sábado, 7 de outubro de 2017

Blade Runner - 2049


Lembranças guardadas com carinho são protegidas de forma aguerrida por todos nós... Seja ela de qualquer tipo. Blade Runner (EUA - 1982) foi um filme que passou despercebido à época de seu lançamento, ganhando status de cult (merecidamente) ao longo dos anos. Quem atingiu a idade da razão nos anos 80 fatalmente deve ter se chocado com este filme, que preencheu o imaginário de uma legião de pessoas que se viram encantadas com a forma com que questões tão profundas foram abordadas na obra. O que nos faz humanos? Para onde vão nossas memórias depois que tudo se acaba para nós? Como lidar com a finitude que nos cerca? Quando eu soube que esta obra iria ganhar uma sequência meu coração se encheu com duas grandes questões fortes e absolutamente antagônicas: 1º - Fiquei extremamente feliz em saber que veria este universo de Philip K. Dick novamente nas telas; 2º - Fiquei extremamente preocupado de que o novo filme poderia mexer com uma lembrança tão carinhosa e profunda para mim, alterando-a negativamente. Ontem finalmente me deparei com a resposta para estas duas questões.


Minhas impressões não poderiam ter sido melhores. O filme de 1982 trazia como grande diferencial um tom NOIR, bem como uma tristeza, melancolia e encantamento subjacentes à trama e que, nem por isso, era menos violenta. Meu grande medo era que o diretor de sua continuação (Blade Runner 2049), Denis Villenueve, deixasse de lado justamente aquilo que havia tornado cult o 1º filme. Meu medo era de que Villenueve cedesse às pressões de uma parcela da indústria cinematográfica que procura atender a sede de violência das grandes massas, e com isso diminuísse os elementos que davam sustentação ao 1º filme. Caso tivesse feito isto teríamos como produto final um filme descartável, que até teria uma bilheteria grandiosa, mas que logo seria esquecido. Isto aconteceu, por exemplo, recentemente com as refilmagens de clássicos com Ben Hur e O Vingador do Futuro.


Da forma como ficou, Blade Runner 2049 pode até receber algumas críticas (como já pude ver no YouTube) daqueles que não conseguem sobreviver a uma sessão de cinema sem ver violência gratuita e sem sentido, mas permanecerá como uma sequência digna. O caráter perene desta continuação está no foco que se dá, acertadamente, ao significado da existência humana a partir das memórias e lembranças que nos fazem quem somos. Talvez o que temos de mais corriqueiro dentro de nós, a saber, "nossas lembranças", "experiências" e "memórias", sejam no final o mais importante de nossa existência. E só é possível perceber isso quando as perdemos, ou então quando sabemos que tais memórias são apenas implantes. Que existem como maquiagem apenas para nos fazer pensar que somos especiais. Esta angústia é o combustível da revolta e tristeza de todo REPLICANTE (Androides fabricados pelos humanos). Seres que compartilham de tudo que somos, menos a percepção de serem verdadeiros, já que são produtos da Engenharia Biosintética.


O filme se passa em 2049, 30 anos após os acontecimentos vistos em Blade Runner de 1982. Acontecimentos importantes aconteceram ao longo destes 30 no Universo da obra. Estes acontecimentos são contados em 03 Curtas Metragens disponíveis no YouTube e que o fã pode ter acesso. O 1º chamado Black Out 2022, o 2º 2036: Nexus Dawn e o 3º  2048: Nowhere to Run. Os acontecimentos destes 03 curtas moldaram o Mundo na forma que o vemos em 2049. Os mesmos elementos do filme anterior estão presentes: a chuva ácida contínua, as ruas apinhadas de pessoas em contraponto à eventuais espaços grandes e vazios, edifícios decadentes e gigantescos, a ostensiva propaganda em todos os lugares (sobretudo de origem japonesa) e a estética cyberpunk que permeia a tudo, até mesmo as roupas dos indivíduos com suas capas transparentes, botas impermeáveis, guarda-chuvas, casacões e veículos blindados pesados e reforçados.


A fabricação da antiga geração de Androides Nexus 6, com seus números de série codificados nas células, foi extinta. As revoltas e problemas causados por esta geração foi o deflagrador de sua extinção. Os poucos modelos remanescentes desta cepa são agora caçados pelos dóceis, obedientes, mas não menos perigosos Nexus 8. A história se desenvolve ao redor do policial "K", personagem de Ryan Gosling. O oficial "K" fará uma descoberta logo no início do filme que precipitará toda a dinâmica da história. A narrativa faz por vezes o espectador tirar conclusões que depois se provam erradas, e isto é outro ponto positivo, por não tornar óbvia a evolução da trama.

Cena de Blade Runner - 1982

A trilha sonora de Hans ZimmerBenjamin Wallfisch segue as linhas melódicas de Vangelis do 1º longa. Já ouvi críticas dizendo que Zimmer e Wallfisch não conseguiram superar Vangelis no quesito trilha sonora. No entanto, este não é um ponto negativo, mas positivo. Os músicos parecem respeitar a obra de Vangelis ao ponto de segui-la, mas (propositalmente) não supera-la. Não há motivo para isto. Minha admiração por Zimmer (autor da belíssima trilha de Interestelar) aumentou depois de Blade Runner 2049. Harrison Ford revive o personagem Rick Deckard do 1º filme, agora com o peso dos 30 anos que se passaram. A densidade alcançada com a presença de Ford/Deackard é palpável, pois percebe-se claramente os segredos que ele guarda a respeito da história. Fiquei contente com o fato de não tentarem tornar o personagem de Ryan Gosling ("K") em um novo Deackard. Teria sido um erro caso tivessem tentado. Nos trailers pareceu-me que isso ia acontecer.


As paisagens fora das cidades são novidades em relação ao filme de 1982. A desolação e melancolia de espaços outrora cheios de vida são impactantes. Não se pode deixar de ressaltar a presença da areia. Algo que parece engolir a tudo. Isto fatalmente nos leva diretamente a outra obra seminal de Ficção Científica: Duna de Frank Herbert. Caso você vá assistir a Blade Runner 2049 eu sugiro que vá de mente aberta. Vá com a mente sensível a mensagens subliminares e subtextos. Ciente de que muito do que é dito no filme está no silêncio, e não nas falas.


Por fim... Vá com a percepção de que milagres existem...

6 comentários:

  1. ótimo post!
    esse filme parece que tem uma bela fotografia também.

    abç!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado amigo!!

      Olha... Eu gostei muito. Conseguiu permanecer à altura do 1º e talvez até supera-lo em alguns quesitos.

      Quando você assistir coloque aqui sua opinião!!

      Valeu!!

      Marcelo

      Excluir
    2. vi o filme. gostei bastante.
      as referências bíblicas são inúmeras.
      parece que o roteirista gostava da lenda dos nefilins.

      abç!

      Excluir
    3. Que bom que gostou!

      As referências são inúmeras mesmo. De diversos tipos e segmentos. O filme possui várias camadas. Meu sonho é um dia formar um grupo para debates de filmes e quadrinhos. Há obras que poderiam ser discutidas por dias e dias!

      Valeu!!

      Forte abraço!!

      Marcelo

      Excluir
  2. Sequência grandioso! Deve ser visto em tela gigante para aproveitar toda a estética da desolação das paisagens....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Com certeza Alexandre...

      Confesso que eu estava achando que iria ser mais um caça-níquel, como foi para mim rever Ben-Hur e O Vingador do Futur. Dois remakes totalmente desnecessários da forma como foram feitos.

      Tive medo do Villeneuve ir para o caminho da violência gratuita. Mas não...

      Um filme para ser visto e revisto.

      Abcs!

      Marcelo

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Posts Relacionados