sábado, 14 de agosto de 2010

Cyclone - Tangerine Dream

Em 1967 surgia em Berlim - Alemanha o Tangerine Dream. Um grupo disposto à fazer, ao lado do Kraftwerk, um som ainda não sonhado. Seu nome já expressava a proposta onírica e psicodélica. O Tangerine Dream foi para mim, em sua fase áurea dos anos 70 um dos grandes representantes (ao lado do Kraftwerk) da música progressiva alemã (denominada krautrock). Alguns de seus discos ainda são difíceis para mim por conter uma sonoridade que ainda não alcançamos, em função de nosso contaminado senso estético. O Tangerine Dream começa com Edgar Froese (membro que sempre permaneceu no grupo), e teve sua melhor formação (na minha opinião) com Edgar Froese,  Christopher Franke e Peter Baumann. Gostaria de comentar o disco acima: Cyclone de 1978. A primeira vez que o ouvi, nos anos 80 fui invadido por um misto de assombro, perplexidade e (não posso deixar de dizer) medo e atração. Nesse disco, assim como em outros, o Tangerine Dream apresenta uma sonoridade que nos arremete ao tempo e ao universo. Lidar com temáticas tão complexas exige um talento raro, necessário para suscitar em nós sentimentos que nos projetam na direção desses temas insondáveis. Sendo assim Edgar Froese compõe músicas de uma beleza fria (o universo) e às vezes estranha (o tempo). Ouvir Tangerine Dream e Kraftwerk mudou minha concepção de música, pois passei a enetendê-la não mais como tendo começo, meio e fim, mas sim como sendo eterna. Daí a presença de grandes faixas com 20 minutos de duração, dentro das quais provamos uma amálgama de sentimentos perenes.

Cyclone é o único disco do Tangerine que possui  faixas cantadas, de suas três, duas possuem a voz de Edgar Froese. A primeira, "Bent Cold Sidewalk", nos parece uma elegia sobre tempos longínquos e emoções esquecidas. Às vezes me parece a voz de alguém que busca repcuperar algo. No meio da faixa há um lindo solo de flauta que se mistura à estranha sonoridade de um sintetizador que aos poucos cede lugar aos susurros de Froese. Seu fim é um retorno ao início, novamente trazendo a feia, e por isso triste, voz de Edgar Froese.

A segunda faixa "Rising Runner Missed by Endless Sender" nos traz o som como que de alguém correndo, correndo sempre, com um eterno senso de urgência e temor. Isso sempre me fez pensar na humanidade, pois é assim que eu a vejo. A eterna corrida, a urgente corrida de todos. Assim como nas outras faixas aqui permanece o senso do eterno, do longínquo e do profundo.

A última e longa (20 minutos) faixa do disco é "Madrigal Meridian". O madrigal foi um gênero musical que surgiu entre os séculos XIII e XVI, fora dos portões da igreja católica, que à época ainda reinava com relativa soberania. A origem da palavra possui interpretações distintas mas a que eu gosto mais é matricale, canto popular materno. Ouvir Madrigal Meridian é uma experiência quase que de catarse. Uma viagem por lugares profundos da alma. Não há voz humana, mas vozes de instrumentos que nos cantam palavras em forma de sons, com siginifcados indecifráveis, ainda a serem descobertos. Sua introdução é de oito minuitos, um prefácio para uma tempestade de sons que se aproxima. Quando essa tempestade chega o sentimento de urgência, iniciado em "Rising Runner Missed by Endless Sender", se faz sentir, porém é fendido por um teclado que, não sei porque, me faz imaginar um cavaleiro medieval correndo em uma pradaria. A  música mantem o sentido planetário, grande, imenso. Por fim, após cerca de oito minutos de sons rápidos e insistentes, a tempestade passa e fica apenas reminicências de sons, como uma chuva que, agora não  mais açoitada pelo vento, apenas cai sobre a terra escura. Ao fim da faixa um cravo aparece com seu som medieval que também vem e vai embora, permanecendo apenas o canto isolado e solitário de um violoncelo... que também se perde rumo à uma esquecida floresta.

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