sábado, 6 de junho de 2015

A Saga do Monstro do Pântano - Vol. 01


"Não há nada mais triste do que o grito de um trem no silêncio noturno.
É a queixa de um estranho animal perdido, único sobrevivente de alguma espécie extinta, e que corre, corre, desesperado, noite em fora, como para escapar à sua orfandade e solidão de monstro."
Mario Quintana

Em seu poema intitulado "Desespero", Mario Quintana destila a quintessência do mito do Monstro... Aquele que não tem ninguém mais a não ser a si próprio. Há muito tempo o genial roteirista Alan Morre não apenas destilou esse mito, mas encheu toneis e mais toneis de uma prosa lírica e profunda em que apresentou suas ideias para o que é o "VERDE". A entidade gigantesca, milenar, silenciosa, onipresente e poderosa que divide o mundo com os homens e animais, ou seja, que divide sua existência com o "VERMELHO", ou seja, nós. Uma entidade que, talvez por ser por demais sábia, um dia silenciou-se ao perceber a inexorabilidade da vida e de seu destino rumo à destruição. Um destino inerente aos processos eternos.

O Monstro do Pântano - Por Michael Zulli

É possível que um dia, em tempos imemoriais, tenhamos tido contato mais intimo e profundo com essa essência, quem sabe no Jardim do Éden antes da queda, porém essa conexão se rompeu e nos descolamos por completo de sua consciência. O que temos hoje (como espécie) são apenas ecos compartilhados com o VERDE, ecos que podem ser ouvidos, ou melhor "sentidos", se ficarmos bem quietos e serenos em meio à profusão verde.


Em 1984 um ainda jovem Alan Moore assumiria o título de um personagem que ainda não havia atingido todo seu potencial dramático, mas que só excelentes roteiristas tem acesso. Baseando-se (provavelmente) na teoria do Campo Morfogenético de Rupert Sheldrake, Moore constrói uma das mais belas narrativas gráficas que já li, sem perder, no entanto o lado marginal, sujo e belo dos quadrinhos. Nascia o Monstro do Pântano de Alan Moore. Criado por Len Wein e Bernie Wrightson em 1971, o Monstro do Pântano poderia ter sido apenas mais um Monstro da literatura em geral. No entanto, Moore fez dele a essência, ou melhor o representante do "VERDE", ou seja, criou sua encarnação, seu ELEMENTAL. Com início em 1984, a passagem de Alan Moore pelo título iniciaria uma revolução nos quadrinhos com a chamada Saga do Monstro do Pântano. Evento que alavancaria a 9ª arte à um outro patamar. Recentemente, essa Saga começou a ser republicada no Brasil, desta vez na íntegra.


No início dos anos 80 a revista do Monstro do Pântano vinha sob o comando de Martin Pasko (roteiro) e Tom Yeates (desenhos). Assumindo a vaga de roteirista à convite do próprio Len Wein, o jovem talento britânico Alan Moore iniciou sua fase com a história "Pontas Soltas" (Janeiro de 1984). Uma história que fechava diversas "pontas soltas" deixadas por Pasko. Mas foi com a 2ª história "Lição de Anatomia" (Fevereiro de 1984) que Moore mostraria a que veio. O encadernado da Panini abre com "Pontas Soltas" e pode ser dividido em duas partes: a 1ª delas mostra o Monstro do Pântano começando a descobrir "O QUE" ele realmente é e traz como personagem opositor principal Jason Woodrue, o Homem Florônico.


Woodrue é o protótipo da psicopatia sobrenatural, assustador não apenas em sua imagem, mas também em suas motivações. Outro opositor desta 1ª parte é o General Avery Carlton, personagem remanescente da fase Pasko. É também nessa ª parte que Abigail Arcane começa a se mostrar como alguém que seria da máxima importancia na vida do nosso amigo Pantanoso.



Na 2ª parte do volume, Alan Moore se aprofunda no terreno pantanoso do Mundo Espiritual, dando pistas para onde levaria o personagem título. Não é a toa, portanto que um dos personagens centrais desta 2ª trama é o demônio Etrigan. Além de Etrigan, iniciam suas participações também alguns entes infernais que ao que tudo indica farão parte das próximas histórias.


Apesar das 03 décadas que nos separam desta Saga, ela não é (em hipótese alguma) datada ou mesmo antiquada. Pelo contrário, mantém toda sua força e poder hipnótico. À princípio achei que o tipo de papel escolhido pela Panini para imprimir a Saga (o pisa-brite), havia sido um grande erro, já que é barato, não privilegia as cores e é muito fácil de ser rasgado. No entanto, por incrível que pareça (em minha opinião, claro) esse tipo de papel deu um ar de HQ antiga, perdida, marginal e até proscrita. Soma-se a isso a arte estranha e por vezes caótica de Stephen Bissete e John Totleben. Ao que tudo indica a fase de Alan Moore à frente do título será publicada na íntegra pela Panini, perfazendo 06 volumes.


Caso tenha coragem, enverede-se por esse universo lírico, onírico, violento, poético e acima de tudo cheio de verdades escondidas que é a Saga do Monstro do Pântano.

É isso aí amigos...

2 comentários:

  1. Olá Marcelo!
    Muito bom o seu texto. Eu curto muito Alan Moore justamente porque o conheci através desta da saga do Monstro do Pântano e de A Piada Mortal, ambos nos anos 80.
    Quero aproveitar para te falar que pensei a mesma coisa quando vi o papel usado pela Panini neste relançamento brasileiro. No entanto, um dia tive a oportunidade de manusear esta mesma republicação, mas a norte-americana. E o papel é praticamente o mesmo, ligeiramente, quase imperceptivelmente melhor.
    Abçs.

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    Respostas
    1. Olá Edilson!!

      Que bom que se identificou com o texto. Fico muito contente.

      Pois é... Essa questão do papel foi isso mesmo. Algo que inicialmente poderia ser visto como um aspecto negativo, acaba se tornando algo que favorece a atmosfera da história. Algo marginal, visceral e de uma certa maneira proscrito. Subvertendo totalmente o gênero dos quadrinhos.

      O interessante é perceber o quanto a história ainda permanece relevante e válida. O que atesta seu caráter atemporal.

      É isso aí! Um grande abraço pra você. Apareça mais vezes.

      Abc!

      Marcelo.

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