segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Bacia das Almas

Usando a mesma figura de linguagem da belíssima e lisérgica música do Alan Parsons Project o "Tempo" é como um rio. A passagem do tempo literalmente permite o impossível, pois proporciona à nós o espaço para mudanças. Isso aconteceu comigo também. Com o passar dos tempos tornei-me completamente descrente em relação à algumas coisas que outrora eram verdades pétreas, inexoráveis e irredutíveis. Conceitos que formavam o firme arcabouço para uma forma de pensar diluiram-se como fumaça dentro de mim, não sobrando nada. Em contra partida outras coisas, que no passado me eram periféricas e sem importância, constituem-se em verdades pelas quais eu vivo hoje. É difícil apontar os determinantes, embora eu ainda queira fazê-lo nesse espaço virtual. Por hora gostaria de falar de alguém, dentre outros, que tem me ajudado na escolha de um caminho de fé mais difícil, pois nega a teologia rasa do "Coisas boas acontecem comigo, logo... Deus é bom" ou "Coisas ruins acontecem comigo, logo... Tive brechas". Ao contrário disso tem me apontado o caminho da sincera precariedade pessoal, de uma fé mais baseada nas dúvidas do que nas certezas, negando dessa forma as concepções de Deus dentro de um sistema cartesiano e teológico definitivo. Uma dessas pessoas tem sido o Paulo Brabo.
Paulo Brabo

Conheci o Paulo lendo seus pensamentos e ideias em seu site "Bacia das Almas". Em uma época de aridez pessoal encontrar alguém como ele me tornou menos só em alguns dilemas. Estranhamente, minha infância foi parecida em muitos aspectos à dele. Moramos na mesma cidade (Londrina - PR) e praticamente na mesma época (início dos anos 80), de maneira que os lugares que ele sempre aponta em suas memórias são muito claros para mim. Suas experiências na faculdade também foram idênticas às minhas. Crescendo sob uma fé cristã rigidamente auto-imposta, ouso falar, como o Paulo, que acabei conhecendo o ideal de Jesus para amor incondicional e partilha entre meus amigos pecadores da faculdade e não no ambiente eclesiástico que tanto frequentei. Meu bom-mocismo me manteve longe das práticas desses queridos amigos, que pude, no entanto acompanhar bem de perto. Foi ali que, como na experiência do Paulo, percebi uma entrega incondicional. Tais amigos partilhavam tanto que até não se incomodavam de serem amigos de um cara como eu, certinho e carola. O Fábio, o Chóla e tantos outros me amavam tanto quanto seus amigos praticantes do velho "sexo livre, drogas e rock and rol".

Com tudo isso foi fácil gostar do Paulo Brabo, que além de muitas coisas tem me ajudado a me aproximar de Deus. Conheci o Paulo pessoalmente há mais ou menos um mês por ocasião do lançamento de um livro do qual ele é um dos autores. Pude apertar sua mão e receber uma pequena dedicatória na contra-capa. Fui ao lançamento porque queria conhecê-lo pessoalmente mas também porque queria ouvir algumas de suas ideias. Como esperava saí satisfeito. Em sua breve explanação sobre a triste institucionalização da fé entendi plenamente o que ele quiz dizer: "As instituições religiosas são, na verdade, a tentativa de se gravar em pedra as contigências". Tomamos hoje como lei e regra as decisões de pessoas que, levadas pelo "vento do espírito", comportaram-se de determinada forma no novo testamento. O engessamento das condutas tem produzido verdadeiros marionetes que continuam querendo viver na fria e dura lei do velho testamento.


O Paulo, junto com outros amigos de caminhada tem me ajudado a demolir edifcios interiores, construidos dentro de mim desde os meus 13 anos, idade com a qual eu me achei, pela primeira vez, amado por Deus. Um desses bólidos demolidores foi o livro "A Bacia das Almas" (Ed. Mundo Cristão).




Assim eu e Deus vamos convivendo:

"... Ele não cabe na caixinha que lhe prepararam os teólogos.
Nem na caixona que eu ... lhe dediquei.
Quando estou pronto para dissecá-lo, ele me escapa da mão.
E quer dançar quando quero sossego,
Quer dormir quando quero converssar,
Bate na porta quando não estou para ninguém,
E, com maior frequencia, vice-versa.
Ele não me deixa em paz
E consistentemente me ignora
E sua imprecisa lacuna me define." Paulo B.

Dessa forma não consigo abandona-Lo, pois nunca me deixou quieto, pelo contrário, com esse comportamento tem me mantido junto, me encantado e me seduzido por quase 4 décadas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Teatro de Sombras de Ofélia


Aproveitando a alusão à Michael Ende gostaria de falar de outro de seus livros. Esse direcionado para crianças: O Teatro de Sombras de Ofélia escrito em 1988. Ilustrado por Friedrich Hechelmann essa fábula vale a pena ser contada.



"Ofélia nasceu e cresceu querendo se tornar uma grande atriz de teatro. Seus pais queriam muito isso, por isso colocaram-lhe o nome de uma grande personagem de teatro. Ofélia possuia, no entanto, uma voz muito fraquinha e por isso não conseguia dizer as falas na intensidade adequada. Ofélia envelheceu e o único emprego que conseguiu foi o de auxiliar. Ela ficava em um biraquinho perto do palco soprando com sua vozinha baixa as falas que os atores esqueciam. Ofélia era feliz com seu singelo e discreto emprego. 


Um dia, por falta de público, o teatro em que Ofélia trabalhava foi fechado. Em seu último dia de trabalho ela ficou até mais tarde se despedindo do lugar quando de repente percebeu uma sombra na parede e perguntou: "O que é você?". A sombra respondeu: "Sou uma sombra, fico sempre aqui. Posso ficar grande e também bem pequenininha. Porém sou sozinha nesse mundo". A partir daí Ofélia começou a guardar essa sombra em sua bolsa. Várias outras sombras que eram sozinhas no mundo vieram e começaram à morar com Ofélia.


À noite as sombras se acumulavam em seu quarto, até que um dia o dono do lugar em que Ofélia morava resolveu aumentar o aluguel e a pobre velhinha teve que ir embora, pois não tinha dinheiro para pagá-lo. Ofélia saiu pelo mundo afora apenas com suas amigas sombras em sua bolsa e uma pequena mala na qual guardava seus pertences. As sombras ficaram muito tristes por Ofélia e quiseram ajudar. Elas pediram-lhe que estendesse em uma árvore um lençol branco e pularam para o lençol. Ali elas começaram a ensenar as peças de teatro que Ofélia as havia ensinado.


Muitas crianças começaram à vir, pois queriam ver o belo Teatro de Sombras de Ofélia. 


Todos que vinham sempre achavam que atrás do lençol haviam pessoas representando a peça e nem imaginavam que eram as sombras que antes perambulavam por aí sozinhas e tristes. Todos gostavam muito e Ofélia se sentia muito feliz por continuar ajudando as sombras e também por trazer alegria para muitas crianças e adultos. Um dia, no entanto, Ofélia estava caminhando com sua malinha e com sua pequena bolsa cheia de sombras e aconteceu algo diferente. Uma grande sombra a parou no caminho.


Ofélia logo perguntou à sombra: "Você também é mais uma daquelas que ninguém quer?". E a sombra respondeu: "Sim... Creio que posso dizer isso". "Você quer que eu seja sua dona também?", perguntou Ofélia. "Você gostaria de ficar comigo?", perguntou a sombra. "Claro", disse Ofélia. "Você não gostaria de saber meu nome?" a grande sombra perguntou. "Como você se chama?", indagou Ofélia. "Me chamam de Morte". Houve um grande silêncio e a sombra perguntou "Ainda assim quer ficar comigo?" e Ofélia respondeu "Sim, pode vir". Nisso a grande sombra a envolveu.


Subitamente Ofélia se achou com olhos novos, olhos que eram jovens, claros e não mais velhos e míopes. Ela se sentia jovem novamente. Parecia-lhe que tinha um novo corpo. Ofélia olhou em volta e viu um grande e imenso portão: O Portão do Céu. O enorme portão se abriu e Ofélia entrou em um suntuoso palácio, que na verdade era um gigantesco teatro. Haviam muitas figuras felizes e alegres ao seu redor.


Caminhando pelo lugar Ofélia se deparou com uma placa que informava, em grandes letras douradas: TEATRO DE LUZ DE OFÉLIA. Assim Ofélia e aquelas figuras representavam grandes e eternas peças de teatro segundo as grandes palavras dos poetas, que os anjos conseguem entender. Dizem, também, que de vez em quando o bom Deus vem assistir ao espetáculo. Mas isso a gente não pode afirmar com certeza".

O Espelho no Espelho - Um Labirinto

Um dos livros mais estranhos que já li chegou às minhas mãos quando tinha uns 13 anos. O Espelho no Espelho - Um Labirinto (Der Spiegel im Spiegel - ein Labyrinth - em seu título original em alemão) foi escrito por Michael Ende, escritor alemão da nova geração. Filho de Edgar Ende (um dos mais importantes pintores surrealistas alemães), Michael nasceu na Bavária em 1929 e herdou do pai seu gosto pelas artes. O trabalho mais conhecido de M. Ende foi "A História Sem Fim" livro sobre um mundo mágico para o qual um garoto é transportado. A História Sem Fim virou filme na década de 80, trazendo luz à sua obra. Dono de uma narrativa cheia de simbologia, Michael Ende escreveu sobretudo para o público infantil: "Jim Knopf e Lucas o Maquinista", "Manu, a menina que sabia ouvir", "Dagoberto Dobradura", "Momo e o Senhor do Tempo", "O Teatro de Sombras de Ofélia" (esse último com um significado especial para mim).

Edição em Português
O Espelho no Espelho é na verdade um livro cheio dos mais estranhos e surreais contos que já passaram por meus olhos. Por meio de diversos mundos Ende trabalha um verdadeiro universo de alegorias. O primeiro conto do livro é talvez um dos meus preferidos. "A História de Hor": Hor é um rapaz que vive no interior de um castelo ou mansão (não se sabe ao certo). Ele tampouco entende o que faz ali uma vez que já nem se lembra à quanto tempo está vagando por seus intermináveis quartos e salas. O motivo real de sua estada ali já se perdeu em sua memória. As janelas e portas dos cômodos sempre desembocam em outros cômodos. O estranho é que toda vez que ele deixa um local, os móveis, a decoração, um sofá, uma esrivaninha se rearranjam um pouco, mudando assim sua aparência (como se o lugar tivesse vida própria). Dessa forma os locais sempre parecem diferentes. Hor se alimenta das paredes do lugar, de maneira que ele só percebe que passou por um cômodo algum dia no passado porque nota um pedaço de parede carcomido, ou um montinho de excrementos já seco no cantinho do lugar. Só assim ele fica sabendo que um dia já passou por ali. Hor já se perguntou várias vezes quem ele é... Às vezes ele imagina estar sonhando, e logo acordará e entenderá tudo... Às vezes ele simplesmente imagina que a verdade é que ele está sendo sonhado por alguém que vive além daquele lugar. Sua vida é um eterno vagar por salas, salões e quartos...

Edição Alemã
Em outro conto M. Ende descreve dois homens caminhando em um deserto. Um altivo, impecável, trajando um terno sempre limpo, seu rosto sem qualquer expressão. Tal homem nunca se cansava ou transpirava, apesar de caminhar em um sol escaldante. Atrás desse homem caminha outro, menor, cansado, suado, escaldado pelo sol, lábios rachados, trajando uma roupa de noivo já carcomida pelo tampo. Sapatos furados, camisa para fora da calça. À cada três passos esse pequeno homem precisa puxar as calças para cima, pois já estão grandes demais para seu pequeno e mirrado corpo. Os dois caminham na direção de uma porta que se encontra no horizonte árido, mas que nunca chega. O pequeno e envelhecido noivo sempre pergunta quanto tempo falta e o impassível e impecável homem lhe diz que falta pouco. Após anos caminhando o primeiro homem tem até de carregar o velho noivo, pois ele já não podia caminhar. Certo dia ambos chegam à porta. Sozinha e sem nada ao redor a porta se abre e uma linda e esvoaçante noiva sai dali. O envelhecido noiva havia sido colocado à beira da porta pelo impecável primeiro homem. A noiva em seu afã de sair correndo nem percebeu aquele homem nanico e velho olhando para ela à beira da porta. A única coisa que ela fez foi perguntar ao impávido primeiro homem: "Onde... Onde por favor está meu querido noivo?". Ao que o homem sem expressão lhe respondeu: "Fique tranquila, ele está esperando você atrás daquela porta no horizonte oposto". Assim os dois seguiram seu caminho. O homem impecável caminhando sempre ao seu próprio ritmo e a alegre noiva saltitando à sua frente. Diante da cena o envelhecido noivo consegue se lembrar de algo semelhante que lhe aconteceu, quando ele mesmo saiu correndo há muito tempo para encontrar sua noiva, porém ele parece se lembrar de uma pequena velhinha à beira da porta quando ele mesmo mal podia esperar para encontrar sua querida noiva...

Somam-se à esses, outros diversos contos... Onde o tempo, o espaço e tudo o que ele contém gira ao nosso redor como um labirinto. De todos os livros de M. Ende "O Espelho no Espelho" talvez seja o mais inquietante. Sua obra, voltada sobretudo para crianças, são cheias de lugares mágicos, símbolos e significados. É assim que escrevia e é assim que Ende provavelmente queria ser lembrado. (Michael Ende - 1929 - 1995).

sábado, 6 de novembro de 2010

Cantigas

Escola Rural Mista Municipal Osvaldo Cruz
Minha infância foi feita de jograis, poesia, comemorações e cantigas. A responsável por isso foi minha querida mãe e professora que me alfabetizou e me deu aulas da 1a a 4a série do primário. Na isolada, antiga, mágica e cheia de histórias escola rural.

Dificil dizer se alguém ainda lembra das cantigas que cantávamos. Várias ainda estão comigo. Duas delas por vezes me vem ao coração, vindas do fundo de minhas memórias. Sempre tento cantá-las inteiras, mas não consigo, pois algumas partes se perderam em minha mente. De todas as pessoas, a única que talvez se lembre delas seja minha mãe!

O MAR

 
"Eu gosto do mar e das praias tranquilas... 
Eu gosto dos barcos que saem à pescar...
Na praia levanto uma tenda e o mar feito renda me vem abraçar... 
É lindo sentar para ver e correr para ver cada onda quebrar..."


AS FLORES


"Era uma vez um vento suave e constante, trazendo lembranças distantes de lindas manhãs...
Passou pelas flores em mil carícias dizendo, que vinha cantigas trazendo das flores irmãs...

As flores se uniram então, e todas se deram as mãos, e o vento suave passando viu todas as flores se amando, num leve sussuro falou: 
´As flores são como as crinaças guardando esperanças no seu coração... As flores são como as crianças guardando esperanças no seu coração....`

Todos os dias quando era bem de tardinha, e as flores estavam sozinhas, à espera do vento voltar.
E com saudades daquele vento calmo e constante que trazia lembranças distantes das flores irmãs...

As flores se uniram então, e todas se deram as mãos, e o vento suave passando viu todas as flores se amando, num leve sussuro falou:
´As flores são como as crinaças guardando esperanças no seu coração... As flores são como as crianças guardando esperanças no seu coração....`"

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Visão de Formiga...

Caso pudesse retornar no tempo, eu gostaria de fazer algumas escolhas diferentes. Dentre elas eu tomaria algumas decisões para ser alguém mais perecido com meu irmão, Murilo. Alguém forte, externamente e internamente; com uma profundidade simples; alguém que vive da e na terra; com raízes fortes e profundas, tão profundas que lhe proporcionam firmeza nas decisões, como um carvalho; possuidor daquela sabedoria que interessa, não aquela sabedoria inóqua e asséptica dos corredores do academicismo, mas aquela sabedoria que só aqueles que vivem rodeados pela simples complexidade da natureza são capazes de desenvolver. Aprendo muitas coisas com ele. Principalmente quando o acompanho em seu trabalho pela fazenda. Certa vez  acompanhando-o por entre as florestas de eucapliptos da fazenda ele me falou das formigas "cabeça-de-limão". 

Pequenas, vorazes e eficientes em sua existência, tais formigas são a linha de frente da resistência da natureza ante a ganância pelo poder financeiro do homem. Meu irmão as combate, pois a presença de tais formigas impede os Eucaliptos de crescerem satisfatoriamente. Porém ele trava essa luta contra elas não com desprezo ou displicência, mas com profundo respeito! Pois sabe que esses pequenos animaizinhos são na verdade soldados que lutam e nos trazem um recado das entranhas da existência. Que é preciso ter um limite para nossa ganância... que é preciso ter respeito pela criação... que é preciso aprender que não somos tão intocáveis quanto achamos. Nesse combate percebi o respeito com que ele trata a criação. Desde então comecei a observar mais de perto as formigas. Outro dia tentei verificar se encontrava alguma diferença entre elas. Não na forma ou função dentro do formigueiro, mas diferenças que fizessem algumas mais ou menos desfavorecidas em relação às outras. Porém não consegui perceber qualquer diferença entre elas, embora eu tenha certeza que existam. Algumas devem ser um pouco mais fortes que outras. Algumas devem conseguir realizar seu trabalho mais rápido enquanto outras talvez o façam mais demoradamente. 
Fiquei pensando... Se Deus realmente é tão grande quanto tantos ficam dizendo por aí, talvez a visão Dele em relação a gente fosse a mesma da nossa em relação às formigas! Ou seja... todos os títulos, vantagens e qualidades que achamos que temos em relação aos menos favorecidos (diferenças essas ao nosso favor e que nos enchem de orgulho e vaidade) talvez sejam, literalmente sem sentido para Ele, tendo em vista Seu tamanho. Em meu trabalho já me deparei, por exemplo, com pessoas portadoras de sérios comprometimentos cognitivos e motores (crianças vitimadas de paralisia cerebral, adultos vítimas de derrame cerebral que perderam completamente sua autonomia, indivíduos com uma função cardíaca ou pulmonar extremamente limitada). Lembro-me de inúmeras vezes me sentir em vantagem em relação à eles. Lembro-me também de me sentir hora em vantagem, hora em desvantagem em relação à outros que eventualmente executam meu trabalho de forma diferente de mim (às vezes melhor, às vezes pior). Fiquei imaginando que talvez para Deus isso seja tão irrelevante ou sem importância quanto a minha análise do desempenho individual de cada formiga. No fim não haveria tanta diferença entre eu e uma criança que nunca foi capaz de se comunicar na vida, ou entre eu e alguém que está em coma ou limitado à uma cama por um problema cardio-pulmonar. Seriamos tão pequenos (tão formigas) que tais diferenças seriam sem sentido sob uma ótica eterna, perene e gigantesca. Seríamos mesmo todos pequenos,  carentes e necessitados de uma Presença maior. Não é que talvez sejam as pequeninas formigas as mais felizes então! Vivendo simplesmente seu dom pessoal para Àquele que as criou!!

domingo, 19 de setembro de 2010

Esta Manhã...

Manhã na Fazenda
"Esta manhã, mais uma vez, volto a rezar e a pedir Tua luz. Sei que eu não sei, continuar, sem escutar Tua voz que me diz, que o Pai me ama, que Ele me chama pra me fazer feliz. Eu vou percorrendo o caminho... Eu vou porque Deus é amor... Porque Deus me chamou... Porque Deus é amor."

"Hoje talvez, mais uma vez, eu vou chorar e sorrir e pensar, que eu nada sei, do amanhã, tudo o que eu sei se resume em saber, que o Pai me ama, que Ele me chama pra me fazer feliz".

José Fernandes de Oliveira.


sábado, 28 de agosto de 2010

A Eternidade - Uma Odisséia no Espaço


Escritores de ficção científica sempre foram de certa forma discriminados e vistos por muitos como de segunda linha. Talvez isso ocorra porque as pessoas insistam em retirar de suas vidas a contemplação e a perplexidade perante o universo. Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Stanislaw Lem dentre outros, construiram e moldaram um painel de nossa pequena e ínfima existência diante do insondável. Meu filme favorito de ficção científica, 2001 - Uma Odisséia no Espaço de 1968, dirigido por Stanley Kubrick, foi baseado no conto "A Sentinela" de Arthur C. Clarke. Autor incrível, com mente aguçada e alma de explorador. Pela primeira vez se conseguiu colocar a eternidade na tela. Fiquei em estado de transe por mais ou menos uma semana depois de assisti-lo.

Sentinela-da-Lua se aproxima do estranho Monolito

O filme começa na aurora do homem, há milhões de anos atrás. Um bando de humanóides em estado de vida animal e inanição, descobre um estranho monolito em uma colina. O monolito era um monumento retangular feito de um material estranho, negro e totalmente polido. Um humanóide (Sentinela-da-Lua) certa noite toca a estrutura e algo em sua mente  primitiva começa, pela primeira vez na história do mundo, a funcionar. Sentinela-da-Lua a partir dali nunca mais passou fome, pois descobre que ele próprio existe. O filme sofre então um salto de milhões de anos e vai para 2001.  Nessa época a humanidade já possui uma base na lua (A Base Clavius). Em uma escavação de rotina na Cratera  Thyco os homens da Base Clavius descobrem um estranho monolito enterrado em solo lunar. Os governos do mundo entram em alerta pois o monolito não é humano e está enterrado ali a milhões e milhões de anos. Heywood Floyd, experiente cientista é mandado para lá. Ao ser tocado por Floyd, o Monolito emite um som  que é transmitido na direção do vasto cosmo. Daí ocorre o segundo salto do filme. O som havia sido enviado na direção de Jupiter e é recebido por outro monolito (imenso) que orbita, há milhões de anos o gigante planeta. A Terra envia uma nave com dois astronautas (Dave Bowman e Frank Poole) ao encontro do gigantesco monolito orbital. Os dois viajantes são acompanhados pelo computador que gerencia a nave "Jupiter": o lendário HAL9000.
Heywood Floyd na Base Clavius

Pela primeira vez a solidão do espaço, a fragilidade do homem e a vastidão do universo é retratada com perfeição e com total realismo às leis da física. O filme praticamente não possui diálogo, o que demosntra o isolamento.

Dave Bowman contempla o interior do Monolito

A trilha sonora é soberba com a presença de dois clássicos: Also Sprach Zaratustra de Richard Strauss e Danúbio Azul de Johann Strauss. Em uma antológica cena Bowman é lançado no espaço sideral e o filme perde seu som. No início parace que é um erro de filmagem, mas daí você se lembra que o som não se propaga no vácuo, dessa forma você está ali com Bowman, na vastidão do silêncio eterno. Quando a nave chega próximo ao Monolito estacionado na órbita de Jupiter, Bowman já está sob o efeito crônico da solidão. Em sua pequena cápsula ele se aproxima do Monolito. Sua superfície é negra como o abismo, porém quando  chega mais perto Dave Bowman vê...!! Vê algo que não podemos entender, sua expressão é de completo assombro! Ele contempla!! Contempla o significado do Monolito e vê além dele. A única coisa que Bowman consegue dizer em sua última transmissão para Terra é: "ESTÁ CHEIO! ESTÁ CHEIO DE ESTRELAS!!!".
Sentinela-da-Lua percebe-se como alguém que possui uma existência

Para entender o que se passa a partir daí, e qual o significado do Monolito você precisa assistir ao filme, ver o final e pensar no negro vazio do Monolito que contém em sí todas as coisas!!


sábado, 21 de agosto de 2010

A Loja Mágica...

Quando se é garoto, dos 8 aos 12 anos, vivemos a melhor fase. Nessa época não precisamos nos preocupar com coisas muito difíceis e complexas como por exemplo... garotas. Na verdade nossa mente se ocupa com coisas diferentes, mas não menos importantes. Embora fosse difícil de acreditar eu era um garoto absolutamente normal nessa fase. Um pouco mais tímido e um tanto complexado em relação aos demais. Mas posso garantir... totalmente normal! Meu mundo era preenchido basicamente por três assuntos que necessitavam da minha diligente coordenação. Eram eles: TV, livros e .... histórias em quadrinhos. No primeiro tópico (TV) eu tinha uma agenda que necessitava, mensalmente, ser cumprida. Faziam parte desse universo determinados desenhos, os filmes de sábado à noite da "Primeira Exibição" (que posteriormente foi substituido por "Super-Cine") e o  Sìtio do Pica-pau Amarelo. No tópico dois (livros) eu começava a ler (por prazer) meus primeiros livros (não entram nesssa lista os da Série Vaga-Lume, tipo "O Caso da Borboleta Atíria" e "O Mistério do Cinco Estrelas", pois esses eu era obrigado  a ler pela escola). Dentre aqueles que eu comecei a ler por prazer encontram-se  os do Sidney Sheldon ("O Reverso da Medalha" por exemplo). No terceiro tópico enfim estavam os... GIBIS de Super-Heróis!!

Esses Sim!!
Há 30 anos atrás, na pequena cidade em que morava havia apenas uma loja que vendia gibis. A Loja do Herculano (A Loja Mágica) ao lado do Super Brasil (um supermercado da avenida principal). Nessa loja o Herculano vendia discos, fitas cassetes e meus queridos GIBIS de Super-Heróis!! Mensalmente eu recebia histórias mágicas contadas nas páginas de 4 títtulos. Eu ficava imaginando de onde vinham. Pensava em países ou cidades distantes, onde tais GIBIS eram produzidos. Dessa forma então o Herculano era para mim como um Embaixador (um representante) desses lugares. Era ele quem me proporcionava acesso àquela riqueza. Do dia 1º ao dia 7 eu esperava o título "Heróis da TV". Do dia 7 ao dia 14 se dava a angustiante espera pela "Super Aventuras Marvel". No meio do mês (de 14 a 21) era a vez de esperar pelo "Almanaque do Capitão América". Por fim, entre os dias 21 e 30 chegava "O Incrível Hulk".

Meus dois grande objetivos nessa época eram: 1º - Ser um Super-Herói também; o 2º - Construir minha enciclopédia de Super-Heróis. O 1º objetivo eu ainda não consegui concretizar, o 2º eu quase consegui quando garoto. Meu Tio Miguel havia me dado um pantógrafo (instrumento que permite ampliar ou reduzir um desenho pré-existente). Com esse pantógrafo eu pretendia cumprir o 2º objetivo. Ao longo de alguns anos, acho que semanalmente, eu escolhia um desenho de um determinado personagem, cortava uma cartolina em tamanho padrão (determinado por mim) e ampliava esse desenho. Após a ampliação eu coloria  o desenho com tinta para papel e escrevia ao lado, à máquina, a origem, principais poderes e campo de atuação do herói. A última fase do processo era pregar na parede de meu quarto essa cartolina, de maneira que eu tinha meu panteão particular de heróis......

Capitão América. Feito com meu pantógrafo.
O tempo levou para longe de mim minhas queridas cartolinas... Queria muito aquela enciclopédia, mas restou apenas um desenho!! Esse resistiu porque eu usei madeira e não cartolina. Coloquei ele aqui ao lado,  o "Capitão América". Alguns gibis também resistiram! Eu os guardo comigo agora. Mês passado aconteceu algo interessante. Estava visitando meus pais na cidade de minha infância. Eu e meu pai havíamos ido à feira de domingo. Entre batatas e verduras eu reconheci um dos feirantes: era o Herculano!! Por um momento nossos olhos se cruzaram e eu achei ter percebido uma centelha de reconhecimento da parte dele sobre quem eu era. Pareceu-me que, por um breve instante, ele sabia quem estava ali, aquele garoto dos gibis... Pareceu que ele estava enchergando de novo aquele menino de 10 anos... Mas não tive certeza... Foi muito rápido... Logo ele continuou erguendo e empilhando algumas caixas de alface. Meu pai achou estranho eu ter reconhecido e dito: "Olha PAI!! O Herculano!!!"

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Senhor do Tempo...

Às vezes eu procuro falar algumas coisas para Deus. Nos últimos tempos porém, tenho preferido ficar  sentado em silêncio mesmo ao lado d´Ele. Em parte pela dificuldade em ecnontrar as palavras verdadeiramente sinceras, em parte porque Seu silêncio tem mais significado que as minhas palavras. Recentemente ouvi uma canção que de tão bonita fui perguntar à Ele se eu poderia roubar aquelas palavras para oferecê-las em oração...

"Mestre..., me veja menino. Deixa-me correr com Teus pequeninos. Mestre... de rosto amigável, de sorrriso largo de sereno olhar. Eu... fui a Ti criança e me recebeste de braços abertos. Que estranha distância, agora... Senhor lembra do menino que eu fui outrora."

"Mestre..., lembro que eu buscava e me derramava, choro adolescente. Lembro, daquele caderno onde eu anotava minhas orações. Jovem, busquei a Ti por refúgio certo para um moço aflito. Que estranha distância, agora... Senhor lembra do rapaz que eu fui outrora.

Mestre..., estou bem mais velho e o amor que eu tinha... Onde foi parar? Mestre..., fala a esse homem. Que se emocione, vá recomeçar. Faz-me correr e assim, retornar ligeiro ao primeiro amor. Deixa-me ver novamente o meu nome... Escrito nas santas mãos do Senhor do tempo". O Senhor do Tempo - Stênio Marcius (Canções à Meia-Noite).

domingo, 15 de agosto de 2010

Beleza Inumana - Trans-Europe Express (Kraftwerk, 1978)

No final do anos 80, início dos 90 eu me encontrava no 1º terço de minha juventude. Os poetas chamam essa fase de aurora da vida. Independente disso ser verdade ou não, é uma fase difícil para qualquer garoto ou garota recém-saído da adolescência. A necessidade de afirmação pessoal e social nos assola, pois dependemos daquilo que os outros pensam de nós e do que pensamos de nós mesmos. Nessa época eu estava em Londrina (PR), terminava o cursinho e ingressava na faculdade. Bem... para lidar com todo esse "stress" fui estudar órgão eletrônico. Cheguei a avançar no método mas para ser sincero não fui mais do que um aluno mediano, às vezes até medíocre em minhas execuções. Bom, na escola de música havia a Lilian, uma garota doida, doida mesmo, mas uma ótima musicista. Certa vez tive que passar em sua casa, que ficava perto da Av. Duque de Caxias, para pegar um livro de música. Ela era doida, mas uma boa anfitriã pois me ofereceu um café da tarde. Até então eu não sabia... mas uma grande coisa estava para acontecer. Eu já estava me deliciando com um café com leite quando ela retorna da sala de sua casa acompanhada de um som que vinha do toca-discos de seu pai. Um som que jamais me esquecí. Era uma célula sonora que ficava se repetindo em um movimento em espiral e que me pareceu  vindo de uma outra dimensão (talvez do céu, pensei). Imediatamente eu disse: "PARE TUDO! O QUE É ISSO???". Assustada ela disse: "Calma!" ... e logo em seguida me mostrou a velha e carcomida capa de um disco de seu pai. Aquela música era "Europe Endless" primeira faixa do disco "Trans-Europe Espress" do Kraftwerk de 1978.

Iniciado em Düsseldorf, Alemanha em 1970 por Florian Schneider e Ralf Hütter o Kraftwerk foi, ao lado do Tangerine Dream, um dos representantes da música progressiva alemã (a Krautrock). Sua formação principal e mais duradoura contou com Florian Schneider, Ralf Hütter, Wolfgang Flür e Karl Bartos. À semelhança do Tangerine, o Kraftwerk é dono de uma beleza glacial, porém inumana. Seus discos, trazem de forma recorrente o tema: A humanização das máquinas em detrimento da desumanização da humanidade. O Kraftwerk sonhou um futuro que para nós já envelheceu em vários aspectos. Um futuro onde uma Europa dos anos 40 se fundia com um mundo robótico. Tal frieza em sua temática não destitui suas músicas de sentimento (embora seja mais difícil de reconhecê-lo). Por isso mesmo nos arremete ao filme "Metrópolis" de 1927, do cineasta, também alemão, Fritz Lang. No filme uma sociedade oprimida por castas superiores obrigavam o proletariado à cultuar uma andróide chamada Maria. Embora genial, ao meu ver nenhum outro grupo  posterior administrou o legado do Kraftwerk à altura. Com outros discos igualmente fantásticos eu gostaria, no entanto de comentar o "Trans-Europe Express".

Lançado no final dos anos 70, esse álbum é a síntese e o clímax de uma música que ainda não foi entendida por todos nós. Europe-Endless (a primeira faixa) mantem uma contínua e celestial célula sonora abafada por uma percussão eletrônica que às vezes dá lugar à fria e melodiosa voz de Shneider. É alegre, mas ao mesmo tempo sabemos que conta uma história já esquecida e abandonada. A faixa dois "The Hall of Mirrors" incia-se com o som sideral de sintetizadores antigos e ultrapassados, daí a nostalgia do som. Porém a faixa nos surpreende pela sua frieza e automatismo. Um teclado solitário inicia uma sequencia de notas glaciais acompanhada pela mesma voz aveludada quase humana de Schneider, mas apenas quase. Logo em seguida o ambiente reflexivo e automático se acentua com a faixa "Showroom Dummies", porém aqui um elemento comum às composições do Kraftwerk aparece, um coral de fundo. O que exacerba o tom profundo.

A faixa 4 é a tão esperada "Trans-Europe Express". Música que tem ao fundo uma percussão contínua que simula um trem que avança por estações imaginárias e esquecidas. Divididas em duas partes  (TEE e Metal on Metal) a faixa possui pouco mais de 12 minutos que levam o ouvinte à uma viagem sonora. Eventualmente um teclado simula um trem passando bem ao seu lado, entremeado à isso as vozes do grupo são ouvidas, são nomes de lugares, paradas e locações da Europa. Trans-Europe Express é enfim uma faixa peculiar, mesmo para o Kraftwerk. O clima de suspense e estranheza da faixa termina com o início da linda e flutuante "Franz Shubert", penultima faixa do disco.

Em "Franz Shubert" o som de um órgão antigo, que parece-nos vindo de uma audição milenar, invade nossos ouvidos, sempre seguido de um segundo e angelical órgão que toca notas que lembram bolhas de ar. "Franz Shubert" é sem dúvida uma experiência maravilhosa. 
O disco termina com uma pequena faixa de 55 segundos onde os integrantes do grupo nos fazem lembrar da eternidade dos lugares em nossa mente ao simplesmente dizerem "Endless" repetidamente... repetidamente... repetidamente...

sábado, 14 de agosto de 2010

Cyclone - Tangerine Dream

Em 1967 surgia em Berlim - Alemanha o Tangerine Dream. Um grupo disposto à fazer, ao lado do Kraftwerk, um som ainda não sonhado. Seu nome já expressava a proposta onírica e psicodélica. O Tangerine Dream foi para mim, em sua fase áurea dos anos 70 um dos grandes representantes (ao lado do Kraftwerk) da música progressiva alemã (denominada krautrock). Alguns de seus discos ainda são difíceis para mim por conter uma sonoridade que ainda não alcançamos, em função de nosso contaminado senso estético. O Tangerine Dream começa com Edgar Froese (membro que sempre permaneceu no grupo), e teve sua melhor formação (na minha opinião) com Edgar Froese,  Christopher Franke e Peter Baumann. Gostaria de comentar o disco acima: Cyclone de 1978. A primeira vez que o ouvi, nos anos 80 fui invadido por um misto de assombro, perplexidade e (não posso deixar de dizer) medo e atração. Nesse disco, assim como em outros, o Tangerine Dream apresenta uma sonoridade que nos arremete ao tempo e ao universo. Lidar com temáticas tão complexas exige um talento raro, necessário para suscitar em nós sentimentos que nos projetam na direção desses temas insondáveis. Sendo assim Edgar Froese compõe músicas de uma beleza fria (o universo) e às vezes estranha (o tempo). Ouvir Tangerine Dream e Kraftwerk mudou minha concepção de música, pois passei a enetendê-la não mais como tendo começo, meio e fim, mas sim como sendo eterna. Daí a presença de grandes faixas com 20 minutos de duração, dentro das quais provamos uma amálgama de sentimentos perenes.

Cyclone é o único disco do Tangerine que possui  faixas cantadas, de suas três, duas possuem a voz de Edgar Froese. A primeira, "Bent Cold Sidewalk", nos parece uma elegia sobre tempos longínquos e emoções esquecidas. Às vezes me parece a voz de alguém que busca repcuperar algo. No meio da faixa há um lindo solo de flauta que se mistura à estranha sonoridade de um sintetizador que aos poucos cede lugar aos susurros de Froese. Seu fim é um retorno ao início, novamente trazendo a feia, e por isso triste, voz de Edgar Froese.

A segunda faixa "Rising Runner Missed by Endless Sender" nos traz o som como que de alguém correndo, correndo sempre, com um eterno senso de urgência e temor. Isso sempre me fez pensar na humanidade, pois é assim que eu a vejo. A eterna corrida, a urgente corrida de todos. Assim como nas outras faixas aqui permanece o senso do eterno, do longínquo e do profundo.

A última e longa (20 minutos) faixa do disco é "Madrigal Meridian". O madrigal foi um gênero musical que surgiu entre os séculos XIII e XVI, fora dos portões da igreja católica, que à época ainda reinava com relativa soberania. A origem da palavra possui interpretações distintas mas a que eu gosto mais é matricale, canto popular materno. Ouvir Madrigal Meridian é uma experiência quase que de catarse. Uma viagem por lugares profundos da alma. Não há voz humana, mas vozes de instrumentos que nos cantam palavras em forma de sons, com siginifcados indecifráveis, ainda a serem descobertos. Sua introdução é de oito minuitos, um prefácio para uma tempestade de sons que se aproxima. Quando essa tempestade chega o sentimento de urgência, iniciado em "Rising Runner Missed by Endless Sender", se faz sentir, porém é fendido por um teclado que, não sei porque, me faz imaginar um cavaleiro medieval correndo em uma pradaria. A  música mantem o sentido planetário, grande, imenso. Por fim, após cerca de oito minutos de sons rápidos e insistentes, a tempestade passa e fica apenas reminicências de sons, como uma chuva que, agora não  mais açoitada pelo vento, apenas cai sobre a terra escura. Ao fim da faixa um cravo aparece com seu som medieval que também vem e vai embora, permanecendo apenas o canto isolado e solitário de um violoncelo... que também se perde rumo à uma esquecida floresta.

sábado, 7 de agosto de 2010

O Aleph - Benjamín Otálora

Em contra partida ao "Imortal", Jorge Luis Borges escreve sobre Benjamín Otálora. Sua história mostra-nos a inutilidade da mortalidade. Benjamín foi cria dos pampas argentinos, uruguaios e brasileiros. Era um caudilho forte, bem apessoado, indomável.  Morreu como viveu: jovem e à bala. Sua sede de ascender entre os seus lhe condena, pois mais forte que viver era seu desejo de ser. Otálora tinha 19 anos quando se envolve com os peões de Azevedo Bandeira, fazendeiro e líder político poderoso. Ele tenta com o tempo se rebelar e tomar o lugar de Azevedo (seu patrão na fazenda). Para isso incita seus peões, dorme com sua mulher e por fim se vê traído pelo capataz Ulpiano Suárez. Antes de Ulpiano abrir fogo, Otálora  percebe que fora traído desde o início, haviam lhe permitido o amor, o mando e o triunfo junto aos colegas. Isso porque ele já estava morto há muito para Azevedo.


O paralelo, creio eu, entre as histórias de Marco Flamínio Rufo (em "O Imortal") e Benjamín Otálora (em "O Morto"), é que está imposto ao ser humano uma imutável inutilidade na imortalidade e na mortalidade. Esse terrível impasse nos projeta em direção ao medo da eternidade. Os espaços são por demais gigantescos no universo, por demais profundos. Sua contemplação (como dizia Blaise Pascal) nos enche de perplexidade e temor. Assim como todo mundo, sempre tive medo de encarar tamanho mistério, por isso nos envolvemos com nossa realidade e procuramos não pensar na existência. 


Há muito tempo passei à crer em um relacionamento pessoal com Deus. Um encontro que se processa, como dizia C.S. Lewis, como um encontro entre caça e caçador. Um encontro onde, na verdade, a caça somos nós, e Ele "O  Caçador", pois percebe que não conseguimos sozinhos nos deparar com tamanha imensidão. C.S. Lewis chega a nos propor, em um de seus livros, uma pergunta: "O que aconteceria se você, em seu quarto, ouvisse passos no corredor chegando cada vez  mais perto de sua porta? Sua casa estava trancada. Você não sabe quem é. De repente a maçaneta começa à girar. E se fosse Ele, querendo encontrar você?". Lewis,  como todo bom e velho ateu, se sentiu caçado e importunado  por Deus. Que não sossegou enquanto não Se fez achar. Como eu dizia acima, os espaços são grandes,  vazios e esmagadores demais para ficarmos sem Sua presença.  A única coisa que para mim quebra a inutilidade, tão bem apresentada por  Jorge Luis Borges, é saber que... nesse exato momento Ele nos caça. 

Assim como Lewis diz, talvez não adiante fugir. Ele nos achará, pois é caçador. Só nos resta ficarmos aqui... esperando a maçaneta da porta  girar. É Ele que está abrindo...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Aleph - "O Imortal"



Terminei de ler esse livro há poucos dias. "O Aleph" de Jorge Luis Borges. Conheci esse escritor recentemente. J.L. Borges foi escritor/poeta argentino. Seus temas são: o tempo, a infinittude, imortalidade, a perplexidade perante o insondável. Confesso que me falta erudição para acompanhar algumas de suas reflexões e citações literárias encontradas aos montes em seus contos. Em um deles, chamado "O Imortal", Borges conta uma história que  nos arremete à inutilidade da imortalidade para os seres humanos. Nesse conto, um tribuno romano (Marco Flamínio Rufo), que viveu (creio eu) próximo do nascimento de Cristo, ouve um dia de um viajante moribundo a revelação de que existe um rio que possue uma água capaz de conferir imortalidade. Próximo à esse rio encontra-se a cidade dos IMORTAIS. Marco Flamínio empreende uma jornada em busca dessa fonte pelo deserto, uma jornada tão difícil que ceifa a vida de todos os soldados de seu destacamento e quase o mata também. Às portas da morte, Marco Flamínio se depara (no meio do nada) com um pequeno rio de água barrenta e como último ato ele bebe dessa água. Marco transformava-se em um imortal. Ao lado do rio ele conhece uma pequena comunidade de homens que viviam como verdadeiros animais, parecendo homens das cavernas. Não tinham nem idioma. Marco vive séculos ali e constata  que tudo o que ele vive, viveu e irá viver, já foi,  de alguma forma, vivido em algum momento e continuará a se repetir indefinidamente. Tal constatação o faz perceber que aquela tribo de trogloditas eram os IMORTAIS!

A Cidade dos Imortais

Tal contemplação da eternidade faz com que ele também se perca em uma total inutilidade. Após séculos no deserto, sem falar uma palavra, apenas se alimentando de cobras os Imortais se lembram de que deveria haver em algum lugar do mundo um rio com efeito contrário à daquele primeiro. Um rio de mortalidade. Os Imortais se espalham pelo mundo na esperança de algum dia se depararem com esse rio. Após séculos e séculos, Marco Flamínio transforma-se em Joseph Cartaphilus, um antiquário. Um dia, em 1921, quando Joseph Cartaphilus passa pela Eritréia (país próximo à Arábia Saudita) ele bebe a água de um pequeno  riacho de águas claras. Ao subir novamente o barranco Joseph Cartaphilus fere sua mão em uma árvore espinhosa e depois de séculos vê seu prórpio sangue escorrendo do pequeno ferimento. Cartaphilus era, novamente, mortal!! Alguns anos depois ele morre, deixando sua história em um manuscrito dentro de uma grande e envelhecida enciclopédia. 
"Ser imortal é insignificante; exceto o homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível, é se saber mortal - Marco Flamínio".

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Dia de Festa

Há 33 anos nossa família estava em festa, pois chegava para nós um presente. Minha irmã (Michele) nascia e vinha nos alegrar com seu jeito peculiar. Eu tinha 6 anos, e como toda criança, muitas dúvidas pairavam em minha cabeça a respeito da chegada daquela nova integrante em um ambiente que até então eu dividia apenas com minha outra irmã mais velha. Até aquele momento eu detinha o posto de filho caçula e, embora eu não soubesse expressar o que isso significava em virtude de minha tenra idade, já era capaz de perceber que havia alguns melindres em relação à minha pequena pessoa que me deixava com um certo destaque entre meus pais. Comecei a perceber, mesmo antes da chegada da Michele que algo diferente começava a se processar nos ares de minha casa. Lembro-me, por exemplo, de uma ida com minha mãe e minha tia no Armarinhos Paulista e na Gurilândia em Londrina para comprar algumas coisas para o tal enxoval. Naquele época não era como hoje, o sexo da criança não era revelado aos pais de forma tão fácil. Acho que só os ricos tinham essa preciosa informação, de maneira que eu sabia que alguém viria, mas sua identidade estava envolta em mistérios. Ali, com minha mãe e minha tia percebi que algo começava a ameaçar meu pequeno reino. Ficamos a tarde inteira entrando e saindo dessas duas lojas e percebi que alguém que exigia tamanha atenção dessas minhas duas queridas figuras (mãe e tia) deveria ser alguém que viria para "botar pra quebrar". "Não é muita dedicação para alguém que nem chegou ainda, hein?!", pensava eu... "Pois eu nem me importo tanto com isso, viu?!", discorria eu com meus pequenos botões. Na época meu pai passava dias e dias fora  a trabalho. Um trabalho que iria, futuramente, mudar nossas vidas. Hoje imagino minha mãe sozinha em nossa casa (perto do Com-Tour em Londrina), com duas crianças pequenas (eu e minha irmã), sozinha e com duas esperas, uma pelo meu pai e outra pela querida Michele.

Bom... o grande dia chegou. Não entendi bem as coisas e guardo pouca lembrança desse dia. Lembro-me  que minha mãe de repente havia sumido!... E minha avó veio ficar conosco!! Não me lembro de ficar preocupado porque a presença da vovó sempre foi algo pacificador entre a gente. Só sei que como em um passe de mágica minha mãe apareceu uma manhã lá em casa segurando um pacotinho amarelo envolto em um cobertorzinho também amarelo. Devo lembrar novamente que, como as mães não conheciam o sexo do bebê naquela época, o amarelo sempre era uma cor certeira! Mas voltando... Eis que minha mãe aparece com aquele pacotinho. Sua feição (de minha mãe) era de cansaço misturado com alegria. Logo que vi seu rosto já comecei a me alegrar... Minha próxima lembrança desse primeiro encontro foi de vislumbrar duas pequenas estruturas que logo identifiquei como sendo dois pequenos pezinhos envoltos por um mijãozinho amarelo. Minha mãe, raciocinando rápido, percebeu meu interesse e abaixou-se um pouco para que eu visse quem era nossa nova integrante na família. As lembranças das imagens são antigas, porém os sentimentos que dali brotaram não, pois sempre estiveram comigo a partir dali. E tão fortes eles são que permitem me lembrar com muita nitidez da única frase que pude dizer para minha mãe diante daquele rostinho: "Ainda bem que ela é nossa, né mãe...!". Foi algo muito espontâneo, tanto que me senti muito adulto tendo falado aquilo, pois literalmente não me sentia ainda capaz de verbalizar sentimentos daquela ordem.

Minha irmã havia chegado!! Isso que era importante!! Michele tem sido para mim a mesma irmã daquele dia. Sensível, amorosa e amiga. Hoje ela faz aniversário... E gostaria de repetir aqui... do fundo do coração, novamente o que tão espontaneamente disse aquele dia com seis anos de idade: "Ainda bem que ela é nossa, né mãe...!!"

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Impasse Existencial

Desde há muito tenho um conflito que talvez esteja presente no coração de muitos também. Creio existir dentro de nós uma busca incessante por redenção e por expiação. Descobrir a forma e a maneira com que Deus nos ama, por meio da pessoa de Jesus, nos faz entender que não precisamos desenvolver atividades (ajudar os outros, nos engajar em campanhas voluntárias de auxílio àqueles mais desfavorecidos emocional e financeiramente) para sermos amados e redimidos. Na verdade gastei muito tempo de minha vida para entender que se fazemos tais coisas, não é para alcançarmos redenção ou perdão, mas sim porque já fomos redimidos e perdoados. Essa inversão de conceitos “ajudar os outros para ser perdoado” para “ajudar os outros porque fomos perdoados” é preciosa e foi uma dessas “invertidas” que tomei na vida, que me ajudou a entender, pelo menos um pouquinho, o que é “graça”, ou seja, favor imerecido da parte do Criador. No entanto, acho que assim como muitos, não consigo me livrar tão facilmente da sensação de estar devendo algo a Deus e aos outros. Essa sensação poderia ser vista por muitos como saudável e benigna, na medida em que nos move na direção do altruísmo e solidariedade. Porém, às vezes se torna sufocante e nos impede de viver plenamente, pois nos sentimos sempre “devedores”. Já experimentei a agradável sensação de ajudar os outros por amor, no entanto, isso não diminuiu essa sensação, ou seja, não foi suficiente, preciso fazer mais, mais, mais... Como se buscasse novamente a redenção pela minha alma e expiação para minhas faltas. Na verdade é como se houvesse um alto (muito alto mesmo) senso de justiça interno que não se satisfizesse com meros atos de amor e auxílio solidário, seja no ambiente eclesiástico seja fora dele. A partir desse impasse tentei ver minha profissão como forma de satisfazer esse meu senso interno de redenção. “Vou trabalhar, vou me esforçar ao máximo em meu ambiente de trabalho para assim trazer o reino de Deus para as pessoas”. Porém isso não adiantou muito porque percebi que envolvia dinheiro, ou seja, eu ganho para fazer aquilo, eu já ganho para dar o meu melhor. Pensamos (eu pelo menos pensava) que na medida em que o dinheiro entra na história parece-nos que, novamente, não pode ser satisfeita aquela vontade de gastar nossa vida com algo verdadeiro, algo que não seja simplesmente inútil (trabalhar-comer-dormir-divertir, trabalhar-comer-dormir-divertir...). Dessa forma permaneço em um xeque-mate espiritual e existencial. Um xeque-mate que dificulta até mesmo minha relação com Deus.
Recentemente, no entanto surgiu algo novo!! Disseram-me “Trabalhar, (qualquer tipo de trabalho, mesmo aquele visto como menos nobre) é ajudar Deus a trazer ordem ao caos!!”. Vivemos em um mundo de caos, primeiramente um caos interno, de emoções e feridas, às vezes caos familiar, profissional... Porém um dia Deus deu uma ordem para que tudo fosse benignamente ordenado. Essa ordem, subvertida pelo homem, deixou inacessível pra gente o mitológico JARDIM. Essa frase “Trabalhar é ajudar Deus a trazer ordem ao caos!!” começa a germinar em mim (lentamente é claro, como as duradouras mudanças exigem) uma nova forma de ver meu papel no mundo. De repente começa tomar forma a ideia de que tudo talvez seja sagrado, de que até mesmo o menor ato é sagrado. Pensei na criança que corre em direção ao pai com um desenho que acabou de fazer, um desenho cheio de imperfeições e rasuras, ou seja, um desenho feio mesmo para nossos padrões estéticos. Mas foi o melhor que aquela criança fez... Posso ver o orgulhoso olhar do pai e da mãe diante daquele desenho (vejo isso sempre nas minhas irmãs que já possuem filhos). Para elas é lindo! Talvez nossos atos imperfeitos, feitos em qualquer lugar, em qualquer ambiente (de trabalho ou não) sejam vistos dessa forma por Deus, em sua misericórdia. Talvez não consigamos mesmo satisfazer esse senso de justiça e de culpa que carregamos. Talvez não devêssemos querê-lo... Talvez devêssemos simplesmente tentar fazer o melhor, ainda que no final das contas não seja tão bom quanto pensamos ou quisemos que fosse. Talvez devêssemos nos concentrar em tentar transformar o caos a nossa volta novamente num jardim. Não ficará igual ao primeiro lá no Éden, mas talvez Deus saiba disso... (aí acho que é questão de acreditar Nele). No fim acho que Ele quer ser apenas um Pai mesmo... Esse pai que exemplifiquei acima.
 Para ser duradouro, aquilo que cai dentro da gente precisa de tempo. Precisa ser gestado, às vezes meses e meses, talvez anos, para dar algum fruto. Como a semente que cai na terra precisa do escuro e da umidade. Acho que tudo isso que entendi vai demorar um tempo para me libertar da necessidade contínua de redenção por meio de meus atos, mas quero muito que essa semente germine. Quero muito rega-la e deixa-la ali bem nutrida para que possa dar fruto, e que um dia, me traga a liberdade de simplesmente viver.
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