão da tragédia de todo um povo.


Por fim, não posso deixar de mencionar as várias "alfinetadas" que o filme dá em alguns líderes mundiais, dentre elas a citação sobre a necessidade da "construção de pontes" e não de "muros" entre nações. Em um mundo em que seus líderes apelam cada vez mais para expedientes separatistas, protecionistas e algumas vezes xenófobos é muito importante termos filmes e obras que se coloquem contra isso.

Bom amigos... É isso aí... Deixo meu grande abraço à todos vocês e Wakanda Forever!!

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Miniatura Marvel Série Especial Nº 13 - Ronan

Miniatura Marvel Especial Nº 13 - Ronan

Conhecido pelo grande público apenas recentemente por ocasião de sua participação no filme Guardiões da Galáxia- Vol. 01, Ronan - O Acusador possui na verdade uma grande e longa carreira na galeria Marvel. De personalidade complexa, visto hora como vilão, hora como libertador e até mesmo herói, Ronan construiu sua reputação ficcional ao longo de mais de 50 anos. Sua 1ª aparaição data de Agosto de 1967 na Revista Fantastic Four Nº 65. Criado por Stan Lee e Jack Kirby (nossos Lenon & McCartney dos Quadrinhos), o personagem foi gerado em meio a fase mais profícua da dupla de gênios, ou seja, em meio ao tsunami criativo que foi a Era de Prata dos Quadrinhos na Marvel. Embora conhecido em sua superficialidade vilanesca no filme de James Gunn, Ronan é bem mais que um Guerreiro qualquer, é um ser que sintetiza o orgulho, o belicismo e o senso conquistador e patriótico da raça da qual faz parte, os Krees.

Miniatura Marvel Especial Nº 13 - Ronan

Ronan aparece muito bem na Coleção de Miniaturas Marvel da Eaglemoss dentro de seu Segmento Especial. Caso observemos de perto o conceito que envolve sua indumentaria e aspecto físico, verificaremos que sua concepção mistura os conceitos de "monge", "legislador/doutrinador" e "carrasco", ou seja, personagens que habitam nosso imaginário coletivo como sendo a síntese do detentor da sabedoria e leis antigas (monge), do juiz (legislador) e do executor (carrasco). Lee e Kirby conseguiram destilar estes conceitos ao conceberem um personagem que, com seu capuz, túnica e machado, puxa facilmente estes arquétipos do recôndito de nossa mente. E eis aí o porque os dois (Lee e Kirby) realmente merecem o reconhecimento eterno dos fãs de quadrinhos (sem brigas sobre quem é maior que quem). O acréscimo de alguns detalhes, tais como, braceletes e botas estilo "espacial", bem como uma face branca completam o visual para evocar a origem alienígena de Ronan. E é este conjunto de detalhes conceituais que fazem dele um excelente personagem já em seu nascedouro.

Miniatura Marvel Especial Nº 13 - Ronan

A pintura da peça está muito bem delimitada, além disso o dourado que envolve pernas e braços está numa tonalidade que lembra "metal", dando credibilidade à estatueta. A morfologia muscular está excelente em minha opinião. O artista da peça preocupou-se em definir de forma adequada os principais grupos musculares do corpo. Observamos isso ao inspecionarmos os membros inferiores com seu quadríceps, membros superiores com o bíceps e deltoide e o tronco com a definição do ventre muscular dos abdominais. O colete que recobre o tronco de Ronan possui estranhos grifos nas regiões anterior e posterior que lembram em muito, as antigas linhas egípcias, o que acrescenta um ar milenar ao conceito. É impossível não associar estes detalhes à influencia que muitos artistas tiveram, no final da década de 60, de obras como o livro Eram os Deuses Astronautas de Erich von Däniken e de filmes como 2001 - Uma Odisseia no Espaço de Arthur C.Clarke/Stanley Kubrick.

Miniatura Marvel Especial Nº 13 - Ronan

Ronan nasceu nasceu no Planeta Hala, localizado dentro da Galáxia Satélite conhecida por todos  aqui na Terra como Nuvem de Magalhães. Hala é o lar da conquistadora, imponente e belicosa raça Kree. Os Krees chegaram a visitar nosso Planeta quando o homem ainda estava em seus estágios evolucionários iniciais, há centenas de milhares de anos. Na época, os alienígenas Krees separaram um ramo de nossa raça para realização de experimentos genéticos e, desta cepa humana, nasceram o Inumanos. Caso você seja minimamente versado em quadrinhos, também se lembrará de outro Kree famoso, o soldado Kree que ficou conhecido como Capitão Mar-Vell. Ronan vinha de uma família da aristocracia Kree de pele azul, e por isso não tardou a integrar a Tropa dos Acusadores Públicos, uma força tarefa responsável em manter a lei no Planeta Hala e dentro da circunscrição do Império Galáctico Kree. Ronan ascendeu rapidamente na hierarquia da Tropa passando a ser o 3º na representatividade do povo Kree, estando abaixo apenas do Ministro Imperial e da Inteligência Suprema, este último um ser tecno-orgânico que congrega a junção de todas as mentes de grandes e ilustres membros da raça Kree já mortos.

Miniatura Marvel Especial Nº 13 - Ronan

A 1ª incursão de Ronan ao nosso Planeta ocorreu há muito tempo quando cientistas desavisados ativaram um Sentinela Kree adormecido no Ártico. O Sentinela Kree-459 tinha como função monitorar a atividade dos seres humanos e reporta-la ao Império. Ao ser despertado, o Robô entrou em modo de defesa colocando a vida dos cientistas em risco. A situação foi resolvida pelo Quarteto Fantástico, que conseguiu sobrepujar o robô. Ronan foi enviado a Terra para confrontar aqueles que haviam danificado a propriedade Kree. Assim, disposto a julgar e condenar o Quarteto, Ronan foi também confrontado e sobrepujado pelos heróis, o que despertou no Acusador um rancor e um desprezo pelo nosso Mundo, que além de tudo já possuía energia atômica. O próximo contato de Ronan com a Terra envolveu os Vingadores, que tentaram proteger-nos de um plano de Ronan de expor todos os seres humanos à uma névoa que acionava determinados genes primitivos adormecidos dentro de nós, forçando-nos a involuir à homens primitivos. O desfecho deste arco desenbocou no que ficou conhecido como A Guerra Kree-Skrull, uma Guerra que envolveu os Krees e seus eternos inimigos, os Skrulls. A partir desta guerra, a Terra passaria a ser vista como estratégica tanto pelos Krees quanto pelos Skrulls, tendo os Vingadores como os únicos defensores capazes de fazer frente à dominação alienígena.

Miniatura Marvel Especial Nº 13 - Ronan

Ronan chegou a destronar a Inteligência Suprema Kree assumindo papel de grande monarca de seu povo. No entanto, seu reinado não foi duradouro ao ser envolvido em vários acontecimentos de ordem galáctica, dentre eles a onda de Aniquilação (um tsunami destrutivo emanado a partir da Zona Negativa tendo o Aniquilador como protagonista) e a Invasão Shiar sobre o Império Kree. Eventos como esses forçaram Ronan a ter que pensar além de seus sonhos de poder pessoal para tentar salvar seu povo. Isso fez com que ele ganhasse a simpatia não apenas dos Krees, mas também de outros povos do Universo. Talvez o evento mais emblemático dentro desta nova concepção de Ronan tenha sido a aliança que ele fez com Raio Negro (soberano dos Inumanos). Aliança que foi selada com seu casamento com Cristalys, irmã de Medusa, a esposa de Raio Negro. O casamento selou a união das casas reais, transformando Ronan e Raio Negro em parentes.

Miniatura Marvel Especial Nº 13 - Ronan

Ronan já se envolveu em batalhas com os principais heróis do Universo Espacial da Marvel, dentre eles Nova, Surfista Prateado, Senhor das Estrelas, Adam Warlock e Gamora, dentre outros. Sua trajetória pavimentou um sólido caminho mitológico para si, e sua personalidade rígida transita entre o que é certo para seu povo e sua imagem pessoal de soberano. As decisões dos roteiristas em fazê-lo repensar suas ações deixaram-no mais interessante ainda enquanto personagem, e espero que no futuro ele possa ser aproveitado cada vez mais.

Miniatura Marvel Especial Nº 13 - Ronan

Evoluindo de um alienígena inicialmente ensandecido em suas primeiras histórias, para um monarca sábio e habilidoso, Ronan é muito mais do que sua participação em Guardiões da Galáxia apresentou. Para aqueles que o conheceram apenas pelo filme, seria interessante aprofundar-se em sua complexa personalidade, pois ela sintetiza muito bem a ambiguidade de nossos tempos.

 Bom amigos... É isso aí. Um forte abraço à todos!!

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Guerras Secretas - 1984

Releitura da Capa do Nº 01 de Guerras Secretas por Alex Ross

Todo leitor possui algumas lacunas em seu currículo em função de questões alheias à sua vontade. Correria, oportunidade, finanças... Enfim, situações que de alguma forma privaram o fã de ler determinada obra. Eu tenho algumas destas lacunas em meu currículo de leitor. Uma delas eu acabei de preencher ao ler a lendária história Guerras Secretas de 1984, a chamada Marvel Super Heroes Secret Wars original! A história foi um marco na história das Histórias em Quadrinhos de Super-heróis por alguns motivos, dentre eles o crossover entre grupos que até então haviam se encontrado esporadicamente e as consequências da saga que realmente mudaram rumos e estabeleceram novas perspectivas na vida de vários personagens. Mas talvez o mais importante tenha sido uma narrativa que mesmo após mais de 30, mantem seu frescor. Guerras Secretas I, como também ficou conhecida, foi publicada originalmente nos EUA de Maio de 1984 à Abril de 1985 em 12 números e foi criação do Editor Chefe da Marvel na época Jim Shooter com desenhos de Mike Zeck.

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 01 - Maio/1984

A condição sobre a qual a Saga foi concebida é de conhecimento de muitos, ou seja, a fabricante de brinquedos Matel encomendou uma saga que pudesse servir de base para um lançamento de bonecos de heróis Marvel. O nome Guerra Secreta surgiu a partir de uma pesquisa que a fabricante fez que mostrou que as palavras "guerra" e "secreto" eram conceitos muito populares entre o público infanto-juvenil na época. Nesta matéria, no entanto eu gostaria de me fixar em elementos que na minha opinião fizeram da Saga uma obra realmente boa.

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 02 - Junho/1984

A premissa da Saga envolve um ser extremamente poderoso (O Beyonder), capaz de destruir galáxias inteiras e moldar o tempo e o espaço. Este ser, por um determinado motivo até hoje incerto passou a ter acesso à nossa dimensão. Sua curiosidade então recaiu sobre os seres humanos na Terra e, após sondar os seres mais poderosos do nosso planeta, resolveu escolher aqueles com corações e mentes interessantes de serem estudadas. Com isso transporta um conjunto de heróis e vilões para o extremo do Cosmo para um Planeta formado por uma colcha de retalhos (fragmentos) de outros planetas. Ali, heróis e vilões deveriam se enfrentar e assim, o vitorioso, receberia a realização de seus desejos. Beyonder no fundo estava interessado na dinâmica entre os personagens, nas estratégias pessoais de resposta à seu estranho torneio. Mais do que gerar uma luta, logo se percebe que o grande objetivo é se estudar a psiquê humana. E aqui já temos a 1ª grande sacada da história: o embate maior se dá através dos relacionamentos, alianças, traições e reviravoltas que Shooter soube aproveitar bem.

Composição dos Time dos Heróis escolhidos pelo Beyonder

A escolha dos personagens para integrar os times de heróis e vilões obviamente se deu mais em função da facilidade da fabricação dos bonecos para venda, do que por motivos dramáticos em favor da trama. No entanto, no time dos heróis temos representados os principais eixos criativos da Marvel da época: Quarteto Fantástico, Vingadores, X-Men, Homem Aranha e Hulk Detalhe interessante foi Magneto ter sido alocado junto aos heróis. Explicações são dadas a este fato ao longo da história com base nas motivações internas de Magneto junto aos Mutantes. Do outro lado, no time dos vilões temos representantes pesos pesados como Dr. Destino, Kang (muito apagado na história aliás), Dr. Octopus, Lagarto, Ultron, Encantor, Homem-Molecular entre outros. Talvez a escolha mais acertada para dar maior dimensão à história foi trazer ninguém menos que Galactus - O Devorador de Mundos.

Composição dos Time dos Vilões escolhidos pelo Beyonder

Temos que lembrar que a história foi concebida em uma década em que os personagens não eram desenvolvidos na profundidade que são hoje. Isso, no entanto não deixa a história menos envolvente e interessante. Há uma tensão entre eles, inclusive sexual, que transborda nos quadros. Por exemplo, esta tensão sexual pode ser vista fortemente entre o Homem-Molecular e Vulcana (uma mulher sem poderes que é transformada pelo Dr. Destino, ao longo da história, em alguém muito poderosa), entre o Homem-Aboservente e Titânia (outra experiência de Destino em cima de uma mulher comum), e até entre (pasmem) Magneto e a Vespa. É interessante notar que os personagens são simples em suas construções, no entanto são extremamente interessantes de serem observados em função da forma com que foram escritos. Há alguns clichês que acabam sendo até interessantes se analisados sob uma perspectiva histórica.

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 03 - Julho/1984

A tensão está presente também entre as equipes (Quarteto Fantástico, X-Men e Vingadores) e é o 2º ponto de destaque da obra. Personagens sempre vistos como relativamente passivos (caso do Prof. Xavier por exemplo) saem de sua postura tradicional e partem para um enfretamento ao entenderem o que está em jogo. Acredito que a Marvel foi feliz em mostrar este embate entre equipes na época, pena que demoraria tanto tempo para retomar este conceito em suas publicações. Somente em Guerra Civil de Mark Millar em 2006 é que teríamos esta premissa elevada e aproveitada em seu máximo novamente. Guerras Secretas trouxe mudanças importantes que reverberam até hoje na Marvel, por exemplo: foi no Planeta criado pelo Beyonder que o Homem-Aranha descobre uma máquina que faz trajes resistentes. Infelizmente ele não encontra a máquina correta no laboratório e usa um outro dispositivo que materializa seu famoso traje escuro, que passa a ser sua indumentária a partir dali. Depois viríamos a descobrir que este traje na verdade era o parasita chamado Venom.

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 04 - Agosto/1984

Outra grande mudança foi o fato do Coisa escolher ficar no Mundo Bélico do Beyonder para refletir sobre sua condição de "monstro" na Terra. Estranhamente, Ben Grimm conseguia controlar sua transformação no Coisa no planeta do Beyonder. Esta habilidade impacta profundamente o herói, que decide permanecer naquele local para pensar a respeito. Isto desencadearia um período de histórias do Quarteto Fantástico tendo a Mulher-Hulk em substituição ao nosso querido Coisa. Tais mudanças foram ousadas e podemos coloca-las como o 3º ponto de destaque da obra, ou seja, a coragem de terem alterado pontos importantes na vida dos personagens.

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 05 - Setembro/1984

Não posso deixar de citar como outro ponto de destaque, e aqui vai nosso 4º ponto, a participação de Galactus. Jim Shooter soube entender o personagem Devorador de Mundos como ele realmente é, ou seja, um ser muito acima dos seres humanos. Com isso Shooter tomou a sábia decisão de não inserir Galactus nas estratégias menores dos heróis e vilões durante a Saga, deixando-o como uma ameaça sombria e enigmática pairando sobre tudo e todos. O primeiro embate entre Galactus e Beyonder no início da história já serviu para mostrar o quanto o Beyonder era superior à um dos seres mais poderosos do Universo. Isto serviu para dar a dimensão de quem era este estranho ser de outra dimensão. Aliás, em nenhum momento o Beyonder se materializa ou é apresentado fisicamente, o que permite ao leitor especular sobre a verdadeira identidade dele, podendo até em alguns momentos associa-lo com Deus.

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 06 - Outubro/1984

Muitos talvez não saibam sobre a história de Guerras Secretas I aqui no Brasil, mas a publicação desta saga aqui foi algo que realmente vale mencionar. A Editora Abril, detentora dos direitos da Marvel em nosso país na época, estava com a publicação das revistas Marvel com uma diferença de cerca de 04 anos em relação ao que saía nos EUA. A Saga foi publicada aqui apenas em 1986, só que nesta época estavam saindo histórias aqui do início dos anos 80. Para equalizar o lançamento da saga com a chegada da linha de brinquedos da Matel pela Guliver, a Editora precisou reescrever muitos diálogos entre os personagens, já que muitas coisas dentro de Guerras Secretas eram inéditas em relação às histórias que estavam saindo aqui. Personagens precisaram ser suprimidos da história, caso de Vampira e Capitã Marvel, que na versão Brasileira não apareciam. Até mesmo o final foi reescrito para que tudo se encaixasse ao momento no qual os personagens viviam por aqui. Esta saga "abrasileirada" é hoje considerada um item de colecionador, já que é única no mundo.

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 07 - Novembro/1984

No Brasil, a editora Panini lançaria a Saga original na integra em alguns momentos específicos no últimos anos: em 2007 em edição encadernada, em 2016 dentro da Coleção Histórica Marvel (em 04 volumes) e novamente em 2016 em um volume de luxo com capa dura com todo o arco original. A Editora Salvat também lançou a série em 2015 duas edições (Parte 01 e 2) capa dura dentro da Coleção Oficial de Graphic Novels da Marvel.

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 08 - Dezembro/1984

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 09 - Janeiro/1985

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 10 - Fevereiro/1985

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 11 - Março/1985

A Guerra Secreta dos Super-heróis Marvel Nº 12 - Abril/1985

É isso aí amigos... Uma série a ser lembrada, lida e reconhecida como um exemplo de que histórias boas não necessariamente necessitam de expedientes chocantes, violentos em demasia ou mesmo polêmicos para serem boas.
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